Texto originalmente publicado na Agência Pública



Os trilhos de ferro estão lá, encrustrados nas ladeiras de Santa Teresa, bairro do centro do Rio de Janeiro. Lembram um tempo bom que, embora recente, já traz saudade à comunidade. Os taxis ainda não gostam de subir os paralelepípedos escorregadios do morro, os ônibus passam derrapando nas curvas e os carros – antes raros por ali – agora entopem as ruas estreitas, disputando espaço com pedestres.

Tudo porque o bonde, meio de transporte tradicional do bairro há mais de 100 anos, não está mais lá. Hoje só se vê a falta que faz nas imagens que o representam “chorando”, pintadas nos muros ou estampando adesivos e cartazes que cobrem o Largo do Curvelo, na rua mais antiga do bairro.

Os bondes foram tirados de circulação depois de um descarrilamento ocorrido no dia 27 de agosto de 2011, matando seis pessoas. Não se sabe exatamente o que provocou o acidente – o inquérito ainda não foi concluído pelo Ministério Público. Mas os moradores têm motivos para acreditar que o sucateamento proposital dos bondes, que acompanharam de perto, é o grande responsável pelo “pesadelo” que viveram.


Em uma tarde chuvosa em Santa Teresa, Abaeté Mesquita, advogado, morador e diretor secretário da AMAST (Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa) se emociona falando do que considera “uma tragédia anunciada”. “Foi um projeto político que trouxe esses bondes ‘frankensteins’ para o nosso bairro – porque não eram bondes tradicionais nem trens de tecnologia moderna, eram um misto – resultando em acidentes terríveis. Não temos dúvidas de que o sistema de bondes foi sucateado para justificar a entrada de trens de alta tecnologia a valores superiores a um milhão de reais e ser transformado em um elemento puramente turístico”, denuncia. E explica:“A imagem do bonde de Santa Teresa sempre foi usada para vender a Copa mas nosso bonde tradicional não iria comportar o turismo de massa”.
 
O pesadelo toma forma

O sistema de bondes sofreu várias tentativas  de ser modificado e até extinto durante mais de um século até que os moradores conseguiram seu tombamento em 1988. Bem antes disso, a artista plástica Maria Lúcia pegava o bonde todos os dias para ir à escola e ao mercado.

“Morei 40 anos em Santa Teresa e a gente usava o bonde para tudo porque era pontual, a gente conhecia os motoristas. Muitas vezes eles já sabiam dos nossos horários e esperavam uns dez minutos na porta de casa se a gente atrasava” lembra. “Na época da ditadura militar também tentaram acabar com os bondes mas não conseguiram” diz.


Em 2003, um morador fez uma denúncia ao Ministério Público sobre o abandono completo do sistema de bondes de Santa Teresa, um bem tombado. O processo ficou rolando de um lado para o outro e enquanto isso a CENTRAL (Companhia Estadual de Engenharia de Transportes e Logística)  firmou contrato com uma empresa da cidade de Três Rios chamada Ttrans para “restaurar” os bondes. Em 2007, a comunidade recebeu de surpresa o primeiro bonde com tecnologia modificada, e não restaurado como se esperava.

“Os bondes foram levados para a cidade de Três Rios, no interior do Rio para restauração mas o que aconteceu foi uma aventura tecnológica do então secretário estadual de transportes Júlio Lopes e da CENTRAL, junto a Ttrans – que não tinha experiência com bondes”, conta Abaeté.

Segundo ele, a empresa fez um trabalho de engenharia reversa, desmontando os bondes para ver como funcionavam e utilizar esse conhecimento para programar a construção de 14 VLT’s (Veículo Leve sobre Trilhos) – trens para transporte de massa em áreas planas com tecnologia de ponta. “Na época, a recuperação dos bondes originais custaria menos de 300 mil reais. Cada VLT custaria um milhão de reais”.

O primeiro VLT que chegou a Santa Teresa não saiu do lugar. Do mesmo jeito que chegou, em cima de um caminhão, voltou para Três Rios. “Seria muito mais barato e simples restaurar os bondes nas oficinas do bairro, que fizeram isso durante todo este tempo. A Ttrans foi a única empresa a participar desta licitação e mais tarde o contrato com a Central foi cancelado por irregularidades na planilha de gastos” lembra, Abaeté.

Nem bonde, nem trem
Os VLT’s voltaram de Três Rios seis meses depois. Enquanto isso, alguns bondes tradicionais sucateados continuavam em funcionamento, em processo de canibalismo, transferindo peças de um bonde para outro para substituir as que estavam quebradas. O primeiro acidente com o VLT aconteceu  ainda dentro da oficina, quando um trem que estava parado escorregou e pegou a perna de um funcionário.

Na ocasião, a AMAST diz ter recebido denúncias de que a maior dificuldade da empresa era no sistema automático de freios. “A gente denunciou, mas a empresa desmentia” diz Abaeté. Após um curto período de testes, os “frankensteins”, com aparência estética de bonde  e tecnologia de trens de alta velocidade foram colocados nas ruas. “Os motorneiros morriam de medo de conduzir porque não tinham o bonde ‘na mão’, era tudo computadorizado, algo completamente  diferente do que conheciam a vida toda” diz Abaeté.


Agravando a situação, os bondes restantes foram entregues às pressas e os incidentes começaram a se multiplicar. “Havia sete trens mas eles nunca circularam ao mesmo tempo. Primeiro, porque viviam quebrados e segundo, porque gastavam uma quantidade de energia elétrica que o bairro não dava conta” explica o advogado.

Ao contrário dos bondes antigos, que tinham jogo para andar nas ladeiras e curvas, os novos trens tinham o truck rígido – a parte que suporta o peso da locomotiva,  fornece propulsão, suspensão e freios, que fica entre o trem e a roda – e trepidavam nas curvas com perigo de descarrilar. Com aceleração eletrônica, eram silenciosos demais, causando riscos de atropelamentos e acidentes com carros e motos. “O barulho dos bondinhos alertava os moradores e não incomodava ninguém, ao contrário, as pessoas iam para as janelas vê-lo passar, cumprimentar os vizinhos” diz.

Os outros sete dos 14 VLTs não foram entregues porque o contrato com a Ttrans foi considerado ilegal pelo Tribunal de Contas do Estado e dois diretores da empresa, na época, condenados a pagar multa de 5 mil reais.

O primeiro acidente grave
Em 2008, após sucessivos incidentes, o CREA denunciou vários problemas com os freios dos trens novos, principalmente o fato de estarem localizados fora do trem o que poria em risco sua eficácia se houvesse uma colisão. Foi exatamente o que aconteceu, em 2009, quando o VLT se chocou com um táxi que vinha em alta velocidade em uma curva acentuada.  A batida aconteceu exatamente na caixa de freio externa e o motorneiro não tinha como controlar o trem. Para piorar, os passageiros de um ônibus que vinha atrás do trem se assustaram e Andréa de Jesus Rezende, uma professora de Paraty que visitava o namorado em Santa Teresa, pulou e morreu esmagada.

