Metaformose ambulante contra mudança climática PDF Imprimir E-mail
18/11/2009, 16:27
Contra a metamorfose ambulante, nem a mudança climática agüenta. O presidente Lula já faz a pose de quem vai chegar a Copenhague em grande estilo, sem suor e com fôlego de sobra para discursar à vontade, como um corredor de maratona que apareceu de repente, ninguém sabe de onde, na reta de chegada.

Dias atrás, seu governo ainda patrocinava no Congresso, pelo ministro Reinhold Stephanes, o combustível legal para novos recordes de emissões de CO2, abrindo o Código Florestal às alas das fronteiras agrícolas. E agora até Stephanes enche a boca com as novas metas estratosféricas do combate ao desmatamento. Serão, se cumprirmos a palavra empehada por Lula, 570 milhões de toneladas de CO2 a menos. Entre vírgulas antes reservadas aos conchavos das autoridades monetárias, como as que estimaram as reduções entre “36,1 a 38,9%”.

Parece que a ciência exata enfim está a serviço do oportunismo político, revolvendo um tema que o Brasil custou mais do que o mundo para levar a sério. Mesmo quando hospedou no Rio de Janeiro a Eco-92, os anfitriões mal podiam esperar que estrangeiros virassem as costas para resolver, em família, o futuro que realmente mais interessava aos brasileiros naquele momento: o do governo Collor, já então com um pé no ar, outro no impeachment.

Mudança climática é coisa velha, na política internacional. A primeira lei americana para a proteção de espécies ameaçadas data de 1969, o ano em que aqui Lula se elegia para a presidência do sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo do Campo. Aquela foi uma fase de avanços ambientais nos Estados Unidos que nós perdemos. Elas levaram o governo Jimmy Carter a baixar leis para a conservação do Alasca, a conter a poluição industrial do ar e da água, a banir o chumbo da gasolina e a perder feio a eleição seguinte.

O Brasil tinha então outras prioridades internas, a começar pela de impedir que Carter, em nome de sua política de direitos humanos, cutucasse os princípios hegemônicos que permitiam aos governos militares fazer o que bem quisessem com seus presos políticos em cafuas secretas. Essas ameaças à vida, do lado de cá, eram naquele tempo tão concretas, que mesmo a esquerda brasileira não tinha cabeça para pensar nos lagos, rios e florestas que, lá fora, as primeiras ongs estavam discutindo.

As coisas no Brasil têm o dom de parecer novidade mesmo quando chegam atrasadas. Talvez porque nossa história começou em 2003, quando o primeiro relatório governamental sobre aquecimento da terra já tinha quase um quarto de século, a conferência de Estocolmo sobre meio ambiente, mais de duas décadas, e o diagnóstico científico de que hiperatividade humana desregulava o clima, 15 anos.

Foi nesse período que o Brasil deu para bater recordes de devastação na Amazônia, primeiro no regime militar, depois no civil, como se não tivesse nada a ver com toda aquela conversa de gringo. Levamos décadas para entender que desenvolvimento não é bem copiar o atraso dos países desenvolvidos. Isso veio a custo de muito protesto e, principalmente, divergência científica.

O custo do desflorestamento na Amazônia ou na Mata Atlântica, com um mínimo de boa fé, qualquer pode ver a olho nu, se quiser. Mas o seu ganho só aparece em avaliações bem mais complexas. Eé irrisório. Através de institutos de pesquisa, como o Imazon, ou de economistas como Carlos Eduardo Young, constatou-se por exemplo que a pirataria madeireira leva em média 16 anos para produzir uma cidade fantasma habitada por miseráveis na Amazônia. Que os índices de desenvolvimento humano são mais baixos nos municípios mais desmatados do país. E que neles a violência é maior.

Foi dessas prerrogativas que o governo brasileiro relutantemente abriu mão esta semana. Mesmo que tenha dado o braço a torcer para fazer bonito em Copenhague, não custa reconhecer que a velha soberania já foi tarde.
Comentários
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Anônimo 18/11/2009 15:16:48

Quando não se faz nada, reclama-se, quando se tenta fazer, reclama-se também.
Desse jeito o Eco vai perder o eco... É necessário maior coerência.
PAULADA ECOLOGICA.
Carlos Henrique Sampaio 18/11/2009 15:24:00

Marcos Sá é um profissional respeitado que não passou despercebido pela
propaganda enganosa do governo LULA!Que vende maravilhas, mas no dia a dia pode
se deparar com custos que não imaginava sobre as mudanças climaticas. Valeu
grande jornalistas se cuide que o cantor baiano Caetano Veloso pagou mico porque
falou a pura verdade.
Saudades do patrão pavão
Miguel cruz 18/11/2009 15:43:20

O Marcos é velho conhecido defensor do neoliberalismo implantado efetivamente
pelo atabalhoado e nefasto governo de FHC.
Não reconhece que reconhecer erros
e corrigir rumos é um dos pressupostos para o estadista ser chamado de
tal.
Continua destilando seu rancor sempre atualizado contra o torneiro
mecânico- mor que tornou-se estadista e que, ao contrário de Carter, conseguiu
reeleger-se, e no seu sétimo ano conta com a mais notável aceitação
registrada na história das repúblicas democráticas.
Quando não puxa pro
lado pessoal, o do rancor aos que representam e implementam políticas que
favoressem classes subalternas, ele escreve com maestria. Mas não consegue
fazê-lo por duas vezes consecutivas. É rancoroso e não consegue disfarçar
esse sentimento mesquinho através de seu texto.
Já imaginaram se o Serra, o
candidato preferido do Sá, tivesse vencido em 2002? O BB, a CF, A Petrobrás e
a Eletrobrás, entre outras estatais bem razoáveis, já teriam sido doadas,
como foram a Vale e outras mais. E aí, "mano velho", essa marolinha que
nos alcançou há pouco teria sido um maremoto no qual todos estariamos
profundamente submersos.
Esqueça, de vez em quando o Lula, Sá, para usar sua
pena com a maestria que lhe pode ser peculiar. Tá vacilando!
Taturana 19/11/2009 05:59:04

atitude típica do PT de hoje, no governo, joga tudo pro campo da política ou
do ataque pessoal. assim, nao precisam tomar nenhuma atitude pra corrigir o
problema, afinal são de outra natureza, fora do campo da realidade. um bom
caminho seria admitir que o PT no governo é um desastre para o setor ambiental,
por uma série de motivos. o partido nunca teve essa formação, assim como
outros, mas nao custava se atualizar com base nos poucos quadros que TINHA nessa
área.
Nosso estadista-mor...
Eric Road Estrada 19/11/2009 11:05:16

ahahahahahahahahahhaha...Lula é um estadista???? É, eu realmente tenho certeza
disto, principalmente quando o vejo discursar de improviso, falando tanta
besteira que não sei se rio ou choro - posto que este ser é o presidente da
república. Realmente, o estadista-mor sabe com maestria falar sobre assuntos
áridos como aqueles que ligam aquecimento global, devastação da amazônia,
mundo quadrado e Freud...Nada como distribuir cesta básica mensal pra
arrebanhar o povo miserável, mantendo o coronelismo que reina no nordeste,
agora com uma roupagem de Estado. Vamos torrar nossa biodiversidade, afinal, a
mentalidade desse governo remonta a Estocolomo: querem impedir nosso
desenvolvimento!! burgueses de ONGs estrangeiras que querem tomar a
Amazônia!!!!
carlos francisco beneduzi 20/11/2009 07:08:42

Eu torço para que seja consistente essa guinada do governo, afinal (quase)
todos ganharão com isso. Tenho, entretando minhas sérias dúvidas. Mudar da
água pro vinho tão rapidamente (Stephanes inclusive...) está sugerindo
manobra política (vamos aparecer com um meta(ambiciosa até para os radicais na
questão)em Copenhagen, enquanto EUA e China,sem nenhuma vão ficar mal no
filme...) ou eleitoreira (a entrada da Marina Silva na corrida eleitoral obrigou
os dois candidatos a repensarem sua agenda ambiental).
Cumpri-la depois, são
outros quinhentos! No meio político, os fins justificam os meios. Afinal, ser
consequente nesse país é coisa de careta ou otário!
Todos devem lembrar
daquele globo da ECO-92 (tornou-se um ícone do evento) que era depositório de
mensagens que alí eram colocadas por quem desejava um mundo melhor, menos
poluido. Ele foi transferido para a frente da catedral do Rio de Janeiro na Av.
Chile. Passava na frente dele todos os dias e assistí sua lenta decomposição
até ele ser retirado. Provavelmente virou lixo.É o retrato da como é tratada
a questão ambiental no país.
O solo fértil do obscurantismo de Lula
Rutêncio de Valois 22/11/2009 15:14:54

Os artistas brasileiros ensaiaram bem o papel a ser desempenhado no Festival de
Teatro de Copenhague. Em comum, todas as peças terão um final tosco. No
trabalho da trupe brasileira, o lobo-mau jura ter se transformando em
chapeuzinho-vermelho por tê-la comido e o caçador acredita. Cerca de 80% dos
brasileiros acreditam. Aplaudem. Só não sei como um ou outro desses 80%
encontram O'Eco. O sr. Miguel cruz com "c" minúsculo deve estar
inconformado por seu füher não ter atingido os 100% de popularidade. Marcos
Sá Corrêa, câmara de gás em você por criticar o Lula!
Gabriela 25/11/2009 13:37:50

Gente!! Tarefa árida transformar Stephanes, Dilminha e Cia em
"verdes"... tem que começar já... afinal, as eleições estão aí!! O
que veremos daqui para a frente é que "nunca antes na história desse
país" se cuidou tanto do meio ambiente!!! Enquanto isso, nos bastidores,
dá-lhe acabar com a legislação ambiental e sucatear os órgãos de defesa do
meio ambiente.... Infelizmente, a história vai dar razão à voz dO Eco e de
muitos outros... mas aí, será tarde demais!!!
A HISTÓRIA NÃO ACABOU
Silas Costa 11/12/2009 13:07:37

Bem, Gabriela, não me conta a história antes que ela acabe... ou você sabe o
final do filme antes de assisti-lo?
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