
Brunei Darussalan é uma pequeno país de 5.765 quilômetros quadrados, localizado ao norte da ilha de Bornéu, cujo território divide com Malásia e Indonésia. Assim como seus vizinhos, Brunei tem na religião muçulmana e no idioma bahasa duas das mais fortes marcas de sua cultura. Também compartilha com eles uma esplêndida floresta tropical, considerada hoje um dos
34 hotspots da natureza planetária. As semelhanças, contudo, param por aí. Diferentemente da Indonésia, Brunei é um país riquíssimo, cujos padrões de vida o aproximam do primeiro mundo. Diversamente da Malásia, caracteriza-se pela floresta que deixou de pé e que, ainda hoje, cobre cerca de três quartos do território nacional.
Brunei é uma monarquia governada com mão de ferro e leis de exceção pelo sultão Haji Hassanal Waddaulah. Quando, em princípios da década de 1960, o império britânico no sudeste asiático se desmanchou, quase todas suas colônias de etnias majoritariamente malaias decidiram juntar-se em uma federação com capital em Kuala Lumpur. Brunei preferiu ficar de fora. O então sultão, Omar Saifuddien, acreditava que era melhor assegurar a independência do país de modo a preservar para o território a totalidade dos benefícios auferidos com as vastíssimas reservas de petróleo existentes em suas terras. Naturalmente, seu movimento pela independência contou com o apoio incondicional das maiores multinacionais petroleiras.
Desde então, Brunei tem fiado sua economia nos ganhos do petróleo. Não é pouco dinheiro. Os cidadãos do país não pagam impostos, compram uma vasta gama de produtos a preços subsidiados, têm acesso a escolas e hospitais gratuitos e contam com um generoso sistema previdenciário.

A capital, Bandar Seri Begawan, é, à moda de Veneza, uma cidade aquática, sulcada por rios e canais. Seus cerca de 70 mil habitantes se dividem em dois grandes bairros. O primeiro, com jeitão de aglomeração urbana tradicional, localiza-se à margem do rio Sungai Brunei e é pontificado por prédios imponentes, museus com acervos interessantíssimos e mesquitas de arquitetura arrojada, tudo esquadrinhado por largas avenidas (
foto). O segundo, conhecido por Kampung Ayer, é um emaranhado de palafitas que se estende por incontáveis quilômetros e faz lembrar a morada do grego Minotauro. Ambas as faces da cidade são ladeadas por manguezais saudáveis onde ainda nadam crocodilos e saltitam bandos de macacos proboscis (aqueles do nariz de bêbado e barriga de cervejeiro tão bem retratados por Hergé, nas páginas de Tin Tin). Ao fundo, montanhas vestidas com viçosa mata tropical emolduram Bandar, completando seu caráter de cidade-natureza.

