Para quem investe em ações, os fundamentos do problema são bastante simples. Uma ação nada mais é do que uma fração ideal da propriedade da empresa. Na tradição anglo-saxônica, onde cada ação corresponde a um voto na assembléia de acionistas, nada parece mais natural para o investidor do que exigir que as empresas onde seu capital está investido ajam de maneira condizente com os seus valores.
O desafio é transformar esses princípios em uma estratégia de investimentos viável. As dificuldades são muitas, e começam na sua própria definição: Quais devem ser os critérios para incluir ou excluir determinada empresa ou determinado setor? É melhor evitar empresas irresponsáveis ou tentar influenciar seu modo de agir? E a pergunta mais importante: qual será o custo de seguir uma estratégia de investimentos desse tipo? Será preciso abrir mão de rentabilidade para ficar de bem com a consciência?
A – extensa – experiência americana pode ajudar a responder essas perguntas. De acordo com o Social Investment Forum, órgão que representa as principais empresas envolvidas na atividade, o investimento socialmente responsável (ISR) atingiu em 2003 o total de US$ 2,164 trilhões, ou seja, 11% do total dos ativos sob gestão profissional naquele país. O Forum inclui neste número todos os investimentos sob gestão profissional que utilizam pelo menos uma das três estratégias de investimento seguintes: seleção (“screening”), ativismo de acionista (“shareholder advocacy”), ou investimentos na comunidade (“community investing”). Responsabilidade ambiental é apenas uma parte da responsabilidade social, mas os critérios propostos pelo forum nos ajudam a afastar os raciocínios simplórios e considerar as diversas maneiras como esses ideais se transformam em práticas.
A estratégia de seleção consiste em ter critérios formais de exclusão ou inclusão de empresas na carteira de investimentos. Por exemplo: excluir ações de empresas que vendem álcool ou cigarros, ou que usam madeira nativa como matéria-prima de seus produtos. Uma variante é a busca das empresas que podem ser classificadas como as melhores do seu setor com base no critério estabelecido pelo fundo; seguindo essa estratégia, um fundo ambiental (por exemplo) não estaria proibido de investir em ações de empresas de mineração; ele estaria obrigado a buscar, entre as empresas do setor, aquela que melhor respeita o meio ambiente.
Seguindo uma estratégia desse tipo, o investidor não precisa abandonar por completo setores de alto impacto ambiental, como a extração de petróleo ou a geração de energia elétrica. Ele precisa buscar, dentro de cada setor, as empresas que melhor manejam o impacto ambiental das suas atividades. No limite, se todos os investidores agissem dessa forma, premiando a responsabilidade ambiental, criaria-se um incentivo para que todas as empresas do setor buscassem o mesmo nível de excelência.
Outro aspecto importante passa por uma análise mais defensiva da situação. Uma das coisas que se deve evitar quando se investe em uma empresa é que ela tenha passivos ocultos, ou que suas atividades tenham risco de criar novos passivos. Um argumento a favor de empresas ambientalmente responsáveis é que a probabilidade dela estar criando problemas ambientais que possam se materializar em custos futuros com processos tende a ser bem menor.
Já o acionista ativista é aquele que procura influenciar a atuação social das empresas através de resoluções apresentadas nas assembléias – algo muito característico do capitalismo americano mas ainda irrelevante no Brasil, principalmente pela estrutura acionária concentrada de nossas empresas. O ativismo dos acionistas se faz tão mais necessário quando mais irresponsáveis sejam as empresas investidas, o que cria paradoxos interessantes para os investidores que utilizam essa estratégia. Ou seja, investir nas empresas que mais poluem para, sendo acionista, forçar os gestores a mudar seu comportamento.
E como essas estratégias afetam o desempenho de uma carteira administrada? A resposta não é óbvia. A seleção de papéis por critérios éticos ou sociais pode limitar o universo de investimento onde o administrador de carteiras opera, reduzindo as oportunidades de ganho. No entanto, os estudos citados pelo Social Investment Forum não confirmam essa tese: indicam que não há diferença de performance entre os fundos socialmente responsáveis e outros, resultado que deve ser encarado com muito cuidado, dada a dificuldade de medir corretamente esses efeitos.
A tese do ISR ganharia muito se fosse possível argumentar que alguma variante dessa estratégia gera resultados superiores. E existem estudos nessa direção. A consultoria americana Innovest defende que uma empresa alerta para problemas ambientais também estará alerta para outros desafios inesperados e imprevisíveis. Assim, segundo eles, a ecoeficiência seria um indicador de qualidade da gestão, que por sua vez implicaria em retornos superiores.
A tese é sedutora, e a consultoria apresenta no seu website (www.innovestgroup.com) estudos que procuram comprová-la, usando a sua própria metodologia. Ainda é cedo para tirar qualquer conclusão, mas uma coisa é certa; o investimento socialmente responsável hoje é parte do cenário e tem tudo para crescer daqui para a frente – desde que os investidores utilizem as técnicas corretas para desenhar e implementar suas estratégias de investimento de maneira racional e consciente.