Tucano morto na beira de estrada próxima à Aguaí, em São Paulo (foto: Daniel Santini)
Além de testar limites pessoais e expandir horizontes, os ciclistas que participaram do último Audax, realizado no final de semana passado em Holambra, no interior de São Paulo, também tiveram contato com uma realidade pouco divulgada das estradas brasileiras. Os participantes percorreram 200 km (ou 135 km, no caso dos que optaram pelo desafio, modalidade mais leve) e, durante o percurso, puderam observar corpos e mais corpos de animais silvestres mortos jogados para a beira do asfalto. Diferente de quem passa de carro, quem está no acostamento consegue ter uma boa dimensão do massacre constante de aves, répteis e mamíferos que acontece nas vias de alta velocidade do país.

Audax é um tipo de prova baseada mais em solidariedade do que em competição, na qual é comum ver um participante ajudando o outro, seja dividindo comida ou câmaras para pneus furados, seja trocando palavras de apoio. A organização tem como objetivo a promoção de cicloviagens e do uso da bicicleta em percursos de longa distância. Quem participa enfrenta uma disputa pessoal contra o relógio - é preciso completar percursos longos em tempos determinados, o que significa que, quem participa, passa o dia inteiro pedalando.

Em um Audax como o de Holambra, as paisagens são incríveis (veja as fotos do Marcelo Assumpção abaixo ou neste link), mas é impossível deixar de prestar atenção no asfalto - e, consequentemente, nos animais mortos no caminho. Este blogueiro, que percorreu 200 km, contou 10 aves, oito cobras, um tatu e um roedor grande difícil de identificar. Ao todo, foram 20 corpos no caminho percorrido em pouco mais de 12 horas. Dá um corpo a cada 10 km. Mesmo considerando que alguns, como o do tatu, já deveriam estar lá por mais de um dia, considerando o cheiro e a quantidade de formigas presentes, a quantidade impressiona. E incomoda.

O tucano é uma ave linda. Encontrar um jogado na grama, provavelmente atingido por um caminhão, embrulha o estômago. O da foto foi avistado no final de uma subida, pertinho desta coral em que é possível ver até as marcas do pneu. Ela se arrastou até a beira do asfalto após ser atingida, mas, quando fotografada, estava estática, seca, dura. No trecho em questão, como em tantos outros, carros e caminhões passam sem nenhuma consideração por limites de velocidade ou respeito à vida.

Outro pássaro avistado morto no final de uma subida foi uma coruja. Em se tratando de atropelamentos, o sobe e desce da região não ajuda. Embalado na descida, o impulso é manter a velocidade para conseguir completar a subida sem gastar tanta energia - principalmente se você está de bicicleta tentando desesperadamente economizar calorias em uma prova difícil e longa. Só que, quando a velocidade ultrapassa 120 kmh e a carga carregada é de mais de uma tonelada (peso de muitos dos carrões fabricados hoje), este tipo de deslocamento pode ser fatal - na maioria das vezes para animais desatentos, mas, comumente, para gente também.
Confira alguns dos cenários do percurso nas fotos de Marcelo Assumpção (e pense se não vale diminuir a velocidade, nem que seja para apreciar a vista):













A mobilização em favor de bicicletas ganhou força em Cuiabá este mês, após a criação da Bicicletada de Reis, evento paralelo a Corrida de Reis, uma das mais tradicionais do Centro-Oeste. Como forma de chamar a atenção das autoridades para a necessidade de melhorar as condições para os ciclistas, os participantes vestiram narizes de palhaços e exibiram faixas e cartazes em uma animada pedalada neste mês. A Massa Crítica ganhou espaço enquanto os atletas da prova percorriam as ruas da cidade. Entre as reivindicações estão melhorias na infraestrutura cicloviária, com a criação de redes compostas por ciclovias e ciclofaixas. O grupo também recolheu assinaturas pela aprovação da Lei da Mobilidade Urbana Sustentável, a Lei da Bicicleta, como está sendo chamada. A Malu Brandão, mais conhecida como Malu de Bicicleta, registrou o evento no seu blog A Menina que Pedala. Sua amiga Amanda Fernandes encaminhou o texto aqui para o Outras Vias, compartilhado logo abaixo. As duas são integrantes do movimento Ciclovias Já, que reúne cicloativistas locais no facebook. As fotos são de Joana Salomoni.



"Bicicletada de Reis (MC) e o Movimento Contra Corrupção (MCC)
 
O que é a Bicicletada de Reis? É a forma de celebrarmos o veículo BICICLETA na maior corrida de rua do Centro-Oeste brasileiro, a Corrida de Reis. Inauguramos a 1ª Edição, a proposta desse movimento ciclístico foi também protestar sobre as ciclovias e ciclofaixas em Cuiabá em todos os corredores viários e vias estruturais previstos no Plano de Mobilidade para Copa 2014. Além disso, foi dia de arrecadação de assinaturas para o Projeto de Lei (Lei da Bicicleta em Mato Grosso) . Vamos assinar pessoal, queremos ou não ciclovias? Se cada um ajudar, mas rápido podemos avançar nesta questão e cobrar dos nossos representantes.
 

Ciclovias Já!


Queremos ciclovias, ciclofaixas, bicicletários, segurança nas ruas, educação aos motoristas e que isso NÃO acabe em pizza
 
 
Bicicleta é SUSTENTABILIDADE, ecologicamente correto e viável.
 
Somos os palhaços ciclistas... sem ciclovias, sem ciclofaixas, sem segurança, assim não dá, quando é que Cuiabá vai ACORDAR?
  
Parabéns a todos que compareceram neste dia e contribuíram com seus esforços, além de prestigiar os atletas mato-grossenses unimos o útil ao agradável - prestigiar, celebrar e reivindicar realizando um manisfesto em prol das ciclovias e contra corrupção em Mato Grosso, todos por uma Cuiabá melhor. Galera, vamos mudar esse cenário cultural de protesto em Cuiabá, está muito brando as manifestações e só quem modifica somos nós, o povo. Não vamos nos calar. ATITUDE galera.Afinal, o que diz o artigo 1º da Constituição Federal de 1988? Parágrafo único. "Todo poder emana do povo, que exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição".

Felicidades... a luta está começando, precisamos dessa UNIÃO galera!
Vejo vocês num próximo encontro!

Malu de Bicicleta."


Como acontece todo ano, boa parte dos prefeitos brasileiros aproveitaram as férias escolares e o período de recesso, em que as cidades estão mais vazias, para anunciar aumentos nas tarifas do transporte público. Quando esse texto foi escrito, a última atualização da tabela da Associação Nacional de Transportes Públicos com os valores cobrados nos principais municípios do país era de outubro de 2011 e ainda não retratava os aumentos efetivados. Levantamento baseado em jornais regionais, porém, permite perceber mudanças em todo o país. Houve aumento em Campina Grande (PB), Catanduva (SP), João Pessoa (PB), Joinville (SC), Vitória (ES), Ribeirão Pires (SP), Teresina (PI) e Uberaba (MG). Fala-se em "reajuste" em São José do Rio Preto (SP) e Curitiba (PR). Na região metropolitana de São Paulo, Taboão da Serra e Guarulhos o preço da passagem chegou a R$ 3, o mesmo que vem sendo cobrado no município de São Paulo desde 5 de janeiro de 2011. São Paulo, aliás, passou o ano passado inteiro com a cidade com a tarifa de ônibus mais cara do Brasil. No município do Rio de Janeiro, a tarifa passou de R$ 2,50 para R$ 2,75 e o prefeito Eduardo Paes (PMDB) anunciou aumentos futuros todo ano, defendendo que eles devem ser encarados como algo tão natural quanto o réveillon, mesmo com reclamações dos moradores

Houve protestos e reclamações em praticamente todas as cidades, conforme é possível ler nos relatos acima, mas, em pelo menos duas delas, Teresina (PI) e Vitória (ES), a mobilização foi tão intensa que o custo político e o desgaste público podem fazer com que as autoridades revejam os aumentos - ou pensem bastante antes de propor novas mudanças. Na capital do Piauí, há mais de uma semana as principais avenidas da cidade têm sido fechadas por protestos. Na tentativa de controlar a indignação, a Polícia Militar tentou de todas as formas dispersar os manifestantes, sem sucesso. Mesmo com o uso de balas de borracha, bombas de gás, spray de pimenta e a Tropa de Choque, a situação saiu de controle. Em meio à repressão, manifestantes chegaram a incendiar ônibus. Na confusão, jornalistas relatam que têm tido o trabalho censurado e o fotógrafo Cícero Portela, de O Dia, conta que teve um cartão de memória levado por policiais após retratar imagens da repressão. Em Vitória também houve confusão e um ônibus foi incendiado.

Contexto
As redes sociais (#contraoaumento) ajudaram na troca de informações e na mobilização; mesmo com as cidades mais vazias os manifestantes, muitos deles estudantes, conseguiram organizar mobilizações e pressionar o poder público. A dimensão da revolta e o sucesso da mobilização contra o aumento não se limitam a troca de mensagens pela internet; ela tem um contexto e pode ser mais bem compreendido com base em dados de pesquisas divulgadas em 2011, que indicam uma desigualdade que se agrava ano após ano.

Nos centros urbanos, quem opta por (ou pode) andar de carro é uma minoria (leia o estudo da Confederação Nacional das Indústrias e o do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Apesar de congestionarem as ruas, poluírem o ar e causarem considerável impacto ambiental no meio urbano, são os motoristas que costumam ser mais beneficiados pelas políticas municipais e estaduais de transportes. As prefeituras e governos seguem priorizando investimentos na melhoria da infraestrutura para a minoria que utiliza transporte privado individual, seja apostando na construção de novos túneis e viadutos, seja investindo na ampliação de avenidas que já existem (aumentando a impermeabilização das cidades e agravando o problema das enchentes, registre-se), enquanto a maior parte da população utiliza outras meios para se locomover e sofre cada vez mais com isso. A falta de investimentos no transporte público resulta não só na precarização das linhas, como também, no aumento do custo para os usuários. É neste contexto em que os protestos acontecem. No Piauí, além do aumento, houve ainda uma tentativa de integração mal planejada, que incendiou ainda mais a situação.

Não foi só no plano municipal, porém, que o ano começou mal. No plano federal, apesar de ser um avanço importante a promulgação da Lei 12.587, que institui as diretrizes da Política da Mobilidade Urbana, dois vetos de última hora diminuíram a chance de saírem novas políticas públicas de incentivos fiscais para redução do preço das tarifas, conforme destacado no site tarifazero.org. A presidente Dilma Rousseff (PT) sancionou a lei, mas barrou os artigos que previam essa possibilidade.

Para entender melhor o valor das tarifas no transporte, leia: Ex-secretário de transportes defende tarifa zero

Colaborou a jornalista Gisele Brito, sempre atenta para questões relativas a transporte público. As imagens desta página foram feitas pelo cartunista mexicano Angel Boligan, e estão em exposição no fantástico site Irancartoons.com.

Sensores capazes de detectar chuva e neve ligados à semáforos estão sendo testados em Groningen, na Holanda. Os aparelhos alteram o tempo dos sinais conforme as condições climáticas, de modo a favorecer ciclistas em condições adversas. Com chuva ou neve, o sinal verde fica aberto por mais tempo para bicicletas e, quem está em veículos fechados, protegido do frio e da água, tem que esperar. A novidade tecnológica foi apresentada em novembro, com a ajuda de bombeiros que simularam a chuva. Se os resultados forem considerados favoráveis, as autoridades pretendem ampliar o sistema para outras ruas da cidade.

Na Holanda, bicicletas são parte da vida das pessoas e os testes de novas tecnologias para melhorar as condições para quem pedala fazem parte de uma série de avanços e aperfeiçoamentos dos sistemas de mobilidade já implementados. No Brasil, tais ideias podem ser aproveitadas por cidades em que já existem redes de ciclovias interligadas com sinalização específica, como Santos, no litoral de São Paulo, por exemplo. 

