O pacato distrito de Conrado fica no caminho de quem sai do Rio de Janeiro em direção a Miguel Pereira, cidade serrana com pouco menos de 30 mil habitantes muito procurada nos finais de semana para veraneio. Para chegar até lá, muito capim seco e morros carecas devastados pelas fracassadas lavouras de café hoje enfeiam a pequena vila. Mas graças ao trabalho de pessoas como seu Humberto Pasiello, Conrado talvez possa mudar sua história. Esbanjando simpatia, esse obstinado senhor de 57 anos passa os dias em cima de sua “magrela” azul plantando mudas de árvores nativas ao longo estrada.

Nascido em Arcozelo, também em Miguel Pereira, seu Humberto mudou há cerca de 30 anos para Conrado. Durante grande parte de sua vida trabalhou no curral de fazendas, onde era responsável pela ordenha das vacas. A grande virada em sua trajetória aconteceu em 1981, quando foi contratado pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER) do município vizinho de Vassouras e passou duas décadas tapando buraco nas estradas e capinando as beiras das rodovias.

Ele mora sozinho em uma rua silenciosa de Conrado e sabe que preservar a natureza não é função apenas de mestres e doutores. Sua casa fica entre as residências de seu irmão e sua sobrinha, e é conhecida por todos que vivem no distrito. Não é difícil identificá-lo. Basta sentar na rua principal em frente ao bar João Joca e ficar atento ao senhor magro, de boné verde, com uma bicicleta azul a tiracolo.

Foi mais ou menos assim que encontrei seu Humberto no dia 5 de dezembro pela manhã. Ao desembarcar na praça principal de Conrado, com o endereço nas mãos, pedi ajuda a um rapaz que varria com zelo a avenida. “Humberto estava aqui agora mesmo, você chegou e ele saiu. Deve ter descido a estrada para plantar as árvores”, disse Darcy Rosa. Funcionário da prefeitura de Miguel Pereira, Dadá (como gosta de ser chamado) é um entusiasta do trabalho do amigo. “É maravilhoso, todo mundo fica muito feliz. E os turistas passam de carro e ficam impressionados com a beleza da estrada. Eles até estacionam para ver”, afirmou.

Dadá me desaconselhou a procurar por Pasiello a pé. “É muito longe”, avisou. “Pode sentar aí que eu vou pedir para o caminhão de um amigo contar que você está aqui”. Dez minutos depois, chegava o nosso personagem, com doze sacos cheios de terra na caçamba improvisada e construída em cima da roda traseira da bicicleta. “Eu fui buscar terra para colocar as mudas já prontas. Desculpe, não sabia que você vinha”. Com essas palavras, ele me recepcionou.

Segui viagem a seu lado. Conheci, na casa de Humberto, o viveiro onde cultiva as sementes recolhidas de todas as árvores da região. “Planto de tudo, desde jaca, guandu, jamelão, acerola, até ipê roxo, amarelo e branco. Toda semana recolho terra para colocar as mudas prontas e levá-las ao cultivo”, explicou. De lá, partimos para o segundo turno da colheita de adubo natural. Eu, a pé. Seu Humberto, é claro, sobre duas rodas.

História curiosa

As horas passam rápido ao lado de Pasiello. Há sete anos, um acidente com o caminhão do DER lhe deixou de cama durante quatro meses. De volta ao trabalho, ficou mais um tempo nas funções de campo, mas as dores voltaram. Foi quando seu chefe lhe fez a seguinte proposta: em vez de tapar buracos e capinar estradas, seu Humberto poderia plantar mudas nativas ao longo delas. Ele não pensou duas vezes antes de aceitar a proposta. “Gosto muito desse trabalho, sempre adorei lavoura. Ajuda a natureza, mantém a água no solo e impede os incêndios. Além disso, é bonito e posso fazer o meu serviço sozinho. Só vou para Miguel Pereira uma vez no mês, para pegar o pagamento”, contou.

Há três anos, quando iniciou na nova função, ele planta cerca de vinte mudas por dia. Começou por Arcadia, na subida da serra, e agora já passou por Mangueira, cerca de 20 minutos de carro de Conrado. Sua idéia é chegar até Japeri, região ainda mais ao sul. “Mas ainda falta muito chão. Uns três anos, pelo menos. E, depois que acabar, vou manter o que já fiz, cuidar, e replantar onde for cortado”, disse. Ao todo, seis quilômetros de estrada já receberam as árvores de seu Humberto, que usa um espaço de cinco metros entre cada uma. “Elas são muito grandes, precisam estar um pouco distantes umas das outras”, completou.

Seu Humberto não tem idéia de quantas árvores já levou à região, mas sabe quem é um de seus principais inimigos: o desmatamento. Por incrível que pareça, volta e meia ele se depara com o desaparecimento de algumas de suas plantas. Mas não deixa barato. “Se eu descubro quem foi, vou e converso com a pessoa. Teve uma vez que mais de cem mudas ainda em fase de crescimento foram arrancadas. Era no rumo de uma fazenda, tenho certeza que foi o dono. Mas fui lá, plantei de novo e pedi para que ele não fizesse mais isso”, lembrou.

Naquele dia, Pasiello mostrou algumas árvores já bem crescidas e coletou mais adubo natural para o canteiro caseiro. Fora o salário, ele não conta com nenhum apoio extra do DER, mas não se queixa. “Fico muito feliz com o que faço. Há pouco tempo, meu ombro voltou a doer por causa do acidente e o médico me pediu para não trabalhar. Fiquei dois meses parado, não agüentei e pedi alta”, disse, aos risos, o incansável senhor: ele acorda às quatro da matina, toma um café, vê um pouco de televisão e sai para trabalhar às seis. Por volta de quatro e meia da tarde retorna para casa e, algumas vezes, vai cuidar da piscina em um sítio, seu segundo emprego.

A cada dois meses, seu Humberto limpa a área ao redor de suas mudas, para que o capim não cresça e ajude a propagar o fogo. Como são mais de mil árvores até agora, ele incorporou o trabalho à sua rotina. “Todo dia, depois do plantio, faço a campina de algumas mudas no trajeto de volta. Mesmo aquelas que já estão grandes”. Não é à toa que ele faz sucesso. É comum, por exemplo, os turistas o pararem na rua e pedirem uma muda de presente. Mas Pasiello não deixa a fama subir à cabeça. “O pessoal diz que, quando eu não estiver mais aqui, as mudas que eu plantei ficarão para sempre. Essa será a minha lembrança”, finalizou.

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