Parte1: Acabo de ler nos jornais que um casal se perdeu nas trilhas do Parque Nacional da Floresta da Tijuca e teve que passar a noite na mata. É incrível como uma cidade com dimensões de megalópole, apesar de tantos prédios e tão pouca urbanidade, consegue encerrar em seu âmago uma Amazônia liliputiana cujos mistérios e descaminhos são tantos que ainda proporcionam ao leigo a sensação de estar perdido na selva.
Com efeito, as trilhas da Tijuca podem ser complicadas. Até o ano 2000, uma média de 100 pessoas se perdiam nelas todos os anos, causando uma pequena tragédia ambiental. A cada desaparecido corresponde uma tropa de bombeiros (e fiscais do Instituto Chico Mendes) embrenhando-se mato adentro para cumprir sua nobre missão constitucional de salvar vidas. Vidas humanas, entenda-se bem. No processo da busca, que em alguns casos já envolveu mais de uma centena de homens, vale tudo: caminhar fora das trilhas estabelecidas, abrir atalhos e caminhos a facão, pisotear áreas frágeis populadas por espécies ameaçadas e marcar os traçados com talhos abertos nos caules das árvores. Essa última atitude inclusive é comum em Parques de floresta densa, cujas trilhas não estão sinalizadas, pois passa a ser a forma usada pelos excursionistas para marcar seus caminhos.
Quando, em 1999, assumi a direção da Floresta, junto com a equipe que me assessorava
decidi sinalizar cerca de 60 km de trilhas na Tijuca. O objetivo era acabar com o flagelo das pessoas perdidas e assim melhorar a saúde ambiental do Parque Nacional. A sinalização em si, feita com setas pintadas nas árvores, é um impacto visual e ambiental palpável, mas dos males é o menor. Ruim mesmo é a degradação inevitável, ainda que justificada, causada pelas equipes de busca e a destruição decorrente do uso indiscriminado de atalhos que são abertos quando não há sinalização nem manejo das trilhas. Além disso, a falta de uma sinalização oficial enseja a inevitável marcação das árvores a cortes de facão feita por quem não quer se perder. Isso sem falar no prejuízo em termos de imagem para o Parque e para o Instituto Chico Mendes a cada vez que uma capa de jornal estampa os rostos lanhados e exaustos dos incautos recém encontrados pelos bombeiros.
Pois é, a simples sinalização com setas pintadas ou afixadas em árvores que, exceto pelas horas/homem dos funcionários governamentais envolvidos na tarefa, não custou um centavo aos cofres públicos, fez a taxa média anual de perdidos na Floresta da Tijuca despencar para zero (isso mesmo zero) em apenas dois meses. Desde maio de 2000, quando o processo de sinalização foi concluído, até 2007 ninguém se perdeu na Floresta. O problema é que o trabalho de manutenção, apesar de simples, foi muito negligenciado durante cinco anos e as setas começaram a ficar apagadas e sua visualização comprometida. Apesar dos esforços do excelente novo diretor do Parque Ricardo Calmon em retomar o manejo das trilhas, o período de abandono foi muito grande e cobrou seu preço não apenas no estado das trilhas, que se deteriorou, mas também no treinamento e capacitação do pessoal responsável pela labuta da manutenção. Afinal, mesmo sendo tarefa pouco complexa, há uma técnica de sinalização que precisa ser aprendida e ensinada e cinco anos sem que o
know how fosse exercido é um longo período. Muitos dos funcionários que haviam sido treinados saíram do Parque. Novos quadros não foram capacitados. Era uma questão de tempo até que alguém se perdesse de novo.
Parte 2:Quando a sinalização foi implantada na Tijuca, a direção do Parque sofreu críticas vigorosas de alguns clubes excursionistas do Rio de Janeiro. Alguns mais radicais chegaram mesmo a remover a sinalização feita pelos funcionários da Gestão Compartilhada IBAMA/ Prefeitura do Rio. Sua maior contrariedade advinha da poluição visual causada pela sinalização. Cheguei a ouvir que a Floresta estava parecendo uma árvore de natal. De certa maneira estavam certos. Com efeito a sinalização causa um impacto visual desagradável a todos aqueles que têm competência para se locomover em ambientes selváticos sem a necessidade de ajuda externa.