Para saber mais sobre como foram criadas as redes cicloviárias na Holanda, assista ao vídeo abaixo:



Para saber mais sobre pedalar no país, não deixe de conferir os seguintes posts no excelente blog do Daniel Duclos, brasileiro que vive no país e mantém um site bastante completo com informações bastante úteis:

Bicicletas são parte da vida dos holandeses
Bicicletas na Holanda: como comprar (e manter)
Dicas de como andar de bicicleta na cidade de Amsterdam

* Colaboraram Matias Mickenhagen, que viu a novidade neste blog em alemão, e Josi Paz, que indicou o vídeo com a história das ciclovias.


Cresci com carros em casa. Aprendi a dirigir ao fazer 18 anos e me acostumei com a ideia de que é ruim ou até inviável viver em São Paulo sem automóvel. A pressa que a cidade exige, suas ladeiras, a distância, a falta de segurança nas ruas, a "liberdade" de ter um carro e poder se deslocar com ele sempre e para qualquer lugar, a "precariedade" do transporte público... Ouvi todos os argumentos e nunca sequer pensei neles. Na verdade, não fosse o tempo perdido esperando em marginais e outras avenidas supercongestionadas, cansado de ser forçado a acelerar e brecar repetidamente sem poder fazer mais NADA, sufocado pela fumaça e pelo estresse, talvez eu nunca tivesse me questionado sobre todas essas "verdades". E talvez, não tivesse começado a me questionar se é realmente necessário ter um carro, não tivesse descoberto a bicicleta e o prazer de andar na cidade, não soubesse hoje que em muitos bairros a rede formada por ônibus e trens é rápida e eficiente, e não tivesse percebido todos os ônus resultantes de ter e manter um carro. A realidade começou a bater aos poucos. Se no final de 2005 eu já estava absolutamente cansado de viver no trânsito e de desperdiçar tempo e energia em uma rotina que não fazia nenhum sentido, demorou mais tempo para conhecer e construir alternativas.

"Não se trata de ser contra automóveis pura e simplesmente, mas sim de questionar o uso exagerado, irracional e rotineiro com o qual nos acostumamos."
Sempre pedalei, desde criança, mas até 2006 não tinha consciência do meu direito de ocupar a rua. Pedalava quase como se estivesse cometendo um crime, incomodando os carros. E, como tal, vivia encolhido, assustado. Pensava em caminhos como se estivesse dirigindo, buscava avenidas e os trechos mais curtos. Demorei para aprender a me locomover de bicicleta com segurança e prazer na cidade, a buscar ruas calmas, evitar alguns trechos. Aprendi a intercalar caminhadas com transporte público. E, aos poucos, fui deixando o carro mais vezes na garagem.

Em dezembro de 2010 desisti de vez de ter um carro em casa. Já não fazia mais sentido. Eu vivo no topo de um morro, em um bairro com poucas linhas de ônibus e a algumas ladeiras do metrô. Ouvi que estava sendo radical demais, que minha opção era inviável e que em pouquíssimo tempo eu voltaria atrás. Como fazer compras sem um carro? Supermercado? Como voltar para casa tarde da noite?

Todas os problemas se revelaram bem mais simples até do que eu esperava. Mesmo os que me provocavam alguma incerteza. Fazer compras mais vezes e em menor quantidade me levou a comer alimentos frescos e pensar sobre o que estou comprando. Viver mais devagar me fez viver melhor, pesar compromissos e em como e com quem eu comprometo meu tempo. A rotina de caminhadas e pedaladas me fez emagrecer e conhecer melhor meu corpo. Adquiri resistência física sem precisar de muito esforço. E, nas emergências ou momentos especiais, sempre dá para recorrer a um táxi ou alugar um carro - mesmo que isso seja feito com frequência, sai mais barato do que ter e manter um carro particular.

Não se trata de ser contra automóveis pura e simplesmente, mas sim de questionar o uso exagerado, irracional e rotineiro com o qual nos acostumamos - e ao qual somos educados a aprender como algo normal. Sem a gente perceber, a tal "liberdade" vira uma prisão sobre rodas, seja pela necessidade de buscar uma vaga para estacionar, seja por condicionar horários ao uso do veículo, seja por não poder parar para conversar com um vizinho. Hoje, sem carro, sinto muito mais liberdade quando eu dependia de um para tudo.

Após um ano desmotorizado a sensação é de que minha relação com a cidade mudou completamente. Descobri ruas e casas fantásticas que eu nem imaginava existirem - no bairro em que eu cresci e que achava conhecer muito bem. Redescobri o prazer em viver em São Paulo, em ir para o trabalho, em voltar devagar. Parar para tomar um coco ou uma cerveja no fim da tarde, no caminho de volta. Conversar com vizinhos, sorrir. Parei de me sentir constrangido em alimentar um sistema de fumaça, pressa e estresse que não faz e nunca fez sentido para mim.

Gosto da ideia de que, o modo de vida que escolhi, permite que crianças brinquem nas ruas.

Que 2012 seja um ano com menos carros, estresse, trânsito e poluição para todos os leitores do Outras Vias.

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A Velhinha de Higienópolis não acredita em nada e nem em ninguém. Ao contrário de uma prima distante de Taubaté, que ficou famosa por acreditar em tudo e que morreu em 2005, a Velhinha de Higienópolis nunca se deixou enrolar. Ela é tão desconfiada que, na padaria, sempre abre o saquinho para conferir se todos os pãezinhos que pediu estão lá. Quando o porteiro dá bom dia, às vezes, nem responde, de olho nas intenções do homem. Ela não vota por não acreditar em nenhum político. Até vai nas reuniões de condomínio, mas só para questionar o síndico. "Por que pintaram a parede de branco? A tinta estava mais barata? Posso ver a nota? O senhor é amigo do pintor?" A Velhinha de Higienópolis não conta a idade para ninguém e nunca se casou por não acreditar no amor.

Em 2011, a Velhinha de Higienópolis comprou um computador para começar a ler as notícias na internet por não acreditar nas TVs e nos jornais. Em nenhum deles. Acha os jornalistas todos iguais, uns mentirosos. Todos. Mas ela também não gostou muito dos blogs e nem das redes sociais. Na semana passada, recebeu um cartão virtual da neta, que nem abriu, achando que a menina havia enviado um vírus para invadir seu computador. Anda preocupada com o rumo do mundo e incomodada com essa troca de mensagens de esperança que circulam nesta época do ano. Depois de ler os votos de boas festas do vadebike.org e do grupo Pedala Manaus, ela decidiu escrever para o Outras Vias. A Velhinha de Higienópolis está indignada com as bicicletas e o Outras Vias, democraticamente, abre espaço para sua manifestação. O que, claro, ela duvidou que aconteceria.

