Oceanógrafo e líder Avina que participou de várias expedições do Programa Antártico Brasileiro. Trabalhou como Professor do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná. Atualmente trabalha no Instituto Oceanográfico da USP.
É verdade, o turismo nordestino parece ameaçado. Pelo menos em Pernambuco. Tenho acompanhado os acidentes com ataques de tubarões nas praias de Boa Viagem em Recife e Piedade em Jaboatão dos Guararapes. São casos lamentáveis que preocupam a população, causam sofrimento para banhistas e surfistas distraídos. E trazem prejuízos para o turismo local, tão importante para Pernambuco como para qualquer estado nordestino. Mas de quem é a culpa pelos ataques de tubarões nas praias nordestinas?

Dia 23 de setembro assisti uma palestra do mais recente “global”, cineasta e mergulhador, Lawrence Wahba. Ele descreveu suas experiências com mergulho junto com tubarões nos últimos 10 anos. A Associação MarBrasil e a escola de mergulho paranaense Scubasul uniram-se para trazer a Curitiba um líder atual na luta a favor da preservação de uma espécie animal tão injustiçada por essa inquisição popular que, cegamente - e implacavelmente, considera que o único tubarão bom é o tubarão morto. Aliás uma postura popular muito conveniente para a indústria pesqueira que pesca tubarões pelo mundo afora com espinhéis quilométricos. É mais um recurso marinho a ser esgotado nas próximas décadas, se gente como Wahba e ambientalistas do mar não continuarem com suas campanhas incessantes em torno da proteção desses animais pré-históricos e importantíssimos para o equilíbrio da teia alimentar dos oceanos. O carisma de Wahba soube cativar aquela platéia de estudantes, a maioria com um pé na terra e outro na água salgada. Os olhares arregalados, fixos nas imagens submarinas, e a boca meio aberta eram as expressões mais comuns entre os novos admiradores de seu novo ídolo. E alí estava ele! Com suas tatuagens permanentes de tubarão no braço, tentando pacientemente deletar dos cérebros espectadores, o pavor de encarar a possibilidade de dar de cara com um tubarão no próximo mergulho. Possibilidade aliás cada vez mais remota, tendo em vista a queda generalizada da densidade populacional de tubarões pelo mundo afora, e a ameaça de extinção de algumas espécies.

Eu, que estou mais familiarizado com as leis da natureza aquática, deixei de nadar nas noites de verão sob a luz da lua cheia, depois de ver “Tubarão” de Steven Spielberg. Sei que deveria estar dando o melhor dos exemplos e controlar essa sensação inevitável de presa indefesa com as pernas ridiculamente penduradas e gesticulando, sem apoio, na superfície do mar profundo… escuro…. e misterioso. De noite é muito pior. Mas inadvertidamente aquele maldito filme pode ter selado o destino do pobre animal no seio da opinião pública. Serviu de aval para a matança de um dos animais mais espetaculares do ponto de vista evolutivo e importantes para a integridade da teia alimentar marinha.

A primeira vez que vi um tubarão, ou melhor um embrião de tubarão, eu tinha 4 anos. Estava dentro de uma proveta com formol. Nada muito assustador, apenas curioso. Meu pai me levou para conhecer os laboratórios da Base Sul do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, em Cananéia. Fomos recebidos pelo professor Victor Sadowski, um cientista russo que imigrou para o Brasil na década de 50 para trabalhar no então Instituto Paulista de Oceanografia. Sadowski isolou-se em Cananéia e pode ser considerado o precursor dos estudos dos elasmobranquios no Brasil. Na época era considerado o maior dos especialistas em tubarões. Com duplo sentido, pois além de suas qualidades acadêmicas ele tinha quase 1 e 90 de altura. Foi o primeiro oceanógrafo que conheci. Os olhos tinham a cor da Água Tropical da Corrente do Brasil e o cabelo e a barba eram brancos como as do Sivuca. Daqui de baixo dos meus primeiros decímetros de altura, vi o gigante Sadowski alcançar a proveta sobre a primeira prateleira de seu laboratório e trazê-la ao nível do chão para me mostrar o embriãozinho formalizado. Depois me mostrou um tubarão enorme, embalsamado. Por coincidências, voltei a Cananéia para desenvolver meu trabalho de campo para o mestrado vinte anos mais tarde. No mesmo laboratório. Sadowski, já então falecido depois de estudar tubarões na costa brasileira por mais de 30 anos, hoje virou museu em Cananéia; O Museu Municipal Victor Sadowski, onde agora está aquele tubarão branco embalsamado com mais de 5 metros de comprimento que ele havia me mostrado quando eu era criança. Dizem que trata-se do maior tubarão branco já capturado no mundo (?).