Recentemente visitei o Parque Nacional da Serra Nevada. Cronologicamente, é o décimo segundo parque criado na Espanha, mas com uma área de 86.208 hectares, é de longe o maior de todos. Está cortado por centenas de trilhas que somam milhares de quilômetros sinalizados e manejados de acordo com técnicas modernas de manutenção de caminhos pedestres. Somente uma delas, o Sendero de Gran Recorrido Sulayr- a GR 240- tem 300 quilômetros dos quais percorri cerca de 20. Perder-se é impossível. Há tanta sinalização que senti-me em plena auto-estrada. Em um cruzamento cheguei a contar mais de oito placas de sinalização. Sim senhor, verdadeira árvore de natal.
Nesse sentido, volto à questão que discuti no artigo “
Qual é a Sua Posição?” publicado aqui em
O Eco em 16 de Junho último. Agora analiso o reverso da moeda. Os mesmos GPS e telefone celular que começam a ser pragas no ambiente natural das trilhas, se bem utilizados, podem vir a ser eficientes instrumentos de manejo. É possível vislumbrar o dia, nem tão longínquo assim, em que ambos funcionarão mesmo embaixo da mais densa copada tropical. Talvez, quando isso acontecer, será proibida a entrada em trilhas sem um exemplar de cada um. Com um software cartográfico das trilhas e do Parque em que se está caminhando fica impossível se perder. Logo a sinalização física no meio ambiente por meio de placas e setas sinalizadoras ficará tecnologicamente ultrapassada e poderá ser retirada. Sai a árvore de natal e fica só o presente de papai noel: trilhas sem nenhuma poluição visual.
Por outro lado, caso haja algum acidente, a combinação celular/GPS permitirá uma comunicação entre sinistrados e equipes de busca que proporcionará um socorro rápido e cirúrgico. Os bombeiros saberão a exata posição da vítima e poderão acorrer direto ao local, sem danos colaterais ao meio ambiente. Por fim, uma nova geração de GPSs, que permita seu monitoramento remoto pela administração das áreas protegidas, também ensejará uma fiscalização eficiente. Nesse contexto, casos como o dos montanhistas que há alguns anos escalaram um pico em área intangível no Parque Nacional da Serra dos Órgãos ou de excursionistas que saiam da trilha designada ou resolvam acampar em local proibido não mais sucederão, pois serão prontamente identificados, através de sinal enviado pelo GPS a um painel na sala de controle e fiscalização da Unidade de Conservação visitada.
Sob o aspecto do manejo, há outros ganhos óbvios. O administrador poderá marcar com exatidão os pontos em que novos drenos precisam ser abertos, degraus construídos, caminhos desobstruídos, encostas reflorestadas. A localização de fauna e flora observada por pesquisadores, excursionistas e guardas-parques também poderá ser feita com exatidão, proporcionando um recenseamento mais acurado das diversas populações de espécies residentes de uma área protegida, facilitando o manejo das nativas e o controle ou eliminação das exóticas.
Em conclusão, o progresso, se bem utilizado pode ser benéfico para a administração das áreas protegidas, tanto do ponto de vista estético quanto da perspectiva do manejo do meio ambiente. Enquanto essa tecnologia não chega, contudo, não há outra saída. Se a administração da Floresta da Tijuca (e de tantos outros Parques por esse Brasilzão afora) não botar a mão na massa, pegar suas latas de tinta, repintar as setas sinalizadoras e reforçar o manejo de suas trilhas, desobstruindo os caminhos e fechando os atalhos que levam os incautos aos caminhos da perdição, as manchetes de jornal com bombeiros heróis e trilheiros exaustos vão se repetir. A árvore de natal é feia- não há dúvida- mas sem ela uma visita à Floresta arrisca-se a virar um presente de grego.