Segue na íntegra a mensagem da Velhinha de Higienópolis, que pediu para não ter o nome divulgado por desconfiar de vocês todos.

"São Paulo, 22 de dezembro de 2011

Bicicleteiros de São Paulo,

É com grande consternação que escrevo. São Paulo é uma cidade falida e todos sabem disso. É tanto trânsito e falta de segurança, que, já faz tempo, nenhuma pessoa de bem pode andar tranquila na rua. Não tem solução, e todos sabem. O povo já acostumou com essa ideia de que não há o que fazer e é por isso que vivemos com tranquilidade. Quando as pessoas começam a sonhar, elas tentam transformar a cidade e isso é que é o mais perigoso. São Paulo, meus queridos, não tem jeito.

Andei lendo o que o senhor, seu Santini, e seus colegas no portal ((o)) eco andam escrevendo e quero criticá-los. Duvido que o senhor vá publicar minhas palavras, mas, ainda assim, gostaria de manifestar minha indignação. Sou contra vocês e todos os outros blogueiros que insistem em escrever, filmar, gravar e propagar ideias desta maneira descontrolada. Se tivesse o e-mail da sua mãe, escreveria para ela. Ao defender bicicletas, ao defender "ecocidades", ao defender florestas e preservação da natureza, os senhores estão só atrasando o progresso do Brasil. É isso mesmo. É preciso ordem e não ficar pensando nessas besteiras de animaizinhos e plantinhas, dando esperanças falsas para a população de que é possível avançar sem destruir a natureza. Viver bem é ser rico, ter um monte de bens, poder gastar, poder gastar sem pensar muito (grifo da autora). Preocupação com sacolinha de plástico, com reciclagem, com consumo de luz, faça-me o favor. Sempre foi assim e agora vocês querem agora mudar isso. Deveriam ser proibidos de escrever. Se fossem outros tempos em que as coisas eram mais sérias no Brasil, certamente seriam censurados.

Veja o caso de São Paulo. A cidade é poluída, suja e feia. Não adianta querer mudar isso. O que os governantes precisam fazer é garantir que tudo continue funcionando como sempre funcionou. A gente sabe a fórmula. Quando o trânsito fica insuportável, é só construir viadutos e pontes, cavar túneis, alargar avenidas. Tudo bem que, depois de um tempo, os congestionamentos ficam até piores - outro dia eu levei duas horas e meia presa no trânsito na Marginal Tietê, mesmo com aquelas onze faixas que fizeram de cada lado do rio. Mas é assim mesmo, essas coisas não têm solução. São Paulo é uma cidade rica e, para continuar se desenvolvendo, precisamos continuar asfaltando, ampliando as avenidas, abrindo espaço para mais carros. Abrir espaço para quem tem dinheiro e poder, só assim os ricos continuarão vivendo aqui. Deveriam proibir os pedestres e aumentar a velocidade nas ruas. Aí sim o trânsito ia fluir. Se a poluição ficar muito ruim, a gente instala filtros nas casas e nos carros. Se alagar por conta da impermeabilização excessiva, sempre dá para abrir mais piscinões. 

O que não dá é para ficar com essa ideia de poeta de que dá para caminhar nas ruas. De bicicleta é pior ainda. É perigoso, menino. Se fosse só você e mais um grupinho, eu nem gastaria meu tempo escrevendo. Mas, não contentes em ficar para lá e para cá com essas bicicletas coloridas, iludindo as pessoas de que dá para ser feliz e ter uma vida saudável em São Paulo, vocês ainda começaram a criar associações e cobrar o poder público. Que absurdo! E o pior é que as prefeituras, não só de São Paulo, mas de várias cidades do Brasil, começaram a construir ciclorrotas, a diminuir a velocidade do trânsito, fazer campanhas de respeito aos pedestres. Logo mais vão querer crianças brincando nas ruas de novo. Aqui não é a Europa!

Tudo bem que não deixaram de priorizar os carros, que a maior parte do dinheiro continua sendo investido em avenidas e obras parecidas. Mas, se vocês continuarem chamando a atenção para isso, logo mais vão querer que, em vez de túneis, comecem a cavar metrôs. Falaram até em uma estação em Higienópolis! Absurdo!!! O que vocês querem? Mais ônibus? Que a gente que tem dinheiro deixe de andar de carro e passe a viver mais na cidade? E a nossa segurança? Eu vou ter que ter contato com outras pessoas? E se tentarem me enganar na hora de pagar a passagem? Eu, hein.

Menino, juízo. 

Velhinha de Higienópolis"

* O desenho é uma ilustração feita pelo amigo Valdinei Calvento a partir de fatos reais. A Velhinha de Higienópolis naturalmente não aceitou posar para uma foto. Clique aqui para ver mais do trabalho deste artista.

Neste final de semana, cerca de 2.800 pessoas viajaram de São Paulo até Santos sem gastar combustível ou dinheiro para o pedágio, sem poluir e causar impactos na natureza. Entre os ciclistas que se animaram a percorrer quase 100 km utilizando somente a energia do próprio corpo, a enfrentar a garoa leve e a lama nos limites de São Paulo, está uma novata que, a pedido do OutrasVias, escreveu um relato sobre a experiência. Como de costume, a Rota Márcia Prado, que leva este nome em homenagem à cicloativista morta atropelada por um ônibus em 2009, foi organizada pelo Instituto CicloBR, que, mesmo com a resistência da concessionária Ecovias (leia mais sobre ecovias de verdade), segue pressionando para que o caminho seja oficializado. Assim como em 2010, o roteiro deste ano foi um sucesso.



Rota Márcia Prado, minha primeira cicloviagem
Por Paula Aftimus

"As bicicletas não gostavam de mim. Sempre se mostravam distantes, impacientes e indiferentes ao meu desejo de pedalá-las. Eram amigas dos outros, não minhas. Aos 6 anos de idade, uma rodinha a menos e zero sucesso em me manter equilibrada, desisti de cativá-las. 'Não faço questão, mesmo...'

