O lugar se chama Spyhill – ou morro do espião, em uma tradução livre. Faz sentido. Está localizado em um morro, no alto da cidade, em um lugar tão descampado que faz frio sempre, seja verão ou inverno. Apesar de não ter a vista de Calgary, ainda assim consegue espionar o que seus habitantes andam fazendo – ou se desfazendo.
Spyhill é um dos três aterros sanitários da cidade controlados pela prefeitura, ou The City of Calgary, como se chama aqui. Alberta está longe de ser uma província exemplar em se tratando de poluição, lixo e meio ambiente – mas se fala muito no assunto. Calgary, por sua vez, não está muito atrás e é uma das poucas grandes cidades do Canadá que ainda não implementou a coleta seletiva nas casas, ou“blue box”, como é conhecido nacionalmente o programa. Aqui, as pessoas ainda precisam separar o lixo em casa e levar em um dos muitos “green bins” espalhados pela cidade – a meta é ter um a cada quilômetro da casa de qualquer morador de Calgary. Ainda assim, você continua precisando sair de casa e levar seus recicláveis até o local de coleta. E nem tudo é reciclado (plásticos duros, como copos de yogurte e até garrafas pet, por exemplo, não são).
Meta maior ainda é instalar a coleta seletiva, em 2009, incluindo a coleta de material orgânico e de tudo que já é reciclado pela cidade hoje em dia. Leva tempo e custa dinheiro (hoje, o morador paga cerca de $ 6.00 dólares canadenses por este serviço. Com a coleta seletiva, fala-se em quase triplicar este valor, chegando a $ 15.00 por casa). Enquanto isso, a cidade cresce mas eles não deixam de se preocupar. A cada cinco anos, os administradores dos aterros sanitários fazem uma pesquisa no lixo residencial para saber o que se joga fora e como atacar o problema dos aterros, congestionados como em qualquer lugar do mundo. Na última pesquisa, descobriram que 25% de tudo que vai para o aterro é papel, 23% é sobra de comida (lixo orgânico) e 19% é lixo de jardins. Ou seja, 67% é feito de material que não deveria estar lá, que pode ser recuperado e reciclado e que vale ouro...
Compostagem
Quando você pega tudo aquilo que não te serve mais na cozinha (com algumas exceções como carnes e peixes, laticínios etc), junta com um punhado de verdes como folhas, monta uma lasanha composta de porções quase iguais destes marrons e verdes, molha com água, revolve de vez em quando para não deixar faltar oxigênio e deixa a natureza trabalhar, o resultado disso é um composto chamado por muitos de “ouro negro”. Tem gente que vende isso. Tem gente que compra. E, cada vez mais, tem gente que produz em casa, ao invés de mandar tudo para o espaço, literalmente.
Quando você, ao contrário, pega todas estas preciosidades que não te servem mais, embrulha em um jornal ou enrola em um saco plástico e joga no aterro sanitário, o que você está fazendo é contribuir com a emissão de gases tóxicos, já que o lixo será decomposto de forma anaeróbica (sem oxigênio). Pior do que isso, todo o valor dos orgânicos se perderá para sempre e o resultado disso é a formação de metano, um gás extremamente danoso para o meio ambiente e um dos vilões do efeito estufa.
Lixão x Aterro Sanitário
Spyhill e os outros dois aterros têm uma capacidade prevista para mais uns 30 ou 40 anos. Não é muito. Para aumentar esta capacidade, a prefeitura e toda a cidade estão se empenhando em virar os números atuais: 80% do lixo produzido atualmente vai parar nos aterros e apenas 20% é reciclado. Eles querem que, em 2020, a cidade envie apenas 20% do seu lixo para os aterros e 80% seja reciclado. Mas, qual a diferença entre um lixão e Spyhill? Estive visitando Spyhill em um dia frio de outono. Ventava. Muito. Ainda assim, não vi lixo voando e fiquei impressionada com a organização do lugar.