O inquérito foi arquivado e o taxista levou a culpa. Como não conseguiram anotar a placa, ele nunca foi encontrado. O CREA fez uma investigação para identificar os possíveis problemas de engenharia e mais uma vez a localização do freio foi condenada, mas a Ttrans se limitou a colocar uma grade de proteção na caixa de freios.


Na ocasião,  dois processos que estavam em andamento tiveram decisões. Em um deles, no âmbito federal, que pedia a suspensão da transformação do bonde tradicional – tombado – em VLT houve a condenação da Ttrans por dano ao patrimônio. A justiça determinou a interrupção do processo de transformação dos bondes em VLT até que fosse demonstrado que isso não feria o patrimônio tombado.

O Estado recorreu e conseguiu continuar com os “frankesteins”. No segundo processo, movido pelo Ministério Público na Justiça estadual a partir da denúncia de 2003 daquele morador – que exigia a recuperação integral do sistema de bondes -, o juiz mandou o Estado recuperar o sistema e devolver os 14 bondes tombados. E determinou multa de 50 mil reais por dia em que o Estado não cumprisse a ordem.

“O Estado entrou com mais de 15 recursos e perdeu. A multa chegou a 50 milhões de reais. Na época era preciso 22 milhões para recuperar o sistema e este dinheiro existia, foi dado pelo BID na gestão Rosinha Garotinho e até hoje a gente não sabe para onde foi este dinheiro” denuncia Abaeté.

Foi aí que o processo de “canibalização” dos bondes, segundo a AMAST se agravou: “Para não arcar com a responsabilidade política de tirar os trens de circulação, o Estado permitiu um processo de canibalização, quando em vez de fazer a manutenção, tiravam peças de um bonde para colocar no outro” diz Abaeté.

Antecedentes perigosos
Esses foram os fatos que antecederam o trágico dia 27 de agosto de 2011, quando a sorte dos bondes de Santa Teresa foi selada e os moradores se viram privados do tradicional meio de transporte. Segundo testemunhas, um bonde perdeu o freio e tombou, matando seis pessoas, incluindo o motorneiro Nelson, que há tempos reclamava das condições de segurança dos bondes.


Não se sabe o que o futuro reserva agora para o querido bondinho de Santa Teresa. A CENTRAL respondeu por nota os questionamentos do blog Copa Pública sobre o como e quando o sistema voltará a funcionar e sobre a contratação da empresa portuguesa Carris para fazer a terceira geração de bondes.

Afirmou que haverá a aquisição de 14 novos bondes com características que preservem o tombamento porém com modificações que garantam mais segurança ao material e aos passageiros. E que a expectativa  de conclusão do sistema é  “daqui a dois anos”. Ano de Copa do Mundo!

Sobre os valores dos novos bondes, não tivemos  respostas, mas em entrevista  à revista Veja no ano passado, o presidente da empresa declarou que ficariam em torno de 4 milhões cada. Ainda sobre a relação com a Carris, a CENTRAL afirma ser um termo de cooperação com “intercâmbio de conhecimento e cooperação nos novos projetos”.

A Carris de Lisboa enfrenta uma crise. Atualmente tenta negociar  300 demissões e teve de tirar vários trens de circulação. Há diversas organizações populares que denunciam  episódios parecidos aos da Ttrans em Santa Teresa.

Nesta terça-feira (31), deveria  acontecer a audiência judicial do processo que obrigava o Estado a recuperar o sistema de bondes na justiça estadual, na 3a Vara de Fazenda Pública. A CENTRAL e o Estado deveriam apresentar os termos de referência, ou seja os planos de recuperação dos bondinhos. Segundo a AMAST, A CENTRAL e o Estado não levaram qualquer plano e pediram mais tempo ao juiz, que negou a extensão do prazo (a audiência foi adiada por três vezes) e determinou o prazo de 30 dias para a apresentação dos termos.

A AMAST disponibiliza em seu site todos os processos e documentos que comentamos aqui. Para ler é só clicar AQUI.

Fotos de André Mantelli, especial para A Pública

Colaborou Marcela Genaro
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Porto Alegre - Em 25 de fevereiro de 2011, em Porto Alegre (RS), o motorista Ricardo Neis apontou seu carro, acelerou e disparou intencionalmente contra mais de uma centena de pessoas que pedalavam na rua José do Patrocínio, em Porto Alegre. A violência, que deixou mais de 20 ciclistas feridos, foi assim descrita no artigo "Não foi acidente", que Thiago Benicchio escreveu  para o Outras Vias - um dos mais lidos da história do blog. Agora, quase um ano após o atropelamento brutal, ciclistas que participam da Massa Crítica da cidade dão exemplo para todo o Brasil de como responder a este e tantos outros ataques que quem pedala e sonha com cidades menos poluídas e congestionadas sofre rotineiramente. 


Massa Crítica de Porto Alegre

Para marcar o aniversário do episódio, além de cobrar Justiça e punição ao criminoso em questão (o que é importantíssimo), os ciclistas da cidade também organizaram um grande encontro para discussão sobre o uso de bicicletas nas cidades. Trata-se do 1º Fórum Mundial da Bicicleta, espaço aberto para cicloativistas, urbanistas, autoridades e pesquisadores das principais capitais do país e do exterior debaterem mudanças e perspectivas para melhorias nos sistemas cicloviários. Trata-se de chamar a atenção para a necessidade de políticas públicas específicas para incentivar a prática e beneficiar quem pedala nas cidades. Trata-se de responder à violência com propostas concretas, ideias e, principalmente, entusiasmo.


Ciclistas de todas as idades ocuparam as ruas da capital no final da tarde da última sexta-feira

Que é o que não faltou na última Massa Crítica de Porto Alegre, realizada na sexta-feira, 27 de janeiro, um ensaio para o que deve acontecer no próximo encontro agora no final de fevereiro. No entardecer, a cidade foi invadida por um batalhão de ciclistas coloridos, alguns com filhos, a maioria armada com sorrisos e acenos simpáticos para os motoristas e pedestres. Velhos e jovens juntos, brincadeiras, namorados de mãos dadas, cantorias animadas e gritos de apoio do pessoal que participava do Fórum Social Temático, tudo junto em uma ocupação diferente as principais ruas e avenidas da capital. Em vez de trocarem fumaça, fechadas e aceleradas agressivas, centenas de pessoas percorreram a região central compartilhando alegria. Um ano após a barbárie, a Massa Crítica se desloca com uma leveza que às vezes falta em outras Bicicletadas, como a de São Paulo.


Lívia Araújo, do Bike Drops, e ao fundo uma bike adaptada para levar duas crianças

Talvez tenha sido impressão de visitante, encantado com a gentileza da Lívia Araújo, autora do blog Bike Drops e uma das articuladoras do Fórum Mundial. Mesmo sem conhecer pessoalmente o autor do blog, ela nem hesitou em emprestar sua bicicleta reserva durante a Bicicletada e mais alguns dias. E olha que é uma bela dobrável, a bike que deve ser pedalada durante o encontro por ninguém menos que o Chris Carlsson, autor do Nowtopia e um dos criadores da Critical Mass (aliás, tem um projeto aberto no Catarse de financiamento coletivo para pagar a passagem dele para Porto Alegre - se puder, colabore).


