Oceanógrafo e líder Avina que participou de várias expedições do Programa Antártico Brasileiro. Trabalhou como Professor do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná. Atualmente trabalha no Instituto Oceanográfico da USP.
A visão de um réptil incomoda muita gente, sobretudo os católicos. Esse fóssil vivo teve o azar de sobreviver às extinções mesozóicas e pagar pelos pecados ambientais do homem aqui na Terra. A Bíblia, apesar dos valiosos ensinamentos e de seu conteúdo histórico, não foi justa com os répteis. O pavor que temos dessas criaturas peçonhentas de sangue frio, olhar de predador cruel e calculista é em parte devido à crença popular católica. Os problemas no paraíso começaram com aquela maldita serpente, e todo o grupo dos répteis levou a má fama. “Dar o bote”, “aquilo é uma cascavel fantasiada de sogra”, “se morder a língua morre envenenada”, “fulano é traiçoeiro como uma jararaca” e “ciclano soltou cobras e lagartos” são apenas algumas das metáforas comuns do nosso quotidiano gramatical, que descrevem o pior do comportamento humano. E quando nosso olhar trava no de um réptil qualquer é normal essa sensação que varia desde um leve mal estar até aquele terror histérico feminino (lembre-se que foi Eva a primeira a ser picada).

Mas toda regra tem sua exceção. E a má reputação dos répteis encontra uma trégua nas tartarugas. Esses répteis de armadura surgiram a pelo menos 200 milhões de anos como contemporâneas dos dinossauros. Hoje representam um dos principais grupos emblemáticos do movimento mundial da conservação animal, sobretudo as espécies marinhas. As espécies terrestres podem não ser um exemplo de beleza animal (peço desculpas aos especialistas, mas gosto não se discute), mas também não tem aparência e nem velocidade ameaçadora. São tão inofensivas que são usadas como pets em jardins da infância. Às vezes é o primeiro, pra não dizer o único, bicho de estimação permitido por jovens donas-de-casa, zelosas da decoração moderna do apartamento, que não deixam o bicho sair nem da caixa do sapato, e que teriam um ataque histérico com um estabanado Golden Retriever subindo molhado no sofá da sala.

Em 1997 freqüentei por um mês a Universidade de Murcia, na região sul da Espanha. Num domingo, uma equipe de biólogos me convidou para um trabalho voluntário de monitoramento de campo da população de tartarugas de um determinado bioma semi-árido típico daquela região. Era um projeto de conservação financiado pela União Européia. O trabalho era simples. Nós tínhamos que formar uma linha de frente pra contar tartarugas em uma determinada faixa de terreno árido e pedregoso, com aproximadamente 200 metros de comprimento. Elas ficavam meio camufladas entre a vegetação seca e rasteira, e eram facilmente confundidas com as pedras. Extremamente lentas, talvez até pra ficarem mais ainda parecidas com as pedras. Mas o mais curioso é que elas eram carnívoras. Predadoras vorazes, pra ser mais exato. Eu imediatamente perguntei ao biólogo coordenador do projeto, o que exatamente elas conseguiam caçar naquela lentidão toda, enquanto eu pensava em algum animal dormindo. Naquele momento não me passou pela cabeça o óbvio: ele disse que elas caçavam caracóis! A única presa do reino animal que, como num vídeo em câmara lenta, podia ser alcançada por tartarugas carnívoras.

Curiosidades a parte, o fato é que as espécies marinhas adquiriram nas últimas décadas uma simpatia popular muito maior do que as terrestres. Existem no mundo sete espécies das quais cinco ocorrem no Brasil: uma herbívora (tartaruga verde - Chelonia mydas) e quatro carnívoras, algumas com nutrição especializada como a tartaruga de pente (Eretmochelys imbricata), que se alimenta principalmente de esponjas marinhas, e a gigantesca tartaruga de couro (Dermochelys coryacea) que se alimenta principalmente de animais gelatinosos (“águas vivas”). As outras são carnívoras oportunistas com uma dieta variada de moluscos, crustáceos, peixes e cnidários bênticos (tartaruga cabeçuda - Caretta caretta e a tartaruga olivacea - Lepidochelys olivacea)

