Quando a derrubada era risonha e franca PDF Imprimir E-mail
28/05/2009, 17:12
O olho treinado do fotógrafo Pedro Martinelli bateu direto naquele exemplar da Realidade, num sebo de São Paulo. Era uma edição especial sobre a Amazônia, da época em que o governo militar começava a rasgar a floresta com estradas. Datada de outubro de 1971, a revista estava meio desfolhada, como a própria Amazônia, assunto que já rendeu a Martinelli quatro livros e uma curiosidade que ele não consegue esgotar há mais de 30 anos.

Comprou-o. Lá estão as histórias de onças caçadas só para vender-lhes o couro, de tribos indígenas às vésperas da invasão desfiguradora, das fazendas que iam abrindo “com a pata do boi” um território equivalente “a duas vezes a Áustria” e de um campo de futebol que os pesquisadores do Inpa fizeram em plena floresta, nos arredores de Manaus, e nunca mais precisaram limpá-lo, porque embaixo do mato havia um areal branco e desértico.

Ombro a ombro

Já se sabia em 1971, como se vê, mais ou menos o que se sabe hoje. O que ficou difícil de imaginar, para quem vê a revista 38 anos depois, é o passado do país, tal como aparece nos anúncios daquela edição, posando para a posteridade com o ufanismo das empresas que marchavam para a conquista da selva ombro a ombro com o general Emílio Médici e faziam questão de que os brasileiros soubessem disso.

“No calor da luta contra a selva, Prosdócimo garante o frio”, diz o fabricante do “único congelador brasileiro adequado ao duro trabalho da linha de frente”. A Fosnor, subsidiária da Fiat Lux, chegou a ser profética: “Da floresta Amazônica ao palito de fósforo”. “Trabalhando e cantando”, como um Geraldo Vandré do oficialismo privado, o estaleiro Multinavi declara que estava lá para “o Brasil mostrar ao mundo com quantos paus se faz uma canoa”.

Numa página ilustrada com a fotografia de um corredor de árvores apartadas por motoniveladoras e muito, muito barro intransponível no chão (onde, diga-se de passagem, o carro não figura) o Volkswagen 1600 marca presença na empreitada com sua vocação para o desenvolvimentismo rodoviário: “Pense num carro capaz de andar na Transamazônica. Agora. Ali, sozinho, no peito e na raça”.

A Agrimisa, uma empresa pecuarista, não faz por menos, ao proclamar que “o progresso da Amazônia aceita sócios”. Num texto que beira o lírico de um lado e o ridículo do outro, esgueirando-se pela estreita faixa que quase sempre separa esses limites um do outro, conta a história de um Cessna 210 que “aponta o nariz para o solo” e literalmente abençoa os passageiros com “a fantástica visão” de uma fazenda de gado com 24 mil hectares, na beira do rio Araguaia. Pelas janelas do monomotor, “ paisagem que se descortina anula as imagens de lendas, exotismo, mistérios e promessas. Nas pastagens de capim colonião, 7.680 hectares artificiais, o gado nelore recebe excelente alimentação”.

A Ultragas garante que já estava na Transamazônica antes mesmo que ela existisse, apostando “na necessidade inadiável desta rodovia”, porque nela “foi tudo planejado para que de cem em cem quilômetros nasça uma cidade”. Como precursora da urbanização nos confins da selva, comprometia-se a entregar seus bujões até “de helicóptero”.

Sob o ronco desse oba-oba da livre iniciativa, as estatais, agências e autarquias não poderiam ficar caladas. A Companhia Brasileira de Recursos Minerais”, prevendo que “há algo de estanho na solidão verde da Amazônia”, saudava os “tratores que passam roncando mais alto do que as onças” e “as árvores seculares que tombam e acompanham sua terra, naquele movimento de sair da frente para os pioneiros do futuro”.

