Montanhista e balonista há mais de 16 anos, tendo feito mais de 15 expedições para alta montanha. É formada em Comunicação Social. Atualmente mora em Banff, Alberta (Canada), no coração das Rochosas Canadenses.

Sobre geleiras e ursos

Todo meu processo de aprendizado costuma seguir um caminho muito parecido, que vejo retornar mais uma vez, desde que me mudei para Banff, AB (Canadá). Começa com talvez um medo irracional que se torna curiosidade e me leva para a informação. A primeira vez que vi um glaciar, jurei que ele me devoraria! Não devorou e eu aprendi a amá-los e a curti-los sem que meus medos irracionais me privassem deste quase sempre agradável relacionamento.

Agora, são os ursos, mais do que qualquer animal de grande porte que vive neste parque onde também vivo. Não são os únicos perigosos, é verdade, mas são os que mais habitam meus medos e a possibilidade de um encontro não tranquiliza meus ânimos. Com a chegada da primavera, os ursos começaram a sair da toca – e nós também. Hora de pisar nas trilhas, ainda cheias de neve do longo inverno, e dividi-las com estes belos animais. Eu disse dividí-las? Bem, não é essa a intenção do parque e algumas são fechadas quando um urso ou uma ursa e seus filhotes são vistos na região.

Antes, vivendo em Calgary e a uma distância de boa hora e meia de qualquer trilha, vir para as montanhas significava uma empreitada bem maior que agora. Acabava virando um motivo de confraternização com amigos e sair demandava não só mais tempo como uma maior preparação. Mas não era disso que eu mais reclamava? O que eu sempre quis é o que tenho agora: o início de várias trilhas quase na porta da minha casa. Aliás, meu caminho para o centro deste vilarejo de 7.500 habitantes passa por uma pequena trilha no meio de um amontoado de pinheiros, frequentemente habitado por veados pastando tranquilamente.

Da janela da minha casa vejo o trilho do trem. A estrada de ferro é a responsável pela descoberta deste vale e suas águas termais, que acabaram originando a criação deste parque nacional e a própria cidade. Os trens que passam na estrada de ferro também são os responsáveis pelo maior número de acidentes envolvendo ursos – grãos caem dos vagões e os ursos vão para os trilhos comê-los. Acabam sendo mortos assim... Vale dizer que é uma estrada deveras movimentada: passam cerca de 30 trens por dia por aqui, muitos com mais de 100 vagões!

Além dos veados, vejo também cervos chamado ‘elk’ em inglês, ou Wapiti - Cervus canadensis (Cervidae). Maiores que os veados citados anteriormente, costumam buscar a segurança da cidade, onde raramente são caçados pelos ursos ou mesmo pumas. A direção do parque costuma pedir à população que avisem toda vez que avistarem estes cervos, para que eles possam tomar providências, enviando-os de volta ao mato. Na primavera, época de nascimento, os cervos são especialmente violentos e somos orientados a evitar um confronto.

Entendo perfeitamente a dificuldade que os guarda-parques têm em manter a vida selvagem selvagem e os turistas seguros. Eu, sabendo de tudo isso e medrosa do jeito que sou, já me vi em uma distância muito menor do que o mínimo recomendado (30 metros ou um ônibus) de um cervo, apenas porque cinco ou seis deles estavam tranquilamente pastando no jardim do condomínio onde moro. Eles pareciam tão inocentes...

Casos como esse têm aos montes, principalmente na beira das estradas, quando turistas nem tão desavisados assim decidem sair do carro para tirar uma foto um pouco mais perto do urso, do cervo, do alce, de raposas e lobos, ou de qualquer outro animal que cruzou o caminho deles. E cruzam. Aos montes. Todo animal selvagem tem um espaço pessoal que deve ser respeitado. Assim como nós temos também. Você já se sentiu desconfortável quando alguém falou com você um pouco perto demais? Bicho é igual. Só que eles não vão pedir para você dar um passinho para trás...

