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| Água doce à beira-mar |
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| Fernanda Martorano * | |
| 08/12/2005, 15:04 | |
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Ali, pertinho do aeroporto Hercílio Luz, está o maior manancial de água doce da costa do estado. Com 21 km² de superfície, o Parque Municipal Lagoa do Peri é um recanto pouco conhecido pelos turistas. A lagoa, com 5 km² de águas límpidas e cor de esmeralda, fica no centro deste cartão postal. Localizado em meio a uma considerável biodiversidade ainda preservada, o parque é uma alternativa de turismo ecológico rara numa cidade que a urbanização galopante tem alterado a olhos vistos. Justamente pelo seu grau de preservação, a trilha tem lá seus riscos. É bom ficar muito atento ao que se encontra pelo caminho. Aranhas armadeiras e cobras peçonhentas, como jararacas e corais, transitam debaixo das pedras ou na copas das árvores. Não por acaso a administração da reserva sempre recomenda a companhia de um guia local - já que também é permitido fazer as trilhas sem guia. A reserva biológica também abriga estudos científicos. O mais avançado é o projeto Lontras, que tem como objeto a população do mamífero semi-aquático ameaçado de extinção. Graças à parceria com o programa internacional Ecovolunteer, a Lagoa do Peri recebe pesquisadores e voluntários do mundo inteiro para analisar o comportamento e habitat desses animais. Outras duas pesquisas implementadas pela federal de Santa Catarina são realizadas no parque. Uma estuda as aranhas, a outra, os pássaros. Moradores e lazer A visitação a este trecho costuma melindrar os fiscais. Como não é necessária autorização para explorar o parque, multiplicam-se no “Sertão” serviços turísticos de terceiros. “Essa história de ficar distribuindo folhetos e ganhando dinheiro dentro dfo parque não é correta. Tem de haver um controle maior, ou pelo menos uma colaboração mínima de quem passa por aqui”, conta o coordenador da reserva, Marcelo Ferreira. Ele se esmera pra cuidar de tudo, já que pouca gente colabora. “Se não fosse o controle dos nativos dos povoados, o lixo se espalharia por tudo. Volta e meia tem um saco plástico abandonado em cima das árvores, tampinhas de refrigerante, essas coisas”, relata. Já na área de lazer, onde fica a Lagoa, os problemas de ocupação tornaram-se mais graves. Com freqüência, Ferreira e a Polícia Ambiental impedem a entrada de novos moradores. Além das invasões, são bastante comuns flagrantes de pesca predatória de espécies como sardinha, robalo, manjubão, carapicu, lambari, traíra, tainha, entre outras. Por outro lado, a pesca de linha em barco a remo sempre foi autorizada neste trecho do parque. Não é à toa que, quando o tempo firma, os visitantes disputam mesas e churrasqueiras nas proximidades do espelho d’água. A infra-estrutura ainda é muito simples, mas atrai quase 2 mil visitantes na alta temporada. A maioria, moradores de Florianópolis. Além de uma sede administrativa, construída com apoio do Fundo Nacional do Meio Ambiente, há banheiros, restaurante, playground, churrasqueiras, chuveiros e até quartos para quem quiser dormir no parque. Com exceção do restaurante, tudo é gratuito. O próximo passo, segundo o coordenador, deve ser a cobrança de estacionamento. “Não podemos depender apenas da verba da prefeitura para o parque. O número de visitantes está aumentando”. Zé do Peri A outra versão sobre o nome da Lagoa é mais curiosa. Ela dá conta de que o aviador Antoine de Saint-Exupéry (famoso por ter escrito o livro O Pequeno Príncipe) teria passado uma ou duas vezes na região e, por puro estranhamento ao idioma francês, fora apelidado pelos nativos de “Zé do Peri”. O sossego, obviamente, acabou. Quase dois séculos mais tarde, a ocupação e a exploração sistemática eram preocupantes. Florianópolis não parava de crescer. Na área da Lagoa, espécies como o palmito, a canela, o jacaré de papo-amarelo, as lontras, os macacos-bugios, as tilápias e as cobras-corais desapareciam numa velocidade assombrosa. O que era um pedaço de terra praticamente desconhecido virava atração turística. Promissora divisão no papel. Difícil de implementar. “Sempre tivemos de fazer tudo sozinhos. Não há profissionais destacados especificamente para o parque. Eu, por exemplo, nunca tive turno fixo de trabalho. Tenho que vir aqui a hora que for necessário, até de madrugada, para atender denúncias de pesca predatória, por exemplo. Costumo coordenar a coleta de lixo. Uma vez quase uma tonelada de lixo ficou empilhada por aqui e ninguém fez nada”, diz Ferreira. Enquanto a vontade política não muda os rumos da conservação do parque, o jeito é tentar conscientizar os visitantes. “Nos preocupamos em alertar a população. Distribuímos mudas, incentivamos o replantio de árvores, procuramos dar força ao ecoturismo. É um paraíso que não pode ser perder”, conclui. * Fernanda Martorano é jornalista de Florianópolis, atualmente morando no Rio de Janeiro.
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