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Minc e o leilão de Parques Nacionais PDF Imprimir E-mail
Maria Tereza Jorge Pádua   
11/08/2008, 19:10
Não consigo me conformar com as medidas que vêm sendo tomadas pelo MMA com relação às unidades de conservação ou áreas protegidas. Na minha última coluna aqui, eu já falava do absurdo da operação “bois piratas”. Deu no que era evidente: o Ibama, que nada tem a ver com gado, segundo o noticiado vem gastando mais de 1 milhão de reais para manter o plantel até um eventual próximo leilão. Enquanto isso as unidades de conservação continuam esperando sua implantação ou manejo. A nova invenção genial do governo é pretender se desligar de sua responsabilidade de gestor das unidades de conservação, no que concerne às pesquisas científicas, e, além de tudo, que empresas privadas ou governamentais as “adotem”.

Assim o ministro Minc anunciou, com alarde, em reunião com o próprio Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e com dirigentes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência ( SBPC), que apresentou proposta de transferir às universidades a responsabilidade para a concessão de licenças para pesquisas em unidades de conservação. Não obstante todo o aplauso e respeito que merecem a SBPC e as universidades brasileiras, essa medida é demagógica e extremamente perigosa. Os acadêmicos, os estudantes, mesmo que de mestrado e doutorado, não são os que manejam as unidades de conservação e nem sequer estão obrigados a conhecer seus planos de manejo, nem tampouco a legislação e as complexas regulamentações a elas concernentes. O Brasil sequer tem cursos de graduação em manejo de áreas protegidas. A pesquisa em áreas protegidas pode ser e tem sido reiteradamente, uma arma de duas faces. De uma parte é uma ferramenta indispensável para o manejo. De outra, em muitos casos bem documentados, tem contribuído para a destruição e degradação de elementos do patrimônio natural preservados nessas áreas.

Claro que as pesquisas científicas têm de ser feitas e em especial aquelas necessárias ao bom manejo das áreas protegidas. Nosso Ministro inverte o óbvio. É clara a necessidade de se analisar com mais rapidez as propostas de pesquisa e que as apropriadas, necessárias e viáveis, devam ser facilitadas, ao invés de dificultadas. Mas jamais deve se delegar uma responsabilidade tão intrínseca ao manejo a outras entidades que, se pela sua natureza são sérias, incontáveis vezes, têm cometido desatinos em unidades de conservação como, por exemplo: de coletar os últimos exemplares de uma espécie em extinção; fazer coletas abusivas e interferir seriamente no entorno natural ou; enviar estudantes de graduação para trabalhos que exigem muito conhecimento e experiência. Sabe-se dos abusos e do mau comportamento de estudantes em unidades de conservação, inclusive criando conflitos com a sociedade local, ou de atos comprometidos com a moral e os bons costumes. De outra parte, será que o Ministro esqueceu-se da tão propalada, por esse governo e por sua antecessora, biopirataria? É verdade que a paranóia com a tal da biopirataria vinha atrapalhando o desenvolvimento científico no Brasil, bem como as unidades de conservação, mas abrir totalmente as porteiras é demais, além de perigoso para o bem estar da biodiversidade que o nosso país abarca. Vai-se de um extremo a outro para se solucionar questões que só exigem bom senso, algo raro nos dias de hoje.