Spyhill recebe lixo residencial entregue pelo próprio morador. Você pode ir lá, com o seu carro, e jogar fora o que não te serve mais. Mas você paga por isso. Você também pode reciclar muito do seu lixo lá (óleos, geladeiras e tudo que já sabemos, como papel, plástico etc). Ou pode jogar no aterro – uma máquina imensa compacta o máximo que consegue e é esta a proposta do aterro: fazer com que tudo se decomponha anaerobicamente, ocupando o menor espaço possível. Um cano longo na vertical se conecta com a base daquele setor do aterro atualmente em funcionamento e que foi coberta por uma camada de argila em formato de V. A base do V recolhe todo aquele líquido escuro e mal-cheiroso, chamado “leachate” em inglês (chorume, em português) e resultado da decompostagem que, queira ou não, acontece ali. Este líquido é sugado por este cano e enviado para o setor de tratamento de água da cidade, que irá tratá-lo e o jogará de volta à “vida”.
Muros imensos, de arame, estão ali, não para impedir a entrada, mas a saída – protegem os plásticos de voarem de volta para a cidade com os constantes ventos. Aliás, para aqueles que acham que eles são os vilões, plásticos estão em humilhante quarto lugar, com apenas 10% do total do lixo residencial. Além da coleta do líquido, eles monitoram a qualidade do lençol freático, da água da chuva, que é contida em lagos e testada antes de ser liberada, e da emissão e gerenciamento dos gases, que são coletados e usados para gerar eletricidade.
Outro programa genial é o de compostagem, que eles fazem ao ar livre e conseguem, com isso, tirar uma quantidade considerável de material orgânico que iria para o aterro (foram 1.982 toneladas de folhas e abóboras em 2005). Alguns programas são sazonais, como o de folhas e abóboras, que eles recolhem sempre entre outubro e novembro (época do Halloween e do outono), ou o de árvores de Natal, que eles ‘moem’ e transformam em um subproduto chamado “mulch”, usado em jardins para proteger as raízes das plantas do inverno rigoroso ou do clima extremamente seco desta região. E a prefeitura também subsidia a compra de material para compostagem como uma forma de incentivar os moradores a iniciarem uma compostagem em casa.
Destinos
Pode parecer coisa de primeiro mundo, mas tudo isto está longe de ser perfeito. É bom, mas não é tudo e muitos materiais ainda não são reciclados, por absoluta falta de mercado. Aliás, é assustador saber que todos os catálogos de telefone das Páginas Amarelas, que são reciclados, são enviados para o Paquistão! Imagina a quantidade de energia que se usa para transportar aqueles milhares de catálogos, anualmente. E isto porque a folha usada é da pior qualidade, não interessando ao mercado local reciclá-la.
Os jornais são transformados em novos jornais. Papéis que não sejam jornais nem papelão são transformados na base das telhas feitas de asfalto, que são as mais usadas por aqui. Vidros transparentes são moídos e usados para fazer tinta de asfalto reflectiva. Vidros coloridos viram parte do isolamento de fibra de vidro usada nas construções. Metal é reciclado e vira arame, entre outros usos. As garrafas de plástico usadas para leite (são os únicos tipos de plástico duro reciclados pelo programa da prefeitura) são transformadas em embalagens de plástico que não servem para guardar comidas. O papel encontrado nas embalagens de tetra-pak usadas para leites e derivados (como creme de leite e bebidas lácteas em geral) são usados para fazer guardanapo e papelão. Os sacos plásticos são misturados a serragem para se transformarem em um sub-produto que será usado no lugar de madeira.
E os plásticos duros como todos aqueles que possuem um numerozinho no fundo? Existem empresas privadas que, além de gerenciarem outros aterros sanitários, fazem coletas seletivas, principalmente em empresas. Algumas fazem em residências também. Mas não existe mercado para reciclar estes plásticos – estas companhias enviam tudo o que é coletado para longe. Muito longe... Com estas informações em mão, descobri o segredo de uma vida equilibrada e mais de acordo com o meio ambiente. Um princípio que os canadenses pregam há muito – seja ele natureba ou não: consuma produtos locais, incentive as feiras e os produtores rurais de sua região, procure descobrir a procedência do que você irá comprar, compre consciente e sabendo que realmente precisa daquilo, compre a granel, recicle o que não puder ser consumido e reuse tudo o que puder. E, mais importante que tudo, feche o ciclo: compre produtos feitos de material reciclado! É assim que vamos conseguir reciclar mais e mais o que produzimos, economizando os recursos da Terra.
Ah! Sim... eu reciclo meu lixo e faço minha compostagem, deixando cerca de um saco de lixo por mês para o aterro sanitário, em uma casa de duas pessoas.
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