Reações
Não deu para ver, mas alguns dos que participaram relatam que, em determinado momento, próximo a lanchonete de uma rede que vende comida industrial, um motorista trocou palavrões e chegou a descer com um bastão para ameaçar quem passava. De qualquer forma, se ele queria briga, deve ter ficado frustrado. Felizmente. Mais do que armas de ataque, a Bicicletada de Porto Alegre improvisa bagageiros de bambu...


Bagageiro feito de bambu!

...e incríveis bicicletas surreais - no fim da pedalada, a Praça Zumbi dos Palmares é invadida por bicicletas de formatos malucos, pouco prováveis até.


Ciclosurrealismo, mode on (é isso mesmo, a roda de trás foi partida em duas)

O movimento empolga. Em diversas cidades do Brasil grupos se mobilizam para seguir pedalando até o encontro. No exterior, ciclistas de países vizinhos organizam passeios locais para lembrar, de forma solidária, a violência de um ano atrás - veja no Facebook

Deste ciclista, a única crítica ao movimento fica pelo esquisito grito "Bicicletaaaa, um carro a menos!" (em São Paulo, a Massa Crítica costuma cantar "Menos carros, mais bicicletas", o que faz mais sentido já que são várias bicicletas no lugar de um montão de motores, e não de apenas de um carro). Hehehehe. No mais, a Bicicletada de Porto Alegre é hoje a mais gostosa de participar e a que melhor ensina a responder à truculência de quem briga e congestiona, e não transita pelas ruas.


Casal pedala de mãos dadas durante a Bicicletada de Porto Alegre

Mais amor, menos motor.

Esse texto tem inspiração direta no "sai da rua, viado!", texto que o Denis Russo Burgierman escreveu para a Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade) no Dia Mundial Sem Carro em 2010.

Tucano morto na beira de estrada próxima à Aguaí, em São Paulo (foto: Daniel Santini)
Além de testar limites pessoais e expandir horizontes, os ciclistas que participaram do último Audax, realizado no final de semana passado em Holambra, no interior de São Paulo, também tiveram contato com uma realidade pouco divulgada das estradas brasileiras. Os participantes percorreram 200 km (ou 135 km, no caso dos que optaram pelo desafio, modalidade mais leve) e, durante o percurso, puderam observar corpos e mais corpos de animais silvestres mortos jogados para a beira do asfalto. Diferente de quem passa de carro, quem está no acostamento consegue ter uma boa dimensão do massacre constante de aves, répteis e mamíferos que acontece nas vias de alta velocidade do país.

Audax é um tipo de prova baseada mais em solidariedade do que em competição, na qual é comum ver um participante ajudando o outro, seja dividindo comida ou câmaras para pneus furados, seja trocando palavras de apoio. A organização tem como objetivo a promoção de cicloviagens e do uso da bicicleta em percursos de longa distância. Quem participa enfrenta uma disputa pessoal contra o relógio - é preciso completar percursos longos em tempos determinados, o que significa que, quem participa, passa o dia inteiro pedalando.

Em um Audax como o de Holambra, as paisagens são incríveis (veja as fotos do Marcelo Assumpção abaixo ou neste link), mas é impossível deixar de prestar atenção no asfalto - e, consequentemente, nos animais mortos no caminho. Este blogueiro, que percorreu 200 km, contou 10 aves, oito cobras, um tatu e um roedor grande difícil de identificar. Ao todo, foram 20 corpos no caminho percorrido em pouco mais de 12 horas. Dá um corpo a cada 10 km. Mesmo considerando que alguns, como o do tatu, já deveriam estar lá por mais de um dia, considerando o cheiro e a quantidade de formigas presentes, a quantidade impressiona. E incomoda.

O tucano é uma ave linda. Encontrar um jogado na grama, provavelmente atingido por um caminhão, embrulha o estômago. O da foto foi avistado no final de uma subida, pertinho desta coral em que é possível ver até as marcas do pneu. Ela se arrastou até a beira do asfalto após ser atingida, mas, quando fotografada, estava estática, seca, dura. No trecho em questão, como em tantos outros, carros e caminhões passam sem nenhuma consideração por limites de velocidade ou respeito à vida.

Outro pássaro avistado morto no final de uma subida foi uma coruja. Em se tratando de atropelamentos, o sobe e desce da região não ajuda. Embalado na descida, o impulso é manter a velocidade para conseguir completar a subida sem gastar tanta energia - principalmente se você está de bicicleta tentando desesperadamente economizar calorias em uma prova difícil e longa. Só que, quando a velocidade ultrapassa 120 kmh e a carga carregada é de mais de uma tonelada (peso de muitos dos carrões fabricados hoje), este tipo de deslocamento pode ser fatal - na maioria das vezes para animais desatentos, mas, comumente, para gente também.
Confira alguns dos cenários do percurso nas fotos de Marcelo Assumpção (e pense se não vale diminuir a velocidade, nem que seja para apreciar a vista):













A mobilização em favor de bicicletas ganhou força em Cuiabá este mês, após a criação da Bicicletada de Reis, evento paralelo a Corrida de Reis, uma das mais tradicionais do Centro-Oeste. Como forma de chamar a atenção das autoridades para a necessidade de melhorar as condições para os ciclistas, os participantes vestiram narizes de palhaços e exibiram faixas e cartazes em uma animada pedalada neste mês. A Massa Crítica ganhou espaço enquanto os atletas da prova percorriam as ruas da cidade. Entre as reivindicações estão melhorias na infraestrutura cicloviária, com a criação de redes compostas por ciclovias e ciclofaixas. O grupo também recolheu assinaturas pela aprovação da Lei da Mobilidade Urbana Sustentável, a Lei da Bicicleta, como está sendo chamada. A Malu Brandão, mais conhecida como Malu de Bicicleta, registrou o evento no seu blog A Menina que Pedala. Sua amiga Amanda Fernandes encaminhou o texto aqui para o Outras Vias, compartilhado logo abaixo. As duas são integrantes do movimento Ciclovias Já, que reúne cicloativistas locais no facebook. As fotos são de Joana Salomoni.



"Bicicletada de Reis (MC) e o Movimento Contra Corrupção (MCC)
 
O que é a Bicicletada de Reis? É a forma de celebrarmos o veículo BICICLETA na maior corrida de rua do Centro-Oeste brasileiro, a Corrida de Reis. Inauguramos a 1ª Edição, a proposta desse movimento ciclístico foi também protestar sobre as ciclovias e ciclofaixas em Cuiabá em todos os corredores viários e vias estruturais previstos no Plano de Mobilidade para Copa 2014. Além disso, foi dia de arrecadação de assinaturas para o Projeto de Lei (Lei da Bicicleta em Mato Grosso) . Vamos assinar pessoal, queremos ou não ciclovias? Se cada um ajudar, mas rápido podemos avançar nesta questão e cobrar dos nossos representantes.
 

