Margens de concreto PDF Imprimir E-mail
Flávia Velloso e João Teixeira da Costa   
28/01/2005, 09:32
Os rios estão entre os recursos naturais mais usados e abusados nos processos de industrialização e urbanização vividos pelo mundo a partir do século XX. Foram retificados e canalizados, suas águas foram desviadas para usos industriais, domésticos e para a geração de energia. Seu fluxo e capacidade de diluição foram aproveitados para a dispersão barata de esgotos e outros poluentes.

O caso da cidade de São Paulo é particularmente feio. Seus dois maiores rios — Tietê e Pinheiros — não são tão grandes assim. Sua vazão é pequena, característica de rios de planalto. Suas várzeas foram ocupadas, suas águas poluídas, seus cursos invertidos para a geração de energia elétrica. A cidade virou as costas para os rios. A construção das vias marginais a partir dos anos 60 completou o processo, escondendo os rios atrás de autopistas. Os paulistanos simplesmente se esqueceram da sua existência, exceto na época de enchentes, quando os rios e córregos maltratados tornam-se um estorvo.

A partir dos anos 90, uma mudança de mentalidade começou a operar e o Governo do Estado finalmente se comprometeu com projeto de despoluição dos rios Tietê e Pinheiros. Mas o projeto avança lentamente. Falta ampliar a captação e tratamento de esgoto doméstico, tarefa que implica em investimentos pesados, e falta resolver o problema do lixo jogado em rios e córregos, tarefa que implica em educação da população — claramente projetos de longo prazo.

No entanto, os paulistanos voltaram a se lembrar que a sua cidade é cortada por rios e que esses poderiam contribuir para torná-la menos cinzenta e menos árida. Foi aí que surgiu o Projeto Pomar, ainda no governo Mário Covas. A idéia, como freqüentemente acontece na esfera do governo, era atingir vários objetivos com um só programa. De acordo com o website da secretaria estadual do Meio Ambiente, a intenção era criar um imenso jardim ao longo do Rio Pinheiros, dar a partida em um processo de educação ambiental e, como não poderia deixar de ser, “resgatar a cidadania” — através do emprego, em regime de frente de trabalho, de centenas de pessoas que deixariam o projeto com alguma qualificação. Tudo financiado pela iniciativa privada, em parceria com o governo do estado.

O programa se iniciou em 1999 na margem esquerda do Rio Pinheiros e os resultados já são, de alguma maneira, visíveis. Foram 250 mil mudas de 172 espécies diferentes. Poucas frutíferas, para não estimular travessias suicidas das avenidas marginais. Os 14 quilômetros de rio foram divididos em 11 trechos, entregues a parceiros que se comprometeram a financiar a criação e os primeiros cinco anos de manutenção da área sob sua responsabilidade. Na margem direita, mais estreita, outras 150 mil mudas foram plantadas com a ajuda de seis empresas parceiras.

O governo do estado avalia que o programa é um sucesso, que pode ser medido inclusive pelo retorno da fauna às margens do rio. A julgar pela quantidade de trabalhos escolares disponíveis na Internet, o projeto é também um grande sucesso de educação ambiental. O governador Geraldo Alckmin pretende levá-lo para as margens do rio Tietê, hoje um grande canteiro de obras.

A questão é saber até que ponto o projeto, que tem méritos, justifica o estardalhaço midiático que recebeu e que benefícios reais trouxe à população da cidade. Há, nas águas do Pinheiros, um problema que escapa ao controle dos gestores do projeto. Elas continuam fétidas, reduzindo o apelo dos jardins às suas margens. Mas há ainda uma limitação mais fundamental. Os canteiros ficam entre o rio e a avenida marginal e não são acessíveis a pedestres. Só podem ser vistos de dentro dos veículos, dos trens urbanos que circulam ao longo do Pinheiros e dos prédios à sua volta. Ora, São Paulo é uma cidade brutal, com pouquíssimo verde, e qualquer iniciativa ambiental deve ser tratada com muito respeito. Mas é preciso muito mais para torná-la uma cidade humana.
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