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| 27/09/2006, 12:21 | |||||||||||||
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De um certo modo, aquários realmente exercem esse fascínio hipnótico nas pessoas. Tanto quanto fixar os olhos sem piscar no fogo da fogueira ou na brasa do fogão a lenha, aquários acalmam, relaxam a mente e agem como sonífero. Devem ser resquícios evolutivos da infância mamífera. Assim como os bebês chorões são repentinamente atraídos pelos movimentos e sons curiosos de chocalhos coloridos, somos seduzidos pelos movimentos e cores de um aquário. Nossos sentidos de ver e analisar são estimulados, e agimos como predadores da informação sobre algo que desconhecemos. Curiosos sobre como as coisas são e funcionam no ambiente do aquário. Representar parte da biodiversidade marinha entre quatro paredes de vidro tem pelo menos cinco utilidades para a raça humana: lazer, educação, trabalho, apoio à pesquisa e à conservação da natureza. Como isso é feito e explorado pelas sociedades humanas pode representar duas faces opostas de uma mesma moeda. Por exemplo, a aquariofilia comercial, cuja fama não é das melhores entre os ambientalistas, sustenta um hobby de milhões de pessoas que em geral não conhecem quase nada sobre o que realmente acontece abaixo da superfície do mar, mas gostam de apreciar os mistérios do comportamento de animais aquáticos. É um mercado que soube explorar muito bem esse fascínio de algumas pessoas pelos movimentos, formas e cores desses animais. Infelizmente os aficionados por aquários contribuem para o comércio ilegal de peixes ornamentais, invertebrados e rochas vivas que, em escala mundial, movem bilhões de dólares anualmente, gerando empregos diretos e indiretos sim, mas com um custo ambiental imensurável. Na maioria das vezes, a cadeia produtiva do mercado de aquários inicia-se na pirataria da biodiversidade marinha de recifes e rios tropicais de todo o mundo. Principalmente nos países subdesenvolvidos do Oceano Pacífico asiático. A pirataria de peixes ornamentais começou nas Filipinas no início da década de 50 para atender o mercado americano. Espalhou-se pela Indonésia e para a maioria dos países insulares rodeados de recifes de coral, onde a pobreza e a corrupção institucionalizadas fecham os olhos para o roubo e a depredação de espécies exóticas, muitas já na lista vermelha da IUCN. Milhares, talvez milhões de espécies de peixes e invertebrados bênticos são seqüestrados anualmente de seu habitat natural e vão parar em aquários decorativos de residências, shopping centers, escritórios de advocacia e consultórios médicos. Nunca vi nenhum nas escolas públicas e particulares brasileiras que visitei. As técnicas de captura normalmente usam redes de espera, puçás e produtos químicos (cianeto de sódio) que anestesiam centenas de peixes ao mesmo tempo. Como no comércio de animais silvestres, muitos não resistem ao transporte e manuseio, morrendo antes de decorar a sala do dentista. Alguns desses aquários são de um mau gosto irritante, no velho estilo anão de jardim ou troncos de árvores caiados de branco. A decoração mais comum são aquelas réplicas de caravelas portuguesas assentadas sobre fundos de pedrinhas azuis, verdes e, nos casos mais extremos de breguice, o “pink cheguei” é o campeão. E pra completar e dar aquele toque mais ecológico decoram com plantas de plástico. Se for assim, prefiro um abajur ou um vaso. Outros têm mais vocação turístico-recreativa. E, como tal, são ótimos para a desinformação e má educação ambiental, como os aquários que oferecem shows de focas, golfinhos e orcas. Um circo aquático que ganha rios de dinheiro explorando a inocência ignorante (sensu stricto) de crianças, adolescentes e adultos. Vão para casa felizes e com aquela visão destorcida do comportamento selvagem de animais marinhos. Os animais são tratados como investimento e são condicionados, ou melhor, mentalmente torturados para responder aos estímulos do alimento. Exatamente como nos circos tradicionais que, às vezes, fogem do controle do treinador provocando acidentes. Diante dos protestos de grupos conservacionistas, os investidores desse tipo de aquário usam a desculpa de que parte dos recursos são destinados a pesquisas de comportamento e conservação marinha. Nunca