Outro assunto, como todos os demais, fartamente alardeados na mídia, pelo nosso midiático Ministro é o de responsabilizar aquelas empresas que necessitam de ressarcir o Poder Público pelo caráter de suas obras ou empreendimentos, que provocam danos ao meio ambiente, pela paternidade de Parques Nacionais. A mais badalada é a compensação da Usina de Angra III, onde uma das 60 exigências da área ambiental é que a Eletronuclear “adote” o Parque Nacional da Serra da Bocaina e a Estação Ecológica Tamoios. Primeiramente, isso já está previsto na legislação ambiental. Mas, neste caso parece que o Ministro não quer mais estes filhos bastardos e quer entregá-los rapidamente para a adoção. Para a iniciativa privada ou empresas públicas. Não tão somente as unidades de conservação acima mencionadas, pois vem insistindo na tecla que quer que as empresas adotem os Parques Nacionais, seus filhos não muito diletos. Todo mundo concorda com o fato de ser desejável que o setor privado participe mais ativamente na preservação da natureza, mas para isso existem as reservas particulares do patrimônio natural e toda doação ou apoio do setor privado para as unidades de conservação públicas será muito bem recebido. Porém não a sua pretensa “entrega para adoção”. Novamente porque não estudar ou conhecer o que aconteceu em outros países, como, por exemplo, no Chile, onde tentaram essa medida e até mesmo em um ou outro caso no Brasil e fracassaram?

Claro está que muitas das atividades podem ser terceirizadas como a recepção de visitantes, bares, lanchonetes, restaurantes, camping, coisas usuais em qualquer sistema de unidades de conservação bem implantado em qualquer continente. Pode-se até fazer co-gestão que algumas vezes apresentam certo resultado como, por exemplo, o caso do Parque Nacional do Grande Sertão Veredas em Minas Gerais e Bahia gerido em co gestão do Instituto Chico Mendes com a Funatura, ou o da Serra da Capivara, no Piauí, com a Fundação Museu do Homem Americano. O que não pode o Poder Público fazer é delegar responsabilidades que lhe são inerentes pelo alcance social de seus fins.

Esse governo parece não querer entender o que significa preservar a biodiversidade de um país, através de um sistema de unidades de conservação. Esta tem de ser uma responsabilidade governamental, pois se trata de um patrimônio da União, bem de uso comum do povo brasileiro, que exige segurança nacional, poder de polícia e muito conhecimento. A fauna silvestre pertence ao Estado, segundo reza nossa Constituição. Não se trata apenas de levar turistas para áreas bonitas. O assunto é muito mais sério, pois da preservação da biodiversidade dependem e vão depender sempre a agricultura, a indústria, a biomedicina, etc..

O MMA do Minc, ao invés de investir pesado na implantação das mais de 290 unidades de conservação no nível federal, fica esbanjando recursos humanos e financeiros em ações que não lhe dizem respeito. Porque não copiam, ao invés de querer reinventar a roda, o que outros países têm feito no seu sistema nacional de áreas protegidas aonde funcionam bem? Há muitos exemplos no mundo, quer seja em países ricos ou pobres. Porque o ministro não investe o dinheiro gasto com os bois no estabelecimento de um Centro de Treinamento para Guardas Parques e diretores de áreas protegidas, como o da Argentina, por exemplo, que já completou quase um século? Creio mesmo que as políticas públicas ora colocadas em pauta estão totalmente invertidas na ordem e que prejudicarão a biodiversidade que pretendem proteger.

 

Comentários
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Um estorvo !!
Maricéia Padua 12/08/2008 14:09:53

Parabéns Maria Tereza! As nossas UC's estão virando um estorvo na mão dos
governantes. Criou-se recentemente um órgão ambiental para implementar,
regularizar e criar normas para o manejo das UC's, para que? Para que outras
instituições públicas e também empresas privadas façam o seu trabalho.
Vai ter um grupo só pra fazer concessões?
Carlos Bizarro 12/08/2008 14:29:55

Eu fiquei me perguntando como, com que estrutura e quais pessoas
(ocupadíssimas) de quais universidades iriam fazer essas concessões? Acho que
as universidades têm um imenso interesse nas UC, mas ele não vai muito além
da pesquisa científica e preservação. Espero que não privatizem as UCs.
Parabéns!
Desmontando o IBAMA
Carlos Abrahão 13/08/2008 23:32:04

