João Teixeira da Costa
24 de Novembro de 2006

Era um sábado, dia 21 de outubro. O pesquisador Advaldo do Prado fazia um levantamento de avifauna no município de Goiatins, no norte do Tocantins – na rota da construção de mais um trecho da BR-010 (Belém-Brasília). Seguindo um procedimento padrão em
levantamentos como esse, Advaldo havia armado uma rede-de-neblina e recolhia as aves que ficaram presas a ela. A sensação de rotina acabou quando ele encontrou um pica-pau que não conseguiu indentificar no guia de campo que carregava consigo.
Advaldo mediu, fotografou, soltou o bicho e foi consultar o
“Sigrist”. Ficou espantado com o que viu: aquele pica-pau parecia ser um
Celeus obrieni, o pica-pau-do-parnaíba, espécie identificada em 1926 e nunca mais vista desde então.

Ele mandou uma foto para o ornitólogo Fernando Pacheco, que esteve envolvido em redescobertas sensacionais como a do Dançador-de-cabeça-dourada (
Lepidothrix vilasboasi), o Tietê-de-coroa (
Calyptura cristata), e o Mãe-da-lua (
Nyctibius leucopterus). Foi interesse à primeira vista. Esta talvez seja, afinal, a chance de resolver uma das maiores polêmicas da ornitologia brasileira dos últimos anos. Fábio Olmos, colunista de
O Eco e, como Pacheco, membro
Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO), explica: “o bicho era conhecido a partir de um único espécime coletado em 1926 pelo naturalista Emil Kaempfer em Uruçuí, às margens do rio Parnaíba, no Piauí. Como nada parecido foi encontrado até aqui, poderia ser um híbrido ou um ‘freak.’” O espécime encontra-se no American Museum of Natural History, em Nova York.
Por muitos anos considerou-se que o pássaro poderia ser uma subespécie do pica-pau-lindo (
Celeus spectabilis), encontrado nas florestas de taboca (um tipo de bambu nativo) da Amazônia ocidental. O problema é que o espécime do
obrieni do American Museum difere do
spectabilis em vários aspectos, e a distância entre os locais de ocorrência é muito grande, mais de 3 mil quilômetros. Hoje os ornitólogos consideram o
obrieni espécie plena – uma decisão, segundo Pacheco, que procurou também atrair a atenção da comunidade ornitológica para esse bicho.
Imaginava-se que uma pequena população pudesse existir no “remoto e pouco conhecido interior brasileiro”.
A hora da redescoberta
O achado de Advaldo parece seguir o padrão de redescobertas recentes. De acordo com Fernando Pacheco, elas têm acontecido ao acaso, e não em iniciativas focadas para encontrar bichos raros. “Pesquisadores esbarram com esses bichos, muitas vezes longe da sua localidade original.” Goiatins (TO) não é tão perto de Uruçuí (PI), mas também não fica tão longe. O importante é que o ambiente daquele pedaço do Tocantins torna a presença do pica-pau-do-parnaíba plausível.

Fica perto da quádrupla divisa (Tocantins, Maranhão, Piauí, Bahia), região com fisionomia de Cerrado com matas ciliares, em contato com várias unidades de conservação. Além disso, como a espécie é bem diferente dos parentes mais próximos é improvável que o indivíduo capturado e fotografado seja um híbrido. Pacheco gostaria de ver uma análise genética do
Celeus obrieni para eliminar de vez as dúvidas sobre a sua identidade, já que a captura em si não é uma contra-prova em definitivo. Para isso será necessário coletar sangue de um indivíduo.
Como a avifauna da região é pouco conhecida, não é improvável que houvesse uma população não detectada do pica-pau por ali, mesmo que a região já tenha passado por alguns levantamentos. O pioneiro foi
José Hidasi, húngaro de nascimento e grande autoridade em aves de Goiás e de Tocantins. Ele percorreu a maior parte do estado nos anos 50 e 60, e coletou muito material. Mas a informação é pouco acessível e pesquisas mais recentes têm trazido registros novos e muitas extensões de áreas de incidência. É possível que existam populações do
obrieni no sul do Piauí e Maranhão, regiões ainda pouco conhecidas do ponto de vista ornitológico.
O avanço do conhecimento, no entanto, tem um lado sombrio. Os levantamentos de campo como aquele onde Advaldo capturou o pica-pau muitas vezes estão ligados ao processo de licencimento ambiental de obras de infra-estutura, de estradas como a BR-010 ou a BR-163, ou ferrovias como a Norte-Sul, que são indutoras da colonização, da expansão da agricultura e da pecuária – como pode ser constatado por qualquer internauta com o
Google Earth no seu computador. Assim, a identificação ou a redescoberta dessas aves (e de inúmeros outros animais e vegetais) acontece no momento de maior perigo para a sua sobrevivência. Olmos e Pacheco esperam que a notícia da redescoberta sirva para atrair mais atenção para a região, de interesse científico e potencial turístico, como
Olmos já descreveu eloquentemente aqui em O Eco.
O governo de Tocantins já dispõe de toda a informação necessária para criar as unidades de conservação que aquele estado merece. É bom que o faça rápido, antes que o avanço da soja varra do mapa essa fantástica riqueza natural.