Ciclovias Já!


Queremos ciclovias, ciclofaixas, bicicletários, segurança nas ruas, educação aos motoristas e que isso NÃO acabe em pizza
 
 
Bicicleta é SUSTENTABILIDADE, ecologicamente correto e viável.
 
Somos os palhaços ciclistas... sem ciclovias, sem ciclofaixas, sem segurança, assim não dá, quando é que Cuiabá vai ACORDAR?
  
Parabéns a todos que compareceram neste dia e contribuíram com seus esforços, além de prestigiar os atletas mato-grossenses unimos o útil ao agradável - prestigiar, celebrar e reivindicar realizando um manisfesto em prol das ciclovias e contra corrupção em Mato Grosso, todos por uma Cuiabá melhor. Galera, vamos mudar esse cenário cultural de protesto em Cuiabá, está muito brando as manifestações e só quem modifica somos nós, o povo. Não vamos nos calar. ATITUDE galera.Afinal, o que diz o artigo 1º da Constituição Federal de 1988? Parágrafo único. "Todo poder emana do povo, que exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição".

Felicidades... a luta está começando, precisamos dessa UNIÃO galera!
Vejo vocês num próximo encontro!

Malu de Bicicleta."


Como acontece todo ano, boa parte dos prefeitos brasileiros aproveitaram as férias escolares e o período de recesso, em que as cidades estão mais vazias, para anunciar aumentos nas tarifas do transporte público. Quando esse texto foi escrito, a última atualização da tabela da Associação Nacional de Transportes Públicos com os valores cobrados nos principais municípios do país era de outubro de 2011 e ainda não retratava os aumentos efetivados. Levantamento baseado em jornais regionais, porém, permite perceber mudanças em todo o país. Houve aumento em Campina Grande (PB), Catanduva (SP), João Pessoa (PB), Joinville (SC), Vitória (ES), Ribeirão Pires (SP), Teresina (PI) e Uberaba (MG). Fala-se em "reajuste" em São José do Rio Preto (SP) e Curitiba (PR). Na região metropolitana de São Paulo, Taboão da Serra e Guarulhos o preço da passagem chegou a R$ 3, o mesmo que vem sendo cobrado no município de São Paulo desde 5 de janeiro de 2011. São Paulo, aliás, passou o ano passado inteiro com a cidade com a tarifa de ônibus mais cara do Brasil. No município do Rio de Janeiro, a tarifa passou de R$ 2,50 para R$ 2,75 e o prefeito Eduardo Paes (PMDB) anunciou aumentos futuros todo ano, defendendo que eles devem ser encarados como algo tão natural quanto o réveillon, mesmo com reclamações dos moradores

Houve protestos e reclamações em praticamente todas as cidades, conforme é possível ler nos relatos acima, mas, em pelo menos duas delas, Teresina (PI) e Vitória (ES), a mobilização foi tão intensa que o custo político e o desgaste público podem fazer com que as autoridades revejam os aumentos - ou pensem bastante antes de propor novas mudanças. Na capital do Piauí, há mais de uma semana as principais avenidas da cidade têm sido fechadas por protestos. Na tentativa de controlar a indignação, a Polícia Militar tentou de todas as formas dispersar os manifestantes, sem sucesso. Mesmo com o uso de balas de borracha, bombas de gás, spray de pimenta e a Tropa de Choque, a situação saiu de controle. Em meio à repressão, manifestantes chegaram a incendiar ônibus. Na confusão, jornalistas relatam que têm tido o trabalho censurado e o fotógrafo Cícero Portela, de O Dia, conta que teve um cartão de memória levado por policiais após retratar imagens da repressão. Em Vitória também houve confusão e um ônibus foi incendiado.

Contexto
As redes sociais (#contraoaumento) ajudaram na troca de informações e na mobilização; mesmo com as cidades mais vazias os manifestantes, muitos deles estudantes, conseguiram organizar mobilizações e pressionar o poder público. A dimensão da revolta e o sucesso da mobilização contra o aumento não se limitam a troca de mensagens pela internet; ela tem um contexto e pode ser mais bem compreendido com base em dados de pesquisas divulgadas em 2011, que indicam uma desigualdade que se agrava ano após ano.

Nos centros urbanos, quem opta por (ou pode) andar de carro é uma minoria (leia o estudo da Confederação Nacional das Indústrias e o do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Apesar de congestionarem as ruas, poluírem o ar e causarem considerável impacto ambiental no meio urbano, são os motoristas que costumam ser mais beneficiados pelas políticas municipais e estaduais de transportes. As prefeituras e governos seguem priorizando investimentos na melhoria da infraestrutura para a minoria que utiliza transporte privado individual, seja apostando na construção de novos túneis e viadutos, seja investindo na ampliação de avenidas que já existem (aumentando a impermeabilização das cidades e agravando o problema das enchentes, registre-se), enquanto a maior parte da população utiliza outras meios para se locomover e sofre cada vez mais com isso. A falta de investimentos no transporte público resulta não só na precarização das linhas, como também, no aumento do custo para os usuários. É neste contexto em que os protestos acontecem. No Piauí, além do aumento, houve ainda uma tentativa de integração mal planejada, que incendiou ainda mais a situação.

Não foi só no plano municipal, porém, que o ano começou mal. No plano federal, apesar de ser um avanço importante a promulgação da Lei 12.587, que institui as diretrizes da Política da Mobilidade Urbana, dois vetos de última hora diminuíram a chance de saírem novas políticas públicas de incentivos fiscais para redução do preço das tarifas, conforme destacado no site tarifazero.org. A presidente Dilma Rousseff (PT) sancionou a lei, mas barrou os artigos que previam essa possibilidade.

Para entender melhor o valor das tarifas no transporte, leia: Ex-secretário de transportes defende tarifa zero

Colaborou a jornalista Gisele Brito, sempre atenta para questões relativas a transporte público. As imagens desta página foram feitas pelo cartunista mexicano Angel Boligan, e estão em exposição no fantástico site Irancartoons.com.

Sensores capazes de detectar chuva e neve ligados à semáforos estão sendo testados em Groningen, na Holanda. Os aparelhos alteram o tempo dos sinais conforme as condições climáticas, de modo a favorecer ciclistas em condições adversas. Com chuva ou neve, o sinal verde fica aberto por mais tempo para bicicletas e, quem está em veículos fechados, protegido do frio e da água, tem que esperar. A novidade tecnológica foi apresentada em novembro, com a ajuda de bombeiros que simularam a chuva. Se os resultados forem considerados favoráveis, as autoridades pretendem ampliar o sistema para outras ruas da cidade.

