E lá se foram dez anos de Antártica PDF Imprimir E-mail
02/02/2009, 14:22

Em 2009, fazem dez anos que esta colunista esteve na Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), base brasileira de pesquisas naquela região. Foram quarenta dias que valeram por muitos meses, com uma intensidade que nunca mais experimentei na vida. Restaram lembranças de uma experiência única. Por coincidência e sem perceber que o calendário marcava este aniversário, vi as fotos de Haroldo Palo Jr., aqui mesmo em O Eco, da estação e da vida no continente gelado.

Em janeiro de 1996, fiz meu curso de escalada em gelo pelo Clube Alpino Paulista e, lógica, fui escalar montanhas onde podia. Melhorei meu currículo e, em 1998, mandei minha candidatura para o mesmo clube, que presta assessoria à Marinha Brasileira desde antes da existência da Estação Antártica, para participar da comissão que partiria para lá no verão de 1998/1999. Fui escolhida e, com isso, me tornei a segunda mulher brasileira a ocupar o cargo de alpinista da estação – a primeira, coincidência ou não, foi outra Helena, a Coelho, muitos anos antes de mim. Naquela mesma temporada, outra mulher fazia história: Rosita Belinki. Foi a primeira mulher brasileira a participar como alpinista de um acampamento de pesquisa antártico, longe da estação.

Meus quarenta dias foram registrados em colunas que escrevi para o site Webventure, que postava diretamente de lá. No calor das emoções, os textos contam muito mais do que a minha memória pode lembrar. Uma delas me chama especial atenção, agora que estou morando no Canadá e uma paisagem branca se descortina a minha frente. A EACF fica na Ilha Rei George, no Arquipélago das Shetlands do Sul. Está em uma latitude mais alta do que Banff, onde resido, mas não muito: equivale ao Alasca no hemisfério norte. Chamamos de Antártica, mas a estação não está no Continente Antártico. O que não muda muito a coisa quando o tempo chega, a qualquer momento – ou mesmo variar uma enormidade de vezes durante um dia. E ventos fortíssimos visitaram a estação quando passei por lá, coisa de 160 quilômetros por hora.

A coluna que menciono foi escrita para responder a uma pergunta de leitores, que achavam ser tudo branco na Antártica. Não é. Assim como aqui no Canadá também não é tudo branco no inverno. Um trecho:

“A Antártica que estou conhecendo tem uma profusão de cores incríveis e fascinantes... Diria até inusitadas! Tem pouco gelo, por conta do verão e o mar não está congelado. Além do mais, este mesmo mar é de uma cor azul esverdeada deslumbrante! A água é tão transparente que dá uma vontade louca de mergulhar (coisa que fiz nos últimos dias por lá e nunca senti tanta dor instantânea pela temperatura da água, a 3ºC!). Andar pela praia é uma experiência única, com suas pedras multicoloridas: olhando para o chão, vemos verdes, amarelos, vermelhos, brancos, negros e até roxos! Hoje, subindo o Morro da Cruz (um morro do tamanho de um Pão de Açúcar, que fica atrás da EACF) com pesquisadores do projeto de Meteorologia  (existe uma pequena estação meteorológica no cume do morro da Cruz, que havíamos remontado dias antes), passamos por rochas amarelas e roxas, lado a lado...

Musgos e líquens são laranjas, verdes, brancos, amarelos... E até mesmo o próprio gelo não é nunca monótono ou branco, como pensam. O gelo tem tantas cores que os esquimós possuem mais de 30 nomes para definir o branco! E a cor mais presente no gelo é o azul, um azul profundo, de ofuscar o olhar. Além disso, o gelo que se desprende do glaciar e fica boiando no mar, vai se transformando com o tempo, o calor, o frio. Existem alguns que possuem formas maravilhosas e é mais brilhante e transparente que o gelo de nossas geladeiras...”

Conto, em meu texto, dos animais que habitam aquela parte da Antártica, que tive o privilégio de visitar. E lembro da minha primeira caminhada por uma das praias da Baía do Almirantado, quando um sopro forte fez meu coração disparar e me deixou assustada enquanto não conseguia descobrir de onde vinha aquele barulho estranho. Bem, ele vinha do mar: ali, pertinho de mim, uma baleia respirava tranquilamente.  

Focas, pinguins, skuas, gaivotas, andorinha-antártica e tantos outros animais que escolhem aquela parte do planeta para passar o verão. Exatamente como eu também escolhi!

Escrever e tentar transmitir o que meus olhos viam para leitores a milhares de quilômetros me lembrou de uma história que meu marido conta, quando viajava pelo nordeste brasileiro com os pais e um menino pediu para ver através do binóculo de meu sogro: “Moço, moço, deixa eu ver o mundo!”
Comentários
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nois ki ta
nois 23/04/2009 11:24:51

nao gostei
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