Artimanhas marinhas PDF Imprimir E-mail
01/09/2005, 17:26
Se você não sabe o que é um “recife artificial” é preciso antes saber o que é um atrator para peixes, uma prática muito antiga e comum entre pescadores artesanais de todo o mundo. Um atrator é uma arte de pesca, mais precisamente uma armadilha mortal disfarçada de abrigo acolhedor. Pequenos galhos de árvore, folhas de coqueiro ou uma canoa afundada atraem peixes que buscam proteção, tornando-se bons pesqueiros. O exemplo clássico é o Payao das Filipinas, um atrator artesanal feito com folhas de coqueiros e que fica boiando na superfície do mar, ancorada com uma poita. Os peixes concentram-se ao seu redor e podem ser pescados mais facilmente. Existem centenas de tipos de atratores artesanais. A foto ao lado ilustra o exemplo da Ilha de Itaparica. Os pescadores amontoam galhos sobre a areia na maré baixa, e em seguida fincam estacas de madeira ao redor e esperam a maré encher. A água cobre os galhos que atraem peixes em busca de refúgio. Em seguida colocam uma rede ao redor dos galhos, sustentada pelas estacas de madeira, e esperam a maré baixar de novo. E aí é só retirar os peixes de dentro dos galhos. Uma outra prática comum é a marambaia do nordeste, também feita de madeira, para atrair lagostas (foto abaixo).

O conceito de atrator se espalhou para as sociedades modernas, com tamanha velocidade e abrangência geográfica que já na década de 30 era comum prefeituras da costa leste dos Estados Unidos se livrarem de restos industriais e da construção civil, normalmente tijolos e blocos de demolição lançando-os ao mar, com a justificativa de estar contribuindo para o aumento da biomassa de peixes na região.

Ainda hoje a prática de atrair peixes é comum entre pescadores artesanais e industriais. Comunidades de pescadores do mundo todo só não jogam a mãe no mar para servir de atrator. Vale tudo. Basta ter um mínimo de volume e densidade e não servir pra nada que vira atrator de peixe e lagosta. No Brasil já tem restos mortais de geladeiras e freezers, e até carcaças de carros e pneus usados sendo agrupados no mar para atrair peixes.

Atratores de pesca industrial também usam o mesmo princípio. Seduzem os animais com a oferta de refúgio e os traem descaradamente, pois o refúgio é na verdade sua sentença de morte. É uma maneira inteligente (reconheço) de diminuir o esforço de pesca. A indústria pesqueira usa atratores mais sofisticados em áreas oceânicas profundas para a pesca de atuns. São os chamados FAD’s (“fish aggregating devices”) inspirados no Payao filipino que economizam combustível e esforço pesqueiro. Ao invés de viajar uma semana para capturar 1 tonelada de atum, viajam apenas 1 dia até o atrator pelágico, onde os futuros sushis estarão juntinhos esperando para serem apanhados.

Mas claro que do ponto de vista da conservação atratores são ferramentas muito impactantes, principalmente quando se trata de atrair animais cujos estoques estejam ameaçados, como o próprio atum e a lagosta, dois exemplos de pesca na qual atratores são usados frequentemente. E mais recentemente o polvo. Está começando uma corrida ao polvo, sendo esse capturado com potes amarrados em cabos quilométricos na região sul do Brasil. O atrator é o próprio pote que serve como refúgio. O animal entra no pote pra desovar e é içado para cima. A desova é jogada fora. Um aborto artificial. Mais um condenado a entrar rapidinho pra lista de ameaçados.

O potencial que um novo habitat tem de atrair novos colonizadores tem sido estudado sistematicamente por cientistas de todo o mundo. E a aplicação desse potencial no ambiente costeiro é extremamente diversa. Uma dessas aplicações é a formação de habitats artificiais, do qual nasceu o termo “recife artificial”. É o nome fantasia dado a um grupo de estruturas, normalmente feitas de concreto, introduzidas propositadamente no fundo do mar para ser colonizado pela comunidade biológica adjacente, e passar a ser explorado pelo turismo subaquático ou pela pesca artesanal e esportiva. Novos habitats atraem comunidades diversas e este potencial de atração pode ser otimizado a tal ponto que a relação atração/produção passe a ser mais equilibrada do ponto de vista ecológico. O novo habitat deixa de ser apenas um atrator e passa a ser um protetor e produtor de biodiversidade. Não pense apenas em peixes. Pense em toda a teia alimentar marinha antes de mencionar o fato de que recifes artificiais têm sido apontados apenas como locais de atração e não como locais de reprodução de peixes. Se o novo habitat estimula o crescimento da base da teia alimentar, não há porque não acreditar que não vá igualmente favorecer o topo. A otimização da colonização é possível com formas adequadas, dispostas em locais adequados, selecionados com estudos ambientais prévios adequados. Só assim é que dá certo, o novo habitat começa a imitar a natureza e seus habitats rochosos naturais., como mostram as fotos abaixo.