Toda a minha infância e adolescência depois tentei, novamente, conquistá-las. Nada. Já na faculdade, observava, encantada, aqueles que se davam bem com as bikes. Acenava, de longe, a grupos de ciclistas, às vezes recebendo um tchauzinho de volta, às vezes sendo ignorada. Quem sabe um dia eles me acolheriam? Já formada, madura o bastante para não mais me fazer de vítima e preparada para outras negativas, decidi que era hora de encarar as bicicletas de frente. Pedi ajuda, engoli minhas inseguranças e, aos 25 anos, lá estava eu: pedalando!

Foi um começo de relação complicado. Elas deixavam claro que éramos apenas colegas. Mas, aos poucos, fui ganhando a confiança das bikes. Primeiro, passando por uma ponte estreita; depois, tirando uma das mãos do guidão (não precisava mais parar para arrumar os cabelos!), até conseguir pedalar junto dos carros. Tudo isso com a ajuda de gente que, há anos, já se dava bem com elas. Gente que nos apresentou, ficou ao nosso lado até nos entrosarmos, viu afinidades que nem sabíamos que tínhamos. Éramos, enfim, amigas.

O problema é que eu gostava delas cada vez mais. Comecei a pensar em como passar mais tempo ao lado dessas magrelas tão interessantes. Arrumava desculpas esfarrapadas para vê-las. Meus amigos, mais próximos dos carros, começaram a se preocupar. Nem liguei. Decidi comprar uma bicicleta. A minha bicicleta. Não tinha mais volta. Mas... será que meu amor seria correspondido?

Sim! Nesse final de semana, depois de ter usado minha bike por apenas 30 Km, num sábado à noite, na ciclovia do rio Pinheiros, decidi descer de São Paulo até Santos, no 3º Passeio Cicloturistico Rota Márcia Prado. Seria o ponto-chave da nossa relação: ou ela me amaria de volta ou eu ficaria traumatizada, odiando magras, velôs e camelos pelo resto da vida. Mas ela me amou! Minha bike me ama naquele estágio que a gente nem mais discute se é namoro ou amizade. É para sempre mesmo.

Ela me salvou de ônibus grosseiros e calçadas esburacadas no Grajaú; enfrentou chuva e lama comigo e, sem reclamar, ainda me segurou firme e forte a cada pedra solta na Ilha do Bororé; deixou que eu me sentisse dona do mundo, sem medo e sem freio nas descidas da Estrada de Manutenção da Imigrantes; foi paciente com minha fome, meu cansaço e minhas dores a cada subida, a cada caminho que, no final, parecia não ter fim.


Balsa lotada de bicicletas na Ilha do Bororé, nos limites de São Paulo


Aperto na hora de fechar de partir, tantas as bicicletas enfileiradas


Todo mundo ainda limpo, antes do trecho com barro

Foi incrível estar entre os quase 3 mil ciclistas que, conscientes disso ou não, ajudaram a reforçar o direito de poder ir e vir de bicicleta – de São Paulo a Santos ou de qualquer lugar a qualquer lugar. Foi lindo ver tanta beleza natural num caminho cheio de verde, flores e vida. Foi extremamente cativante e inspirador sentir, a cada quilômetro, a paciência, a compaixão, a irmandade e a tolerância de estranhos que, por uma ladeira ou a partir dela, se tornaram amigos. Mas, mais do que tudo isso, o que ficou desse sábado foi a descoberta, surpreendente, de que eu consigo chegar muito mais longe do que acreditava que pudesse. A consciência de que meu corpo, minha cabeça e minha bike aguentam, sim, o tranco.


Ciclistas lotam o acostamento na Imigrantes
 

Lama e asfalto molhado

E, se ainda tiver espaço nesse post...
... obrigada ao Fabricio e ao Ivan, que compartilharam cada segundo do ápice dessa história de amor, acreditando que tudo daria certo, sempre. Obrigada ao trio Tarcila, Gonza e Siqueira, que não estavam nem aí para mim e minha bike nova e que, justamente por isso, me fizeram sentir que pedalar 80 Km era tão fácil e habitual quanto pedalar até a padaria. Obrigada à Renata, ao Sussa e a tantos outros que organizaram essa aventura toda, num esforço voluntário e apaixonado, para que gente como eu quisesse e pudesse repetir esse final de semana no próximo e no próximo. Obrigada Talita, Aline e Odin simplesmente por olharem para mim como se eu jamais tivesse desistido de pedalar lá quando tinha 6 anos de idade. E obrigada ao Daniel, por entender e topar esse ménage tão lindo e transformador!"


A primeira etapa do calendário paulista do Audax de 2012 aconteceu neste final de semana em Boituva, no interior de São Paulo. Dos 127 ciclistas inscritos, 95 se dispuseram a tentar completar 200 km em menos de 13h30 e os demais 32, a cumprir o desafio de 120 km, um teste para provas mais longas no futuro. É difícil definir o que é o Audax. Não se trata exatamente de uma disputa, já que cada um enfrenta apenas o relógio e não os demais participantes. Quem consegue cumprir a meta se habilita a, nos meses seguintes, tentar os 300 km. Quem completa os 300 km, se credencia para os 400 km, e daí por diante os 600 km e, finalmente, os inacreditáveis 1.200 km. Cada etapa tem um tempo máximo específico.


Mas o Audax está longe de se limitar a um teste de resistência à distância. O Audax tem muito a ver com solidariedade. Porque, quando você descobre entre pessoas que estão testando limites, disposição para parar e ajudar, todo resquício de competitividade, aquela vontade de chegar primeiro e “ganhar”, vai para o espaço. Os verdadeiros vencedores do Audax são os que ajudam o máximo de participantes possível a completar a prova, afinados com o objetivo da organização de “promover, incentivar e aplaudir os esforços daqueles ciclistas que desejam testar seus limites pessoais, combinando o prazer de passear com as demandas de ciclismo de longa distância”.

