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| Ava, a gatinha-do-mato da Bocaina |
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| 12/01/2009, 07:00 | |||||||||
![]() No dia 1º de outubro do ano passado, coincidentemente quando o Bernardo de Faria Leopoldo, Gabriela Mette e Sergio Lutz Barbosa chegaram à Estação Ecológica (ESEC, no jargão de Ibama e Instituto Chico Mendes/ICMBio) de Tamoios, entre Angra dos Reis e Paraty (RJ), foi entregue ali um filhote fêmea de gato-do-mato-pequeno (Leopardus tigrinus), supostamente encontrado à beira da rodovia Rio-Santos. Os três, além de Peônia Brito de Moraes Pereira, compõem a equipe que trabalha comigo no levantamento de carnívoros do Parque Nacional da Bocaina, financiado pela Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, desde março de 2008. A gatinha tinha aparentemente menos de dois meses e deveria, ainda, estar sendo cuidada pela mãe, por ser muito nova para estar sozinha. Normalmente, quando filhotes dessa e de outras espécies de animais silvestres são encontrados (quase sempre implica em que a mãe tenha sido morta), a sua aparência suscita desejos de criar o bichinho em casa. Isso geralmente é feito até momento em que se descobre que apesar da aparência, ele retém toda a sua índole selvagem e, fatalmente, vêm a machucar uma criança ou adulto, quando então, se resolve entregar o animal ao Ibama, à Policia Florestal ou órgão equivalente. Depois de uma discussão telefônica entre os técnicos da ESEC, do Cenap (Centro Nacional de Pesquisa para a Conservação de Predadores, do ICMBio), e do Cetas/RJ (Centro de Triagem de Animais Silvestres, do Ibama), ficou combinado que ela seria levada esse último. Lá, passaria por uma avaliação médico-sanitária, enquanto seria decidido qual o melhor destino para ela. Com a devida autorização para transporte, Sérgio se dispôs para levá-la ao Rio. No entanto, ao fazer contato com o responsável pelo Cetas, no dia seguinte, foi informado de que havia chegado uma leva de papagaios apreendidos do tráfico ilegal e que não havia recinto disponível para a gatinha. Foi solicitado que ele permanecesse com o animal, até melhor decisão. Por indicação minha, Sérgio procurou conselhos com Micheli Ribeiro Luiz, do projeto Felinos do Aguaí, de Santa Catarina, que havia mantido um animal da mesma espécie, em situação semelhante, com excelentes resultados, até a sua destinação para o Zoo Park Cattoni, em Salete, no oeste daquele estado. Ela passou, então, a ser alimentada com ração para gatos (filhote), misturada com leite morno diluído. Aceitou a mistura sem problemas. Exames feitos revelaram que ela estava em bom estado de saúde. Enquanto isso, inicialmente foi discutida a possibilidade de transferi-la para o Criadouro Conservacionista Fundação Animália, em São Sebastião (SP), mas por motivos vários, isso acabou não se concretizando, em prol da possibilidade de ela ser preparada para uma eventual reintrodução na natureza. Isso seria feito na mesma área onde o pequeno felino havia sido encontrado, depois de um treinamento intensivo que substituísse o papel de sua mãe. Por uma experiência anterior com um animal da mesma espécie, quando eu estava executando um projeto com felinos no Parque Nacional do Iguaçu (PR), no inicio da década de 1990, eu tinha minhas reservas quanto à exeqüibilidade dessa reintrodução. No caso, um macho adulto que havia sido criado desde filhote em cativeiro, primeiro no zoológico de Curitiba e depois transferido para o criadouro da Itaipu Binacional, em Foz do Iguaçu (PR), passou por um treinamento intensivo, depois do qual se mostrou extremamente proficiente na captura de presas vivas, semelhantes às que encontraria na natureza. Foi, então, aparelhado com rádio-transmissor e solto no coração da minha área de estudo no parque nacional, na estrada do Poço Preto. No dia seguinte, o sinal do transmissor indicou que ele estava perto da divisa norte do parque, a oito quilômetros em linha reta do ponto onde havia sido