Talvez o espírito de Sadowski tenha inspirado Otto Bismark Fazzano Gadig, um contemporâneo especialista em tubarões que trabalha na Universidade Estadual Paulista em São Vicente, município de Santos, e coordena o Projeto Cação desde 1996. O projeto visa estudar os tubarões e raias capturados acidentalmente por pescadores artesanais do litoral paulista. Com sua larga experiência sobre a biologia dos tubarões, Otto uma vez me disse “tubarão não é peixe!” O que tem muita lógica. Tubarões, assim como raias, são “peixes” com esqueleto de cartilagem. Como nossas orelhas. Reproduzem-se com rituais de acasalamento semelhante ao dos mamíferos aquáticos, com fertilização interna do óvulo. As fêmeas, de acordo com a espécie, podem ser ovovivíparas, quando a nutrição do embrião é dada pelo vitelo de um ovo ainda dentro do corpo materno; ou vivíparas, quando os embriões são alimentados diretamente no útero interno. As ninhadas de tubarões são paridas para o meio externo, exatamente como nos mamíferos. Eles também não tem bexiga natatória como os peixes e, portanto, necessitam nadar constantemente para não afundar e para oxigenar seus arcos branquiais, por onde absorvem o oxigênio dissolvido na água, mas sem a proteção de opérculos como têm os verdadeiros peixes. Por essa razão gastam muita energia e precisam repô-la constantemente. Por isso são vorazes e oportunistas, principalmente as espécies oceânicas afastadas da costa, onde a oportunidade de alimento farto é rara. Comem de tudo: peixes, tartarugas, crustáceos, moluscos, eles mesmos e carcaças de animais mortos como baleias e golfinhos.

Os tubarões existem do jeito que são há pelo menos 400 milhões de anos, quando na escalada da evolução atingiram a perfeição da anatomia hidrodinâmica. Nadam quase sem se mexer, como torpedos vivos, explorando eficientemente as leis da física e as forças de ação e reação entre músculos, água e nadadeiras. A resultante de seus movimentos gera deslocamentos lentos e investigativos, ou rápidos e explosivos, capazes de acelerar o bichão a no mínimo 50 km por hora em poucos segundos. Além dessa capacidade natatória, os tubarões contam com uma complexidade sensorial que poucos animais na face da Terra têm. São vários sentidos que o tornam uma supermáquina caçadora: a visão super desenvolvida para distinguir formas e cores no habitat opaco da água; a linha lateral que percebe vibrações mecânicas provocada pela agitação de presas feridas; o olfato capaz de distinguir moléculas orgânicas a quilômetros de distância. Com todas essas vantagens, o tubarão poderia viver dominante e sem concorrência na luta pela sobrevivência nos oceanos da Terra. Sua única ameaça é o homem. Apesar de sua força e habilidade de gladiador dos mares, os tubarões estão pouco a pouco desaparecendo na poeira do impacto ambiental marinho. A indústria pesqueira apontou o dedão pra baixo e condenou-o a morte sem piedade, sem direito a julgamento. E os governos e opinião pública, por falta de informações e por omissão, fecham os olhos para a matança indiscriminada que só serve para enriquecer donos de barcos atuneiros e atravessadores asiáticos interessados nas barbatanas para fazer sopa em casamentos aristocráticos. As estatísticas oficiais estimam em 100 milhões de animais mortos por ano em espinhéis e redes.

Não sou especialista na biologia comportamental dos tubarões mas posso afirmar, sem hesitação, que o desequilíbrio ecológico e a ignorância generalizada são responsáveis pelos ataques em Recife. Não os tubarões. A degradação ambiental afeta sobremaneira as relações tróficas. Sobretudo no ambiente marinho, onde somos cegos e não avaliamos o verdadeiro grau de comprometimento do maior ecossistema do planeta. O uso insustentável dos recursos do nosso mar e as políticas equivocadas de urbanização da zona costeira afetam negativamente as relações tróficas da teia alimentar marinha. Esses são os verdadeiros culpados pelos ataques de tubarão em Recife.

