Daniel Santini
05 de Dezembro de 2011
A primeira etapa do
calendário paulista do Audax de 2012 aconteceu neste final de semana em Boituva, no interior de São Paulo. Dos 127 ciclistas inscritos, 95 se dispuseram a tentar completar 200 km em menos de 13h30 e os demais 32, a cumprir o desafio de 120 km, um teste para provas mais longas no futuro. É difícil definir o que é o Audax. Não se trata exatamente de uma disputa, já que cada um enfrenta apenas o relógio e não os demais participantes. Quem consegue cumprir a meta se habilita a, nos meses seguintes, tentar os 300 km. Quem completa os 300 km, se credencia para os 400 km, e daí por diante os 600 km e, finalmente, os inacreditáveis 1.200 km. Cada etapa tem um
tempo máximo específico.
Mas o Audax está longe de se limitar a um teste de resistência à distância. O Audax tem muito a ver com solidariedade. Porque, quando você descobre entre pessoas que estão testando limites, disposição para parar e ajudar, todo resquício de competitividade, aquela vontade de chegar primeiro e “ganhar”, vai para o espaço. Os verdadeiros vencedores do Audax são os que ajudam o máximo de participantes possível a completar a prova, afinados com o
objetivo da organização de “promover, incentivar e aplaudir os esforços daqueles ciclistas que desejam testar seus limites pessoais, combinando o prazer de passear com as demandas de ciclismo de longa distância”.
Descobri isso de cara no meu primeiro Audax, em meio às subidas e descidas infinitas de Boituva. Havia pedalado uns bons 80 km com apenas uma parada no primeiro posto de controle quando aconteceu. Veja bem, não me considero atleta, uso a bicicleta apenas como transporte em deslocamentos diários que, somados, não passam de 14 km, me sinto estranho com roupas coladas no corpo, detesto lycra e tenho uma bicicleta bem mediana com um bagageiro pesado atrás (do qual não me separo nem em provas como esta). Poxa, fazer 80 km em um bom tempo era um tremendo começo! O máximo que eu havia pedalado antes em um ritmo constante assim eram 100 km - em uma competição bem mais idiota, com gente disputando mesmo e olhando torto para mim e minha bicicleta, dois estranhos àquilo tudo.

Foi quando o pneu da frente cedeu. Se você nunca viu um pneu ceder antes, talvez nem entenda. Os arames que mantém a estrutura do pneu se separaram em determinado ponto. A pressão da câmara empurrou a borracha para fora e eu reparei no calombo na lateral do pneu. Aquela deformação agüentou um pouco, até que, em uma descida agradável, BUMMMM. A câmara simplesmente explodiu. Eu troquei ela, tentei mais uma vez e, BUMMM. Ainda restava uma câmara e eu não iria desistir tão rápido. Virei a bicicleta de ponta cabeça, a garrafinha de água soltou, bateu no chão e o bico quebrou. Pronto, além de duas câmaras, eu havia perdido metade da minha água faltando ainda 20 km para o próximo posto de controle (onde havia bananas, maçãs, sanduíches, água e energéticos). Estava sozinho na estrada.

Respirei fundo, olhei o relógio, e comecei a trocar a câmara de novo, apesar da sensação de que aquilo iria resultar no terceiro BUMMM seguido. Foi quando apareceram o Renê e outro camarada do qual não sei o nome. “Quer ajuda?” Disse que não precisava, mas, em todo caso, perguntei se eles não tinham um pneu reserva. “Câmara, você quer dizer, né?”. Não, era meu pneu que tinha rasgado mesmo. Rápido, habilidoso, o Renê tirou a roda da minha mão e trocou a câmara. Encaixamos tudo e saímos para pedalar devagar. PLUC. A bolha apareceu de novo na lateral em segundos, e o Renê, sensato, me parou antes que eu estourasse a terceira e última câmara que tinha. Esvaziamos a pressão e... ficamos sem opção. Sem pneu a 20 km do segundo posto de controle, onde TALVEZ eu conseguisse ajuda, eu estava praticamente fora do Audax. Tive que empurrar os dois para frente para que eles não perdessem mais tempo comigo e avisei que caminharia o percurso para pegar uma carona e voltar para Boituva.
Não desisti. Comecei a fazer uns cálculos malucos na cabeça. Se eu corresse empurrando a bike, talvez chegasse em tempo ainda. Correndo a uns 10 km/h, eu chegaria lá em duas horas. Tentei, mas algumas centenas de metros depois, eu já estava a uns 8 km/h (o relógio da bike mede a velocidade) e com a língua quase arrastando no asfalto. Foi quando chegaram a Teresa e outro amigo que já havia passado aperto semelhante em uma viagem em Curitiba. Foi ele, cujo nome não consegui guardar nesta confusão toda, um dos que mais ajudou.
“Vocês têm pneu?”
Ele tinha, mas era um de aro 700, bem mais largo do que a minha roda. "Valeu, gente, podem seguir, não percam tempo comigo. Não vai dar". Os dois também resistiram, mas seguiram em frente. Eu fiquei sozinho, empurrando a bicicleta, olhando para baixo, não acreditando que meu primeiro Audax terminaria assim, em uma longa e quente caminhada de 20 km no asfalto. Comecei a olhar pedaços de pneus velhos de caminhões largados no acostamento e pensar... E se eu amarrasse um pedaço dentro do meu pneu? Será que explode também?
Foi quando esse cara voltou. A silhueta lá longe na estrada primeiro me confundiu. Ele vinha no sentido contrário! Ei! “Tive uma ideia. E se a gente tentasse encaixar o meu pneu ao redor do seu? De repente, dá para ele conter a câmara que está saindo, sei lá”. E ele me estendeu o pneu. Aceitei com a condição de que ele seguisse em frente e não perdesse mais tempo. Eu tentaria sozinho acertar a gambiarra. A gente já estava ficando atrasado demais. Tic, tic, tic, tic.
Improviso