Na Holanda, bicicletas são parte da vida das pessoas e os testes de novas tecnologias para melhorar as condições para quem pedala fazem parte de uma série de avanços e aperfeiçoamentos dos sistemas de mobilidade já implementados. No Brasil, tais ideias podem ser aproveitadas por cidades em que já existem redes de ciclovias interligadas com sinalização específica, como Santos, no litoral de São Paulo, por exemplo. 

Para saber mais sobre como foram criadas as redes cicloviárias na Holanda, assista ao vídeo abaixo:



Para saber mais sobre pedalar no país, não deixe de conferir os seguintes posts no excelente blog do Daniel Duclos, brasileiro que vive no país e mantém um site bastante completo com informações bastante úteis:

Bicicletas são parte da vida dos holandeses
Bicicletas na Holanda: como comprar (e manter)
Dicas de como andar de bicicleta na cidade de Amsterdam

* Colaboraram Matias Mickenhagen, que viu a novidade neste blog em alemão, e Josi Paz, que indicou o vídeo com a história das ciclovias.


Cresci com carros em casa. Aprendi a dirigir ao fazer 18 anos e me acostumei com a ideia de que é ruim ou até inviável viver em São Paulo sem automóvel. A pressa que a cidade exige, suas ladeiras, a distância, a falta de segurança nas ruas, a "liberdade" de ter um carro e poder se deslocar com ele sempre e para qualquer lugar, a "precariedade" do transporte público... Ouvi todos os argumentos e nunca sequer pensei neles. Na verdade, não fosse o tempo perdido esperando em marginais e outras avenidas supercongestionadas, cansado de ser forçado a acelerar e brecar repetidamente sem poder fazer mais NADA, sufocado pela fumaça e pelo estresse, talvez eu nunca tivesse me questionado sobre todas essas "verdades". E talvez, não tivesse começado a me questionar se é realmente necessário ter um carro, não tivesse descoberto a bicicleta e o prazer de andar na cidade, não soubesse hoje que em muitos bairros a rede formada por ônibus e trens é rápida e eficiente, e não tivesse percebido todos os ônus resultantes de ter e manter um carro. A realidade começou a bater aos poucos. Se no final de 2005 eu já estava absolutamente cansado de viver no trânsito e de desperdiçar tempo e energia em uma rotina que não fazia nenhum sentido, demorou mais tempo para conhecer e construir alternativas.

"Não se trata de ser contra automóveis pura e simplesmente, mas sim de questionar o uso exagerado, irracional e rotineiro com o qual nos acostumamos."
Sempre pedalei, desde criança, mas até 2006 não tinha consciência do meu direito de ocupar a rua. Pedalava quase como se estivesse cometendo um crime, incomodando os carros. E, como tal, vivia encolhido, assustado. Pensava em caminhos como se estivesse dirigindo, buscava avenidas e os trechos mais curtos. Demorei para aprender a me locomover de bicicleta com segurança e prazer na cidade, a buscar ruas calmas, evitar alguns trechos. Aprendi a intercalar caminhadas com transporte público. E, aos poucos, fui deixando o carro mais vezes na garagem.

Em dezembro de 2010 desisti de vez de ter um carro em casa. Já não fazia mais sentido. Eu vivo no topo de um morro, em um bairro com poucas linhas de ônibus e a algumas ladeiras do metrô. Ouvi que estava sendo radical demais, que minha opção era inviável e que em pouquíssimo tempo eu voltaria atrás. Como fazer compras sem um carro? Supermercado? Como voltar para casa tarde da noite?

Todas os problemas se revelaram bem mais simples até do que eu esperava. Mesmo os que me provocavam alguma incerteza. Fazer compras mais vezes e em menor quantidade me levou a comer alimentos frescos e pensar sobre o que estou comprando. Viver mais devagar me fez viver melhor, pesar compromissos e em como e com quem eu comprometo meu tempo. A rotina de caminhadas e pedaladas me fez emagrecer e conhecer melhor meu corpo. Adquiri resistência física sem precisar de muito esforço. E, nas emergências ou momentos especiais, sempre dá para recorrer a um táxi ou alugar um carro - mesmo que isso seja feito com frequência, sai mais barato do que ter e manter um carro particular.

Não se trata de ser contra automóveis pura e simplesmente, mas sim de questionar o uso exagerado, irracional e rotineiro com o qual nos acostumamos - e ao qual somos educados a aprender como algo normal. Sem a gente perceber, a tal "liberdade" vira uma prisão sobre rodas, seja pela necessidade de buscar uma vaga para estacionar, seja por condicionar horários ao uso do veículo, seja por não poder parar para conversar com um vizinho. Hoje, sem carro, sinto muito mais liberdade quando eu dependia de um para tudo.

Após um ano desmotorizado a sensação é de que minha relação com a cidade mudou completamente. Descobri ruas e casas fantásticas que eu nem imaginava existirem - no bairro em que eu cresci e que achava conhecer muito bem. Redescobri o prazer em viver em São Paulo, em ir para o trabalho, em voltar devagar. Parar para tomar um coco ou uma cerveja no fim da tarde, no caminho de volta. Conversar com vizinhos, sorrir. Parei de me sentir constrangido em alimentar um sistema de fumaça, pressa e estresse que não faz e nunca fez sentido para mim.

Gosto da ideia de que, o modo de vida que escolhi, permite que crianças brinquem nas ruas.

Que 2012 seja um ano com menos carros, estresse, trânsito e poluição para todos os leitores do Outras Vias.

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A Velhinha de Higienópolis não acredita em nada e nem em ninguém. Ao contrário de uma prima distante de Taubaté, que ficou famosa por acreditar em tudo e que morreu em 2005, a Velhinha de Higienópolis nunca se deixou enrolar. Ela é tão desconfiada que, na padaria, sempre abre o saquinho para conferir se todos os pãezinhos que pediu estão lá. Quando o porteiro dá bom dia, às vezes, nem responde, de olho nas intenções do homem. Ela não vota por não acreditar em nenhum político. Até vai nas reuniões de condomínio, mas só para questionar o síndico. "Por que pintaram a parede de branco? A tinta estava mais barata? Posso ver a nota? O senhor é amigo do pintor?" A Velhinha de Higienópolis não conta a idade para ninguém e nunca se casou por não acreditar no amor.

Em 2011, a Velhinha de Higienópolis comprou um computador para começar a ler as notícias na internet por não acreditar nas TVs e nos jornais. Em nenhum deles. Acha os jornalistas todos iguais, uns mentirosos. Todos. Mas ela também não gostou muito dos blogs e nem das redes sociais. Na semana passada, recebeu um cartão virtual da neta, que nem abriu, achando que a menina havia enviado um vírus para invadir seu computador. Anda preocupada com o rumo do mundo e incomodada com essa troca de mensagens de esperança que circulam nesta época do ano. Depois de ler os votos de boas festas do vadebike.org e do grupo Pedala Manaus, ela decidiu escrever para o Outras Vias. A Velhinha de Higienópolis está indignada com as bicicletas e o Outras Vias, democraticamente, abre espaço para sua manifestação. O que, claro, ela duvidou que aconteceria.