Descobri isso de cara no meu primeiro Audax, em meio às subidas e descidas infinitas de Boituva. Havia pedalado uns bons 80 km com apenas uma parada no primeiro posto de controle quando aconteceu. Veja bem, não me considero atleta, uso a bicicleta apenas como transporte em deslocamentos diários que, somados, não passam de 14 km, me sinto estranho com roupas coladas no corpo, detesto lycra e tenho uma bicicleta bem mediana com um bagageiro pesado atrás (do qual não me separo nem em provas como esta). Poxa, fazer 80 km em um bom tempo era um tremendo começo! O máximo que eu havia pedalado antes em um ritmo constante assim eram 100 km - em uma competição bem mais idiota, com gente disputando mesmo e olhando torto para mim e minha bicicleta, dois estranhos àquilo tudo.

Foi quando o pneu da frente cedeu. Se você nunca viu um pneu ceder antes, talvez nem entenda. Os arames que mantém a estrutura do pneu se separaram em determinado ponto. A pressão da câmara empurrou a borracha para fora e eu reparei no calombo na lateral do pneu. Aquela deformação agüentou um pouco, até que, em uma descida agradável, BUMMMM. A câmara simplesmente explodiu. Eu troquei ela, tentei mais uma vez e, BUMMM. Ainda restava uma câmara e eu não iria desistir tão rápido. Virei a bicicleta de ponta cabeça, a garrafinha de água soltou, bateu no chão e o bico quebrou. Pronto, além de duas câmaras, eu havia perdido metade da minha água faltando ainda 20 km para o próximo posto de controle (onde havia bananas, maçãs, sanduíches, água e energéticos). Estava sozinho na estrada.

Respirei fundo, olhei o relógio, e comecei a trocar a câmara de novo, apesar da sensação de que aquilo iria resultar no terceiro BUMMM seguido. Foi quando apareceram o Renê e outro camarada do qual não sei o nome. “Quer ajuda?” Disse que não precisava, mas, em todo caso, perguntei se eles não tinham um pneu reserva. “Câmara, você quer dizer, né?”. Não, era meu pneu que tinha rasgado mesmo. Rápido, habilidoso, o Renê tirou a roda da minha mão e trocou a câmara. Encaixamos tudo e saímos para pedalar devagar. PLUC. A bolha apareceu de novo na lateral em segundos, e o Renê, sensato, me parou antes que eu estourasse a terceira e última câmara que tinha. Esvaziamos a pressão e... ficamos sem opção. Sem pneu a 20 km do segundo posto de controle, onde TALVEZ eu conseguisse ajuda, eu estava praticamente fora do Audax. Tive que empurrar os dois para frente para que eles não perdessem mais tempo comigo e avisei que caminharia o percurso para pegar uma carona e voltar para Boituva.

Não desisti. Comecei a fazer uns cálculos malucos na cabeça. Se eu corresse empurrando a bike, talvez chegasse em tempo ainda. Correndo a uns 10 km/h, eu chegaria lá em duas horas. Tentei, mas algumas centenas de metros depois, eu já estava a uns 8 km/h (o relógio da bike mede a velocidade) e com a língua quase arrastando no asfalto. Foi quando chegaram a Teresa e outro amigo que já havia passado aperto semelhante em uma viagem em Curitiba. Foi ele, cujo nome não consegui guardar nesta confusão toda, um dos que mais ajudou.

“Vocês têm pneu?”

Ele tinha, mas era um de aro 700, bem mais largo do que a minha roda. "Valeu, gente, podem seguir, não percam tempo comigo. Não vai dar". Os dois também resistiram, mas seguiram em frente. Eu fiquei sozinho, empurrando a bicicleta, olhando para baixo, não acreditando que meu primeiro Audax terminaria assim, em uma longa e quente caminhada de 20 km no asfalto. Comecei a olhar pedaços de pneus velhos de caminhões largados no acostamento e pensar... E se eu amarrasse um pedaço dentro do meu pneu? Será que explode também?

Foi quando esse cara voltou. A silhueta lá longe na estrada primeiro me confundiu. Ele vinha no sentido contrário! Ei! “Tive uma ideia. E se a gente tentasse encaixar o meu pneu ao redor do seu? De repente, dá para ele conter a câmara que está saindo, sei lá”. E ele me estendeu o pneu. Aceitei com a condição de que ele seguisse em frente e não perdesse mais tempo. Eu tentaria sozinho acertar a gambiarra. A gente já estava ficando atrasado demais. Tic, tic, tic, tic.

Improviso
Primeiro tentei enrolar o pneu por fora. Não deu certo, ficou folgado demais e sequer prendeu na roda. Pensei em encaixar o pneu por dentro. Eu, que havia tido o cuidado de uma semana antes ir na Mão na Roda para tentar superar minha falta de habilidade com troca de pneus justamente pensando no Audax, comecei a, desajeitadamente, colocar um pneu de aro 700 dobrado dentro de um pneu de aro 26, de modo que a parte frágil ficasse coberta internamente. O suor tampava meu óculos, o asfalto ardia. Aí veio o mestre Silas. Ninguém é mestre à toa. O Silas já completou os 1.200 km que eu citei no começo e é um dos audaciosos mais experientes do Brasil. O que ele tem de magro e elegante, tem de gentil e solidário. Um baita cara. Ele estava para trás justamente pelo cuidado de ajudar outras pessoas. Havia parado, certamente mais de uma vez, apesar de nem ter comentado nada a respeito.

Expliquei para ele a complicada engenhoca que eu estava montando e ele assumiu o trabalho. Encaixamos a roda e ficamos olhando, o pneu meio estranho, a parte solta ainda quase querendo pular para fora. “Vamos ver o que tenho aqui”. E ele abriu o alforje na grama, deixando cair uma confusão de peças, espátulas, câmaras, borrachas e... enforca-gatos! São aqueles garrotes que servem para prender fios. Eles seriam perfeitos para evitar que a bolha surgisse de novo e talvez desse para pedalar os 20 km que faltavam. Amarramos um atrás do outro, envolvendo a bolha. Enchemos a câmara novamente, primeiro pouquinho, depois mais. Mais ciclistas apareceram dispostos a ajudar, uma mulher de origem japonesa estendeu uma fruta seca salgada, disse que era o que os samurais comiam. Ganhamos energia.