Primeiro tentei enrolar o pneu por fora. Não deu certo, ficou folgado demais e sequer prendeu na roda. Pensei em encaixar o pneu por dentro. Eu, que havia tido o cuidado de uma semana antes ir na
Mão na Roda para tentar superar minha falta de habilidade com troca de pneus justamente pensando no Audax, comecei a, desajeitadamente, colocar um pneu de aro 700 dobrado dentro de um pneu de aro 26, de modo que a parte frágil ficasse coberta internamente. O suor tampava meu óculos, o asfalto ardia. Aí veio o mestre Silas. Ninguém é mestre à toa. O Silas já completou os 1.200 km que eu citei no começo e é um dos audaciosos mais experientes do Brasil. O que ele tem de magro e elegante, tem de gentil e solidário. Um baita cara. Ele estava para trás justamente pelo cuidado de ajudar outras pessoas. Havia parado, certamente mais de uma vez, apesar de nem ter comentado nada a respeito.
Expliquei para ele a complicada engenhoca que eu estava montando e ele assumiu o trabalho. Encaixamos a roda e ficamos olhando, o pneu meio estranho, a parte solta ainda quase querendo pular para fora. “Vamos ver o que tenho aqui”. E ele abriu o alforje na grama, deixando cair uma confusão de peças, espátulas, câmaras, borrachas e... enforca-gatos! São aqueles garrotes que servem para prender fios. Eles seriam perfeitos para evitar que a bolha surgisse de novo e talvez desse para pedalar os 20 km que faltavam. Amarramos um atrás do outro, envolvendo a bolha. Enchemos a câmara novamente, primeiro pouquinho, depois mais. Mais ciclistas apareceram dispostos a ajudar, uma mulher de origem japonesa estendeu uma fruta seca salgada, disse que era o que os samurais comiam. Ganhamos energia.

E eu consegui voltar a pedalar, sem fones de ouvido agora, sem música, sem freio da frente (que não fechava mais devido à gambiarra), sem relaxar diante da possibilidade de o pneu explodir de novo e eu cair de cara no chão. O Silas me acompanhou um bom tempo, até ter certeza de que o improviso funcionaria. Depois foi embora, preocupado em alcançar a Teresa e ajudá-la a ter forças para completar o Audax. Vento contrário na cara, sol a pino, sem água, a roda exigindo mais esforço que o normal, desesperado em chegar antes do posto de controle fechar. Foi o momento mais difícil.
Foi quando, suando, desesperado para encontrar o posto, um pouco desorientado, apareceu mais um anjo na viagem, este de nome Vinicius Correia. “O posto de controle é ali, ó. Vou lá com você. Eu ia tentar fazer os 100 km que faltam, mas vou desistir. Estou cansado demais”. “Certeza?”. “Certeza.” “E... você me emprestaria sua roda? Ela é igual a minha...”. Deu certo. Inacreditavelmente, deu certo. Cheguei faltando 4 minutos para o horário estipulado como limite. Carimbei o passaporte e troquei de roda com este novo amigo, que confiou e emprestou não só o pneu, mas a roda inteira para alguém que ele nem conhecia. Solidariedade.
Atrasado, disparei de volta para Boituva. A disposição de todos que ajudaram era combustível para que eu recuperasse o tempo e conseguisse completar a prova. Tanta gente gastou tempo e energia comigo, eu tinha que conseguir. Com a roda nova, fiquei sem o medidor de velocidade e distância, mas eu precisava ir rápido e tinha o vento a favor. Não pensei muito. Pedalei, pedalei, pedalei.
E só consegui porque, além dos que pararam para ajudar no aperto, teve também o apoio dos que encontrei antes e durante o percurso. Contei com as dicas do Toni para beber água sempre, observar o que o meu corpo pedia (“boca seca é sinal de desidratação, tremor é sinal de falta de energia”) e tomar cuidado com as tartarugas no acostamento. Com o cuidado do China para que eu e outro colega não errássemos feio o caminho bem no final. E com os melzinhos em saquinhos que um desconhecido meu deu ao pedalar do meu lado. “Reponha a energia antes de você sentir fome, você vai ver a diferença".

Foto: Toni
Contei com os amigos que já tinha, conheci amigos que até então eram só virtuais (né, Frizzo?) e fiz amigos novos. Fui ajudado e acho até que, mesmo todo atrapalhado e ainda aprendendo o que é o Audax, consegui ajudar algumas pessoas. No espírito do Audax!

Foto: Toni