Primeiro a pesca, um forte concorrente por alimento na teia alimentar da região nordeste. Quando praticada sem manejo, controle e respeito pela natureza, como é o caso ao longo da costa brasileira, a natureza reage por auto defesa. Segundo, o desenvolvimento urbano na linha de costa nordestina segue pouco ou quase nenhum planejamento. A construção de marinas e condomínios em manguezais diminui a disponibilidade de habitats de reprodução, refúgio e alimento para as comunidades biológicas da zona costeira que recrutam menos. Consequentemente, a biomassa pesqueira diminui, diminuindo o alimento dos tubarões. Terceiro, a devastação da Mata Atlântica, outro problema crônico e histórico. A mata foi massivamente substituída por plantações de cana de açúcar na região nordeste nas últimas décadas, desde a implantação do Pro-Álcool no Brasil. A ausência da vegetação natural diminuiu a retenção de sedimentos que são descarregados no mar pela drenagem costeira. Consequentemente, o aumento de sedimentos em suspensão diminuiu a transparência da água afetando os recifes coralíneos, em sua maioria formados por algas calcáreas, organismos fotossintetizantes que dependem de águas transparentes para manter sua taxa de crescimento acima da taxa de perda pela herbivoria. Por outro lado, os recifes formados por colônias de corais hermatípicos sufocam com tanto sedimento que compete pelo espaço, antes ocupado mais por alimento e menos por silte e argila. Quarto, a drenagem do esgoto urbano, incluindo matadouros e dejetos orgânicos da indústria sucroalcooleira ao longo da bacia do Rio Jaboatã, atrai tubarões em busca de alimento. E nós somos alimentos se estivermos no lugar errado e na hora errada.

Com todos esses problemas e a escassez de alimento provocada pela pesca industrial e artesanal, o tubarão perde todas as batalhas diárias pela sobrevivência, sofrendo ataques de todos os lados. Nós os caçamos e ainda os matamos de fome. Não me admira que de vez em quando, como crianças roubando frutas no vizinho, alguns deles arriscam a morder alguns banhistas e surfistas incautos lá em Recife e arredores, onde a degradação do ambiente costeiro é um problema grave que precisa ser urgentemente resolvido. Não apenas para acabar com os ataques de tubarão, mas por uma questão de saneamento ambiental. É um direito da população, dos tubarões e do ecossistema marinho como um todo. Não apenas em Pernambuco mas em toda a zona costeira nacional do Oiapoque ao Chuí.

Só pra completar, de acordo com o Relatório do Programa Ambiental das Nações Unidas-2006, os oceanos têm 15 mil peças de plástico por Km2 e a pesca industrial mata anualmente 1 milhão de pássaros marinhos, 100 mil mamíferos aquáticos (golfinhos e baleias), 300 mil focas do Ártico e os 100 milhões de tubarões que eu mencionei. Além disso, produz 20 milhões de toneladas de “descarte” todos os anos e retira do mar anualmente 100 milhões de toneladas de peixes, moluscos e crustáceos; uma quantidade que, sem exagero, dá pra encher o estádio do Maracanã até o topo. O resultado é que 10% das espécies marinhas estavam extintas ou ameaçadas em 1970 e 24% em 2002. Hoje 90% dos estoques de atum e bacalhau já foram explorados. Em média 52% dos estoques pesqueiros mundiais estão esgotados. Já disse e repito que retiramos 80% dos recursos marinhos que haviam no mar há 100 anos atrás, e continuamos a explorar os 20% restantes.

Portanto, meus amigos, não há tubarão que agüente essa falta de alimento e a oportunidade de abocanhar um turista, principalmente nos locais onde esses problemas são mais graves. Sadowski (se estivesse vivo) e Otto Bismark que o digam. Redes de proteção têm sido usadas nos Estados Unidos e na África do Sul, onde os ataques de tubarões são constantes. Mas parecem não ter resolvido o problema devido às dificuldades de manutenção e rompimento das redes, além das mortes desnecessárias de tubarões em busca de alimento.

Capturar tubarão vivo ou morto (de preferência morto) para resolver o conflito é a política adotada pelas autoridades do Recife. Isso é tapar o sol com rede de pesca. É o mesmo que mandar matar todos os marginais pra não ter que resolver os conflitos sociais e as desigualdades da teia alimentar urbana. Não vai proteger banhistas contra ataques de tubarão trombadinha, perdido e faminto. Sociologia e ecologia têm muita coisa em comum. O melhor é investir pra reverter o processo de degradação do ambiente costeiro tomando medidas como (i) fazer valer as leis de regularização da pesca, acabando com o uso de bombas, produtos químicos, com a pesca de arrasto em áreas proibidas e com a captura de peixes ornamentais e rochas vivas para atender o comércio clandestino de aquários (ver coluna anterior); (ii) lançar no mar apenas o esgoto tratado e canalizado através de um emissário submarino para desaguar e dispersar na região oceânica; (iii) proibir obras marinhas que degradam os habitats naturais costeiros e, finalmente, (iv) educar e alertar a população para os perigos da degradação ambiental e da pesca predatória na zona costeira. Só assim estaremos protegidos das mordidas de tubarão. E eles das nossas.
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