Parabéns Tereza,

Como veterinário, ecólogo e EX-parecerista do SISBIO,
responsável pela gestão da fauna no estado do Amazonas, tenho que concordar
que as ações tomadas por nosso ministro são NO MÍNIMO de pouca visão e com
um risco potencial demasiado grande. Cautela a todos!
Biloxi Blues 15/08/2008 07:51:41

Ok. O sujeito é midiático mesmo. Mas voce poderia dizer para todos aqui o que
fez enquanto esteve em Brasilia, no governo federal, em prol das UCs e da gstão
dos recursos naturais
resposta
maria tereza 15/08/2008 08:05:19

Caro Biloxi,
Já tem muitos livros que contam o que foi feito pela equipe que
eu liderei, como, por exemplo, Saudades do Matão de Tereza Urban, Água Mole em
Pedra Dura... de Marcos Sá Correa e Brito, um em inglês e artigos e prêmios.
Você pode acessar o google.
Maria Tereza
Artigo
Fausto 15/08/2008 13:21:15

Muito interessante o artigo. Ele mostra que não adianta ações ou
investimentos se não forem nas coisas certas.
Espero que a atual
administração de Minc "descubra" o que é realmente necessário e
importante fazer para proteger o meio-ambiente. Seu artigo ajuda a estabelecer
um norte para isso.
Roberta Pereira 15/08/2008 14:04:45

Prezada Maria Tereza, no Brasil é assim mesmo, ou se tomam medidas extremas de
protecionísmo, ou não se faz nada. Em ambos os casos o País sai perdendo pela
falta de planejamento e de foco.
Parabéns pelo texto e continue trazendo
sugestões e opiniões claras e centradas.
resposta
Veronica 24/08/2008 03:14:45

Excelente! Sobre o que fez Maria Tereza em Brasília, sou convicta que é
infeliz e pobre um país que não valoriza o passado e não reconhece as
conquistas realizadas. O que Maria Tereza e sua equipe fizeram pelas UC no
Brasil não tem como ser escrito, porque foi o alicerce de tudo. No mínimo, é
prec
resposta
Veronica 24/08/2008 03:15:42

No mínimo, é preciso conhecimento, ou bom-senso, ou humildade para reconhecer.
Saudades
João Carlos de Souza Carvalho 27/08/2008 13:18:44

Minha querida amiga
Cheguei da Namíbia ontem e li seu artigo ,com o qual
concordo totalmente .
Gostaria de saber seu novo e-mail e telefone em Floripa
para quando for em nova visita poder matar as saudades .Beijos para vc e Marc.

João Carlos
contamos com você
maria de fátima feijó de jesus 28/08/2008 13:01:30

Maria Tereza,contamos com a sua experiência aliada a inteligência,
para que
continue a escrever em defesa das questões ambientais, em questões da divisão
do IBAMA, de forma que a ficha do Ministro caia lembrando àquela
música:...entrei de gaiato no navio, entrei pelo cano! Acorda Ministro...
Erro de informação
Norma Nascimento 02/09/2008 00:25:00

Na ânsia de desancar o Presidente da República e os movimentos sociais, você
incorreu em erro de informação ao atribuir ao atual governo a oficialização
do sábia como ave-símbolo do Brasil, em detrimento da ararajuba.
O decreto
foi assinado por Sua Majestade Argêntea FHC, em 2/10/2002.
O fígado nunca foi
bom jornalista. Diogo Mainardi que o diga, após ser condenado duas vezes pela
Justiça.
saudades da nossa batalhadora da Natureza
Anatoly kravchenko 04/09/2008 08:02:15

Maria Tereza ,tenho sempre acompanhado sua tragetoria na luta pela natureza,a
natureza e o homem vai reconhecer no futuro a sua luta que nao foi em vao.


Anatoly
Anatoly e João
maria tereza 07/09/2008 08:28:17

Por favor enviem seus e.mails para mim. Afinal quero contactar velhos
amigos
Maria Tereza
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