A viabilidade do corredor do alto rio Paraná
Enfim...podemos mesmo chamá-lo de um corredor ecológico? Ou seja, esse mosaico, essa paisagem que compõe as áreas limítrofes e ao longo do principal eixo do rio Paraná possibilitam mesmo o trânsito e o fluxo gênico das espécies sem comprometer a viabilidade das suas populações no longo prazo? A resposta parece ser SIM. Fazendo uma comparação, relativa às outras áreas mais distantes do eixo do rio Paraná, o corredor parece ter futuro! Existe sim um “quase contínuo” de áreas naturais, ainda não tão degradadas entre as proximidades do Parque Estadual do Morro do Diabo, no extremo oeste do Estado de São Paulo (porção mais norte do corredor) e o Parque Nacional do Iguaçu (porção mais sul do corredor). Entretanto, algumas lacunas, ou “buracos de dificuldades de trânsito para a fauna e flora regional” nos preocuparam ao longo de nossas observações durante a expedição. São esses:
O Trecho entre o Parque Estadual do Morro do Diabo (SP) e a Estação Ecológica de Caiuá (PR) (Figura 1, Trecho 1). Apesar de não termos navegado esse trecho nessa expedição (fizemos isso no ano passado a bordo do Veleiro Montuno), esse trecho nos preocupa bastante. Ao longo do eixo do rio Paranapanema, que conecta essas duas unidades de conservação, não foram observadas grandes porções contínuas de florestas; apenas alguns e degradados fragmentos florestais remanescentes aparecem ao longo desse curso. Assentamentos, fazendas de gado, canaviais em expansão e até cidades (Rosana e Primavera) ocupam o coração dessa parte do corredor. No lado paranaense, apenas a fazenda Cristo Rei e a Estação Ecológica de Caiuá parecem ter florestas suficientes para possibilitar um possível abrigo, ou um “salto” para aquelas espécies com maior capacidade de dispersão durante uma tentativa de trânsito no corredor. As matas ciliares ao longo do Paranapanema quase não existem, sendo que qualquer tentativa de conectividade para as espécies teria mesmo que ser realizada nessa paisagem bastante hostil.
O Trecho entre o sul do Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema (MS) e o Norte do Parque Nacional de Ilha Grande (PR) (Figura 1, Trecho 2): O trecho navegado desde Porto Primavera até Porto Caiuá, passando por Porto São José, Porto Rico, Porto Pinheirinho entre outros, até Porto Caiuá, nos pareceu bastante aceitável considerando as necessidades de conectividade para a maioria das espécies. Ficamos entusiasmados com a região de Porto Floresta, logo abaixo de Porto Rico, onde várzeas, matas ciliares, e enormes maciços florestais contínuos começam a presentear a paisagem. Mais maravilhados ainda ficamos com o trecho navegado entre a primeira foz do rio Ivinhema (logo abaixo de Porto Pinheirinho) e a sua última foz, logo acima de Porto Caiuá, ainda no estado do Paraná. Foram quase 60 quilômetros navegados, sem sinal de gente, sem lixo, sem ruídos e barulhos da civilização. Muita floresta e muita vida selvagem! Avistamos capivaras, bugios, lontras, jacarés e muita avifauna, além de sinais de onças pintadas, que foram rotina durante esse percurso. A ação compensatória e mitigatória da Companhia Energética de São Paulo (Cesp) em estabelecer o Parque de Ivinhema, de aproximadamente, 73 mil hectares, deu uma nova luz a viabilidade desse corredor. O rio Ivinhema e seu parque associado nos pareceu formar o núcleo dessa grande iniciativa de conservação e de conectividade para a Mata Atlântica, para varjões do rio Paraná, seus ecossistemas e espécies associadas.

Entretanto, e muito infelizmente, a região de Porto Caiuá, situada exatamente entre o Parque de Ivinhema e o Parque de Ilha Grande – distante não mais de 20 quilômetros em linha reta e um pulinho para uma onça pintada –, é desanimadora! Um buracão, uma lacuna, uma “quebra” naquele fluxo de conectividade que vínhamos observando rio acima. Vilas, pastagens, muitos ranchos, canaviais, fazendas, pastagens degradadas, voltam a ferir o corredor. Essa seria uma região ideal, perfeita, e de extrema urgência e emergência para o estabelecimento de novas unidades de conservação, ligando o sul do Parque de Ivinhema ao Norte do Parque de Ilha Grande. A categoria de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) dentro do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), nos parece bastante razoável para ser estimulada e disseminada, principalmente entre os grande proprietários de terras que compõem essa lacuna no corredor de biodiversidade do alto rio Paraná. Uma seqüência de RPPNs nesse trecho seria um “trampolim” possibilitando um efeito “saltitante” para muitas espécies necessitando de trânsito entre essas duas unidades de conservação. Tomaremos essa iniciativa, promovendo negociações e fomentando políticas públicas que possibilitem essas novas unidades de conservação.
