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| Natal com El Niño |
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| 23/12/2004, 10:45 | |
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O El Niño é um tema apropriado para se falar na época do Natal. Primeiro, porque o fenômeno, quando ocorre a cada 3,7 anos, é detectado na costa do Peru e Equador sempre próximo ao Natal. Daí o nome El Niño, batizado por pescadores sul-americanos, que significa “menino Jesus”. Segundo, porque este será um Natal de El Niño. Cientistas da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration, dos Estados Unidos) vêm anunciando a sua chegada no Oceano Pacífico desde agosto deste ano, com medidas de temperatura da superfície do mar pouco acima da média. O El Niño foi inúmeras vezes denunciado pela mídia nacional como o grande vilão dos problemas meteorológicos aqui no Brasil. Dizem que as secas no Nordeste, as cheias no Sul, os desabamentos devido ao excesso de chuvas no Rio de Janeiro, o calor anormal no inverno e o frio traiçoeiro no verão, estão todos associados ao El Niño. Está claro que ele, ou a mesma coisa que o provoca, afeta a economia do país e a vida de muitos brasileiros. Mas a verdade é que poucos sabem ao certo do que se trata. Conhecem as conseqüências mas não têm a mínima idéia da causa. Como a conversa entre meu colega de universidade Paulo Lana e o chofer de táxi em Curitiba, durante um dos rigorosos invernos paranaenses. Ele disse “Calorzinho, né moço?! Em pleno inverno”, e o taxista respondeu convicto pelo espelho retrovisor do Gol, após alguns segundos de reflexão: “É essa porra do El Niño!”. O El Niño é uma mudança repentina no padrão de interação do oceano com a circulação atmosférica sobre o Oceano Pacífico. Reconheço que é um pouco complicado. É um fenômeno de escala global, a ponto de alterar o regime meteorológico em várias partes do mundo. Se você ainda não se convenceu que o que ocorre no Oceano Pacífico, tão longe daqui, tem alguma coisa a ver com o clima no Brasil, faça o seguinte: pegue um globo, desses de plástico usados nas aulas de geografia, e observe-o pelo lado do Oceano Pacífico. Praticamente só se vê água na superfície terrestre. Agora lembre-se que a Terra gira, e que por isso o mar e a atmosfera circulam de acordo com padrões mais ou menos definidos na escala global. Acredite, apesar da Teoria do Caos o padrão em escala global persiste. Isso demonstra a magnitude geográfica e, conseqüentemente, a importância do Oceano Pacífico para o clima terrestre. A ocorrência do El Niño próximo ao Natal coincide com a queda abrupta na produção pesqueira da região, com conseqüências desastrosas para a socioeconomia da costa oeste sul-americana. Por que isso acontece ninguém sabe. Também nunca entendi por que eles associaram o nascimento de Jesus a um fenômeno que os prejudica tanto, e a todo o planeta. Só porque ocorrem na mesma época? O nome pegou tanto no meio acadêmico e, posteriomente, na mídia internacional, que me parece um sacrilégio. E agora é literalmente castigo dos céus já que, em nível global, as piores conseqüências são meteorológicas. Para compreender melhor o fenômeno do El Niño e porque ele afeta o nosso clima e o de várias áreas do planeta, é preciso entender como é o padrão geral de distribuição da temperatura e a célula climática no Oceano Pacífico equatorial, isto é, na altura da linha do Equador. Tem tudo a ver com temperatura na superfície do mar, pressão atmosférica, ventos ao nível do mar, ventos na troposfera (“jet streams”) e rotação da Terra. Esses são os elementos necessários para se compreender o intrincado mecanismo de interação oceano-atmosfera que quando alterado afeta o clima local em várias partes do globo. Vamos tentar colocar todos esses fatores naturais em ordem seqüencial. Tudo começa com o aquecimento solar. A região tropical se aquece mais e o ar aquecido se eleva, sendo substituído por massas de ar de latitudes subtropicais, do norte para o sul no Hemisfério Norte e do sul para o norte no Hemisfério Sul. Como a Terra gira, esse deslocamento de ar é predominantemente para a esquerda no Hemisfério Sul e direita no Hemisfério Norte. O resultado é que ao longo da linha do Equador forma-se um corredor de ventos na direção oeste. São os famosos Alíseos, os mesmos que permitiram aos espanhóis colonizarem as Filipinas e Colombo descobrir a América. Os Alíseos transportam águas quentes superficiais para a porção ocidental do Pacífico, fazendo com que o nível do mar na Indonésia seja aproximadamente 0,5 metro mais alto do que no Equador e Peru, onde as águas costeiras são frias e férteis devido à ressurgência de águas profundas. Quando o El Niño não ocorre, a pesca na costa oeste sul-americana é 10 vezes mais produtiva do que aqui na costa leste. O mesmo acontece no Atlântico tropical e subtropical, mas em escala muito maior. Portanto, em condições normais, quando não ocorre o El Niño, a água do mar é mais fria do lado oriental (à “direita”) do Oceano Pacífico, e mais quente do lado “ocidental” (à “esquerda”), ao norte da Nova Guiné, Indonésia e Polinésia. Onde o mar é mais quente, o ar também se esquenta e sobe, formando uma zona de baixa pressão, e vice-versa. Portanto, há uma zona quase permanente de baixa pressão no lado “esquerdo” do Pacifico com chuvas constantes, e uma zona de alta pressão no lado “direito”, com baixa precipitação, formando um clima semi-desértico ao longo da costa americana (p.ex., deserto do Atacama no Chile). Isso fortalece os Ventos Alíseos no Pacífico que sopram constantemente de leste para oeste, isto é, da zona de alta para a zona de baixa pressão, “empilhando“ água quente tropical para a esquerda da bacia oceânica do Pacífico. O ar imediatamente acima do Oceano Pacífico ocidental sobe carregado de umidade devido à evaporação da água do mar. Ao subir, se esfria diminuindo sua capacidade de retenção de água na forma de vapor. A água se condensa e cai sob a forma de chuvas. Até aí nada de novo. Acontece que a água, ao se liquefazer, perde calor. O mesmo calor usado para evaporá-la no nível do mar. O calor liberado na troposfera (10-20 km de altura), intensifica mais ainda a subida do ar e a formação de gradientes de pressão na troposfera, formando ventos de mais de 100 km/h (“jet streams”) no sentido oeste-leste, isto é, ao contrário dos Alíseos. Pela sua velocidade e intensidade, esses ventos controlam o clima em áreas distantes da sua origem. Mas, de repente, por alguma razão ainda não explicada, os Alíseos se enfraquecem, e toda a água acumulada no lado esquerdo retorna esquentando a superfície do mar nas costas da América do Sul. Quando isso ocorre, a ressurgência continental cessa e a fertilidade do mar cai, diminuindo a produção pesqueira. Ao mesmo tempo, o centro de baixa pressão se desloca para a direita alterando as células de convexão atmosférica no nível da troposfera e, conseqüentemente, o local de partida e de destino dos “jet streams”, até áreas distantes. Pode chegar facilmente até o Brasil. Para os “jet streams”, que podem atingir até 500 km/h, o Brasil é pertinho e está no caminho, já que viajam de oeste para leste. Felizmente o El Niño deste ano, segundo os cientistas da NOAA, será de baixa intensidade. Só se for para eles, porque aqui eu ainda estou dormindo de cobertor em pleno verão subtropical. É óbvio que não me atrevo a fazer previsões pessimistas. Mas tenho pena do turismo e dos turistas do próximo verão.
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Oceanógrafo e líder Avina que participou de várias expedições do Programa Antártico Brasileiro. Nos últimos 28 anos trabalhou como Professor do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná. Atualmente trabalha no Instituto Oceanográfico da USP. 