vi nenhuma publicação oriunda desses locais. Pra mim, a única pesquisa que fazem é como condicionar o coitado do Flipper a se comportar como gente, fazendo piruetas e pulando argolas, como poodles de circo. Esses circos aquáticos de mau gosto, nada mais fazem do que distorcer a realidade do comportamento natural selvagem desses animais e prejudicam a conservação marinha. Criam animais neuróticos que fazem parte do circuito do entretenimento de massa em alguns países do primeiro mundo. Entretanto, aquários têm um outro lado da moeda. Podem ter um papel importantíssimo na pesquisa marinha, na educação ambiental e no turismo recreativo responsável, com geração de milhões de empregos diretos e indiretos. Devem ser superdimensionados de modo a tentar reproduzir cenários em escala real e as características dos habitats marinhos e suas macro-comunidades dominantes. Já não são mais aquários. São oceanários. Necessitam de paredes de concreto armado, impermeabilizadas e reforçadas para suportar a pressão de milhões de litros de água, com tecnologia de saneamento básico para limpeza, sistemas de filtração e bombeamento de água para circulação. Empregam arquitetos, engenheiros e técnicos especializados em construção de estruturas resistentes a água salgada. Contratam também veterinários, biólogos marinhos, mergulhadores, químicos e engenheiros químicos, microbiologistas, artistas da cenografia submarina, artesãos e escultores de réplicas educativas de animais marinhos, e pessoal administrativo. Tudo organizado de modo a acomodar e harmonizar o mundo aquático com o mundo terrestre, divididos por apenas alguns centímetros de policarbonato transparente. Uma vitrine dos ecossistemas marinhos. O mar in vitro. Alguns desses aquários públicos são simplesmente geniais, do tipo “vale a pena ver de novo”. Entretanto, quase todos os oceanários do mundo construídos com alta tecnologia e design avançado e programas interativos com o público estão em países do primeiro mundo. A educação ambiental voltada para o ambiente oceânico e costeiro é uma prática comum em países do Hemisfério Norte. Justo lá que tem menos mar do aqui no Hemisfério Sul. A maioria não tem fins lucrativos e é sustentada por fundações ou administrações públicas com objetivos educacionais e recreativos. Obviamente precisam cobrar entradas e vender postais, livros, bonés, camisetas e souvenires para contribuir com os custos fixos e a manutenção de rotina. Como qualquer museu de arte precisa fazer. Aquários desse tipo são em geral criativos e de muito bom gosto, com arquitetura especializada. Cumprem verdadeiramente seu papel social e educacional associado ao lazer. O que atrai o turista é a curiosidade de um mundo diferente. A imaginação de se sentir dentro de mundo novo. A educação vem de forma subliminar, na esteira da diversão. Um dos oceanários que mais me impressionou pela estética e criatividade da arquitetura foi o Aquário de Gênova, na Itália. Trata-se de um navio de comissionado e transformado em um aquário público na região portuária. Um tanque de toque enorme se destaca em um salão a meia luz, no meio do navio, ao redor do qual os visitantes sentam-se para apreciar nada mais do que apenas raias, que nadam livremente sob a iluminação de holofotes laterais. Outro que por muito tempo foi considerado de última geração, é o aquário privado da Baía de Monterey na Califórnia. Oferece programas educacionais para adolescentes (Student Oceanography Club) que se reúnem para aprender sobre biodiversidade marinha e organizar excursões para observações in situ dos ecossistemas e organismos marinhos ao redor da Baía de Monterey. Aceitam voluntários de todas as idades que queiram colaborar como guia, informando aos turistas sobre todo o funcionamento do aquário, revelando segredos de bastidores na manutenção e tratamento de animais. Além disso, mantêm programas de conservação e pesquisa de alta qualidade sobre biodiversidade marinha. Com apoio de mini-submarinos e transmissão de imagens de vídeo à distância, exploram as zonas profundas do Oceano Pacífico oriental, contribuindo com a formação acadêmica em universidades e centros de pesquisa, além das centenas de escolas de ensino fundamental. O aquário de Tampa na Flórida é outro exemplo de bom gosto e realismo na representação dos ecossistemas costeiros e de plataforma continental. As aves de mangues ficam soltas pelos corredores. Os displays educativos de habitats de manguezais, habitats rochosos e arenosos representados em fatias tridimensionais, são interativos e repletos de informações científicas em linguagem acessível. Aliás, isso é uma regra em todos os aquários públicos. O aquário de Tampa destaca-se pelos seus programas de conservação de mamíferos, cavalos-marinhos, cultivo e repovoamento de corais e reabilitação de aves, répteis, mamíferos, anfíbios e peixes, através de programas de medicina veterinária aquática. Faz pesquisas sobre tumores e deformações em tubarões e suas aplicações na medicina humana. O aquário de Vancouver, no Canadá, revela como nenhum outro a biodiversidade do mar polar e organiza excursões para observação in situ de orcas e belugas do Ártico. Também participa do programa internacional International Coastal Cleanup, que se dedica à limpeza e retirada de lixo na zona costeira em setembro. Segundo o Dr. Ariel Scheffer (ariel.scheffer@marbrasil.org), que trabalhou no Aquário de Vancouver, um dos programas mais interessantes de educação infantil é a possibilidade de crianças passarem a noite no aquário, acompanhadas de guias especializados. Os guias relatam fatos e curiosidades da vida marinha com apoio de um mergulhador que fala com o público infantil de dentro de um aquário usando uma máscara especial com um microfone adaptado, respondendo perguntas e esclarecendo dúvidas da criançada sentada em arquibancadas. Após o lanchinho noturno, as crianças são acomodadas em colchonetes para dormirem dentro de um túnel de policarbonato transparente, passando por dentro de um dos compartimentos do oceanário. Com a visão de cardumes de peixes e mamíferos marinhos, nadando peripateticamente sob iluminação lateral, ouvindo o canto de baleias, o som de briga de gaivotas e ondas quebrando no costão, cria-se uma atmosfera, ou melhor, uma hidrosfera mágica. As crianças sentem-se como se estivessem deitadas no fundo do oceano profundo, olhando pra cima e admirando a vida marinha que passa sob olhares arregalados. O efeito hipnótico revela-se no primeiro bocejo e, como numa reação em cadeia, a molecada toda adormece com a última visão de um cardume de peixes. Provavelmente nunca mais se esquece da experiência. Vários outros oceanários seguem linhas de ações semelhantes, como os de Okinawa, o Aquário do Museo Oceanográfico de Monaco, construído em 1931 (foto ao lado), e o famoso Oceanário de Lisboa construído para a Exposição Mundial de Lisboa, celebrando o ano dos oceanos em 1998. No Brasil, apesar dos oito mil quilômetros de costa e uma diversidade enorme de paisagens costeiras e ecossistemas marinhos, a cultura de aquários educativos e oceanários socialmente responsáveis ainda é incipiente. Resume-se na aquariofilia decorativa e comercial que depreda nossos rios e recifes de corais. Temos aquários públicos em Santos e Ubatuba (SP), construídos com a máxima das boas intenções. Mas estes ainda estão longe de cumprir o papel sócio-ambiental dos grandes oceanários norte americanos e europeus. Infelizmente, as autoridades municipais, a iniciativa privada e a indústria turística nunca deram a devida importância aos aquários públicos como alternativa de lazer e ao mesmo tempo ferramenta educativa. Por pura falta de conhecimento de causa. Sempre que menciono a importância de oceanários públicos como ferramenta poderosa de educação ambiental, apoio a pesquisa e a conservação de recursos marinhos, todos os empresários e tomadores de decisão esboçam uma risadinha pelo canto da boca e mudam de assunto. Pensam que estou brincando. Ainda não acordaram para essa nova alternativa tecnológica de exploração sustentável de recursos marinhos. É uma pena que a maioria do povo brasileiro nunca tenha tido a oportunidade de ser hipnotizado pela magia da biodiversidade marinha. O mar brasileiro seria mais admirado e menos agredido. ![]()
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Oceanógrafo e líder Avina que participou de várias expedições do Programa Antártico Brasileiro. Nos últimos 28 anos trabalhou como Professor do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná. Atualmente trabalha no Instituto Oceanográfico da USP. 


