Wanderley, filho do Brasil PDF Imprimir E-mail
27/01/2010, 14:48

 
Ao tirar os olhos do visor, quase esbarrei em Wanderlei Vargas. Ele estava a dois passos do tripé, calado e imóvel. Chegara sem o menor ruído, embora pisasse em folhas secas. Ficou em silêncio até ver que não iria atrapalhar o trabalho alheio. Aí, sim, era hora de perguntar: “O senhor tem licença para sair por aí fotografando sozinho?”

A autorização custou a sair do bolso e estava meio desfeita pelo suor. Ele conferiu o timbre sem desdobrá-la. E se deu por satisfeito. Usava crachá no peito, enganchado na camiseta, mas não posava de autoridade. Falava baixo, num tom que só o mato pode dar à educação de quem passa a vida fazendo com o menor barulho possível, porque vive entre vizinhos desconfiados e de ouvidos atentos.

Dali para a frente, passamos a nos esbarrar quase diariamente, um indo, outro vindo, no mesmo caminho, em pontos diferentes. Ele tinha sempre, nessas ocasiões, uma novidade a apontar. O caminho de uma peroba centenária. Um pássaro escondido na folhagem. A cobra caninana tomando sol no meio da estrada.

Às vezes, seu desembaraço como mateiro fica embaraçoso a quem também acha que anda sempre por ali de olhos abertos. “Está vendo aquele poste?” Não. Era de concreto, hegagonal, mas espetado como estava na orla da trilha, como relíquia de uma antiga fundição, ele aabara tão embrulhado por epífitas e pelos cipós que se camuflara com as árvores. “É ôco. Tem ninho de cutia. Todos os postes daqui até a sanga pode ver que têm cutia morando dentro”.

Uma vez, comentou que naquele mato devia ter morado muita gente, porque às vezes encontrava “lá dentro” restos de tijolos e de alvenaria. Isso não parecia possível. Pelos relatórios técnicos que serviram de base aos projetos de administração, aquilo sempre foi “área de pequena ou mínima intervenção humana”. Ele não retrucou. Dias depois, num fim de tarde, encerrado seu expediente no Macuco Safari, embrenhou-se pelos da trilha para “mostrar uma coisa”. No meio da vegetação cerrada, havia mesmo restos de um forno a lenha e um poço cercado de tijolos maciços, verdes de líquem. Encerrrou o assunto sem dizer palavra.

Está no atual emprego há dois anos e meio. Antes, fez de tudo muito. Domou cavalos, abriu pastos, derrubou matos, colheu algodão em Palatina, vendeu produtos eletrônicos em loja no Paraguai. Correu muito sem nuna ir muito longe de Cascavel, onde nasceu, zanzando de emprego em emprego pela fronteira escancarada da região. Aos nove anos, abordava os turistas argentinos que desciam do ônibus em Foz do Iguaçu, vendendo panos de prato e quadros feitos com asas de borboleta. Para isso, o irmão mais velho ensinou-lhe o essencial do ofício de camelô: “Dibujo de mariposas”, “cien pesos”.

Criou-se em Matelândia, do lado de lá do parque. É uma das cidades que enconstam em seus limites pelo eixo da BR-277. E muitas vezes andaram às turras com ele. Os Vargas viviam num sítio rústico, onde a luz era de lamparina e o banho, de rio barrento. Hoje a propriedade, de sete alqueires, além de água corrente e eletricidade, tem um alqueire meio de mata restaurada, e por isso o rio é limpo. “Ainda bem que estão obrigando as pessoas a recuperarem a mata, senão cortavam tudo”, ele admite.

Para saldar a hipoteca do sítio, trabalhou com o irmão dois anos e tanto para um fazendeiro libanês no Paraguai, que remetia todo ganho no mês à família em Matelândia. “Eu comia inhame, sal de gado, que é mais barato, e teiú, que é fácil de pegar”, ele conta, para retificar a afirmação de que nunca havia posto carne de caça na boca. “De lagarto, botei sim”.


Saiu de casa aos 12 anos, despachado pela mãe, “que só queria saber do filho mais velho”. Levou “duas camisas e o dinheiro do ônibus”. Foi parar em Palotina, paras os lados de Guaíra, onde dormiu duas semanas no cemitério, porque “era mais seguro e não chovia debaixo das casinhas”, até pegar o primeiro contrato num caminhão de bóia-fria. De colheita em colheita, acabou se arrumando na vida. Tirou o diploma da sexta série depois dos 18 anos. Só foi provar a primeira cerveja aos 22. E agora, aos 37, quando acha filhos de animais silvestres extraviados, leva para os biólogos criarem e devolve à natureza.

Descende de lavradores que ajudaram a desmataram o sertão do Paraná. E está cuidando de um parque nacional. Nessas horas, até parece que o mundo tem jeito.
Comentários
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autorização
Victor Andrade 28/01/2010 15:50:59

Aqui é Victor Andrade fotógrafo.
Li esta sua coluna "Wanderely filho do
Brasil" achei excelente, gostei muito, mas logo no começo me chamou a
atenção o fato do tal Wanderlei aparecer para pedir uma autorização para
sair fotografando sozinho e que você a possuia.
Não identifiquei de imediato
onde você estava, mas desconfio que era no Macuco Safari, que é uma area
particular, mas que atua num parque Nacional, o do Iguaçú. Como membro da
recém criada AFNATURA, Associação dos Fotógrafos de Natureza, tenho
acompanhado os desmandos do ICMbio pelos parques nacionais e o relato de
fotógrafos reclamando de terem sido expulsos de areas ditas publicas por que
não se pode mais fotografar sem autorização. Se não me engano foi o Luis
Claudio Marigo que disse ter sido expulso do Parque da Tijuca, dentro da cidade
do Rio de Janeiro, por que estava com tripé e equipamento
"possante".
Daí eu pergunto, que autorização você possuia e
apresentou ao tal Wanderlei? Você teve de pagar? Valia para o parque
Nacional?
Como faz tempo que eu não me aventuro por parques e areas de
conservação eu não sei qual o procedimento e que problemas eu vou ter, mas eu
pretendo voltar ao Parque de Itatiaia este ano para complementar um trabalho meu
com o parque e tenho até medo de ser expulso de lá.
Você tem alguma
informação a respeito disto? E se eu preciso pegar alguma autorização onde
faço? Ou ainda que tipo de equipamento eles liberam na boa ou não?
É chato
acontecer isto e ficar nesta indecisão, logo eu que frequento o parque de
Itatiaia desde 1962, criança ainda e o fotografo desde 1984.
Se puder me
ajudar eu agradeço e mais uma vez parabéns pela sua coluna.
Abraços
Victor
Andrade

www.vicfoto.com
companheirismo
Izan Petterle 29/01/2010 19:13:22

Oi Marcos! por gentileza, ajuda-nos a entender melhor como funciona essa
história de autorização para fotografar em unidades de conservação! muito
bom o texto. forte abraço
Parabéns
Alice Maria da Mota 16/02/2010 09:24:42

Eu lí o seu texto sobre o Wnaderley, filho do Brasil. Achei ótimo e
esclarecedor no sentido de que o Meio Ambiente ainda tem salvação, se houver
mais Waandeleys por este mundão de meu Deus. Abraços
Alice
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