solto. Trinta dias depois, quando eu estava viajando, minhas filhas Danielle e Beatriz voltavam do colégio e avistaram o gatinho, extremamente magro, na estrada que ia até nossa casa, dentro do parque. Elas viram que ele mal podia caminhar de tão fraco e avisaram Mara, minha então esposa. Com a experiência acumulada de muitos anos acompanhando as atividades nos meus projetos, ela armou uma armadilha, com uma codorna como isca e, em menos de 15 minutos, o gatinho foi capturado. Ele estava tão fraco que não conseguiu nem matar a codorna. Foi chamado o veterinário do criadouro da Itaipu, Wanderlei de Moraes, e o gatinho foi levado para lá. No dia seguinte, o animal veio a óbito, e a necropsia revelou que ele estava em um estado crítico de inanição, por alimentação insuficiente. A lição que tiramos dessa experiência foi que, apesar de ter as armas apropriadas (unhas, dentes, e comportamento predatório) e saber como usá-las para capturar as presas, faltou para o gatinho o conhecimento indispensável, que teria sido repassado pela mãe selvagem, na natureza, de saber como e onde procurar as presas corretas. Por esse motivo, eu me havia determinado a somente tentar reintroduções novamente, quando estivéssemos em um estágio mais avançado de conhecimento, para garantir que eu não estaria condenando outro animal à morte. E, agora, cá estava eu novamente, a considerar uma nova reintrodução. Sérgio, até pelo relacionamento que já tinha com a gatinha (que ele denominou Ava, como bom cinéfilo), era o maior interessado em que ela voltasse à natureza, no próprio Parque Nacional da Bocaina. Uma vez que a sua família tem uma fazenda vizinha à unidade de conservação, extremamente bem preservada, sugeriu que ela fosse reintroduzida ali. Dos poucos casos que eu tinha conhecimento de reintroduções bem-sucedidas, um havia sido desenvolvido pela bióloga Silvana Montanelli, do Parque Nacional de Iguazu, em Misiones (Argentina), vizinho ao parque brasileiro. Tendo recebido um filhote de “tirica”, como é chamado o gato-do-mato-pequeno na Argentina, ela o criou como um gato doméstico, solto em sua casa, inserida dentro da mata daquele parque. E como todo gato, mesmo os domésticos, retém seu comportamento predatório, a fêmea aprendeu por si só a predar animais silvestres nas imediações, mas sem o estresse de depender exclusivamente dessa alimentação complementar. Quando atingiu idade reprodutiva, foi aparentemente “raptada” por um macho selvagem, em companhia do qual foi vista mais tarde, não retornando mais à vida doméstica. Embora tenham sido feitas no Brasil inúmeras reintroduções de felinos na natureza, principalmente por iniciativa das Polícias Florestais ou Ambientais dos diferentes estados, elas geralmente são feitas sem critério algum, simplesmente motivadas pela boa fé de se estar devolvendo o animal à natureza, com a crença de que ele se readaptará imediatamente e viverá feliz pelo resto de sua vida. Infelizmente, a grande maioria desses casos é fadada ao insucesso, geralmente condenando o animal à morte, seja por alimentação inadequada e insuficiente pela falta de conhecimento do ambiente onde ele é solto, seja por ataque de outro predador, ou mesmo por outro animal residente, da mesma espécie, que estaria defendendo seu território contra a invasão de um intruso. Nesse contexto, há o risco de o animal introduzido vir a desestabilizar a organização social da população local daquela espécie. Ou pior ainda, se introduzido sem os devidos exames e cuidados, pode até trazer doenças contagiosas para a população local. Por todos esses riscos, a própria UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza) publicou um protocolo a ser seguido em projetos de reintrodução de fauna. Com todos esses problemas em mente, o plano acordado entre os órgãos e pessoas envolvidas no caso da Ava seria tentar reproduzir a situação descrita para o animal solto no parque argentino. Assim, a idéia seria se escolher uma família que morasse nas imediações do parque da