| Esquimós: vivendo o aquecimento global |
| Cristiane Prizibisczki | |||||||||
| 20/08/2008, 01:00 | |||||||||
No verão de 1963, quando a expressão “aquecimento global” era ainda insípida, dois jovens caçadores esquimós perceberam que, do alto de uma das grandes geleiras da Groenlândia, vertia um rio formado pelo degelo. Era o “Big Ice”, então com 7,5 quilômetros de extensão e 1,5 quilômetros de altura, que começava a derreter.
Em passagem por São Paulo, o líder esquimó contou que, de 1963 até hoje, o Big Ice retrocedeu cerca de três quilômetros e, em alguns trechos, sua altura não ultrapassa os 100 metros. Com os anos sucessivos de temperatura recordes, os rios criados pelo degelo se tornaram mais fortes e atualmente é perigoso chegar até perto dele. “Todos os anos há casos de pessoas que morreram levadas pela água”, diz. Com a neve muito molhada e fofa, também se tornou impossível construir iglus e, por isso, quando saem em temporadas de caça, as comunidades tradicionais da Groenlândia têm de levar equipamentos de camping. Segundo Angaangag, dormir em barracas não é assim tão ruim. O problema é que os materiais são muito pesados, o que demanda mais cães para puxar os trenós, que, por sua vez, necessitam de mais carne para se alimentar. “Os equipamentos chegam a pesar 100 quilos. Para puxar tudo isso, precisamos de dez cachorros, que comem 150 focas durante o período que estamos fora. Temos de levar 1.220 quilos de carne para os cães”, conta. Em 2007, os esquimós espantaram-se com a força das águas que provinham do degelo. Este ano, durante os trabalhos realizados no campo nos meses de verão, a temperatura mais baixa registrada durante sete dias seguidos foi de 18° C. No dia mais quente, os termômetros registraram 35°C em alguns pontos da Groenlândia. “Quando eu era garoto, se fazia 4°C positivos as pessoas já tiravam as roupas porque era considerado muito quente”, diz. Interferência externa Os povos do ártico ainda reclamam das interferências de grupos ecologistas que por lá passam. Segundo o líder espiritual, a ONG Greenpeace tentou convencer as comunidades a trocar a carne de foca, urso e baleias pela carne de porco. “Nosso ´sistema´ não foi feito para esse tipo de carne. Isso sem falar que eles queriam cobrar 50 dólares pelo quilo do alimento”, reclama Angaangag, em defesa da tradição de seu povo e à esquiva dos debates sobre preservação de espécies ameaçadas. Quem também procurou as comunidades esquimós foi Al Gore, à época da produção do filme “Uma verdade inconveniente”. O objetivo de Gore era buscar o apoio dos anciãos, mas a equipe do longa não teve sucesso: os esquimós não concordaram com a parte do documentário que diz que, se todos “juntarem suas mentes” em prol do bem do planeta, o gelo pode parar de derreter. Segundo eles, ninguém mais pode parar o degelo. “Teríamos, por exemplo, que parar de guiar por muitos anos, e isso não vai acontecer”, diz Angaangag. Para as comunidades de esquimós, é tarde demais. O que resta fazer é rezar, pedindo para que o coração dos homens também se “derreta”, e o resto do planeta não fique tão comprometido quanto a Groenlândia.
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