Os novos Capitães da Areia PDF Imprimir E-mail
04/04/2005, 11:34
Durante reunião sobre a Convenção de Londres e os protocolos internacionais de despejo de lixo no mar (Rio de Janeiro, 7 a 9 de março de 2005), tive o prazer de conversar no saguão do hotel com uma equipe de jovens ambientalistas de primeira linha em termos de iniciativa prática para tentar resolver o impacto do lixo sólido que polui as praias brasileiras.

Era a turma do Global Garbage (Lixo Global), uma ONG recente que luta em favor da proteção de nossas praias contra o despejo do lixo sólido. Três rapazes e uma moça, todos com personalidade forte mas com espírito de equipe mais forte ainda. Após 10 minutos de conversa percebi de cara que são daqueles que falam menos e fazem muito. Estavam perfeitamente seguros das ações contra o impacto ambiental e social do lixo que chega em nossas praias trazido pelo mar. O lixo internacional, contrabandeado pelas correntes marinhas até nossas praias.

A principal área de ação do grupo é a costa dos coqueiros ao norte de Salvador. Uma região vulnerável ao efeito da convergência continental de águas tropicais da Corrente Sul Equatorial que vem desde a África até o nordeste brasileiro, fluindo próximo à linha do Equador sob a ação constante dos Ventos Alíseos e trazendo calor, águas transparentes, os portugueses e o Amyr Klink. Mas também trazem muito lixo sólido despejado por barcos de pesca e embarcações de turismo.

Só para ter uma idéia do problema, no ano passado esses “Capitães da Areia” recolheram 4.349 embalagens de 75 países ao longo dos 172 km de praia entre Arembepe e Mangue Seco, das quais 2.843 eram de plástico, 665 de papel, 579 metálicas, 228 de vidro, 19 de isopor, 11 de madeira e 4 de borracha. É o lixo que bóia, de outra forma não teria alcançado a praia pelas correntes. O impacto desse material é mais visual, e pode ser resolvido paliativamente com a remoção mecânica. Ou seja, limpando as praias. Nada diferente do que ocorre com o nosso próprio lixo sólido.

Mas o grande vilão do lixo sólido são os “light sticks”. São tubos de plástico contendo materiais fluorescentes usados na pesca oceânica de espinhel para atrair atuns e peixes do gênero. Transcrevo abaixo uma mensagem enviada pelo Professor Etelvino Bechara, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), para o Global Garbage. Ele faz uma descrição técnica detalhada da natureza e origem da substância fluorescente que tanto hipnotiza e fascina crianças e adultos da comunidade litorânea.

Os light sticks são originalmente produtos da Cyanamid Co., resultantes do estudo da quimioluminescência de ésteres de ácido oxálico pelo Prof. Rahut na década dos 60. Eles contêm um oxalato orgânico aromático, água oxigenada e um ativador fluorescente, cuja natureza varia de acordo com a cor desejada, tudo dissolvido num solvente viscoso à base de Tereftalato de Butila. Os ativadores são compostos altamente tóxicos pois são hidrocarbonetos aromáticos policondensados na maioria das vezes. Devem causar danos seríssimos à saúde por fotosensibilização (ação fotodinâmica) inclusive, câncer em pele e, se ingeridos, por metabolização por citocromo P-450, câncer no fígado.

Em outras palavras, o líquido dentro dos light sticks é péssimo para a saúde humana. Por algum motivo eles são estupidamente descartados no mar pelos barcos de pesca de espinhel. É de novo aquela velha mentalidade da sujeira por debaixo do tapete, da dispersão pelo mar acompanhada da sensação de que o problema foi resolvido. É como jogar o lixo no quintal do vizinho durante a noite.

Os problemas ambientais e sanitários causados por milhares desses “geladinhos da praia” estão sendo diagnosticados pelos Capitães da Areia do Global Garbage não apenas na costa baiana, mas em todo o litoral brasileiro. E não são poucos. Recolhidos aos milhares em todas as praias do nordeste, na costa leste, sul e até no Uruguai, fazem inúmeras vítimas. Os casos mais graves são as crianças que os acham na praia e quando não passam na pele para ver brilhar à noite por pura diversão, guardam no freezer junto com os verdadeiros geladinhos. Ou adolescentes que usam como bronzeador. Ou uma massagista que viaja a Salvador e passa o produto dos light sticks no cliente que, ingenuamente, se sente bem com o novo tratamento e pede mais. Também já foram confundidos com óleo lubrificante e usados por pescadores em seus motores marítimos. Tudo o que permite a imaginação fértil dos menos orientados já foi feito com o líquido maldito dos light sticks. Graças aos Capitães da Areia do Global Garbage muitos acidentes fatais foram evitados.

O único conselho que ousei dar ao pequeno grande grupo foi não perder o foco em relação à poluição das praias com lixos sólidos no Brasil. A maior parte ainda vem daqui mesmo. E que seria boa política começar por denunciar a origem externa para mobilizar a comunidade ambientalista internacional e, indiretamente, atacar o problema do NOSSO lixo. Eles me responderam: “Mas é exatamente isso o que estamos fazendo!”. Me senti como se tivesse acabado de descobrir a roda. Parabéns Fabiano, Isaac, Paula e Davi, e todos aqueles do Global Garbage que não tive a oportunidade de conhecer durante a reunião da Convenção de Londres no Rio.

Quem quiser contactar os Capitães da Areia do Global Garbage, aí vão os endereços:

Fabiano Barreto – fabianobarreto@globalgarbage.org
Isaac Santos – isaacsantos@globalgarbage.org
Paula Cinquetti – paulacinquetti@globalgarbage.org
Davi Neves – davineves@globalgarbage.org

O telefone é (71) 3629-1238.
Comentários
Adicionar RSS
Escrever comentário

Comentários são moderados e aceitos sempre
que não trouxerem termos abusivos ou ofensivos.


Nome:
Email:
 
Título: