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O que é REDD
O mecanismo para Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD) começou a ser discutido oficialmente pela ONU em 2005, durante a 11ª Conferência sobre Mudanças Climáticas, em Montreal (Canadá). Naquela ocasião, países tropicais como Costa Rica, Papua Nova Guiné e Indonésia propuseram que florestas nativas pudessem gerar créditos de carbono.
O Brasil, desde o início, se opôs à inclusão de florestas tropicais num mecanismo de mercado e, na Conferência de Nairóbi (2006), apresentou a proposta de um fundo global para a redução efetiva de emissões. Ou seja, países desenvolvidos investiriam em países tropicais para parar o desmatamento, mas não ganhariam créditos de carbono por isso.
Em Copenhague (2009), foram decididos quais países e projetos poderão se beneficiar de um futuro mecanismo. Em 2010, espera-se que seja o momento de decidir como de fato será o mecanismo e de onde virá o dinheiro para interromper o desmatamento.

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Para reduzir as emissões de carbono pela floresta não basta diminuir o desmatamento, é preciso também evitar o uso do fogo em áreas já desmatadas. A conclusão está em um estudo realizado por Luiz Eduardo Aragão, da Universidade de Exeter, Reino Unido, e Yosio Shimabukuro, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), publicado na edição desta sexta-feira da revista Science.

Durante a elaboração do artigo “A Incidência de Queimadas nas Florestas da Amazônia e suas implicações para o REDD”, os pesquisadores usaram imagens de satélite do Inpe para analisar as taxas de desmatamento e compará-las com dados sobre queimadas na Amazônia Brasileira.

“Usamos dados disponíveis para tentar entender como as queimadas respondem a cenários de redução de desmatamento, semelhantes aos que devem ocorrer com a implantação da REDD. E tivemos uma surpresa: em 59% das áreas onde houve redução no desmatamento ocorreu também o aumento da indicência de queimadas”, afirma Luis Aragão.

O Brasil tem conseguido reduzir as taxas de desmatamento, mas a área total de floresta destruída continua a aumentar, embora em ritmo menor. Isto significa, conforme explica Luiz Aragão, que a floresta secundária, a fragmentação da mata primária e a área de borda, mais suscetíveis ao fogo, continuam a aumentar ano a ano.

Além disto, o fogo que começa nas capoeiras invade o subbosque das florestas, levando à degradação destas áreas e à emissão de carbono. Esta degradação não é contabilizada no monitoramento do desmatamento e das emissões. “Não se olha o que ocorre por baixo, no subbosque”, destaca o doutor em Sensoreamento Remoto.

Questão de efetividade

 Árvore morta por fogo no subbosque: uma evidência da entrada de queimadas de fazendas vizinhas nas bordas floresta amazônica no Mato Grosso ( foto: Luiz Aragão)

Árvore morta por fogo no subbosque: uma evidência da entrada de queimadas de fazendas vizinhas nas bordas floresta amazônica no Mato Grosso ( foto: Luiz Aragão)

A principal implicação deste estudo é que os projetos de REDD podem se tornar bem mais caros e serem menos efetivos do que se imagina atualmente.

Mais caros pois o que mostra o estudo de Aragão é que queimadas emitem tanto carbono quanto o desmatamento. Segundo o estudo, queimadas no subbosque que não são quantificadas na contagem do desmatamento emitem entre 0,1 e 0,2 tonelada de carbono por ano em anos secos, como 1998 e 2005. É a mesma ordem de magnitude das emissões da floresta de desmatamento relativas ao ano 2000.

Assim, se os projetos, realmente cortarem as emissões florestais precisam sair o dobro do preço. De acordo com Luiz Aragão, o problema não está em utilizar o REDD, que poderia realmente reduzir queimadas e desmatamento em florestas primárias, mas na necessidade dos sistemas de monitoramento identificar áreas degradadas e monitorar também áreas em recuperação.

Tendências

No estudo foram identificadas três tendências a partir da redução do desmatamento. A primeira é de ele vir acompanhado pela diminuição das queimadas. A segunda é o aumento das queimadas, como ocorreu na maior parte da região, devido ao crescimento da fragmentação, da área de borda e da queima da floresta em recuperação. A terceira tendência é de haver menos queimadas, graças a uma agricultura intensiva, ou seja, com técnicas mais modernas, que dispensem o uso do fogo.

De acordo com Luiz Aragão, se o desmatamento vem acompanhado da agricultura tradicional, que usa fogo, as queimadas aumentam. Mas se o tipo de agricultura muda, as queimadas diminuem. “Isto tem implicações nos custos de REDD, porque deveria haver investimento também em treinamento, maquinário e apoio técnico para agricultures”.

Para o pesquisador, a implantação dos projetos deve ser negociada com organizações de agricultores, para que não se tornem ineficientes. “A implantação não deve ser de cima para baixo, mas deve partir das organizações, de baixo para cima.

O pesquisador lembra que os efeitos destas queimadas não ficam restritos à Amazônia, mas têm efeitos sobre o clima de todo o planeta. E que a Amazônia também pode sofrer com o aquecimento global. “Modelos de circulação global mostram que eventos de seca na Amazônia têm probabilidade de se tornarem mais freqüentes com o aquecimento global. E emissões de carbono na Amazônia contribuem para o efeito estufa e o aquecimento global. Existe uma retroalimentação”, segundo Luiz Aragão.

Link - Ouça entrevista com o pesquisador Luiz Aragão (em inglês) 

Vandré Fonseca é repórter em Manaus

Leia mais:

- Especial sobre queimadas na Amazônia - A Trajetória da Fumaça