Dos 175,5 km² de desmatamento detectados em outubro, o Pará foi responsável por 67,79 km², o Mato Grosso por 41,60 km² e o Amazonas por 32,97 km². O maior estado brasileiro, que não costumava figurar entre os maiores desmatadores, ultimamente tem apresentado crescentes índices de desmate por conta da expectativa de asfaltamento da BR-319. Segundo Paulo Adário, do Greepeace, a influência da BR na degradação da floresta se dá em duas frentes: as unidades de conservação que foram (ou ainda serão) criadas no Pará empurraram os desmatadores destas áreas para estados vizinhos, como o Amazonas, e a notícia da pavimentação aumenta a especulação das áreas no entorno da rodovia. “Aconteceu a mesma coisa no governo do Fernando Henrique Cardoso, quando se falou em repavimentar a transamasônica”, disse.
O sistema de monitoramento do INPE também identificou que, em novembro, quando já chovia forte na maioria dos estados amazônicos, a liderança no desmatamento continuou com os paraenses. Neste estado, foram desmatados 40,30km², seguido pelo Maranhão, com 18,72 km² desmatados, e Mato Grosso, com 8,33km². Além das chuvas, os números são sensivelmente mais baixos porque as nuvens impediram que os satélites enxergassem 51% da Amazônia Legal nesse período. No acumulado do ano, de primeiro de janeiro a 30 de novembro de 2009, o Deter identificou 3.104km² de desmatamentos na Amazônia Legal, com destaque novamente para Pará, Mato Grosso e Rondônia.
Ainda segundo Adário, quando analisados os números do acumulado do ano, 2009 apresenta uma clara queda no desmatamento, refletido também no volume de madeira exportada: em 2008 cerca de 5 milhões de metros cúbicos de madeira saíram do país; em 2009 foram 2,7 milhões. Mas o conjunto de forças econômicas que levam ao desmatamento, segundo ele, ainda não está dominado, por isso o Brasil não tem o comemorar. “As commodities jamais tiveram um espaço tão grande nas exportações brasileiras, disse.
O Deter é o sistema mais ágil de identificação de desmatamentos de que o governo dispõe, mas também mais impreciso. Ele consegue enxergar áreas maiores do que 25 hectares e envia alertas a cada 15 dias para as equipes do Ibama em campo, para que elas realizem a verificação no local.
O que esperar para 2010
Levantamentos mostram que em anos eleitorais o desmatamento tende a crescer. O ano de 2010 não promete ser diferente. O auge do período em que ocorre maior degradação, a partir de junho, vai coincidir com o auge da campanha eleitoral e, mesmo apresentando uma curva decrescente no desmatamento ao longo de 2009, quem trabalha diretamente com a floresta acredita que a queda não vai se sustentar.
Segundo Paulo Barreto, do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), mesmo que em nível nacional exista pressão para conter as motosserras, localmente os governos não vão adotar uma postura pró-ambiente. Atender aos interesses de madeireiros e produtores de soja pode ser crucial na hora de fechar as contas da campanha. “Esse ano vai ser interessante, pois duas forças estarão competindo. Vamos testar se a pressão [pela redução do desmatamento] vai funcionar. Eu estou apostando que vai crescer [ o desmatamento]”, disse Barreto.
Paulo Adário, do Greepeace, concorda com Barreto sobre a força dos interesses locais de estados e municípios da Amazônia na conta do desmatamento. “A nossa experiência na Amazônia mostra que em todo ano eleitoral a autoridade fiscalizatória tende a ficar mais generosa. Sabemos que muitos deputados e até governadores têm ligação com a indústria madeireira, então isso pode influenciar no aumento do desmatamento”, prevê Adário.