O “Senhor das Pedras” – um gigante ameaçado PDF Imprimir E-mail
11/07/2006, 14:49
Os índios brasileiros o chamavam de itajara, que em tupi quer dizer “senhor das pedras”. Daí originou o nome científico Epinephelus itajara. Mas o nome mais popular é “mero”, tão cobiçado por pescadores esportivos e profissionais de todo o mundo. É talvez o maior dos peixes costeiros, habitante de fundos rochosos, ambientes estuarino-lagunares e recifes de corais.

Não à toa os americanos o chamam de Goliah grouper (“garoupa Golias”). Uma garoupa gigante e solitária, que assusta os mergulhadores iniciantes e excita os mais experientes. O garopão chega a atingir quase 1,5 metros e pode pesar mais de 300 quilos acumulados paulatinamente por décadas alimentando-se de lagostas, peixes e até tartarugas. Como um gordo sem agilidade, nada lentamente entre as paredes de pedra dos recifes rochosos e coralíneos. Mas o modo como captura a presa compensa a lentidão dos movimentos. Aproxima-se devagarzinho da vítima distraída e...chuiiipt ! Abre a bocona de caboclo mamadô, fazendo um vácuo repentino com tamanha potência que suga a presa e metade da paisagem ao redor.

O mero não se intimida com a presença humana. Apesar de arrepiar os espinhos dorsais, sinal de estresse e preocupação com a aproximação do mergulhador, ele não foge, não se protege e não revida. Afasta-se pra não brigar. Exatamente por isso ele está na Lista Vermelha da IUCN [União Internacional pela Conservação da Natureza, na sigla em ingês] como uma das espécies de peixes mais ameaçadas de extinção.

Seu comportamento considerado “dócil” é um ato suicida diante da insensatez do caçador inexperiente e do oportunismo do caçador profissional. O inexperiente engana a si mesmo ao ganhar um troféu não merecido, uma vez que matar um mero não significa nada para a caça esportiva. Pelo menos não deveria. Um mero lento e inocente não é nem de longe um peixe esportivo. É exatamente como pular a cerca do pasto e acertar um balaço na cabeça do boi que pasta despreocupadamente, e depois sair por aí se gabando e dando uma de David Crocket dos mares tropicais.

Principais ameaças

Para o pescador profissional, representa mais rendimento pesqueiro com o mesmo esforço de captura. E essa tem sido a grande ameaça desde a década de 50. O comportamento gregário em períodos reprodutivos ameaça a sua sobrevivência em mares tropicais. Torna a população vulnerável à matança em massa, como vem sendo praticada há décadas ao longo da costa brasileira. Já vi fotos em preto e branco de orgulhosos pescadores dos anos 50 e 60 que mais pareciam mercenários ao lado de dezenas de carcaças de meros estendidos lado a lado no píer das marinas.

Hoje, cenas como essas são impossíveis por duas razões. Primeiro, quase não existem mais meros na costa brasileira, pelo menos nos trechos mais acessíveis aos pescadores submarinos esportivos e profissionais. Segundo, os poucos meros que sobraram estão protegidos por uma portaria do Ibama de dezembro de 2002, que determina multas elevadas para quem for apanhado com meros abatidos no barco. Como se isso adiantasse.

A pesca clandestina continua a ser praticada pelo mesmo bando de ignorantes. Os principais clientes desse crime ambiental são restaurantes e peixarias. Os animais nunca são congelados inteiros e muito menos com cabeça, a principal prova do delito. São rapidamente transformados em filés e vendidos como garoupa ou badejo (“badejão”, como dizem os vendedores de nariz comprido) para burlar a lei ambiental. Mesmo se houvesse fiscalização não haveria como provar a origem da carne proibida.