Além de aumentar o recrutamento de peixes e invertebrados marinhos, recifes artificiais também servem para recuperar habitats degradados. Por exemplo, ajudam a diminuir a pressão do turismo esportivo e subaquático sobre os habitats naturais e servem de obstáculo contra o arrasto com redes de fundo em áreas onde o arrasto é proibido. O Estado da Florida (EUA) conseguiu diminuir em 50% o impacto do turismo sobre os recifes de coral da Flórida, desenvolvendo programas de recifes artificiais em larga escala. Centenas de navios decomissionados e plataformas de petróleo desativadas foram assentadas no fundo marinho, principalmente no Golfo do México, e hoje são visitados anualmente por milhares de pescadores esportivos e mergulhadores que sentem mais emoção mergulhando dentro de um casco de navio afundado do que entre as algas e cnidários dos recifes calcáreos. A natureza agradece.

Mas cuidado ! “recifes artificiais” é um tema sedutor, mesmo para aqueles que não tem experiência com estudos marinhos, e que confundem atratores com recifes artificiais. Comunidades de pescadores, hotéis e marinas estão começando a investir na idéia para atender seus próprios interesses. Projetos dessa natureza só devem ser feitos com base em critérios técnicos e ambientais, e desenvolvidos com a aprovação dos órgãos ambientais e da Marinha. Um diagnóstico oceanográfico da região é imprescindível para assentamentos em larga escala. Além do inventário biológico devem ser feitas medidas de correntes e do tipo de fundo. O material a ser utilizado não pode ser poluente, nem quimicamente nem visualmente. O pior exemplo foi o que ocorreu na costa leste dos Estados Unidos na década de 60. Milhares de pneus usados anos antes para um programa de recifes artificiais em larga escala foram parar na praia com a passagem de furacões.

Um sistema anti-arrasto também não têm nada a ver com recifes artificiais. Mas é igualmente uma ótima ferramenta de ordenamento pesqueiro, principalmente em áreas legalmente excluídas do arrasto mas não respeitadas. Ajudam a evitar os danos causados por redes de arrasto de fundo. Veja as fotos no fundo marinho antes (foto ao lado, à esquerda) e depois de passar uma dessas redes (foto ao lado, à direita). As imagens falam por si só. Eliminar conflitos entre a pesca artesanal e industrial que competem por recursos na mesma área. Unidades anti-arrasto estão sendo construídas atualmente no Paraná, onde um programa em larga escala está sendo desenvolvido com apoio do governo estadual em parceria com o Centro de Estudos do Mar e Associações locais. Serão 2000 unidades com a forma ilustrada na foto abaixo e arranjadas em transectos perpendiculares à costa.

Ao contrário dos atratores, habitats artificiais e sistemas anti-arrasto representam novas tecnologias que chegaram para ajudar na conservação e na exploração sustentável dos ecossistemas marinhos costeiros. Atualmente estão em fase de discussão as políticas públicas para o assentamento de recifes artificiais e anti-arrasto. Isso é urgente, não apenas para facilitar o trabalho daqueles que se preocupam realmente com a conservação da natureza e o uso sustentável do ambiente marinho, como também para brecar aqueles que se aproveitam do tema para lucrar com a ingenuidade dos pescadores artesanais. O mal resultado de projetos ruins do ponto de vista técnico, ambiental e social, cedo ou tarde será cobrado pela sociedade costeira. Os bons resultados certamente contribuirão para a solução dos problemas sócio-ambientais na costa brasileira.
Comentários
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URINA DE CAPRINO É PREJUDICIAL NA MISTURA COM A ÁG
ARMANDO CARNEIRO DE FREITAS 05/02/2010 06:24:23

tenho uma área de 3.500 m2 com muita água no solo por ser terreno ingrime,
formando um charco e o mato cresce muito rápido. Gostaria de saber se a
criação de caprinos, a urina poderá poluir um tanque com criação de
peixes.
Estou estudando para aproveitamento da área para gerar emprego e
rendas. Aguardo ajuda.
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