João Teixeira da Costa e Flávia Velloso
12 de Julho de 2007

Por mais que o discurso da sustentabilidade tenha penetrado no mundo empresarial, não é normal ouvir um professor de escola de administração americana defendendo a leitura da “Primavera Silenciosa” de
Rachel Carson, um dos textos fundamentais do ambientalismo moderno. Mas Garry Brewer, professor da Universidade Yale, não é um acadêmico normal. Filiado tanto à escola de
administração quanto à escola de
estudos ambientais daquela universidade, ele vem, ao longo de sua carreira, tentando aproximar o mundo dos negócios e os ambientalistas. E tenta também mostrar aos ambientalistas que para tocar ONGs enormes, com centenas ou milhares de colaboradores e orçamentos de bilhões de dólares, eles precisam estudar um pouquinho de administração.
Brewer esteve em São Paulo recentemente como uma espécie de embaixador de
Yale, que, em parceria com a
Brazilian Business School, montou uma série de palestras com o objetivo de aumentar a sua visibilidade aqui e atrair mais estudantes brasileiros.
O Eco assistiu uma das palestras do professor e conversou com ele em seguida.
Fazendo a ponte
Fazer a ponte entre empresários e ambientalistas não é fácil, mas é cada vez mais necessário, diz Brewer. Ele tem experiência no assunto, e conhece os obstáculos que geralmente surgem pelo caminho da busca da chamada sustentabilidade empresarial. O primeiro deles é achar uma linguagem comum entre grupos que têm prioridades e visões de mundo muito diferentes. O professor diz aos empresários que eles têm que ouvir os cientistas. Ouvir mesmo, e não fingir que estão ouvindo. Admitir que o longo prazo também deve ser levado em consideração no cálculo e no planejamento empresariais, e que será necessário aprender a conviver com a complexidade dos sistemas naturais, o que não faz parte dos hábitos mentais do MBA médio.
Mas o crescente número de adeptos do conceito de Responsabilidade Social Corporativa é um indicador de que essa distância está diminuindo — em grande parte graças à consciência cada vez maior de que estamos todos no mesmo barco. Claro, essa consciência só surgiu porque a mudança climática se tornou uma ameaça palpável, mas isso não é razão para por em dúvida a sinceridade dos empresários que se dispõem a prestar contas não só no plano financeiro mas também no ambiental e no social.
O cenário está mudando rapidamente, em grande parte por causa da pressão de investidores. Brewer cita o exemplo do INCR –
Investor Network on Climate Risk, uma rede de investidores institucionais e instituições financeiras que representa mais de US$ 3 trilhões em ativos e que exige que as empresas avaliem e informem seus acionistas sobre risco climático. Outro exemplo de mudança citado pelo professor é o surgimento de todo um novo campo do conhecimento – a
ecologia industrial, que procura avaliar o impacto do sistema industrial no ambiente biofísico. A academia americana reage ao novo cenário, no seu ritmo. Cresce o número de programas conjuntos de pós-graduação, que combinam mestrados em administração e em estudos ambientais. E crescem também as oportunidades de educação continuada nessa área.
A palavra “oportunidades” aparece com destaque na apresentação de Brewer. E não é por acaso. Se as soluções para os nossos dilemas ambientais estão na economia de mercado, alguém vai ganhar dinheiro com elas. Significa dizer que será preciso que empreendedores e investidores enxerguem oportunidades de negócio na sustentabilidade.
Ongueiro também tem que ser empreendedor
Brewer também tem acompanhado o crescimento das ONGs ambientais nos Estados Unidos e no resto do mundo. Algumas delas movimentam bilhões de dólares por ano, o que implica em desafios de gestão similares àqueles enfrentados por empresas que faturam bilhões de dólares por ano. E esses problemas, segundo ele, só tendem a crescer nos próximos anos. Muitos americanos ricos estão chegando à idade onde começam a planejar para quem deixarão o seu dinheiro, e há uma forte tendência de crescimento nas doações às ONGs que se dedicam ao meio-ambiente, à saúde pública, ao combate à pobreza. Brewer chama a atenção para programas como o do
Sierra Club, que ajudam no planejamento sucessório de gente que tem muitos recursos.
Os Ongueiros precisam se preparar melhor para os novos tempos, diz Brewer. Tem muito dinheiro vindo por aí, mas os doadores exigirão profissionalismo cada vez maior por parte das organizações que recebem seus recursos. Um caminho para atingir esse ideal de profissionalismo é através da educação. Com o apoio da
Fundação Moore, a Universidade Yale oferece um programa de
mestrado conjunto em administração e meio ambiente, com tudo pago. É só passar pelo processo de seleção e se comprometer a trabalhar por três anos com alguma das organizações apoiadas pela Moore dentro da sua iniciativa
Andes-Amazônia. As inscrições estão abertas.