Mas, o que fazer, então? Em busca dessa resposta, fui ver uma apresentação de uma pessoa que estuda os ursos, em Canmore, cidade vizinha. Aprendi várias coisas sobre eles e pude experimentar um spray de pimenta que tem o sugestivo nome de bear spray e que é considerado uma arma. Decidi, depois disso, que precisávamos de um cada (na verdade, cada pessoa de um grupo deveria ter um, se bem que grupos costumam não ter problemas), já que eu e meu marido, junto com nosso filho de um ano, achamos que deixar de caminhar neste território de ursos não era uma opção. Esperamos, no entanto, nunca ter de usá-lo já que a necessidade de o fazer significa uma proximidade de um urso além do desejável.

Não matei minha curiosidade com esta apresentação e uma visita à biblioteca me fez sair com cerca de cinco livros sobre o assunto. Já tínhamos um DVD chamado Staying safe in bear country, feito por pesquisadores locais, incluindo estudiosos da Universidade de Calgary. Alguns livros foram escritos por pessoas ligadas à esta mesma universidade e a maioria deles conta histórias canadenses, que era o que me interessava. Estamos, aqui, no território de dois tipos de ursos: o preto e o grizzly, apesar de existirem outros tipos espalhados pelo mundo (ou mesmo no Canadá, que ainda tem o urso polar, encontrado nos territórios encostados no pólo norte). Ambos possuem variantes nas cores e podemos encontrar urso preto de várias tonalidades, incluindo creme ou branco! Alguns estudiosos sugerem até a mudança de nome para ‘urso americano’, que é o nome dado à espécie (Ursus americanus). Ele pode ser encontrado em todo o Canadá e boa parte dos Estados Unidos. Tem o focinho comprido, não possui a corcova do grizzly e sobe em árvore com muita destreza. É menor em tamanho que o grizzly e menos perigoso também, se é que podemos dizer isso.

Já o grizzly (Ursus horribilis) possui uma corcova bem destacada, fruto de sua habilidade em cavar (raízes ou mesmo na caça por pequenos roedores). Seu rosto é côncavo e menos longilíneo que o urso preto, são também bem maiores e um macho pode chegar a 600kg, mas isso depende de sua localização e dieta – os ursos da costa oeste costumam ter uma dieta rica e abundante de salmão, chegando a tamanhos bem maiores que os do continente. Os ursos das montanhas são vegetarianos a maior parte do tempo, comendo esquilos e carcaças quando elas aparecem. Aliás, se você se deparar com uma carcaça, desapareça tão rápido quanto consiga (mas não corra! Um urso corre tanto quanto um cavalo, podendo alcançar os 50km por hora): o animal fará de tudo para defendê-la, inclusive te matar! Fuja ou saia do caminho também de ursas com filhotes. As mães irão defendê-los até mesmo de machos da mesma espécie – muitos deles caçam filhotes para comer. Ursos são animais solitários e, se os vir em grupos, pode ter certeza que é uma mãe com filhotes, mesmo que pareçam adultos, já que eles podem ficar até 3 ou 4 anos com as mães.

Ursos dormem cerca de seis meses por ano, mas podem levantar no meio do inverno, para um passeio (!). Hibernam o suficiente para que todo o seu metabolismo abaixe e ele consuma menos energia do que se estivesse ativo. Para este período, costumam procurar tocas nas raízes de árvores ou cavam um buraco, que enchem de folhas como cama. Lá por janeiro ou fevereiro, portanto no meio do inverno, costumam nascer os filhotes, que podem ser em número de um a quatro. Quando estão acordados, consomem todo o tempo que possuem em busca de alimentos que o suprirão durante o longo inverno e chegam a comer 20 mil calorias por dia, o que não é fácil de ser alcançado com uma dieta quase vegetariana (gramas, folhas, raízes e berries são os favoritos, mas comem também esquilos, marmotas e carcaças de animais mortos. Podem caçar, principalmente filhotes de alces ou mesmo de ursos, como citado acima). Na verdade, ursos são onívoros, ou seja, comem de tudo. Até ser humano, se por acaso cruzarmos o caminho deles. Neste caso, muito provavelmente este urso será morto por funcionários dos parques, o que torna um encontro sempre perigoso para nós mas, também, para a espécie.

Vale lembrar que é proibido alimentar a vida selvagem em qualquer parque nacional – um urso ou qualquer animal selvagem (pode incluir nesta lista animais brasileiros e de qualquer lugar do mundo) acostumado a comer comida ‘de gente’ é um animal fadado a morrer ou ser morto, pois fica perigoso e pode atacar para conseguir uma comida fácil. Não à toa, o sistema de latões de lixo de todo o parque e do seu entorno é um dos melhores do mundo em relação a proteção contra animais. Antigamente, o lixão de Banff era a céu aberto (hoje o lixo é levado de caminhão para fora das montanhas, em um vilarejo chamado Exshaw), o que o transformou em atração turística: todo mundo ia visitar o lixão no fim do dia, quando vários ursos apareciam para ‘caçar’ comida!

Ursos são animais extremamente complexos e inteligentes. Para que você se saia bem de um encontro, você precisa saber o que fazer e manter a calma é uma das principais atitudes que o salvarão. Um dos livros que peguei chama-se Hiking in bear country e foi escrito por um canadense chamado Keith Scott. Keith conta suas andanças pelo país atrás de ursos e dezenas, talvez centenas de encontros que teve com eles. A conclusão que chego é que saber o que fazer nas diversas situações que podem originar de um encontro é fundamental. O urso está se defendendo? Não se mova, por mais difícil que isso possa parecer, e fale pausadamente, com voz firme e segura, mostrando ao urso que você é um ser humano. Se posicione a favor do vento, para ele sentir seu cheiro. Se precisar, deite de cabeça para baixo, com as mãos protegendo sua cabeça e seu pescoço. É um urso atacando? Ataque-o de volta. Lute. Não se entregue. Se bem que você tem mais chances de sair vivo de um ataque se for um urso preto do que um grizzly...

Em 2005, assim que chegamos aqui, um urso grizzly atacou uma mulher em Canmore. A notícia correu os jornais e não era exatamente o que eu esperava ouvir no começo da temporada de montanha e no meu começo de vida no país onde escolhi viver. Isabelle Dubé, canadense de 36 anos, havia sido morta quando corria em uma trilha com mais duas amigas e se deparou com um grizzly. Isabelle, ao contrário das amigas que saíram atrás de ajuda, decidiu subir em uma árvore e foi perseguida pelo grizzly até que ele a pegou e a jogou no chão. Ela provavelmente morreu da queda. Grizzlies não costumam subir muito em árvore depois de adultos – mas podem, como comprova este caso. A família e os amigos se reuniram e montaram um site chamado www.trailex.org onde você se cadastra e pode postar um email toda vez que se deparar com um urso, alertando as outras pessoas que fazem parte da lista. Outro importante site é o www.wildsmart.ca e, lógico, o www.pc.gc.ca, dos parques nacionais do Canadá.

Apesar de parecer assustador, não se encontra com um urso em cada esquina. Por acaso, já vi pelo menos uns 5 ou 6 em três anos de Canadá, todos em estradas e do conforto do meu carro. Continuo não gostando da idéia de vê-los em uma trilha e, por isso, sempre falamos muito, fazendo barulho principalmente em lugares com rios e barulhos naturais mais altos do que o nosso ou tocando um sininho, ou andamos em grupo de pelo menos 4 pessoas. Tenho certeza de que já fui vista por ursos, mas não quero surpreendê-los na curva de uma trilha. Assim como eu, ursos ODEIAM ser surpreendidos! Por isso muitos acidentes acontecem com pessoas de bicicleta, quando andam muito rápido e em silêncio. Assoviar não é uma boa idéia, já que ursos adoram marmotas, que fazem um som muito parecido com o assovio humano. Para os que pensam em desistir de uma viagem a este que é um dos lugares mais lindos do mundo, não deixe o medo te guiar.

“O conhecimento é a melhor defesa. Preparar-se dá confiança. Te ajuda a lutar contra o medo que pode arruinar sua visita a um território de ursos. Você não pode – nem deve – esquecer deles nem das simples regras de segurança. Preparar-se apropriadamente vai botar o medo em seu devido lugar e permitirá que você aproveite o dia. Direção defensiva funciona, assim como caminhada defensiva!”, encoraja o livro Bear Aware – Hiking and Camping in Bear Country, de Bill Schneider. E completa: “estatisticamente, você está praticamente a salvo de ursos e é muito mais perigoso dirigir até a montanha do que caminhar nela. Cachorros matam mais que ursos, abelhas, touro Hereford e raio também”. Portanto, prepare-se e venha. Vale a pena...

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