Oceanógrafo e líder Avina que participou de várias expedições do Programa Antártico Brasileiro. Trabalhou como Professor do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná. Atualmente trabalha no Instituto Oceanográfico da USP.
Segundo o geneticista russo Theodosius Dobzansky em seu livro “O Homem em Evolução” (Editora da USP, 1963) a organização social do homem pré-histórico mudou radicalmente com o surgimento do ciclo menstrual da mulher. Dobzansky fez parte do grupo de cientistas convidados pelo governo do Estado de São Paulo na década de 50 para ajudar na consolidação da Universidade de São Paulo como centro de excelência em pesquisa científica e tecnológica. A edição é antiga, e talvez defasada em relação às novas descobertas da antropologia. Mas o raciocínio de Dobzansky, que nem era antropólogo, tinha certa lógica.

Esses grupos primitivos eram nômades, assim como os macacos contemporâneos. Alimentavam-se coletando frutos, raízes, folhas e pequenos animais ao redor. Quando o alimento escasseava, o grupo se deslocava para uma área da floresta mais farta. Havia um macho dominante com seu harém de fêmeas que entravam no cio a cada seis meses, mas em períodos diferentes. Portanto, o macho tarado sempre tinha uma fêmea disponível sexualmente. Machos jovens eram mantidos às margens do grupo, ameaçando constantemente a liderança do macho em evolução. De repente (na escala evolutiva, é óbvio!) uma determinada geração de fêmeas evoluiu mecanismos fisiológicos que as permitiam entrar no cio mensalmente. Pelas novas “regras”, uma única fêmea podia satisfazer com maior freqüência os impulsos sexuais do líder, o qual logo escolheu a sua preferida, negligenciando a cobiça e proteção das demais. Estava aberto o caminho para os outros machos do grupo. Sem a necessidade de gastar energia para proteger todas, porque cada um protegia a sua própria fêmea e prole, os machos agora usavam a energia excedente para criar novas tecnologias de sobrevivência como, por exemplo, caçar em grupo enquanto sua pequena e nova sociedade se assentava definitivamente na beira dos rios, protegidos em cavernas e aldeias.

Se Dobzansky estava certo ou não eu não sei. Só sei que o homem pré-histórico sobrevivia com recursos da caça (pesca também é caça) e da coleta de frutos e raízes. As árvores, os produtores primários dominantes dos ecossistemas terrestres, e os grandes mamíferos herbívoros sempre foram (e ainda são) nossos principais recursos naturais. O desenvolvimento das sociedades humanas primitivas logo anexou a sua dieta diária alguns produtos cultivados. Era o nascimento da agricultura rudimentar. O homem era sem dúvida o mais importante onívoro da teia alimentar pré-histórica, competindo por recursos naturais com os outros animais sob a segurança das cavernas e o conforto do fogo domesticado. E esse fogo era, evidentemente, alimentado com lenha produzida pelas árvores. Era o homem começando a contribuir um pouco mais além do seu próprio fluxo de gases atmosféricos corporais, tão insignificante em relação à respiração e fermentação microbiana e animal de todo a biosfera (coisas de Gaia!), além das queimadas esporádicas.

Antes foi a radiação ultra-violeta, depois veio o El-Niño e agora, com a ajudinha do Al Gore, só se fala no aquecimento global e suas conseqüências catastróficas sobre o clima e o destino das sociedades futuras. O problema já se tornou evidente com o degelo do Oceano Ártico. Nesse artigo eu vou tentar analisar as causas do aquecimento global sob a ótica das alterações da biodiversidade terrestre pela ação do homem. Além das transformações socioeconômicas que culminaram com a era industrial contemporânea e suas ameaças ao meio ambiente, as alterações da biodiversidade global provocadas pelo homem têm papel fundamental no desequilíbrio do fluxo de carbono entre a biosfera e a atmosfera.

As extinções naturais ou provocadas pelo homem sempre existiram, acompanhando lentamente o desenrolar da história humana. O carbono acumulado na biomassa dos grandes herbívoros e carnívoros do período pré-industrial é pouco em relação ao reservatório biológico da base da pirâmide trófica. Em Ecologia aprendemos que a transferência de energia de um nível trófico para o outro (p.ex., vegetais  herbívoros  carnívoros) varia entre 10 e 20%. Portanto, a quantidade de carbono perdido com (p.ex.) as extinções em massa do Holoceno, supostamente provocadas pela caça (leia “O poema imperfeito” do zoólogo Fernando Fernandes) é irrisória e foram rapidamente remanejados na teia alimentar e devolvidos para o ar pela respiração do ecossistema terrestre ainda no período pré-histórico. Eram pequenos ajustes do ciclo global do carbono.