E eu consegui voltar a pedalar, sem fones de ouvido agora, sem música, sem freio da frente (que não fechava mais devido à gambiarra), sem relaxar diante da possibilidade de o pneu explodir de novo e eu cair de cara no chão. O Silas me acompanhou um bom tempo, até ter certeza de que o improviso funcionaria. Depois foi embora, preocupado em alcançar a Teresa e ajudá-la a ter forças para completar o Audax. Vento contrário na cara, sol a pino, sem água, a roda exigindo mais esforço que o normal, desesperado em chegar antes do posto de controle fechar. Foi o momento mais difícil.

Foi quando, suando, desesperado para encontrar o posto, um pouco desorientado, apareceu mais um anjo na viagem, este de nome Vinicius Correia. “O posto de controle é ali, ó. Vou lá com você. Eu ia tentar fazer os 100 km que faltam, mas vou desistir. Estou cansado demais”. “Certeza?”. “Certeza.” “E... você me emprestaria sua roda? Ela é igual a minha...”. Deu certo. Inacreditavelmente, deu certo. Cheguei faltando 4 minutos para o horário estipulado como limite. Carimbei o passaporte e troquei de roda com este novo amigo, que confiou e emprestou não só o pneu, mas a roda inteira para alguém que ele nem conhecia. Solidariedade.


Atrasado, disparei de volta para Boituva. A disposição de todos que ajudaram era combustível para que eu recuperasse o tempo e conseguisse completar a prova. Tanta gente gastou tempo e energia comigo, eu tinha que conseguir. Com a roda nova, fiquei sem o medidor de velocidade e distância, mas eu precisava ir rápido e tinha o vento a favor. Não pensei muito. Pedalei, pedalei, pedalei.

E só consegui porque, além dos que pararam para ajudar no aperto, teve também o apoio dos que encontrei antes e durante o percurso. Contei com as dicas do Toni para beber água sempre, observar o que o meu corpo pedia (“boca seca é sinal de desidratação, tremor é sinal de falta de energia”) e tomar cuidado com as tartarugas no acostamento. Com o cuidado do China para que eu e outro colega não errássemos feio o caminho bem no final. E com os melzinhos em saquinhos que um desconhecido meu deu ao pedalar do meu lado. “Reponha a energia antes de você sentir fome, você vai ver a diferença".


Foto: Toni

Contei com os amigos que já tinha, conheci amigos que até então eram só virtuais (né, Frizzo?) e fiz amigos novos. Fui ajudado e acho até que, mesmo todo atrapalhado e ainda aprendendo o que é o Audax, consegui ajudar algumas pessoas. No espírito do Audax!


Foto: Toni



O portal ((o)) eco tem publicado reportagens aprofundadas sobre mobilidade urbana e bicicletas em Londres, na Inglaterra. Com a intenção de aproveitar as Olimpíadas de 2012 para melhorar a qualidade de vida da população, a Prefeitura deu início a uma série de experiências que incluem o aprimoramento da rede cicloviária local e dos sistemas de aluguel de bicicletas. Em um dos textos produzidos para ((o)) eco como parte do projeto Cidade para Pessoas, a jornalista Natália Garcia já descreveu a “revolução das bicicletas” defendida pelo prefeito Boris Johnson. Ele pretende aumentar em 400% o uso de bicicletas nas viagens diárias na cidade até 2026, ou seja, ter 1.5 milhões de deslocamentos de bicicleta por dia na cidade. O prefeito diz que a ideia é tornar Londres "uma cidade 'ciclável', onde as pessoas possam pedalar em um ambiente amigável às bicicletas: seguro, agradável e simples”. Leia a reportagem clicando aqui: De bicicleta em Londres, um caso de amor.

Desta vez, dando continuidade ao acompanhamento das experiências em curso em Londres, ((o)) eco e o blog Outras Vias apresentam o relato do ciclista brasileiro Fernando Carignani, que está vivendo na cidade e tem utilizado a bicicleta como transporte. No depoimento abaixo, ele conta sobre os primeiros 320 km de duas semanas pedalando na Inglaterra.


 
De bicicleta em Londres

Por Fernando Carignani


"Após alguns anos de reflexões e excesso de prudência, finalmente estou realizando algo que pedalava em meus pensamentos desde a adolescência: passar um período no exterior e vivenciar outra cultura. Diferentes hábitos, outro idioma, comportamentos inesperados, clima e paisagem distintos.



 
Vivo em Londres há pouco mais de três meses e a prioridade do momento é estudar inglês. Ainda não trabalho e vou sobrevivendo de economias nesta cidade de custo de vida alto que devora reais. A libra esterlina está cotada em torno de R$ 3. Sim, notadamente uma cidade cara, mas com virtuosa infraestrutura para transporte público. Com 9 milhões de habitantes e favorecida pela topografia plana, ela tem 12 linhas de metrô que se interligam constantemente, e outras tantas de trem e ônibus em inúmeros trajetos chegando aos pontos entre 5 a 10 minutos. Esta cidade dinâmica fundada há 2 mil anos pelos romanos deve sua incrível mobilidade a seu passado, quando se viu populosa e pulsante antes do advento do automóvel e, por isso, hoje, possibilita a seu morador ou turista o abandono do uso do carro.

Há duas semanas comecei a pedalar assim que recebi em casa uma bike híbrida de alumínio, comprada via internet por bem gastas 210 libras, já que veio com bagageiro, bomba, banco confortável, proteção para corrente, para-lamas e 21 marchas. Um pequeno dínamo, quando em contato com o pneu traseiro, alimenta o farol e a luz vermelha na traseira.


A primeira experiência pedalando foi numa manhã qualquer, indo para aula. Preocupado com o fluxo de veículos, que aqui se movem pelo lado esquerdo das ruas, ia me acostumando com a bike nova e com o ritmo do trânsito local. São poucas as avenidas largas e extensas, o que implica numa menor velocidade média dos carros. Há congestionamentos, claro, mas nada desesperador como numa sexta-feira encarar a Avenida Paulista em qualquer sentido. Motoristas apressados e que vão de 1ª a 4ª marcha num de espaço de 50 metros são raros. O trânsito, em geral, flui.

