Daniel Santini
05 de Outubro de 2011
Poucos trechos de Mata Atlântica, bioma que chegou a cobrir praticamente toda a costa brasileira, ainda resistem no Brasil. No Paraná, uma das áreas ainda preservadas é a que fica na Serra da Graciosa, onde a floresta foi protegida em boa parte pelo relevo acentuado que dificulta o acesso à região. O principal caminho para observar o que sobrou desta mata é a Estrada da Graciosa, uma via histórica originalmente construída com paralelepípedos e que, durante décadas, serviu como importante rota de comércio para tropeiros que faziam a ligação de Curitiba com o Porto de Paranaguá e o Porto de Antonina.

A estrada é repleta de paisagens deslumbrantes
Assim como acontece em São Paulo, onde quem viaja de
bicicleta pela Serra do Mar tem a chance de avistar até macacos ameaçados de extinção, quem opta por percorrer a Serra da Graciosa pedalando tem mais chances de observar com calma a fauna e flora da região. A diversidade é considerada uma das principais riquezas deste tipo de bioma. A presença de uma variedade imensa de plantas, animais e insetos faz com que as últimas áreas remanescentes de Mata Atlântica no Brasil sejam consideradas importantíssimas.

Na placa: Floresta Atlântica do Paraná - Respeite
A área tem potencial para o crescimento do cicloturismo. É possível sair de Curitiba pedalando e descer a Serra da Graciosa. Há agências e guias especializados em ajudar neste tipo de travessia que disponibilizam bicicletas para turistas (o pessoal do
Kurit Bikes ajudou desta vez e fez um roteiro bacana para sair de Curitiba passando por parques e ciclovias). O trajeto da capital até Morretes tem pouco mais de 70 km de extensão e não é tão fácil, especialmente pelos trechos de paralelepípedos nas descidas, que podem ser bastante escorregadios e cansativos - o trepidar constante faz as mãos ficarem dormentes. Na chuva, é preciso redobrar a atenção para não derrapar.

Sinalização com luzes e coletes reflexivos ajuda nos dias nublados
Os paralelepípedos nas descidas podem incomodar, mas são parte da história da via e, no fim das contas, funcionam também como um limitador de velocidade para os carros - hoje mesmo com o risco de derrapagens, há gente motorizada que faz questão de pisar fundo no acelerador no trajeto. Se a pista fosse toda asfaltada, a velocidade e o volume do fluxo aumentariam, tornando o roteiro bem menos agradável para o cicloturismo. E, do jeito que está, com o devido cuidado, no fim das contas dá para fazer a descida até em bicicletas de dois andares.

O Galo e sua bicicleta de dois andares na descida da Serra da Graciosa
Aliás, em relação ao ano passado, a impressão é que o volume de carros na Estrada da Graciosa aumentou consideravelmente. Talvez, por conta da
recente pavimentação de trechos históricos, obra criticada por amigos ciclistas locais, que reclamam de motoristas apressados demais abusando da velocidade. Em linhas gerais, porém, é possível relaxar e se entregar totalmente para o exercício, especialmente nas retas espaçosas antes da descida de paralelepípedos em si.

Longas retas, subidas e descidas com mata ao redor
Fica o registro de que a "descida" da Graciosa tem subidas também. Algumas bem longas, como dá para perceber na expressão facial das duas moças escalando um dos diversos morros antes de chegar no começo da descida em si.
O esforço é totalmente recompensado ao se chegar a Morretes, no final da Serra, uma cidade simpática com casas antigas famosa pela culinária tradicional, com pratos, doces e cachaças típicas. Com o barreado à frente, um prato feito com carne cozida em panelas de barro até praticamente derreter, as cozinhas locais oferecem ao turista boa variedade de pratos, incluindo peixes e frutos do mar provenientes do litoral próximo. A banana comum na região é utilizada tanto em balas como em cachaças saborosas.
Leia também no arquivo do blog Outras Vias:
Bonde para Curitiba - parte 1 - relato do encontro das Bicicletadas de 2010
Bonde para Curitiba - parte 2 - a invasão das bicicletas em 2010
Bonde para Curitiba - Descida da Graciosa em 2010 (com vídeo)
Curitiba, formatos e valores (sobre a cidade como modelo em mobilidade)
Dicas para melhor aproveitar o passeio:
Leve a família. Quem está acostumado a pedalar com alguma regularidade consegue fazer o percurso completo sem dificuldades. Roteiro adequado para grupos de amigos, casais e até famílias com filhos. Os adolescentes ficam encantados com o visual e a adrenalina das descidas. É um passeio para ensinar mais sobre convivência com a natureza e uma boa oportunidade de fazer algo junto com quem se gosta.
Não coma pastel de luvas. Nos pontos de parada na estrada, há diversas barracas que vendem guloseimas. Há desde doces tradicionais até pasteis e caldo de cana. No caso dos pastéis, se você não tirar a luva, o queijo vai grudar e se misturar entre seus dedos e o tecido. É tão divertido quanto ver uma aranha colorida no seu braço e se assustar jogando para cima dos seus amigos todo recheio do pastel de palmito que você estava comendo - não que isso tenha acontecido.
Atenção com o desnível no acostamento. Ao se manter à direita nos trechos em que o fluxo de carros é mais intenso, é preciso atenção para não topar com nenhum degrau da pista. Mesmo que esteja devagar e atento a derrapagens, descer de lado com o pneu pode fazer você perder o controle da bicicleta e terminar com os joelhos ralados.
Valorize a simplicidade. Não é necessário levar tralhas e mais tralhas em uma cicloviagem. Algumas frutas e castanhas (que são bastante calóricas e, sim, você vai precisar de energia), câmara reserva para os pneus, uma capa de chuva nos dias nublados e uma camiseta reserva ou casaco são suficientes para fazer o percurso. Se não quiser suar nas costas, utilize um alforje em vez de mochila.
Em breve no eco Bicicletas, mais informações sobre o surgimento e fortalecimento de organizações institucionais de ciclistas em Curitiba.