Os Estados Unidos baniram a matança ao mero em 1990 e os países do Caribe americano em 1993. A portaria do Ibama de 2002 vale por cinco anos, ou seja, até dezembro de 2007. Se com lei já é difícil proteger o animal, sem a portaria o peixe está condenado à extinção em todo o território nacional. A exceção talvez seja o Pará, onde a grandeza e a inacessibilidade do delta amazônico ainda preservam populações inteiras de meros em suas águas estuarinas. Lá, os meros são capturados acidentalmente por redes de arrasto de Piramutaba, um bagre de valor comercial. Mas no resto da costa brasileira eles são raros. Mesmo em unidades de conservação como Fernando de Noronha, Atol das Rocas e Área de Proteção Ambiental (APA) dos Corais (PE).

Outra razão da ameaça de extinção em que se encontram os meros em todo o mundo é a destruição dos manguezais. Uma das maiores especialistas em meros do mundo, a cientista americana Anne Marie Eklund (NOAA - Southeast Fisheries Science Center, Miami, EUA), descobriu que não existem meros onde não há manguezais. Filhotes de meros são criados em águas protegidas de lagunas tropicais margeadas por mangue, onde o alimento é abundante e a oferta de refúgio contra a predação é enorme. Portanto, quanto menos áreas de manguezal, menos recrutamento de meros.

Quando adultos saem para áreas desabrigadas de mar aberto, acasalam-se e alimentam-se em hábitats rochosos e recifes de coral. Beatrice Padovani, da Universidade Federal de Pernambuco, é nossa especialista brasileira. Relatou apenas um mero em 400 transectos de inspeção visual na APA dos Corais, uma região supostamente protegida contra a pesca. Isso pode estar associado ao recrutamento comprometido com a destruição em massa de manguezais no Nordeste para criação de camarão.

Parque dos Meros

Tomei contato pela primeira vez com o “senhor das pedras” nos recifes artificiais lançados na costa do Paraná entre 1997 e 2003 pelo projeto Recifes Artificiais Marinhos do Paraná. Os primeiros blocos quadriláteros assentados no fundo arenoso da costa paranaense, ao largo das Ilhas Currais, passaram a ser visitados por grupos de meros nos períodos mais quentes do ano, entre novembro e março. Hoje o local é conhecido pelas escolas de mergulho do Paraná como Parque dos Meros e tem feito sucesso entre os mergulhadores esportivos.

Alguns deles já mergulharam mais de uma vez só pra sentir de novo a emoção de chegar perto de um bichão daqueles. O coração começa a bater mais rápido. Esses meros são um dos poucos grupos que restaram na região sul do Brasil, tendo em vista a proximidade de extensas áreas de manguezais ainda em bom estado de conservação, como as das baías de Paranaguá e Guaratuba, no Paraná, e a Baía da Babitonga, em Santa Catarina.

A vulnerabilidade desses animais à caça fez com que a Ong paranaense MarBrasil criasse o Promero, um projeto de conservação dessa espécie ameaçada. O projeto visa incluir o mero nos programas de turismo ecológico do Paraná – turismo do tipo “mero watching”. A visitação ao Parque dos Meros contribui com o desenvolvimento sócio-econômico do litoral. Apenas uma escola de mergulho de Curitiba lucrou R$120 mil em quatro anos levando mergulhadores esportivos para visitar os animais. Ou seja, um mero vivo vale muito mais do que um mero morto.

A primeira etapa do Promero será iniciada no próximo semestre de 2006 com apoio financeiro da Fundação O Boticário de Proteção da Natureza (FBPN) . Trata-se de um estudo dirigido aos meros que se concentram nos manguezais e nos hábitats naturais e artificiais do Paraná, usando técnicas de marcação e reavistamento. Serão feitos diversos mergulhos autônomos programados com apoio operacional de escolas de mergulho de Curitiba para avaliar a densidade populacional e a movimentação dos animais.

Tomara que o Promero tenha chegado a tempo de combater a caça ao mero e a proteger o nosso “senhor das pedras” antes que ele desapareça por completo e fique apenas na memória da cultura indígena e artesanal. Ou na consciência suja e no sorriso amarelo daqueles caçadores submarinos de alguma foto em preto e branco... de algum Iate Clube... de algum ponto dessa maravilhosa e desrespeitada costa brasileira.
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