No Brasil, graças ao Projeto Tamar as tartarugas marinhas estão protegidas por lei. Suas ações práticas de manejo, pesquisa, educação ambiental, inclusão social e divulgação contribuíram para que a população brasileira reconhecesse as tartarugas marinhas como um dos principais representantes da biodiversidade do mar brasileiro. Pode-se dizer que o Tamar deu início ao movimento de conservação marinha no país no início da década de 80. No seu rastro vieram os projetos de conservação de mamíferos, aves e até tubarões (veja o artigo “Se correr o bichin pega, se boiar o bichin come”, nessa mesma coluna). Hoje as pessoas até se esquecem que tartarugas marinhas são répteis. Pra maioria elas não são répteis. São só tartarugas. E a tática do Tamar de mostrar filhotinhos foi tiro e queda! Quem nunca viu um vídeo ou pelo menos uma foto daqueles ovinhos se rompendo e as centenas de tartaruguinhas se arrastando sobre a areia da praia em direção ao mar. No frenesi do “salve-se quem puder”, elas se amontoam, sobem uma por cima das outras, e se os resorts cinco estrelas estiverem com as luzes apagadas, elas correm na direção do mar vencendo as primeiras dunas, as primeiras ondas, os primeiros predadores e saem nadando, cada uma por si e Deus por todas, desaparecendo na imensidão do mar tropical. Depois regressam pra costa anos mais tarde em busca de áreas de alimentação e reprodução.

O período entre nascer e regressar é que é cheio de mistérios. As evidências indicam que elas passam os primeiros anos de vida tentando sobreviver como heroínas anônimas nos desertos oceânicos de águas quentes que formam os giros planetários (veja o artigo “A Latitude dos cavalosnessa mesma coluna). Uma fase de vida pelágica muito longe da costa, batizada pelos especialistas como “anos perdidos”. Perdidos estão eles! Porque as tartarugas sabem muito bem onde estão e por que estão nessas regiões. Pequenos répteis com baixo metabolismo podem sobreviver longos períodos sem se alimentar, uma vantagem já bem conhecida em desertos. E nos oceânicos as únicas alternativas de alimento para um filhote de tartaruga estão na superfície. Seus pulmõezinhos não garantem suprimento de oxigênio suficiente para explorar alimento em profundidade, como o faz grande e misteriosa tartaruga de couro.

Uma das regiões candidata a berçário de tartaruga marinha é o Mar dos Sargaços, localizado no giro oceânico planetário do Atlântico Norte, onde se protegem contra os predadores sob os macro-talos vegetais flutuantes, os quais servem de substrato para uma comunidade autóctone (i.é., que só existe lá) de peixes, crustáceos, moluscos e até insetos trazidos pelos ventos Alíseos do continente africano. Ou seja, tem bastante alimento para as tartaruguinhas no Mar dos Sargaços. Além do próprio talo da alga que eu acredito deva alimentar a herbívora Chelonia mydas. Além disso, a água quente dos trópicos e a imobilidade típica dos répteis garantem menos consumo e economia de energia. Imagine você nas férias de verão protegido por um guarda-sol e deitado num daqueles colchões de ar, flutuando na piscina. A economia de energia é a mesma. As que por ventura pegam a corrente errada e não tem a sorte de encontrar o caminho para o Mar dos Sargaços, acabam parando em qualquer um dos outros quatro giros planetários, onde são poucas as chances de encontrar alimento na superfície. Contam com a pouca probabilidade de serem encontradas por algum predador nesse gigantesco deserto marinho. Por outro lado, sendo carnívoras têm poucas chances de encontrar suas presas.

A explicação mais lógica para a sobrevivência de tartarugas em desertos tropicais está no tipo de alimento. Sabe-se que os principais itens alimentares de tartarugas carnívoras quando jovens, ou adultas na fase não reprodutiva, são animais gelatinosos do plâncton popularmente conhecidos como “águas vivas”. Aquelas que queimam. Muitos desses animais alimentam-se de pequenas partículas orgânicas filtrando ativamente milhares de litros de água do mar em suas redes orgânicas, como um aspirador de pó biológico. Muitas vezes concentram-se em áreas extensas dos mares tropicais, temperados e até regiões polares, entupindo as redes de pesca. Como as salpas e os ctenóforos (procure no Google – imagens) que bombeiam litros e litros de água do mar pra dentro do corpo com batimento de cílios, concentrando e digerindo partículas orgânicas minúsculas em seu corpo gelatinoso. Um prato cheio pra jovens tartarugas carnívoras que não enxergam partículas microscópicas, mas que enxergam muito bem os animais que as concentram.

Eventualmente encontram objetos flutuando, incrustados com invertebrados e algas que podem ser raspados e garantir temporariamente algum suprimento alimentar. Mas isso seria abusar da sorte. Em áreas desertas com pouco alimento muitas são mortalmente seduzidas por pedaços de plástico que se acumulam nos giros planetários (ver o artigo “A latitude dos cavalosnessa mesma coluna). O plástico se incrusta com comunidades marinhas sésseis e adquire o mesmo odor marinho. Uma miragem para as tartarugas famintas que confundem o plástico com alimento gelatinoso. Sem conseguir digerir e nem expelir o plástico disfarçado de vovozinha, seu estômago perde espaço e área de absorção do verdadeiro alimento. Morrem injustamente por indigestão depois de todas as provações naturais.

Uma das espécies menos conhecidas em relação ao ciclo de vida é a gigante tartaruga de couro. São carnívoras e muito mais ativas do que as outras espécies. Já desde pequeninas, quando acabam de sair do ovo, correm pela areia da praia com muito mais vigor e nadam mais rapidamente do que as outras espécies, com batimentos explosivos e simultâneos dos membros natatórios. O maior mistério é que os jovens não são encontrados no Mar dos Sargaços e em nenhum outro lugar. Onde se escondem (?) e do que se alimentam (?) durante os “anos perdidos”, são perguntas ainda sem respostas. Os juvenis não apenas são maiores do que os das outras espécies e com mais capacidade pulmonar, mas também nadam mais rapidamente. Isso talvez faça uma enorme diferença na aptidão dessas pequenas grande tartarugas para o mergulho profundo, aumentando as chances de sobreviver no centro dos giros oceânicos tropicais onde existe alimento abundante entre 100-200 metros. Ou nas margens subtropicais dos giros, nas zonas de Convergência Subtropical (CST) onde há muito alimento mesmo na superfície.

A CST é uma fronteira hidrográfica que divide águas subtropicais de águas temperadas. No Hemisfério Sul, quando se navega na direção sul cruza-se uma faixa oceânica de pouco mais de 60 milhas náuticas de espessura, na qual a temperatura cai de 20 para 15 graus aproximadamente. É uma estreita faixa de gradiente térmico, rica em produção orgânica, que circunda todo o globo no Hemisfério Sul. Daí a dificuldade de encontrá-las, porque normalmente os navios cruzam com a CST durante seus cruzeiros oceanográficos em geral no sentido norte-sul. São raros, se é que existem, cruzeiros oceanográficos no rumo da circunavegação ao longo da zona de convergência subtropical, onde a probabilidade de encontrar tartarugas se alimentando seria pelo menos centenas de vezes maior. Zonas semelhantes também existem no Atlântico e no Pacífico Norte.

É óbvio que essas zonas de fronteira hidrográfica reúnem as melhores condições de alimento e temperatura, não apenas para as jovens e enigmáticas tartarugas de couro, mas também para outras espécies carnívoras, que ocorrem em todos os oceanos. Como precisam de temperaturas elevadas para manter o metabolismo corporal (são animais de sangue frio) devem permanecer do lado quente da fronteira hidrográfica. Exceto talvez a tartaruga de pente que adoram as esponjas marinhas que crescem em recifes de corais. Aliás, é curiosa essa semelhança entre o hábito alimentar das carnívoras jovens em regiões pelágicas subtropicais e tropicais, alimentando-se não apenas de medusas carnívoras, mas também de organismos gelatinosos igualmente bons filtradores como as esponjas marinhas. Será essa mais uma adaptação evolutiva do hábito alimentar de animais pelágicos com poucas oportunidades de encontrar alimento? Não me admira nada uma tartaruga conseguir sobreviver em um deserto tropical, onde o alimento mais abundante está nas partículas microscópicas invisíveis e que só um “aspirador de pó vivo” consegue aproveitar. As melhores alternativas de alimento são sem dúvida esses empacotadores de partículas orgânicas de vida planctônica, com pouca mobilidade e, portanto, facilmente capturados. É certo que esses gelatinosos tem 97% de água em sua composição. Ou seja, comida diet para tartarugas, com baixíssimo poder calórico. Mas já que as tartarugas também têm baixo metabolismo basal, fica elas por elas.

