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| Forte como um Rochedo |
| 14/03/2008, 12:07 | |
Foi o amor pelas histórias em quadrinhos que me levou a conhecer Gibraltar, mas foram meus hormônios de pós adolescente que fizeram me interessar por esse pequenino território inglês na porta de entrada do Mar Mediterrâneo. Explico. Desde muito cedo lia Mônica, Cebolinha, Zé Carioca e Pato Donald. À medida em que fui crescendo, migrei para as chamadas revistas de adultos, Spirit, Milo Manara, Bilal, Torpedo 1936, as brasileiras Circo e StripTiras, a espanhola Cimoc e, sobretudo, a Heavy Metal, que apesar de americana, praticamente só publicava autores europeus. Pois é, em 1981, a Heavy Metal fez um filme de animação (maravilhoso por sinal). A fita, com trilha sonora assinada por 13 bandas de Rock, rendeu milhões de dólares e logo tornou-se um “cult”. Para mim, foi mais que isso. Apresentou-me a bela mulher de Den.
No filme, Den era um nerd americano que encontrou um pequena pedra verde, o loch-nar. No meio de uma tempestade, o loch-nar atraiu um raio que transportou Den para outra dimensão. Lá, ao invés de ser um franzino cdf quatro-olhos, Den desperta no corpo de um musculoso herói. Logo depois da metamorfose, salva da morte uma linda moça com corpo para Garota de Ipanema nenhuma botar defeito. Den quer impressioná-la com sua astúcia, mas a transformação que lhe deu os músculos também roubou-lhe a melhor parte dos neurônios. Depois de muito coçar a cabeça, só consegue perguntar: “Você é daqui?” Ao que a beldade responde “Eu venho de outro mundo. Meu nome é Katherine Wells e eu sou da Colônia Britânica de Gibraltar. Um dia estava caminhando nos penhascos verdes da minha terra quando uma pequena esfera verde caiu do céu e um portão se abriu. Não resisti e entrei. Acordei aqui neste mundo”. Desde então nunca esqueci Katherine Wells, nem os penhascos desconhecidos de Gibraltar, que sempre espreitava no Atlas contando um dia visitar. Esse momento finalmente chegou há alguns fins de semana. Infelizmente não encontrei nenhuma mulher entre as cerca de 14 mil gibraltenhas que sequer chegasse aos pés da Katherine Wells de meus sonhos. Com efeito há muito mais Katherines Wells em qualquer metro quadrado de praia do Rio de Janeiro do que na totalidade dos 6,5 km2 de Gibraltar. Já os penhascos da colônia inglesa, esses sim são verdadeiramente deslumbrantes. Gibraltar é um pedacinho de terra muito estranho. Trata-se de um quisto inglês encravado na mais profunda Espanha. Depois de quilômetros e quilômetros nas amplas e áridas planícies da terra de Robinho e Rafael Sóbis, você de repente encontra-se em um lugarzinho apertado, cheio de gente mal vestida, policiais com aquele chapéu alto, pubs, fish and chips, cerveja Guiness, chocolate Cadbury e televisão passando críquete. O idioma também é um pouco ímpar. Trata-se do melhor espanglish. Versão européia, naturalmente. Uma pergunta normal como: “Where is the Upper Rock Nature Reserve?”, é respondida, na maior tranquilidade em um idioma mesclado: “You go right, then sobes. Cuando llegar al cruze, tome left again” e assim por diante. Difícil com certeza, mas com um pouquinho de inglês, outra dose de portunhol e um carro que suba ladeiras íngremes, chega-se facilmente à Reserva Natural, que abriga a quase totalidade do Rochedo de Gibraltar. São cinco quilômetros de comprimento por um de largura e 426 metros de altitude que albergam uma impressionante biodiversidade. Não é apenas figura de linguagem o fato de Gibraltar estar inserida em um dos 34 hotspots existentes no mundo. A Upper Rock está há apenas 20 km da África e é o ponto onde o Mediterrâneo é mais estreito. Portanto, Gibraltar é a porta de entrada para muitos pássaros migratórios na Europa. Entre permanentes ou de passagem, já foram catalogadas mais de 310 espécies na Reserva. Também vivem em Gibraltar 219 Macacos da Barbária (censo de 2005). Embora possam ser igualmente encontrados em Marrocos e na Argélia, os de Gibraltar são os únicos símios selvagens de toda a Europa. Some-se isso a cerca de 500 espécies de flores e de plantas arbustivas endêmicas ao hotspot ou ameaçadas de extinção e tem-se a noção da importância da Reserva para a conservação da natureza.
O problema é que não é fácil proteger a Upper Rock. Como outras áreas de proteção ambiental urbanas, ela sofre muito com os impactos da sua relação promíscua com a cidade. Seja um tráfego intenso de carros, seja excesso de lixo, sejam incêndios acidentais que queimam a vegetação arbustiva, sejam turistas mal educados que alimentam a macacada, manejar a natureza em Gibraltar não é tarefa simples, sobretudo quando se sabe que o “Rochedo” chegou mesmo a ser incluído entre os candidatos às Sete Maravilhas do Mundo Moderno e é a principal fonte de atração do turismo ao território, recebendo cerca de 800 mil visitantes por ano. Para buscar um equilíbrio entre esses dois desafios, o Governo autônomo da colônia- o Reino Unido só se encarrega de Defesa e Relações Externas- está buscando implementar um novo Plano de Manejo adequado à realidade do local, que garanta a preservação sem afetar demasiadamente o turismo. Uma maior fiscalização dos visitantes está sendo feita, a reserva está sendo zoneada e áreas intangíveis deverão ser implementadas. Além disso, o acesso de automóveis deverá ser restringido. Nesse sentido, desde 2005, quem visita o Parque a pé já paga um ingresso substancialmente mais barato do que aqueles que chegam em quatro rodas. No futuro, considera-se implantar um sistema de transporte público que substituirá o uso de veículos particulares, banindo-os do Parque. Do ponto de vista da vegetação, a maior parte da floresta nativa de Gibraltar foi destruída durante o cerco que os espanhóis montaram ao território entre 1779 e 1783. Com o Plano, resolveu-se tentar restaurar a flora original. A população de caprinos já foi removida e extensivas áreas da parte baixa do Rochedo já estão sendo reflorestadas. Espera-se que essas medidas sejam suficientes para garantir a conservação neste Parque que também é uma das maiores atracões turísticas da Península Ibérica. Se tudo der certo, suas vistas espetaculares, seu intrincado complexo de túneis militares e fortificações construídas para a proteção contra a Espanha, suas imensas cavernas decoradas com impressionantes estalagtites e estalagmites e uma bela rede de trilhas de caminhada deverão poder seguir sendo visitadas em harmonia com as centenas de milhares de pássaros que ali fazem escala todos os anos.
Diz a lenda que, quando os macacos da Barbária desaparecerem de Gibraltar, o Rochedo deixará de ser inglês. Pelo que pude aquilatar, o Union Jack ainda vai tremular muitos anos por aquelas paragens. PS: O Plano de Manejo de Gibraltar compara a cidade ao Rio de Janeiro. Na paisagem deslumbrante, no bondinho que sobe a montanha e nos desafios que se colocam à preservação é uma comparação válida. Resta saber se saberemos rivalizar com os espangleses na sua determinação em preservar os tesouros naturais de sua terra. Afinal, é preciso cuidar pois, tanto em Gibraltar quanto na Pedra da Gávea e demais rochedos cariocas, a natureza é exuberante e forte mas os impactos que as ameaçam são contínuos e resistentes e, como sabemos, “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.
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