Finalmente, quando atingimos a região de Guaíra (PR), onde existiam as Sete Quedas, começamos nossa navegação pelo início do Lago de Itaipu. Itaipu Binacional já parece ter deixado um grande legado. As matas ciliares ao longo do reservatório foram quase que totalmente recompostas, tanto do lado brasileiro quanto do lado paraguaio. No lado paraguaio, grandes, enormes maciços e refúgios florestais remanescentes, também trazem mais verde ao corredor. A ação de restauração da paisagem de Itaipu deve ter efeito bastante positivo ligando a porção mais sul do Parque Nacional de Ilha Grande, ao norte do Parque Nacional do Iguaçu, onde já está sendo implantado o corredor de Santa Maria, ligando as matas ciliares do reservatório ao parque. Foram quase 15 mil hectares restaurados trazendo mais esperanças ao corredor. Nesta região, aparecem também outros parques, reservas e fragmentos florestais na região de Missiones, na Argentina, que fortalecem a viabilidade do “Corredor da Onça” e a viabilidade do Corredor de Biodiversidade do Rio Paraná.
Em conclusão, por meio do significativo trabalho preliminar numa área limitada – ao redor do Parque Estadual Morro do Diabo – o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) e seus parceiros demonstraram que sua abordagem de interligar a paisagem com sistemas agroflorestais, conservação de recursos hídricos, educação ambiental e componentes de políticas têm o potencial de atingir benefícios globais se implementados em grande escala. Portanto, o corredor de biodiversidade proposto não é nada mais do que uma mudança de paradigma para a conservação de toda a Mata Atlântica do interior. A conservação do ecossistema, incluindo tanto o habitat como as espécies, demanda a ligação entre as unidades de conservação, entre os fragmentos florestais e a proteção dos próprios fragmentos e maciços florestais remanescentes da região do alto rio Paraná. A biodiversidade da Mata Atlântica, globalmente importante, somente poderá ser preservada caso medidas adequadas sejam adotadas para eliminar as ameaças existentes em virtude da paisagem fragmentada e do tamanho reduzido e isolamento das florestas e das várzeas do longo do corredor de biodiversidade.
Um dos riscos de conservação e uso sustentável dos recursos biológicos ao longo do corredor consiste na garantia de que as comunidades locais aceitem e respeitem os limites das áreas protegidas e os limites impostos quanto à extração de recursos biológicos. Portanto, aumentar e expandir as atividades comunitárias bem sucedidas, estimular a capacitação e a participação ativa da comunidade local e de outros parceiros importantes deve ser uma das estratégias adotadas. As pesquisas mostraram que somente com a conservação de todos os fragmentos que ainda restam na região e a boa gestão das unidades de conservação, esse objetivo talvez possa ser alcançado. Ao concluir que a viabilidade do corredor do alto rio Paraná extrapola a biologia das espécies, sendo necessário trabalhar o envolvimento de diversos atores no processo de conservação e desenvolvimento – como governos, ONGs, universidades, Ministério Público, e principalmente no caso do Pontal, a comunidade de assentados da reforma agrária e os novos usineiros – com a interiorização na cultura agro-ecológica nas lideranças assentadas e as adequações ambientais nas usinas. Esse envolvimento está sendo conseguido hoje com o uso da agroecologia, manejo adaptativo, monitoramento constante e influência nas políticas públicas do uso da terra e conservação da biodiversidade na Mata Atlântica brasileira.
Legenda da Figura 1. Importantes Unidades de Conservação, remanescentes florestais e áreas prioritárias para a conservação do longo dos eixos do rio Paranapanema e Paraná, que compõem o corredor de biodiversidade do alto rio Paraná. Entre algumas visitadas durante todo o curso de nossas pesquisas (25) Parque Estadual do Morro do Diabo (SP); (26) Estação Ecológica de Caiuá (PR); (24) Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema (MS); (29) Parque Nacional de Ilha Grande (PR); (9, 6, 15, 13, 10, 11) Maciços florestais, remanescentes de florestas e matas ciliares recompostas ao longo do reservatório de Itaipu Binacional. Círculos em vermelho representam as grandes lacunas de conectividade detectadas pela expedição, ao longo do Corredor de Biodiversidade do Alto Rio Paraná. (Mapa adaptado de Di Bitetti et. al. 2003).