Parece que foi hoje. Mas foi ontem. Passadas quase quatro décadas, ao lado de páginas que anunciam o Opala Gran Luxo e o eletrofone Philco “com circuito integrado”, o achado de Martinelli envelheceu muito pouco. Só suficiente para ocupar sua vaga no museu do ridículo nacional. E, exatamente por isso, está mais atual do que nunca.
Comentários
Adicionar RSS
Só dói quando rio
Domitila Madureira 29/05/2009 14:56:19

Ziraldo dixit, lembra? O cartum do Pasquim trazia o sujeito atravessado por uma
espada explicando ao amigo que estava tudo bem, pois "só dói quando
rio". E ridículo quer dizer que faz rir, pois não? E como dói!
Ciro Siqueira 29/05/2009 14:58:31

Assim se julga com a moral de hoje quem viveu num passado com outros
valores.
Estupidez por estupidez, prefiro a histórica do que a aistórica.
Passado com outros valores?
Eduardo 29/05/2009 17:27:41

Que outros valores são esses? A promessa de entregar gás de helicóptero? Ou a
de que seu carrinho popular vai "encarar no peito e na raça" a
transamazônica? Safadeza e desrespeito é safadeza e desrespeito em qualquer
época.
VISÃO ESTREITA,
Leticia Paraiso 29/05/2009 19:54:10

Me desculpe se hoje queremos um Mundo diverso e Plural com participação d
etodos e respeito ao meio ambiente,não pdemos fazer esses julgamentgos
estreitos.
Me lembro do Programa Amaral Neto que chamava a amazônia de Deserto
VERDE.Um absurdo! MAs não posso julgá-lo um safado,muito menos quem deseja ter
um carrinho para andar???Voce estaria chamando de Safada Metade da População.
contradição
Raifá 01/06/2009 08:17:24

"Voce estaria chamando de Safada Metade da População."

E se forem
mesmo?
Mariana 01/06/2009 09:15:31

Nunca atribua à malícia aquilo que pode ser atribuído à infinita estupidez
humana.

Isso não é retrato de safadeza. Isso é retrato de ignorância.
Naquela época, simplesmente não havia a noção de que esse tipo de coisa
poderia causar algum malefício, de que a mata tinha valor intrínseco para
além do valor da terra em que estava, de que a modificação do ambiente pelo
homem poderia não só trazer benefícios, mas também catástrofes, de que os
recursos naturais eram limitados.

Claro, alguém vai citar qualquer trabalho
científico do renomado cientista blá, que era conhecido só no seu
circuitinho. Mas a POPULAÇÃO não sabia disso, o zé povinho que mal e mal tem
primário e forma a maior parte do nosso povo. Ainda hoje, boa parte dessas
pessoas (e até de alguns que tem mais do que o primário mas não se deram ao
trabalho de aprender) não sabe disso.

Uma coisa é uma escolha consciente,
de alguém que sabe as consequências de suas ações e está pouco se lixando
com o bem público desde que o seu fique garantido (tipo os nossos de****dos
ruralistas). Outra coisa é o zé povinho, que não tem noção do que está
fazendo. Um tem que ser combatido, o outro, precisa ser educado.

No passado
as pessoas conheciam ainda menos de meio ambiente? Claro que sim. Os erros do
passado sempre parecem claríssimos. No futuro as pessoas também vão achar
ridículas várias coisas em que acreditamos hoje, e se perguntar como éramos
tão burros, ou se éramos realmente um bando de safados.

Mas a verdade é
que vemos mais longe por estarmos no ombro de gigantes, e não porque nossos
próprios pés cheguem até o chão.
sem noção
solange 24/07/2009 11:17:47

lendo hoje essa mátéria para um trabalho de faculdade...posso acreditar que
não sei que país é esse e o que permitimos que acontece diante de nós..onde
eu estava ...o que verão meus netos?
As ideias mudam, o mundo muda
Carlos Humberto Pereira 01/08/2009 11:27:56

Eu não condeno totalmente as ideias dessa edição do ano de 1971.Nessa época
os ideais ambientais eram poucos divulgados.O povo em geral não via sentido em
preservar as árvores,nessa época a versão oficial era de que terra com
cobertura de mata nativa era terra improdutiva.A natureza nessa época ainda
não pedia socorro.Do mesmo modo que se folhearmos revistas da época da
escravidão,provavelmente veremos artigos que se refere a pessoas negras da
mesma maneira que hoje nos referimos a cavalos e cachorros.O mundo muda, as
circunstancias mudam.Com certeza opiniões hoje tida como eticamente aceitável,
no futuro vão soar como bizarras e condenaveis.
Escrever comentário

Comentários são moderados e aceitos sempre
que não trouxerem termos abusivos ou ofensivos.


Nome:
Email:
 
Título: