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| Construindo pontes na Amazônia |
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| 09/01/2009, 13:00 | |||
![]() Em uma coluna anterior, quando tratei da necessidade do Instituto Chico Mendes ter uma carreira funcional estruturada, citei o exemplo do Itamaraty. Pois, é no serviço diplomático brasileiro, quando se avizinha a hora de ser promovido de segundo a primeiro-secretário, que se tem a obrigação de fazer o Curso de Aperfeiçoamento Diplomático (CAD). Ser aprovado é condição mínima para entrar no quadro de acesso. Sem o ter concluído, o sujeito sequer pode candidatar-se ao degrau superior da profissão. Em geral, cada CAD aborda um tema específico. Por exemplo, Rodada de Doha, ou Mudança Climática, ou Atendimento Consular aos brasileiros residentes no exterior. Durante algumas semanas, os alunos assistem a palestras de especialistas sobre o assunto e, ao final, são submetidos a provas e avaliações. O resultado conta para sua ficha funcional. Quando cursei o CAD, o objeto de estudo foi a IIRSA (Iniciativa para a Integração Regional Sul-Americana). Trata-se de um exercício dos governos da região em fomentar e realizar obras de infra-estrutura que permitam a real conexão física do continente. Não adianta continuarmos a falar da necessidade de nos olharmos de frente e aumentarmos nosso intercâmbio comercial e cultural se, efetivamente continuarmos a ter gargalos intransponíveis. Por mais que tenhamos um discurso político afinado e unívoco, a verdade é que estamos de costas uns para os outros, divididos pelo colossal muro andino ou apartados pelo verde mar amazônico. Assim é que a IIRSA pretende vencer esses obstáculos, realizando obras de ligações rodoviárias entre os países, proporcionando a integração das malhas ferroviárias e energéticas e coordenando os usos de portos e aeroportos. Entre outras obras, integram a IIRSA a rodovia que ligará capitais do oeste brasileiro ao porto de Ilo, no Peru, a integração dos grids de energia (como o gasoduto da Bolívia) e as diversas pontes sobre os rios que sulcam as fronteiras nacionais da América do Sul. A tese é de que, quanto mais integrados, mais nos desenvolveremos juntos e eqüitativamente, e menos dependeremos de países e mercados do Norte para suprir nossas necessidades comuns. Não se trata de idealismo abstrato. É fato que a conexão das infra-estruturas acelerou o desenvolvimento harmonioso da União Européia e tem contribuído para o progresso comum dos países do Mercosul. Em recente visita a Roraima, resolvi pagar para ver como a IIRSA funciona fora dos textos e projetos. Desembolsei uma pequena fortuna para alugar um automóvel e tomei a estrada até Bonfim, na fronteira com Lethem, na Guiana. Para chegar lá a partir de Boa Vista, percorri 125 km de estradas muito bem mantidas (sem um buraquinho sequer), margeadas por belíssimos cerrados, veredas plenas de vistosos buritis e diversas fazendas de agricultura e pecuária.
Comum na pele e na etnia, mas não nos modos nem nos costumes. Do lado de lá, apesar da distância ínfima do Brasil, é difícil encontrar alguém que se comunique em Português. Quem está com um carro brasileiro tem que dirigir na mão inglesa e a decente infra-estrutura de Roraima desaparece por completo. É como se houvéssemos voltado 50 anos no tempo. É precisamente aí que entra a IIRSA. Em ambos os lados da fronteira, os oficiais e soldados do 6o Batalhão de Engenharia de Construção labutam dia e noite para terminar a ponte sobre o Rio Tacutu ainda este ano. Querem entregá-la como presente de ano novo. Falta pouco, a estrutura sobre o rio já está pronta. Falta apenas concluir os acessos do lado de Lethem. Uma vez concluída a ligação, fala-se que o Brasil financiará a pavimentação de cerca de 400 km até Georgetown, facilitando a vida dos guianenses, mas também abrindo uma saída estratégica até o mar para os estados do Amazonas e Roraima. Hoje, apenas um sexto da estrada está asfaltado e perde-se cerca de doze horas para percorrer os quase seiscentos quilômetros que ligam Lethem à capital do país. Não é sem razão que o idioma consagrou a expressão “construir pontes” como uma metáfora para “fazer amigos”. Os guianenses estão radiantes com o regalo e já se fala de um incremento nas lojas e serviços de Georgetown para melhor atender às demandas do norte brasileiro. Com a integração econômica, inevitavelmente, terá início uma fase onde serão coordenados os instrumentos de gestão, tais como financeiros, de energia, de estratégia do desenvolvimento, educacionais e ambientais. Ambientais, sim senhor. Pois se a ocupação indiscriminada da Amazônia brasileira tem sido desastrosa, ensejando a destruição da floresta, a poluição e a caça e pesca em escalas insustentáveis, impedir a marcha do progresso não passa de sonho bonito, mas pueril. Só conseguiremos salvar a floresta com políticas sérias de gestão do território, pensadas em escala ecossistêmica e que não parem em uma linha de fronteira arbitrariamente estabelecida de acordo com critérios políticos. Por outro lado, para gerir a natureza como ela deve ser - por ecossistemas - é importante ter instrumentos que sejam efetivos em ambos os lados das linhas que dividem as nações amazônicas. E uma política transfronteiriça efetiva só se constrói entre amigos que se confiam mutuamente.
No último Plano qüinqüenal das unidades de conservação brasileiras, o Ministério do Meio Ambiente previu o incremento dos acordos de gestão transfronteiriços. Recentemente, o Presidente Lula assinou um acordo com Nicholas Sarkozy, chefe de Estado francês, para que os parques de Tumucumaque e da Guiana Francesa comecem a dialogar em busca de objetivos comuns. É um começo que tende a se replicar no relacionamento do Brasil com as outras nove nações lindeiras. Agora, temos que fazer a nossa parte, que é gerir a contento a parte brasileira do território. Afinal, seria um contra-senso cooperar tendo por base o modelo que resultou no descalabro atual. Depois de caminhar cerca de duas horas pela margem guianense do Tacutu resolvi retornar ao Brasil. Tinha planejado jantar em Lethem, mas tive que voltar junto com o pôr-do-sol para não perder a última balsa. Acabei comendo em Bonfim, do lado brasileiro do cerrado Roraimense. A vila está literalmente ocupada pelos homens e máquinas do 6o batalhão de Engenharia que atende pelo pitoresco nome de batalhão Simon Bolívar, líder venezuelano que sonhou com a unificação da América. Não poderia ser mais apropriado.
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