
Um experimento pioneiro de cultivo de mexilhões em mar aberto foi realizado no primeiro semestre de 2004 pelo Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná (UFPR) no âmbito do Projeto Recursos Costeiros. Um cultivo piloto de mexilhões em mar aberto já havia sido patrocinado pelo Governo do Estado do Paraná através do Edital Paraná Doze Meses, da Secretaria de Agricultura do Estado, com a supervisão técnica do Centro de Estudos do Mar.
Nesse projeto foram coletadas nove toneladas de mariscos em um sistema de long-lines, instalado a duas milhas da costa sobre a isóbata de dez metros, em frente ao Balneário do Carmery em Pontal do Sul. Entretanto, a produtividade poderia ter sido muito maior se não fosse pelo elevado grau de infestação dos organismos cultivados com cracas, esponjas e parasitas, além do vandalismo e do roubo. Para eliminar esses problemas decidiu-se testar a viabilidade de cultivos em áreas mais profundas e afastadas da costa, longe do “fouling”. Em 4 de fevereiro foram instaladas pencas experimentais do mexilhão “perna” a 1 milha e a 25 milhas da costa paranaense (
foto 1, acima), nas profundidades de 10 e 30 metros, respectivamente.

A hipótese do trabalho experimental foi testar a viabilidade de cultivar moluscos de valor comercial (ostras, mexilhões e vieiras) aproveitando-se a produção de agregados orgânicos formados pelo sistema planctônico em subsuperfície. Estudos hidrográficos feitos na plataforma continental rasa (<50 m) do Paraná, entre 1998 e 1999, revelaram que no verão ocorre a penetração de águas frias e ricas em nutrientes por baixo da água de plataforma mais quente e empobrecida. O resultado é a formação de camadas subsuperficiais de produção de fitoplâncton, normalmente diatomáceas, na metade inferior da coluna de água. Esses locais de alta produtividade produzem matéria orgânica que sedimenta e alimenta o sistema bêntico de plataformas em áreas afastadas da costa.

Após 4 meses as pencas foram retiradas e o resultado foi promissor. Nos dois cultivos a taxa de crescimento foi semelhante. As sementes com inicialmente 0,6 a 0,8 cm cresceram aproximadamente 4 cm em 4 meses de submersão. Como era de se esperar, os mexilhões cultivados a 1 milha (
foto 2a, acima) estavam cobertos com cracas e infestados com poliquetas parasitas (
foto 2b, detalhe). Entretanto, a ausência de “fouling” e de infestação dos mexilhões com parasitas foi visivelmente inferior (para não dizer totalmente ausente) nas pencas instaladas a 25 milhas da costa (
foto 3, abaixo). O pouco fouling típico de áreas mais profundas afastadas da costa, juntamente com a abundância de material orgânico particulado oriundo da produção fitoplanctônica subsuperficial, foi o que fez a diferença no rendimento dos cultivos experimentais a 25 milhas. De cada 100 sementes instaladas a 30 metros de profundidade quase 80% atingiram tamanho comercial, enquanto que no experimento de 1 milha apenas 60% das sementes (as pencas foram mantidas na superfície) cresceram, e mesmo assim com muita infestação.

Os resultados desse experimento revelam que a plataforma continental da Região Sul do Brasil tem áreas potencialmente promissoras em cultivo de moluscos. Se as condições hidrográficas da plataforma rasa forem bem aproveitadas, com tecnologia apropriada de cultivo em mar aberto, sistemas comerciais podem ser instalados com bom rendimento e produtividade. Esta poderá ser uma boa solução para eliminar conflitos tradicionais provocados pelos long lines de moluscos nas áreas costeiras. Do ponto de vista ambiental, o mar aberto tem mais capacidade de suporte devido à maior circulação e rápida dispersão do material excretado (que não é pouco), causando impacto mínimo no sistema bêntico. Além disso, cultivar em mar aberto tem a vantagem da distância da poluição costeira, aumentando a qualidade do produto.
Entretanto, há um problema a ser resolvido antes de desenvolver sistemas em mar aberto: a pesca de arrasto. No Paraná, para evitar o conflito com os arrasteiros e diminuir o risco de perder o experimento, as pencas foram instaladas em uma área de fundo rochoso, naturalmente excluídas do arrasto demersal. Também se pode criar artificialmente áreas de exclusão de arrasto destinadas ao cultivo. Do ponto de vista ambiental, mata-se dois coelhos com uma cajadada só: eliminar o arrasto que destrói o sistema bêntico e compromete a biodiversidade marinha e desenvolver cultivos longe dos conflitos tradicionais na zona costeira.