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Um professor que promove o diálogo entre ambientalistas e empresários
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| O valor do lixo |
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| Flávia Velloso e João Teixeira da Costa | |
| 10/05/2006, 14:24 | |
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A Responsabilidade Social Corporativa (RSC) já virou uma obrigação para empresas que zelam pela sua imagem. Hoje é praticamente impossível achar algum website corporativo que não dedique páginas e páginas às bondades praticadas pela própria empresa e por seus funcionários. A questão é saber até onde vai essa disposição de ajudar ao próximo. É puro assistencialismo, para comprar um pouquinho de consciência limpa? Ou será que o programa de RSC vai além do mero simbolismo, procurando mudar as condições que geraram a pobreza e os danos ao meio ambiente? Marli concluiu que precisava criar uma alternativa de renda para as mulheres dentro da Vila Pinto, pois sentia que lá fora elas eram discriminadas por morar em lugar associado na mente dos porto-alegrenses à pobreza e à violência. Nas suas andanças pelo mundo de líder comunitária, ela viu em Mar del Plata um modelo que poderia implementar aqui: um centro de triagem de lixo que começou a funcionar em 1999 e que constitui o núcleo do Centro de Educação Ambiental da Vila Pinto. A implantação do centro de triagem não foi simples. Marli e suas colaboradoras precisaram convencer o prefeito de Porto Alegre dos méritos do projeto. Precisaram também convencer os traficantes de drogas da Vila Pinto a não criar obstáculos, luta que lhe custou caro. Também foi necessário estudar o sistema de lixo urbano, ver o que é um aterro sanitário, para entender melhor como extrair valor daquela matéria-prima. O centro de triagem recolhe hoje oito toneladas de lixo por dia. Tem contratos com empresas, shopping centers e recebe parte da coleta seletiva de Porto Alegre. A receita gerada através da venda de material recuperado permite uma renda de R$ 200 por mês para as famílias das quase 70 pessoas que trabalham no centro. O trabalho envolve grandes dificuldades, algumas nem tão óbvias. É preciso identificar compradores para o material. São muitas vezes intermediários que ficam com parte da renda. Os carroceiros, cada vez mais freqüentes nas ruas, concorrem pela matéria-prima de maior valor. E o trabalho do CEA não se encerra aí. São várias outras atividades que buscam envolver os moradores através do esporte, arte, educação e formação profissional. Suporte empresarial O dinheiro é curto e as carências múltiplas. Assim, Marli desde o início buscou parcerias com o poder público e com empresas para viabilizar as atividades do CEA. A Braskem é uma dessas empresas, desde 1999. No entanto, a sua colaboração vai além do meramente financeiro. Acontece que a Braskem entende um pouco do assunto. Grande produtora de matérias-primas para plásticos, ela investe R$ 30 milhões por ano em pesquisa e desenvolvimento. Uma boa parte desses recursos é empregada na busca de novos usos para os seus produtos. Mas a Braskem investe também em pesquisa que tem muito a ver com o impacto ambiental desses produtos, seja no seu Centro de Tecnologia e Inovação, seja em parcerias com instituições como a Universidade Luterana (Ulbra) ou o Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET-RS) de Sapucaia do Sul. O instrumento fundamental de pesquisa é a análise de ciclo de vida, um método que procura medir o impacto ambiental de um produto desde a obtenção das suas matérias-primas até o destino final dos seus resíduos, tanto em termos de recursos utilizados como de energia dispendida, geração de calor e destino final do descarte. Esse tipo de análise é crucial para a Braskem porque seus produtos são intermediários, resinas plásticas de polietileno, polipropileno e PVC, usadas na produção de embalagens, garrafas, autopeças, tubos e outros insumos para a construção civil, e assim por diante. Não há maneira de avaliar o impacto ambiental desses produtos sem saber como e para que serão utilizados. Assim, a Braskem acumulou um estoque considerável de conhecimento sobre os possíveis destinos do material “pós-consumo,” isto é, sobre o que acontece com aquela garrafa vazia ou embalagem usada do lixo doméstico. É óbvio, portanto, que a Braskem tinha mais a oferecer às mulheres de Vila Pinto do que uma simples ajuda financeira. O desafio, porém, era trabalhar com objetivos que não são necessariamente os mais habituais para empresas privadas. O CEA não tem o lucro como meta, e, portanto, não faz sentido falar em produtividade, como seria natural. É quase o contrário: quanto mais gente a associação de trabalhadores puder empregar, melhor. Alternativas do lixo Essa equação de custo, porém, não é imutável. Cassinelli cita o exemplo da tecnologia de plasma que permite o reaproveitamento das embalagens tipo Tetrapak a um custo competitivo. É assim, através da pesquisa, que se cria valor para o lixo, conciliando interesses sociais e ambientais com uma lógica de mercado. * O colunista João Teixeira da Costa viajou aos centros de pesquisa da Braskem a convite da empresa.
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