De modo geral, a biodiversidade e o ciclo global do carbono suportaram pacientemente as travessuras ambientais do homem com a expansão demográfica e as invasões biológicas no Novo Mundo e nas Ilhas do Pacífico. O tamanho dos reservatórios de carbono (litosfera, hidrosfera, atmosfera e biosfera) e o fluxo de carbono entre eles, permaneciam quase inalterados ou pelo menos não detectados até meados do século XVIII, quando o desequilíbrio dinâmico entre emissões e fixações de carbono atmosférico passou a ser significativo. O ponto de inversão foi sem dúvida a Revolução Industrial que provocou o aumento de demandas de recursos naturais, sobretudo energia oriunda da queima de madeira e combustível fóssil (carvão mineral) para produzir vapor superaquecido e força para as máquinas têxteis e locomotivas na Inglaterra. Finalmente, descobriu-se a utilidade do petróleo nos motores a explosão, e a queima de combustível fóssil aumentou ainda mais.

No espaço de 100 anos, a contribuição dos gases produzidos pelo homem passou a ser a mais importante causa do suposto aquecimento global discutido nas últimas décadas do século XX. Desde 1850 até os dias de hoje o homem foi responsável por devolver à atmosfera aproximadamente 155 bilhões de toneladas de carbono (= 155 GtC), 85% oriundo da derrubada de florestas para exploração de madeira. Vale lembrar que parte dessa madeira retirada foi usada na construção de móveis, utensílios domésticos e industriais, construção civil e naval, etc. Não raro o fato das guerras e catástrofes naturais queimarem essa madeira e seu reservatório temporário de carbono vegetal, seguindo o mesmo destino atmosférico de todos os gases produzidos pela ação humana.

Hoje somos quase sete bilhões de pessoas no mundo, com 90 milhões a mais de novas bocas para alimentar todo o ano. Veja bem, esse mundaréu de gente respira e peida muito. Só pela respiração o ser humano emite em média de 0,5 kg de carbono diariamente (achei essa informação na internet; Se não for isso é algo em torno disso ou ainda pior). Faça as contas você mesmo; são cerca de 1,27 bilhões de toneladas de carbono (i.é., 1,27 Gigatons de C) liberadas na atmosfera por ano apenas pela respiração humana, sem contar os gases entéricos. Agora, pra piorar as coisas, considere todos os animais da pecuária (bois, vacas leiteiras, cabras, cavalos e coisas do gênero (mula, burro, jegue, as zebras que ainda restam), porcos, galinhas, perus, etc., além dos ratos e coelhos australianos que se proliferam como oportunista da natureza impactada. Só no Brasil existe 200 milhões de cabeça de gado e 1,1 bilhão de galinhas, segundo dados da FAO. Rebanhos comparavelmente grandes existem na Índia, EUA, Argentina e Austrália. E não podemos nos esquecer dos gatos e cães domésticos. Essa explosão de uma população animal específica, selecionada da biodiversidade terrestre para servir o homem contemporâneo era infinitamente menor no período pré-industrial. Algumas raças nem existiam. Foram criadas pela mão do homem. Quanto será que toda essa gente e toda essa bicharada está respirando a mais em relação à biodiversidade global do período pré-industrial ? Não procurei na internet o quanto se produz de metano pela fermentação entérica global (o pum de Gaia) por ano em todo o globo. Só sei que são toneladas de gases mamíferos e aviários saindo pela boca e pelo rabo, contribuindo com o efeito estufa. Com certeza muito mais do que a fumaça das indústrias e automóveis americanos.

Há muito carbono estrutural retido na biomassa das árvores, que requer raízes e troncos enormes para garantir sustentação e transporte de nutrientes. Uma floresta retém carbono por séculos, sobretudo no tronco das árvores. Respiração e degradação microbiana da madeira e folhas emitem CO2 de volta pra atmosfera em doses homeopáticas e em taxas equilibradas com processos naturais de absorção pela fotossíntese. Quando se queima uma floresta o carbono estrutural retido por séculos nos troncos retorna rapidamente pra atmosfera de onde veio séculos antes pela fotossíntese.

