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| O Mar dos Maias |
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| 17/01/2007, 15:35 | |||||||||||||||||
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Hoje, tudo o que se sabe da cultura Maia foi redescoberto por John Lloid Stephens, um advogado, diplomata e explorador americano que entre 1839 e 1842 desenterrou culturalmente, do meio da floresta tropical e das terras alta da Península de Yucatán as pirâmides de Copán, Palenque, Uxmal e Chichen Itzá, e suas construções associadas. Verdadeiras obras da engenharia pre-colombiana. Uma civilização em simbiose com a pedra calcárea e porosa, originada da atividade de organismos marinhos, que durante milhões de ano acumulou-se e ergueu-se do fundo do mar pela ação das placas caribenhas. A porosidade do solo calcáreo drenava toda a água da chuva. O acesso ao lençol freático era através de poços sagrados, os cenotes, que ainda hoje abrem-se em reservatórios naturais submersos, ao redor dos quais desenvolviam-se os vários grupos tribais sacrificando perus selvagens e até vidas humanas como oferendas aos seus deuses insaciáveis. Os Maias pescavam com redes e anzóis no mar aberto, ou arpoavam peixes nas áreas estuarino-lagunares. Em terra cultivavam principalmente o milho, uma planta sagrada da qual acreditavam havia surgido o primeiro homem, além de feijão, mamão, abacate e cacau, cujas sementes eram torradas e moidas para produzir um pó usado para preparar uma bebida, o xocolatl, consumida pela classe nobre e que deu origem a palavra chocolate, outra do vocabulário português de origem maia. Os espanhóis levaram para a Europa, os suíços adicionaram o leite e hoje os chocólatras e dentistas agradecem. Tudo isso graças aos índios maias. As sementes de cacau eram moedas de troca de tão valiosas que eram. Extraiam e mascavam uma resina da árvore copal, ou seja, foram também os inventores do chiclete (não essa não é maia, não vem de algo como xikletl). Caçavam veados e criavam perus, as únicas fontes de proteina animal além da pesca. Também criavam abelhas pra extração do mel. Enfim, eu li que esse povo produzia tanto alimento que podia trabalhar só 6 meses e tinha o resto do ano para fazer o que quisessem, inclusive construir pirâmides e estradas de rocha calcárea, unindo cidades e centros políticos e religiosos por toda a Península de Yucatán. Eram bons astrônomos, matemáticos e, sobretudo, festeiros! Celebravam 22 festas religiosas ao longo dos seus precisos 365 dias do calendário solar. Exatamente como o nosso, só que dsitribuidos em 18 meses de 20 dias cada, mais 5 dias de “reajuste do relógio solar”. Não sei bem o que significa isso, mas posso imaginar. Mesmo com todas essas qualidades os maias tinham defeitos, como todos nós; devido às disputas entre reis e suas tribos rivais derrubaram florestas em demasia, cresceram em demasia e acabaram esgotando recursos naturais. Secas prolongadas e colheitas insuficientes enfraqueceram o império (sim, eu também li o “Colapso” do Jare Diamond!). Quando chegaram os espanhóis por volta de 1500, a população já estava reduzida a alguns milhares, em contraste com os milhões de pessoas que habitavam a Península Yucatan no auge do império. Mesmo assim demorou quase 200 anos até os espanhóis subjugarem as tribos restantes e incorporarem as terras, as ilhas e o mar, antes explorados apenas pelos indios. Hoje seus descendentes dividem com descendentes de piratas, garífunas descendentes de escravos e turistas americanos a exploração dos recursos costeiros e da barreira de corais. A Corrente da Flórida traz larvas de invertebrados e refugiados cubanos que mantêm o processo de colonização dos recifes do sudeste tropical dos Estados Unidos e Miami, respectivamente. Se perdessem o ponto, o que é comum, passam direto entre a Florida e as Bahamas desembocando na famosa Gulf Stream (=Corrente do Golfo) que leva calor para o Norte da Europa. E a coisa vai longe e não há espaço aqui para descrever os detalhes da circulação global oceânica. Em resumo, os cientistas calculam que levaria 100 mil anos para que as larvas e os refugiados cubanos, que por milagre sobrevivessem, chegassem de volta às Antilhas Holandesas, fechando o ciclo global oceânico. O importante disso tudo é saber que o mar, assim como o ar, são as vias de comunicação e troca de materiais e calor do nosso planeta. Tudo está interligado. Visitei o Mar do Caribe pela primeira vez em novembro do ano passado junto com um pequeno grupo de ambientalistas, a convite da Fundação AVINA. Nosso anfitrião e guia era Ricardo Soto. Um cientista costariquenho que modestamente se auto denomina “botânico”. Na verdade Ricardo é muito mais do que isso. Tem o perfil de um explorador naturalista das Américas, uma espécie das mais raras hoje em dia. Uma encarnação contemporânea de Humboldt em um corpo metade maia metade espanhol e o cavalheirismo inglês. Ricardo sabe tudo sobre a natureza ao seu redor. Transpira ciência natural por todos os poros. Se traçarmos um perfil geográfico imaginário na América Central, entre o Pacífico e o Atlântico caribenho, cruzando as terras altas áridas, vulcânicas, e as florestas úmidas da América Central, ele é capaz de descrever a formação geológica e a estrutura geral de cada bioma, seja terrestre ou marinho, desde as profundezas do mar caribenho até as montanhas áridas ao redor do Rio Montágua. E ensina com prazer, coisa rara nos dias de hoje. Atualmente também trabalha no terceiro setor pela conservação da natureza e apoio social as comunidades menos favorecidas. Portanto, não podíamos ter tido melhor guia e anfitrião para nossa pequena expedição. Nossa missão era conhecer projetos de conservação da natureza nas costas da Mesoamérica caribenha e trocar experiências com ambientalistas locais. A viagem começou por Belize, assim como a 1a expedição de John Stephens em 1939, um pequeno país que pertence a comunidade britânica e ainda não entendi qual a vantagem disso. O desenvolvimento costeiro é desordenado, a renda mal distribuída, etc, etc e tal. A maioria dos brasileiros de classe média e alta nunca ouviu falar, a não ser os aficcionados pelo mergulho scuba. O país nasceu da disputa política entre Inglaterra e Espanha nos séculos XVII e XVIII pela hegemonia do comércio caribenho. Quando Cromwell venceu a disputa pelo Parlamento Inglês resolveu sacanear os espanhóis que disfrutavam há quase um século das vantagens do Tratado de Tordesillas, que lhes garantia a posse e o direito de explorar as Índias Orientais.Das terras e ilhas caribenhas eram exploradas madeira, coco, peixes, frutas, corantes, conchas e cacao. Haviam caçadores de baleia e piratas ingleses, franceses e holandeses que infernizavam a vida a bordo dos galeões. Outras nações com soberania náutica naqueles tempos, pelo menos Portugal, França, Inglaterra e Holanda invejavam a posse espanhola do Istmo da América Central devido ao potencial de acesso ao Oceano Pacífico, consumado séculos mais tarde com a abertura do Canal do Panamá em 1914. Principalmente a Inglaterra, a bola da vez na disputa pela soberania naval do período dos descobrimentos. Depois das batalhas e da diplomacia, a Espanha cedeu o território de Belize desde que os ingleses parassem com a pirataria de seus galeões. Belize passou a ser, depois da Jamaica, o segundo centro da comércio da nova “pirataria continental”. Acabou sendo um mal negócio para a Espanha que teve que dividir recursos naturais, agora explorados por ex-piratas do Caribe, só que direto da fonte. E o precedente acabou espalhando piratas reprimidos por toda a costa caribenha. O fato é que em Belize estão 80% da maior barreira de corais do Atlântico, a segunda maior do mundo depois da barreira da Austrália, com a extensão de aproximadamente 240 km. No final dos anos 90, os governos de Belize, México, Guatemala e Honduras se convenceram da importância de proteger os recifes de coral porque atraem turistas, trazendo divisas para o país. O programa Meso American Barrier Reef System Project foi criado em 2001 com o objetivo de monitorar a longo prazo o impacto do turismo e da pesca, e criar programas de educação ambiental para garantir a sustentabiliade e a proteção desse enorme ecosistema. Foram alocados US$ 11,6 milhões financiado pelo GEF e contribuições fominhas e da ordem de US$1.69 milhões do governo de Belize, US$0.59 milhões da Guatemala, US$0.59 milhões de Honduras e US$0.74 milhões do México. Me parece pouco para proteger algo tão valioso para a humanidade quanto a segunda barreira de coral da América Central, um patrimônio reconhecido pela UNESCO em várias de suas unidades de conservação. Muitos americanos estão comprando ilhas paradisíacas na Barreira de Corais da mesoamérica. Talvez quem tenha detonado o êxodo americano para lá tenha sido a Madonna quando homenageou a ilha Ambergrise (Ambergrise Key) com sua famosa canção “iiiis-la boniiii-ita”. Recentemente chegaram Robert De Niro, Tiger Wood e Leonardo di Caprio. Todos compraram ilhas em Belize. O Blue Hole Natural Monument é outra bela jogada de marketing turístico que atrai milhares de aficcionados pelo mergulho scuba em Belize. Um dos primeiros folders a disposição na oficina turistica do aeroporto. É um buraco circular do tamanho de mais ou menos 4 campos de futebol, no meio do assoalho calcário do atol Light House, com 150 metros de profundidade e diversas cavernas e fomações calcáreas em suas paredes laterais. Como um queijo suíço. Ficou famoso quando o Calypso do Jacques Cousteau ancorou em suas bordas em 1972 e divulgou para o mundo a exuberância da vida marinha do buraco tropical. Tanto que tornou-se patrimônio natural da UNESCO em março de 