Bocaina que pudesse cuidar da gatinha, até que ela estivesse apta a enfrentar a vida no mato por conta própria. Em consulta com o diretor daquela unidade, Francisco Livino de Carvalho, fomos informados que, desde que o projeto se atenha à legislação vigente, o parque apoiará à iniciativa. Em nossa ida seguinte à região, em novembro, fomos até a fazenda do Sérgio para uma avaliação crítica das alternativas disponíveis, e eu não fiquei satisfeito com nenhuma delas. Fizemos contato com outros colaboradores do projeto, Marcelo Gutierrez e sua esposa Juliana, recém-formada em Biologia, operadores da Trilha do Ouro Turismo de Aventura, em Campos Novos de Cunha (SP). Os dois também se apaixonaram imediatamente pela Ava e encamparam o projeto, assumindo a responsabilidade de encontrar parceiros para dividir os custos, somando-se à ajuda já garantida pelo Sérgio. Foi contratada a bióloga Lilian Rampim, que trabalha com o zoológico de São Paulo e que tem experiência com readaptação de pequenos felinos em cativeiro para orientar o trabalho na estruturação do processo de reabilitação comportamental e ecológica. O projeto, em todas as suas fases, desde a reabilitação até o monitoramento, será coordenado pelo Cenap, através do biólogo Rogério Cunha de Paula. Está sendo submetida uma proposta de projeto para o Sisbio, sistema informatizado de controle de projetos de pesquisa, controlado pelo Ibama/ICMBio, formalizando assim o processo. No momento, Ava se encontra em um recinto adaptado, à espera da construção de instalações mais condizentes e apropriado à sua reabilitação. O contato humano é mínimo, para evitar que ela associe a alimentação com pessoas e procure habitações depois de reintroduzida. Uma das maiores causas de mortalidade de predadores, incluindo pequenos felinos, é decorrente do conflito gerado quando esses animais aprendem a predar animais domésticos, desde galinhas até gado adulto, dependendo da espécie e do tamanho do predador. A alimentação dela foi trocada, de ração para carne crua, e ela já assumiu seu comportamento agressivo, em defesa do seu alimento. Eventualmente, será apresentada a presas similares às que deverá encontrar na natureza. O diferencial positivo no presente projeto é a intenção de, uma vez que ela esteja pronta para a reintrodução, aparelhá-la também com rádio-transmissor, como feito com o gatinho malfadado de Iguaçu, no meu projeto anterior. O biólogo maranhense Tadeu Gomes de Oliveira, que tem dedicado sua vida ao estudo dos pequenos felinos, também ofereceu apoio, incluindo os equipamentos necessários. Isso permitirá um monitoramento intensivo dos seus movimentos e comportamento. Embora estejamos tentando tomar todas as medidas recomendadas e necessárias, não existe garantia de que sua reintrodução seja coroada de êxito. No entanto, esse monitoramento irá garantir que o processo seja todo acompanhado, para que possamos aprender com os nossos erros e acertos, e que isso possa ser incorporado a futuras reintroduções de animais silvestres. Mais importante, se alguma coisa der errada e, por algum motivo, o projeto tiver que ser abortado, temporariamente ou em definitivo, o rádio-transmissor facilitará a recaptura do animal. É nossa esperança de que a estória de Ava possa contribuir para melhorar as perspectivas de sobrevivência de outros pequenos felinos apreendidos que, por falta de alternativas tecnicamente embasadas, acabam condenados à “prisão perpétua” em zoológicos e criadouros – que, diga-se de passagem, apesar de dedicados e bem-intencionados, geralmente são limitados em espaço e condições. ![]()
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Peter G. Crawshaw Jr. é formado em Ciências Biológicas em 1977 pela Unisinos, RS, com mestrado e doutorado pela Universidade da Florida. Trabalhou no IBDF, IBAMA e agora é funcionário do ICMBio. Atualmente está lotado no Parque Nacional do Iguaçu, em processo de remoção do Parque Nacional do Pantanal para o Centro Nacional de Predadores (Cenap). 