Hoje a sociedade contemporânea não depende mais tanto de madeira porque inventou o plástico. Depende mais de alimento. Era óbvio que, com o desenvolvimento humano, a caça nos continentes estava condenada a se extinguir. Tivemos que fazer modificações estruturas e funcionais do bioma terrestre, domesticando alguns animais e plantas biodiversidade global de modo a manter nossos hábitos onívoros. Nossa principal fonte de proteína, antes oriunda dos animais silvestres foi pouco a pouco sendo substituída pelo mega-rebanho de herbívoros criado para atender a demanda da explosão demográfica global. A Revolução Industrial foi, portanto acompanhada dessa Revolução Alimentar provocada pela agroindústria. Florestas milenares com pelo menos 100 a 200 toneladas de carbono por hectare, foram sendo substituídas por pasto ou agricultura de vegetais de pequeno porte (p.ex., trigo, milho, soja, etc), que retém 100 vezes menos C do que uma floresta com árvores. Foi a solução para alimentar a população humana e seus paquidermes domesticados. As fazendas para pecuária e agricultura hoje substituem pelo menos 40% das florestas originais do planeta e se alastram perigosamente com o aumento populacional.

Os carnívoros terrestres, que outrora eram ameaça e competição para o homem pré-histórico, hoje já não cruzam nossas trilhas primitivas. Apenas nos atrapalham atacando nossos rebanhos e, de vez em quando, causando acidentes nas zonas de interface. É sempre notícia no jornal os raros ataques de felinos africanos, de sucuris no Pantanal, de jacarés nos condomínios da Flórida, de crocodilos nas praias australianas e, claro, de tubarões esfomeados no Recife. Para uns poucos idealistas teimosos (como eu), os carnívoros remanescentes da teia alimentar global são as bandeiras do movimento conservacionista mundial. Um estímulo constante na luta pela preservação da natureza. Mas pra maioria, infelizmente, os carnívoros remanescentes são nada mais do que uma curiosidade zoológica, sem importância na nossa rotina diária. A não ser os bichos de estimação que cumprem o nobre papel de “enfeites vivos” e “bons companheiros”. Mas só os terrestres, porque os marinhos não tiveram a mesma sorte; Com exceção de alguns golfinhos, baleias e focas divertidas, que se transformaram em bobos da corte cinematográfica, os carnívoros marinhos são na maioria vilões, como os tubarões condenados convenientemente por Spielberg. Suas barbatanas se transformaram em comida exótica da cultura asiática. Tão necessário para a alimentação humana quanto o pênis dos machos de focas são necessários como afrodisíaco.

As baleias estão ameaçadas pela insistência de algumas indústrias de pesca condenadas à extinção junto com esses animais, pois insistem em sobreviver desses mercados específicos. E finalmente, mas sem esgotar a lista de carnívoros ameaçados, os grandes atuns e peixes de profundidade também estão ameaçados pela recente expansão da culinária japonesa. Os demais, que não nos afetam e nem nos ameaçam, são vítimas inocentes da poluição química, sonora e cultural de nossa sociedade moderna. Talvez o que pode salvá-los são os 20% de áreas marinhas protegidas reclamados pela IUCN até 2010, e que mesmo assim vão conservar uma biota aquática doente, contaminada por poluentes químicos e lixo plástico que se espalham pela circulação global dos oceanos.

Nesse quadro generalizado de alteração da biodiversidade global, e seus efeitos sobre o clima do planeta, o único carnívoro em expansão e crescimento é o homem. Se todos os demais forem extintos, o que não é improvável, o ser humano vai manter o mesmo ritmo exponencial de crescimento e expansão demográfica com ajuda da tecnologia e da medicina moderna. Reinando soberano e solitário lá do alto da pirâmide alimentar global. Cercado por súditos e escravos paquidérmicos, para servir de alimento. No entanto, será obrigado a conviver com ambientes poluídos, devastação generalizada de biomas marinhos e terrestres e novas doenças do corpo e da mente. É o destino mais provável do último dos carnívoros.
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