Segue na íntegra a mensagem da Velhinha de Higienópolis, que pediu para não ter o nome divulgado por desconfiar de vocês todos.

"São Paulo, 22 de dezembro de 2011

Bicicleteiros de São Paulo,

É com grande consternação que escrevo. São Paulo é uma cidade falida e todos sabem disso. É tanto trânsito e falta de segurança, que, já faz tempo, nenhuma pessoa de bem pode andar tranquila na rua. Não tem solução, e todos sabem. O povo já acostumou com essa ideia de que não há o que fazer e é por isso que vivemos com tranquilidade. Quando as pessoas começam a sonhar, elas tentam transformar a cidade e isso é que é o mais perigoso. São Paulo, meus queridos, não tem jeito.

Andei lendo o que o senhor, seu Santini, e seus colegas no portal ((o)) eco andam escrevendo e quero criticá-los. Duvido que o senhor vá publicar minhas palavras, mas, ainda assim, gostaria de manifestar minha indignação. Sou contra vocês e todos os outros blogueiros que insistem em escrever, filmar, gravar e propagar ideias desta maneira descontrolada. Se tivesse o e-mail da sua mãe, escreveria para ela. Ao defender bicicletas, ao defender "ecocidades", ao defender florestas e preservação da natureza, os senhores estão só atrasando o progresso do Brasil. É isso mesmo. É preciso ordem e não ficar pensando nessas besteiras de animaizinhos e plantinhas, dando esperanças falsas para a população de que é possível avançar sem destruir a natureza. Viver bem é ser rico, ter um monte de bens, poder gastar, poder gastar sem pensar muito (grifo da autora). Preocupação com sacolinha de plástico, com reciclagem, com consumo de luz, faça-me o favor. Sempre foi assim e agora vocês querem agora mudar isso. Deveriam ser proibidos de escrever. Se fossem outros tempos em que as coisas eram mais sérias no Brasil, certamente seriam censurados.

Veja o caso de São Paulo. A cidade é poluída, suja e feia. Não adianta querer mudar isso. O que os governantes precisam fazer é garantir que tudo continue funcionando como sempre funcionou. A gente sabe a fórmula. Quando o trânsito fica insuportável, é só construir viadutos e pontes, cavar túneis, alargar avenidas. Tudo bem que, depois de um tempo, os congestionamentos ficam até piores - outro dia eu levei duas horas e meia presa no trânsito na Marginal Tietê, mesmo com aquelas onze faixas que fizeram de cada lado do rio. Mas é assim mesmo, essas coisas não têm solução. São Paulo é uma cidade rica e, para continuar se desenvolvendo, precisamos continuar asfaltando, ampliando as avenidas, abrindo espaço para mais carros. Abrir espaço para quem tem dinheiro e poder, só assim os ricos continuarão vivendo aqui. Deveriam proibir os pedestres e aumentar a velocidade nas ruas. Aí sim o trânsito ia fluir. Se a poluição ficar muito ruim, a gente instala filtros nas casas e nos carros. Se alagar por conta da impermeabilização excessiva, sempre dá para abrir mais piscinões. 

O que não dá é para ficar com essa ideia de poeta de que dá para caminhar nas ruas. De bicicleta é pior ainda. É perigoso, menino. Se fosse só você e mais um grupinho, eu nem gastaria meu tempo escrevendo. Mas, não contentes em ficar para lá e para cá com essas bicicletas coloridas, iludindo as pessoas de que dá para ser feliz e ter uma vida saudável em São Paulo, vocês ainda começaram a criar associações e cobrar o poder público. Que absurdo! E o pior é que as prefeituras, não só de São Paulo, mas de várias cidades do Brasil, começaram a construir ciclorrotas, a diminuir a velocidade do trânsito, fazer campanhas de respeito aos pedestres. Logo mais vão querer crianças brincando nas ruas de novo. Aqui não é a Europa!

Tudo bem que não deixaram de priorizar os carros, que a maior parte do dinheiro continua sendo investido em avenidas e obras parecidas. Mas, se vocês continuarem chamando a atenção para isso, logo mais vão querer que, em vez de túneis, comecem a cavar metrôs. Falaram até em uma estação em Higienópolis! Absurdo!!! O que vocês querem? Mais ônibus? Que a gente que tem dinheiro deixe de andar de carro e passe a viver mais na cidade? E a nossa segurança? Eu vou ter que ter contato com outras pessoas? E se tentarem me enganar na hora de pagar a passagem? Eu, hein.

Menino, juízo. 

Velhinha de Higienópolis"

* O desenho é uma ilustração feita pelo amigo Valdinei Calvento a partir de fatos reais. A Velhinha de Higienópolis naturalmente não aceitou posar para uma foto. Clique aqui para ver mais do trabalho deste artista.

Neste final de semana, cerca de 2.800 pessoas viajaram de São Paulo até Santos sem gastar combustível ou dinheiro para o pedágio, sem poluir e causar impactos na natureza. Entre os ciclistas que se animaram a percorrer quase 100 km utilizando somente a energia do próprio corpo, a enfrentar a garoa leve e a lama nos limites de São Paulo, está uma novata que, a pedido do OutrasVias, escreveu um relato sobre a experiência. Como de costume, a Rota Márcia Prado, que leva este nome em homenagem à cicloativista morta atropelada por um ônibus em 2009, foi organizada pelo Instituto CicloBR, que, mesmo com a resistência da concessionária Ecovias (leia mais sobre ecovias de verdade), segue pressionando para que o caminho seja oficializado. Assim como em 2010, o roteiro deste ano foi um sucesso.



Rota Márcia Prado, minha primeira cicloviagem
Por Paula Aftimus

"As bicicletas não gostavam de mim. Sempre se mostravam distantes, impacientes e indiferentes ao meu desejo de pedalá-las. Eram amigas dos outros, não minhas. Aos 6 anos de idade, uma rodinha a menos e zero sucesso em me manter equilibrada, desisti de cativá-las. 'Não faço questão, mesmo...'

Toda a minha infância e adolescência depois tentei, novamente, conquistá-las. Nada. Já na faculdade, observava, encantada, aqueles que se davam bem com as bikes. Acenava, de longe, a grupos de ciclistas, às vezes recebendo um tchauzinho de volta, às vezes sendo ignorada. Quem sabe um dia eles me acolheriam? Já formada, madura o bastante para não mais me fazer de vítima e preparada para outras negativas, decidi que era hora de encarar as bicicletas de frente. Pedi ajuda, engoli minhas inseguranças e, aos 25 anos, lá estava eu: pedalando!

Foi um começo de relação complicado. Elas deixavam claro que éramos apenas colegas. Mas, aos poucos, fui ganhando a confiança das bikes. Primeiro, passando por uma ponte estreita; depois, tirando uma das mãos do guidão (não precisava mais parar para arrumar os cabelos!), até conseguir pedalar junto dos carros. Tudo isso com a ajuda de gente que, há anos, já se dava bem com elas. Gente que nos apresentou, ficou ao nosso lado até nos entrosarmos, viu afinidades que nem sabíamos que tínhamos. Éramos, enfim, amigas.