Brunei, aliás, orgulha-se muito do seu patrimônio ambiental. Auto-intitula- se "Coração Verde de Bornéu". Para escorar o título, mais de 75% de sua cobertura natural ainda encontra-se intacta. Entre Reservas Florestais declaradas e propostas, o país tem 330.855 hectares de áreas protegidas, que ocupam 57,43% do território nacional. Desses, 97 mil hectares estão resguardados por legislação que não permite sua exploração comercial. Seu único Parque Nacional, Ulu Temburong, com 46 mil hectares, foi criado em 1988 e está inserido na reserva florestal de Batu Apoi. Sua mata, virgem, é considerada a mais bem preservada do hotspot de Sundalândia. Visitá-lo, contudo, não é fácil. É necessário obter permissão especial em Bandar Seri Begawan, contratar um pacote através de uma agência de viagens (US$ 156 por dois dias no Parque) e enfrentar uma longa jornada de barco de até 6 horas. Excelente programa para aventureiros abonados, mas nada convidativo para ecoturistas de baixo coturno. Sobretudo quando os Parques malaios, logo ali ao lado, oferecem as mesmas atrações naturais, com preços mais acessíveis e uma infra-estrutura de primeiro mundo.
Próximo ao Parque, a Universidade de Brunei, com fundos da Shell, mantém moderno centro de estudos. Ali, pesquisadores locais e estrangeiros têm desenvolvido alentadas investigações científicas em floresta equatorial de baixada. Para se ter uma idéia da biodiversidade local, recentemente um entomologista europeu catalogou quase 400 espécies de insetos em uma única árvore.
Do ponto de vista comercial, o manejo das matas de Brunei é feito por um departamento florestal que existe desde 1933 e é composto de bem treinados profissionais. Sua primeira unidade de conservação com fins de uso sustentável, Anduki, foi declarada em 1934. Hoje, há em Brunei 24 madeireiras que exploram os 138 mil hectares de florestas produtivas em um regime de quotas pré-estabelecidas, de modo a permitir a regeneração natural das matas. As áreas produtivas constituem-se em blocos de 70 hectares, longe de regiões ecologicamente sensíveis ou de terras com alto potencial erosivo. É um processo pouco rentável, sobretudo se comparado ao da vizinha Malásia. Como conseqüência, o desmatamento em Brunei não é um grande negócio. Hoje, a indústria madereira corresponde a meros 0,25 % do produto interno bruto nacional e sequer supre as necessidades domésticas. Por incrível que pareça, Brunei importa madeira de lei.
Parte dessa política pode ser atribuída à consciência que os técnicos florestais do país têm de que seu solo é extremamente pobre. Pouco espesso, muito suscetível à erosão, e extremamente ácido, ele tende a só produzir esterilidade uma vez removida sua cobertura vegetal.
Paraíso e exemplo de conservação para todo o mundo? Com certeza. Mas até quando? Hoje o mesmo petróleo que contribui para o aquecimento global, é quem garante a integridade das florestas de Brunei, bem como a prosperidade da população e a infra-estrutura de primeiro mundo. Entretanto, estudos geológicos calculam que as reservas de petróleo de Brunei ainda durarão cerca de 30 anos. E depois?

O discurso oficial apóia-se no ecoturismo, que, a cavaleiro da vastíssima riqueza ambiental que Brunei logrou preservar, proporcionaria uma alternativa econômica para o país. De fato, há muito para ser visto. A própria viagem entre Bandar e Bangar, capital do estado de Temburong, já é um belo passeio para quem ama o verde. Lembra os deslocamentos na Amazônia brasileira (
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Faltam contudo uma estrutura de trilhas, pousadas ecológicas, passeios de observação da fauna e outros serviços que convidem o visitante a penetrar nessa mata pristina com mais tempo e profundidade. A aposta no ecoturismo vai um pouco além do Parque Nacional, cujo preço salgado e dificuldade de acesso são um empecilho à visitação. Também há um sistema de parques recreacionais cujos tamanhos variam de 70 a 1.070 hectares. Oferecem belos espaços de lazer, mas acabam sendo muito pequenos para terem qualquer significado do ponto de vista do ecoturismo.

De fato, ainda há muito que fazer em Brunei. Bom exemplo é o Parque Recreativo da Floresta de Subok, pendurado nos morros que circundam Bandar Seri Begawan. Ao excursionista que se aventurar em suas trilhas, descortinam- se belíssimas vistas da cidade e de Kampung Ayer (
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Terminada a visita ao país; quando o turista sai em direção à Malásia, a paisagem muda tão logo se cruza a fronteira. Já do alto da ponte sobre o rio Baram, que liga ambos os países, é possível divisar as planícies devastadas de Sarawak. Onde, em Brunei o mato vicejava, na Malásia só há tocos e mato ralo. Flutuando rio abaixo, enormes barcaças, empurradas por potentes rebocadores, enfeiam as águas do Baram com sua carga sinistra. Em seus conveses, assomam inúmeras toras de árvores centenárias, com até 30 metros de altura e três de diâmetro. São o triste testemunho de uma Malásia que pouco a pouco vai deixando de existir. Não são necessários nem 40 quilômetros Sarawak adentro para que o carro precise reduzir aqui e ali, para lidar com a falta de visão imposta por espessa neblina mal-cheirosa advinda das múltiplas queimadas que calcinam a paisagem. Para a floresta de Brunei, cujo petróleo tem data marcada para acabar, o perigo mora ao lado.