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Copos e embalagens plásticas comuns em praias urbanas representam ameaça de morte a animais marinhos. crédito: Celso Calheiros

Copos e embalagens plásticas comuns em praias urbanas representam ameaça de morte a animais marinhos. crédito: Celso Calheiros

Ao se consumir um refrigerante ou um picolé na praia, é importante considerar o perigo que o copo ou a embalagem plástica representam. Os resíduos sólidos que fazem vítimas na vida marinha são de responsabilidade exclusiva da atividade humana e, muitas vezes, individual. Uma prova é a agenda da professora Rosilda Santos, do Departamento de Morfologia e Fisiologia Animal da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) que esse ano foi mais requisitada do que outros para procedimentos além do campus universitário – ou socorrendo uma tartaruga marinha encalhada ou participando de um procedimento cirúrgico para recuperar outro quelônio.

E o lixo está sempre entre as causas dos males que afetam esses animais marinhos conhecidos pela sua resistência. Rosilda conta que mesmo quando o socorro se dá por outra razão, a sua experiência recomenda investigar se o animal ingeriu algum resíduo plástico. “Já tratamos de uma tartaruga com um abscesso causado por um arpão e aproveitei a anestesia para retirar lixo do animal” recorda a professora, especialista em anatomia.

Embalagem de picolé é um dos resíduos mais frequentes nas praias nordestisnas. crédito: Celso Calheiros

Embalagem de picolé é um dos resíduos mais frequentes nas praias nordestisnas. crédito: Celso Calheiros

As tartarugas são mais suscetíveis a incidentes envolvendo plásticos, explica a professora Rosilda, porque elas têm pouco paladar, não sabem o que estão ingerindo. E outro agravante. “O pulmão das tartarugas é praticamente colado à carapaça o que torna mais difícil a movimentação do órgão caso ocorra alguma obstrução”, aponta.

Normalmente são tartarugas jovens as vítimas dos incidentes com os resíduos plásticos. A professora Rosilda ensina que, quando jovens, esses quelônios são onívoros e somente na maturidade passam a ser herbívoros. A ingestão de pequenos pedaços de plásticos, como fração de um canudinho ou um filme plástico que foi utilizado em alguma embalagem, leva a morte do animal.

Essa fraca sensibilidade no palato, nota Rosilda Campos, também é verificada em ruminantes, que formam outro grupo de vítimas de resíduos sólidos. “No caso dos ruminantes, os plásticos ficam entre os dois estômagos dos animais e causam mal estar, apatia, o peso da digestão nunca concluída”, conta.

O Recife tem cerca de onze quilômetros litoral e duas grandes praias, Pina e Boa Viagem. Por dia, são recolhidos coisa de 15 toneladas de resíduos (incluindo os que os banhistas depositam nas lixeiras). A operação de limpeza urbana também é integrada por 54 garis. O que eles não conseguem coletar, é retirado por duas máquinas que peneiram a areia.

Ponta de cigarro e canudinho usado na areia são inofensivos. No estômago de uma tartaruga é morte certa. crédito: Celso Calheiros

Ponta de cigarro e canudinho usado na areia são inofensivos. No estômago de uma tartaruga é morte certa. crédito: Celso Calheiros

Prevenir é melhor do que limpar. Outro grupo de usuários das águas do mar adotou novas práticas. As operadoras de mergulho, empresas com uma relação mais, digamos, simbiótica com a vida marinha, deixaram de usar copos plásticos e outros descartáveis. Agora oferecem, a cada mergulhador, um copo em plástico rígido (ou tipo telescópico) como brinde. Os funcionários das operadoras possuem um copo também plástico com o nome escrito, conforme depõem informalmente o pessoal da AicáDiving, em Porto de Galinhas, ou Atlantis, em Fernando de Noronhas, ou Ecoscuba, em Maceió, Alagoas.

Vale o bom princípio: a ação deve ser local (a sua praia), que o resultado será global. Afinal, tartarugas e outros seres marinhos são do mundo. Como os golfinhos e as baleias. Novos estudos apontam esses cetáceos como novas vítimas de resíduos. Em 2008, 134 tipos de redes foram encontradas em duas cachalotes, na Califórnia, Estados Unidos. Em 1999, uma baleia de Cuvier tinha 33 quilos de plástico no corpo e morreu em Biscarrosse, França. Os estudos foram apresentados ao comitê científico da Comissão Baleeira Internacional (CBI).

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