O problema é que eu gostava delas cada vez mais. Comecei a pensar em como passar mais tempo ao lado dessas magrelas tão interessantes. Arrumava desculpas esfarrapadas para vê-las. Meus amigos, mais próximos dos carros, começaram a se preocupar. Nem liguei. Decidi comprar uma bicicleta. A minha bicicleta. Não tinha mais volta. Mas... será que meu amor seria correspondido?

Sim! Nesse final de semana, depois de ter usado minha bike por apenas 30 Km, num sábado à noite, na ciclovia do rio Pinheiros, decidi descer de São Paulo até Santos, no 3º Passeio Cicloturistico Rota Márcia Prado. Seria o ponto-chave da nossa relação: ou ela me amaria de volta ou eu ficaria traumatizada, odiando magras, velôs e camelos pelo resto da vida. Mas ela me amou! Minha bike me ama naquele estágio que a gente nem mais discute se é namoro ou amizade. É para sempre mesmo.

Ela me salvou de ônibus grosseiros e calçadas esburacadas no Grajaú; enfrentou chuva e lama comigo e, sem reclamar, ainda me segurou firme e forte a cada pedra solta na Ilha do Bororé; deixou que eu me sentisse dona do mundo, sem medo e sem freio nas descidas da Estrada de Manutenção da Imigrantes; foi paciente com minha fome, meu cansaço e minhas dores a cada subida, a cada caminho que, no final, parecia não ter fim.


Balsa lotada de bicicletas na Ilha do Bororé, nos limites de São Paulo


Aperto na hora de fechar de partir, tantas as bicicletas enfileiradas


Todo mundo ainda limpo, antes do trecho com barro

Foi incrível estar entre os quase 3 mil ciclistas que, conscientes disso ou não, ajudaram a reforçar o direito de poder ir e vir de bicicleta – de São Paulo a Santos ou de qualquer lugar a qualquer lugar. Foi lindo ver tanta beleza natural num caminho cheio de verde, flores e vida. Foi extremamente cativante e inspirador sentir, a cada quilômetro, a paciência, a compaixão, a irmandade e a tolerância de estranhos que, por uma ladeira ou a partir dela, se tornaram amigos. Mas, mais do que tudo isso, o que ficou desse sábado foi a descoberta, surpreendente, de que eu consigo chegar muito mais longe do que acreditava que pudesse. A consciência de que meu corpo, minha cabeça e minha bike aguentam, sim, o tranco.


Ciclistas lotam o acostamento na Imigrantes
 

Lama e asfalto molhado

E, se ainda tiver espaço nesse post...
... obrigada ao Fabricio e ao Ivan, que compartilharam cada segundo do ápice dessa história de amor, acreditando que tudo daria certo, sempre. Obrigada ao trio Tarcila, Gonza e Siqueira, que não estavam nem aí para mim e minha bike nova e que, justamente por isso, me fizeram sentir que pedalar 80 Km era tão fácil e habitual quanto pedalar até a padaria. Obrigada à Renata, ao Sussa e a tantos outros que organizaram essa aventura toda, num esforço voluntário e apaixonado, para que gente como eu quisesse e pudesse repetir esse final de semana no próximo e no próximo. Obrigada Talita, Aline e Odin simplesmente por olharem para mim como se eu jamais tivesse desistido de pedalar lá quando tinha 6 anos de idade. E obrigada ao Daniel, por entender e topar esse ménage tão lindo e transformador!"


A primeira etapa do calendário paulista do Audax de 2012 aconteceu neste final de semana em Boituva, no interior de São Paulo. Dos 127 ciclistas inscritos, 95 se dispuseram a tentar completar 200 km em menos de 13h30 e os demais 32, a cumprir o desafio de 120 km, um teste para provas mais longas no futuro. É difícil definir o que é o Audax. Não se trata exatamente de uma disputa, já que cada um enfrenta apenas o relógio e não os demais participantes. Quem consegue cumprir a meta se habilita a, nos meses seguintes, tentar os 300 km. Quem completa os 300 km, se credencia para os 400 km, e daí por diante os 600 km e, finalmente, os inacreditáveis 1.200 km. Cada etapa tem um tempo máximo específico.


Mas o Audax está longe de se limitar a um teste de resistência à distância. O Audax tem muito a ver com solidariedade. Porque, quando você descobre entre pessoas que estão testando limites, disposição para parar e ajudar, todo resquício de competitividade, aquela vontade de chegar primeiro e “ganhar”, vai para o espaço. Os verdadeiros vencedores do Audax são os que ajudam o máximo de participantes possível a completar a prova, afinados com o objetivo da organização de “promover, incentivar e aplaudir os esforços daqueles ciclistas que desejam testar seus limites pessoais, combinando o prazer de passear com as demandas de ciclismo de longa distância”.

Descobri isso de cara no meu primeiro Audax, em meio às subidas e descidas infinitas de Boituva. Havia pedalado uns bons 80 km com apenas uma parada no primeiro posto de controle quando aconteceu. Veja bem, não me considero atleta, uso a bicicleta apenas como transporte em deslocamentos diários que, somados, não passam de 14 km, me sinto estranho com roupas coladas no corpo, detesto lycra e tenho uma bicicleta bem mediana com um bagageiro pesado atrás (do qual não me separo nem em provas como esta). Poxa, fazer 80 km em um bom tempo era um tremendo começo! O máximo que eu havia pedalado antes em um ritmo constante assim eram 100 km - em uma competição bem mais idiota, com gente disputando mesmo e olhando torto para mim e minha bicicleta, dois estranhos àquilo tudo.

Foi quando o pneu da frente cedeu. Se você nunca viu um pneu ceder antes, talvez nem entenda. Os arames que mantém a estrutura do pneu se separaram em determinado ponto. A pressão da câmara empurrou a borracha para fora e eu reparei no calombo na lateral do pneu. Aquela deformação agüentou um pouco, até que, em uma descida agradável, BUMMMM. A câmara simplesmente explodiu. Eu troquei ela, tentei mais uma vez e, BUMMM. Ainda restava uma câmara e eu não iria desistir tão rápido. Virei a bicicleta de ponta cabeça, a garrafinha de água soltou, bateu no chão e o bico quebrou. Pronto, além de duas câmaras, eu havia perdido metade da minha água faltando ainda 20 km para o próximo posto de controle (onde havia bananas, maçãs, sanduíches, água e energéticos). Estava sozinho na estrada.