Já fora do bairro e dentro da “garrafa”, com é chamada Central London pelo formato que algumas linhas formam no mapa do metrô, comecei a notar e interpretar o comportamento dos motoristas. Para meu deleite percebi que eles mantêm distância segura dos ciclistas. Os veículos não são utilizados como uma ferramenta para amedrontar aquele que pedala. A Bus Lane, além de ônibus com um ou dois andares, também é  utilizada por táxis e bicicletas. O ciclista se mantém à esquerda, respeita as leis de trânsito e sem qualquer confronto tem preferência para embalar após o sinal abrir, para entrar em travessas ou cruzamentos. Por bem conhecer o que é pedalar pela cidade de São Paulo é surreal escrever isso, e talvez difícil de acreditar, mas aqui a bicicleta é respeitada de acordo com seu porte e desempenho. Ela é parte de um range de opções de transporte, sendo apenas mais uma alternativa. Por a bicicleta já ser uma realidade na Europa à época da chegada dos carros particulares, seus motoristas devem ter entendido que seu espaço deveria ser garantido, afinal, provavelmente eram ciclistas antes de comprarem um automóvel.


Nessa primeira pedalada rodei 23 km saindo do Norte da cidade, de Crouch End, com destino a Barons Court, no Sudoeste. No trajeto lógico e retilíneo seriam apenas 15 km, mas após deixar cair do bolso o pequeno guia de ruas pedalei por mais de uma hora tentando me achar em bairros ainda desconhecidos. Era o típico ciclista chato, lerdo, inseguro e olhando por cima dos carros em velocidade e traçado irregulares, buscando a direção correta. Ainda assim, em momento algum fui xingado, pressionado, provocado, ameaçado ou sequer gerei reações impacientes de qualquer natureza nos motorizados que compartilhavam comigo o asfalto do centro da cidade.


Em uma cidade inundada por usuários de bicicletas de todas as idades e que as utilizam principalmente como meio de transporte urbano, em pelo menos 3 dias na semana uso a magrela pra ir estudar, sem contar quaisquer outras atividades. Após duas semanas o ciclocomputador já acumula 320 km iniciais de alguns milhares que devo rodar por aqui."


Qual sua reação ao encontrar no meio do caminho trinta pessoas se deslocando da mesma maneira que você?

a) Felicidade em poder conversar durante o trajeto e ter companhia.
b) Desespero com a perspectiva de chegar atrasado e ficar preso sozinho isolado em meio a um mar de buzinas e fumaça.

Dificilmente, quem se locomove de carro opta pela primeira opção - mesmo que as outras 30 pessoas sejam todas conhecidas, familiares e amigos. Encontrar 30 carros no caminho não costuma ser uma opção agradável. Dá vontade de evitar o problema, ultrapassar, acelerar, negar, resolver aquilo o mais rápido possível. Simplesmente completar o deslocamento, seja ao custo que for. A velocidade passa a ser o fator principal. E a tendência é cobrar que as pistas sejam alargadas, que novas pontes, túneis e viadutos sejam construídos (mesmo que, no futuro, isso abra espaço para 60 carros no caminho e torne o deslocamento ainda mais lento e o ar ainda mais sujo). A prioridade é resolver o problema imediato. É a fluidez pura e simples.

Quando você transita, está ocupando espaço. A escolha e a decisão sobre como trafegar afetam não só sua visão sobre a cidade, como influenciam a própria formatação da cidade. Optar pelo uso diário, cotidiano e banal de automóveis é optar por mais avenidas e asfalto. Em cidades em que nem sempre existem alternativas satisfatórias como transporte público de primeira e/ou segurança para deslocamentos de bicicleta, a tendência é mais e mais gente optar pelo transporte individual motorizado. E a cidade se tornar mais e mais inviável.

No lugar de restaurantes simpáticos, padarias, escolas de natação, de música e bibliotecas, surgem e prosperam estacionamentos, oficinas e lojas para instalação de películas escuras e potentes aparelhos de som. As ruas se esvaziam de pessoas - e permanecem cheias de automóveis parados. Os prédios também. Vazios de pessoas, cheios de automóveis parados; alguns com cinco andares de vagas. Em quantos prédios o espaço de lazer, as quadras e os jardins são maiores do que o espaço reservado para os carros? Uma árvore ocupa o espaço de uma vaga.


Este caminho leva ao colapso. O apocalipse motorizado é formado por congestionamentos, gente infeliz e ar sujo. Não importa quanto dinheiro se investe para ampliar o sistema, para melhorar a eficiência, para deixar as ruas mais rápidas, nada dá certo. É a história de São Paulo, mas também a de Los Angeles e a dos principais centros urbanos que apostaram em priorizar o transporte individual motorizado.


Há caminhos alternativos, no entanto, e um deles é procurar ocupar as ruas de maneira diferente. Descobrir o prazer de não só completar rapidamente o percurso, mas de percorrer com calma a cidade; tentar aprender a encontrar outras vias; combinar ônibus e trens com caminhadas; pedalar, dar e receber caronas. Não precisa nem ser todo dia. Mas se, de alguma forma você encontrar um jeitinho de diminuir o uso de automóveis, já está ajudando. É óbvio que, para mudanças efetivas, é preciso também envolvimento do poder público. É necessário priorizar investimentos em transporte coletivo em detrimento do individual. É necessário que o cidadão tenha mais e mais opções, possa escolher. 

São duas frentes paralelas que devem acontecer de maneira conjunta. Uma depende da outra. E, para avançar na construção de outra mobilidade urbana, é preciso ocupar a cidade com prazer, entusiasmo e felicidade (em vez de com fumaça, estresse e cansaço).

Leia "Ocupar a Av. Paulista para dar visibilidade à Praça d@ Ciclista" e confira a página da Bicicletada de São Paulo
E, se este texto não o convenceu, consulte o trânsito em São Paulo direto na CET para escolher o seu melhor caminho (devido a problemas de tráfego o site nem sempre funciona...)

* As fotos que ilustram esta reportagem foram tiradas na manhã desta sexta-feira, 25 de novembro de 2011. Cof, cof.



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