1996 e declarado Monumento Nacional em Belize em fevereiro de 1999. Infelizmente, aqui também a natureza perdeu a batalha para o turismo. Hoje o Blue Hole está mais pra Ass Hole em termos de conservação. A pirâmide alimentar parece achatada na base. Não vi animais do topo da pirâmide, como grandes carnívoros que regulam a estrutura geral da pirâmide trófica. Vi só uma barracudinha numa região que supostamente no período colonial era infestado de barracudas e tubarões. Nada de tubarão. Garoupas e badejos não eram maiores do que dois palmos. Lagosta então nem se fala. Éramos 8 mergulhadores explorando aleatoriamente quase 100 metros de trilha ao redor da borda e nenhum relatou ter visto algum crustáceo além dos caranguejos entocados e os hermitões de sempre. Tudo o que vimos foi um jardim vazio formado por gorgônias, esponjas tubulares, colônias de cnidários e os já corriqueiros peixes recifais coloridos. Atóis são ilhas de biodiversidade, com poucas possibilidade de migração de peixes e invertebrados adultos de um para outro, a não ser através da dispersão de larvas transportadas pelas correntes marinhas. As mesmas espécies de peixes e invertebrados colonizam os habitats recifais calcáreos desde as Antilhas até a Flórida pelo processo de dispersão larval, que é lento como as correntes marinhas. Um novo habitat na região, demora anos, décadas talvez séculos, dependendo da posição em relação aos locais de origem das larvas até atingir o mesmo grau de complexidade. Isso significa que o impacto em um atol demora para ser revertido. Recolonizar um atol, transplantando populações de espécies em declínio pela pesca (p.ex.) só é possível a partir de comunidades do atol ou da barreira mais próxima. Mas se todos estiverem comprometidos, não há de onde obter recrutas para recuperar a biodiversidade perdida. O correto teria sido transformar todos os atóis em santuários ecológicos, sem turismo e pesca. Como tem sido, pelo menos oficialmente, no atol das Rocas. Além dos problemas ambientais, os conflitos sociais também são graves. Países nos quais governos e empresas privadas se misturam a corda sempre arrebenta do lado dos mais fracos. Antes eram as sementes de cacau que valiam ouro. Hoje é a lagosta, usada até para lavar o dinheiro da cocaina. Na década de 1990 o narcotráfico colombiano desovava cocaina na América Central para atravessadores nicaraguenses que compram lagosta de pescadores Miskitos da Nicarágua. Houve até denúncias sobre o envolvimento da rede americana Red Lobster, a principal consumidora da lagosta oriunda do mercado da cocaina. Tirando a cocaina, a fórmula é a mesma do nordeste do Brasil; pescadores artesanais necessitados mergulham com equipamentos adaptados, sem segurança e sujeitos a acidentes fatais ou a lesões irreversíveis para poder lucrar com o alto preço da lagosta no mercado internacional e com a demanda do turismo local. Por último, chamo a atenção para a poluição generelizada oriunda dos esgotos urbanos e industriais através dos rios que desaguam no Golfo de Honduras e mais ao Norte na Península de Yucatán. A Dra Melany Macfield, pesquisadora do Instituto Smithonian, fez um estudo preliminar no âmbito do programa Healthy Reef for Healthy People sobre a contaminação da teia alimentar da barreira de corais com metais pesados. Teia esta em que pescadores e turistas estão no topo. Descobriu níveis assustadores de chumbo no leite materno de mulheres pescadoras e dela mesma, que vive há 15 anos na região consumindo peixes e frutos do mar. A Organização Mundial da Saúde aceita no máximo 10 µg/dl. Os resultados da Dra Mecfield revelaram níveis de até 80 µg/L. Ou seja, essa contaminação crônica e oculta dos ecossistemas desanima e compromete as ações de conservação dos ecossistemas da região se uma pollitica ambiental mais rigorosa não for estabelecida com urgência. De que adiante proteger peixes contaminados? Vi muito lixo e poucos peixes de topo da teia alimentar nas reservas marinhas dos atóis de Belize que visitei. O turista, leigo em questões mais complexas sobre biodiversidade e estrutura de uma teia alimentar recifal, observa maravilhado um jardim aquático vazio e cada vez mais contaminado. Gorgôneas (corais mole), esponjas e dezenas de formações de corais revelam para o leigo a noção de riqueza de espécies em um habitat que ele não conheceu antes, quando apenas os Maias exploravam a costa mesoamericana, sacrificando seus filhos por melhores colheitas e pescaria. Um cenário submarino que encanta turista, mas não engana ecologista. ![]()
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Oceanógrafo e líder Avina que participou de várias expedições do Programa Antártico Brasileiro. Nos últimos 28 anos trabalhou como Professor do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná. Atualmente trabalha no Instituto Oceanográfico da USP. 