Hoje as tartarugas são protegidas por lei o que, infelizmente, não garante proteção integral. As populações continuam vulneráveis aos pecados dos homens contra a biodiversidade marinha, dentre os quais sem dúvida a pesca comercial de arrasto e de espinhel, e a contaminação com lixo plástico, são os mais ameaçadores. O IBAMA/TAMAR esta fazendo um belíssimo trabalho em Santa Catarina, monitorando os conflitos entre a pesca de espinhel e a conservação das tartarugas. Um anzol com isca é uma iguaria irresistível no habitat pelágico e elas acabam sendo capturadas acidentalmente. A pesca comercial tem interesse em resolver esses conflitos uma vez que a cada tartaruga capturada no anzol é um atum a menos na produção pesqueira. O projeto em SC desenvolveu anzóis especiais para evitar essas capturas acidentais.

Mas contra o lixo plástico a coisa vai de mal a pior. Um problema difícil de solucionar é evitar a contaminação dos mares com lixo sólido que ameaçam a vida marinha de várias formas. Quando os pedaços são pequenos são confundidos com alimento e matam por dentro (ver artigo “Nibs, o campeão do microlixo marinho”, nessa mesma coluna). Quando é grande, como cabos e redes de nylon à deriva, são armadilhas igualmente mortais. Como ocorreu ao largo da Ilha do Cardoso, sul de São Paulo no último dia 22 de março. Recebi as fotos dessa coluna de Adriana Brandão, uma médica cirurgiã cujo principal lazer é a fotografia submarina, talvez pra saciar um desejo oculto de ter sido Bióloga Marinha. Eram mais ou menos 4 da tarde quando a tripulação do veleiro “Da Vinci”, que viajava de Paraty a Antonina (baía de Paranaguá, PR), foi alertada por Adriana sobre um estranho objeto plástico que flutuava em meio ao lixo que se espalhava pela superfície do mar. Ao se aproximar após a insistência de Adriana, perceberam algo que se debatia em baixo de um tambor de óleo.

Adriana imediatamente percebeu um vulto de uma enorme tartaruga presa no cabo amarrado ao tambor. Um sistema de bóia improvisada que deve ter se desprendido de algum atracadouro costeiro ou de alguma rede de espera. As imagens são dramáticas e ao mesmo tempo redentoras. Dramáticas porque revelam o que acontece com freqüência nos mares do mundo afora; milhares de tartarugas enroscadas em pedaços de redes ou cordas de pesca. Como crianças ingênuas, não percebem o perigo e se aproximam em busca de alimento ou abrigo, e acabam enroscadas, morrendo de fome e exaustão. A não ser que tenha a sorte de encontrar pessoas como Adriana, que heroicamente salvou essa cabeçuda do enrosco fatal. Esse é o lado redentor das imagens.

Adriana é também uma heroína anônima, assim como todas as jovens tartarugas que lutam solitárias pela sobrevivência num oceano de armadilhas. Pulou corajosamente no mar sob o olhar assustado de três marmanjos indecisos, que além de fazer as fotos (lindas por sinal) deviam estar aos berros em cima do veleiro, mais preocupados com a mordida que a tartaruga podia dar na Adriana. Que sua coragem, levada sem dúvida pela força do espírito materno, sirva de exemplo pra todos nós. Nunca hesitem em salvar um animal marinho em apuros. Mesmo que seja tarde de mais, pois ele merece morrer com dignidade diante das ameaças tão covardes que, por pura ignorância, provocamos contra a natureza do mar. É a sua chance de redimir os pecados dos homens.

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