Respirei fundo, olhei o relógio, e comecei a trocar a câmara de novo, apesar da sensação de que aquilo iria resultar no terceiro BUMMM seguido. Foi quando apareceram o Renê e outro camarada do qual não sei o nome. “Quer ajuda?” Disse que não precisava, mas, em todo caso, perguntei se eles não tinham um pneu reserva. “Câmara, você quer dizer, né?”. Não, era meu pneu que tinha rasgado mesmo. Rápido, habilidoso, o Renê tirou a roda da minha mão e trocou a câmara. Encaixamos tudo e saímos para pedalar devagar. PLUC. A bolha apareceu de novo na lateral em segundos, e o Renê, sensato, me parou antes que eu estourasse a terceira e última câmara que tinha. Esvaziamos a pressão e... ficamos sem opção. Sem pneu a 20 km do segundo posto de controle, onde TALVEZ eu conseguisse ajuda, eu estava praticamente fora do Audax. Tive que empurrar os dois para frente para que eles não perdessem mais tempo comigo e avisei que caminharia o percurso para pegar uma carona e voltar para Boituva.

Não desisti. Comecei a fazer uns cálculos malucos na cabeça. Se eu corresse empurrando a bike, talvez chegasse em tempo ainda. Correndo a uns 10 km/h, eu chegaria lá em duas horas. Tentei, mas algumas centenas de metros depois, eu já estava a uns 8 km/h (o relógio da bike mede a velocidade) e com a língua quase arrastando no asfalto. Foi quando chegaram a Teresa e outro amigo que já havia passado aperto semelhante em uma viagem em Curitiba. Foi ele, cujo nome não consegui guardar nesta confusão toda, um dos que mais ajudou.

“Vocês têm pneu?”

Ele tinha, mas era um de aro 700, bem mais largo do que a minha roda. "Valeu, gente, podem seguir, não percam tempo comigo. Não vai dar". Os dois também resistiram, mas seguiram em frente. Eu fiquei sozinho, empurrando a bicicleta, olhando para baixo, não acreditando que meu primeiro Audax terminaria assim, em uma longa e quente caminhada de 20 km no asfalto. Comecei a olhar pedaços de pneus velhos de caminhões largados no acostamento e pensar... E se eu amarrasse um pedaço dentro do meu pneu? Será que explode também?

Foi quando esse cara voltou. A silhueta lá longe na estrada primeiro me confundiu. Ele vinha no sentido contrário! Ei! “Tive uma ideia. E se a gente tentasse encaixar o meu pneu ao redor do seu? De repente, dá para ele conter a câmara que está saindo, sei lá”. E ele me estendeu o pneu. Aceitei com a condição de que ele seguisse em frente e não perdesse mais tempo. Eu tentaria sozinho acertar a gambiarra. A gente já estava ficando atrasado demais. Tic, tic, tic, tic.

Improviso
Primeiro tentei enrolar o pneu por fora. Não deu certo, ficou folgado demais e sequer prendeu na roda. Pensei em encaixar o pneu por dentro. Eu, que havia tido o cuidado de uma semana antes ir na Mão na Roda para tentar superar minha falta de habilidade com troca de pneus justamente pensando no Audax, comecei a, desajeitadamente, colocar um pneu de aro 700 dobrado dentro de um pneu de aro 26, de modo que a parte frágil ficasse coberta internamente. O suor tampava meu óculos, o asfalto ardia. Aí veio o mestre Silas. Ninguém é mestre à toa. O Silas já completou os 1.200 km que eu citei no começo e é um dos audaciosos mais experientes do Brasil. O que ele tem de magro e elegante, tem de gentil e solidário. Um baita cara. Ele estava para trás justamente pelo cuidado de ajudar outras pessoas. Havia parado, certamente mais de uma vez, apesar de nem ter comentado nada a respeito.

Expliquei para ele a complicada engenhoca que eu estava montando e ele assumiu o trabalho. Encaixamos a roda e ficamos olhando, o pneu meio estranho, a parte solta ainda quase querendo pular para fora. “Vamos ver o que tenho aqui”. E ele abriu o alforje na grama, deixando cair uma confusão de peças, espátulas, câmaras, borrachas e... enforca-gatos! São aqueles garrotes que servem para prender fios. Eles seriam perfeitos para evitar que a bolha surgisse de novo e talvez desse para pedalar os 20 km que faltavam. Amarramos um atrás do outro, envolvendo a bolha. Enchemos a câmara novamente, primeiro pouquinho, depois mais. Mais ciclistas apareceram dispostos a ajudar, uma mulher de origem japonesa estendeu uma fruta seca salgada, disse que era o que os samurais comiam. Ganhamos energia.

E eu consegui voltar a pedalar, sem fones de ouvido agora, sem música, sem freio da frente (que não fechava mais devido à gambiarra), sem relaxar diante da possibilidade de o pneu explodir de novo e eu cair de cara no chão. O Silas me acompanhou um bom tempo, até ter certeza de que o improviso funcionaria. Depois foi embora, preocupado em alcançar a Teresa e ajudá-la a ter forças para completar o Audax. Vento contrário na cara, sol a pino, sem água, a roda exigindo mais esforço que o normal, desesperado em chegar antes do posto de controle fechar. Foi o momento mais difícil.

Foi quando, suando, desesperado para encontrar o posto, um pouco desorientado, apareceu mais um anjo na viagem, este de nome Vinicius Correia. “O posto de controle é ali, ó. Vou lá com você. Eu ia tentar fazer os 100 km que faltam, mas vou desistir. Estou cansado demais”. “Certeza?”. “Certeza.” “E... você me emprestaria sua roda? Ela é igual a minha...”. Deu certo. Inacreditavelmente, deu certo. Cheguei faltando 4 minutos para o horário estipulado como limite. Carimbei o passaporte e troquei de roda com este novo amigo, que confiou e emprestou não só o pneu, mas a roda inteira para alguém que ele nem conhecia. Solidariedade.


Atrasado, disparei de volta para Boituva. A disposição de todos que ajudaram era combustível para que eu recuperasse o tempo e conseguisse completar a prova. Tanta gente gastou tempo e energia comigo, eu tinha que conseguir. Com a roda nova, fiquei sem o medidor de velocidade e distância, mas eu precisava ir rápido e tinha o vento a favor. Não pensei muito. Pedalei, pedalei, pedalei.

E só consegui porque, além dos que pararam para ajudar no aperto, teve também o apoio dos que encontrei antes e durante o percurso. Contei com as dicas do Toni para beber água sempre, observar o que o meu corpo pedia (“boca seca é sinal de desidratação, tremor é sinal de falta de energia”) e tomar cuidado com as tartarugas no acostamento. Com o cuidado do China para que eu e outro colega não errássemos feio o caminho bem no final. E com os melzinhos em saquinhos que um desconhecido meu deu ao pedalar do meu lado. “Reponha a energia antes de você sentir fome, você vai ver a diferença".


Foto: Toni

Contei com os amigos que já tinha, conheci amigos que até então eram só virtuais (né, Frizzo?) e fiz amigos novos. Fui ajudado e acho até que, mesmo todo atrapalhado e ainda aprendendo o que é o Audax, consegui ajudar algumas pessoas. No espírito do Audax!


Foto: Toni



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