Como nasce uma favela PDF Imprimir E-mail
05/05/2009, 13:21
O recente artigo de Paulo Bessa sobre a criação de eco-limites murados em torno de favelas cariocas me lembrou da Vila Autódromo, uma favela de pequeno porte que surgiu e cresceu no início dos anos 90, nos poucos metros que havia entre o muro que cercava o autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, e as águas da lagoa de mesmo nome. A situação foi insólita, porque, antes de mais nada, mostrou a incapacidade do governo em coibir a invasão mesmo de uma área plana que ficava à vista de todos e em um ponto turístico importante da cidade.

Na época, o autódromo de Jacarepaguá era a sede do Grande Prêmio Brasil de fórmula 1, transmitido para o mundo todo. Desde essa época, o automobilismo carioca não contava com mais de umas poucas provas por ano, fora das semanas em que o circo da fórmula 1 acampava, a pista e as arquibancadas passavam o resto do ano em estado de abandono. Quando março, o mês do GP, se aproximava, uma frenética atividade de manutenção tomava conta do lugar, envolvendo desde o corte de capim já atingindo a altura de um homem à recomposição dos bancos rotos das arquibancadas de estrutura de aço e assentos de tábua. Pode ser que a minha memória esteja me pregando peças, mas me lembro da história de um espectador que despencou da arquibancada pelo buraco de um desses assentos.

Por fora do muro do autódromo havia uma estrada que percorria todo o seu perímetro. Acho que foi o uso da mesma que impediu que a favela encostasse no muro. Mesmo a proximidade do clube da aeronáutica não criou temor de que um poder maior impedisse a invasão. Dessa forma, nesses tempos em que criar favelas era a política de habitação oposta a das remoções ocorridas durante a ditadura militar, a invasão dos terrenos e a construção de casas aconteceram de forma rápida e sem obstáculos.

Uma vez consolidada a invasão, logo em seguida, começaram os negócios. Já que a falta de qualquer limite era aparente e confiável, quem não ia querer, a preço de banana, um bom terreno com bela vista e à margem da lagoa?  As equipes de automobilismo que competiam no autódromo em geral tinham oficinas montadas em áreas próximas. Mesmo o limitado tamanho do esporte no Rio demandava o trabalho de vários tipos de prestadores de serviço de mecânica e guarda de carros de corrida e karts. Várias dessas pessoas recompraram terrenos dos invasores iniciais, na expectativa de um dia poder legalizá-los ou, na pior das hipóteses usufrui-los por uma temporada. Os que o fizeram mantiveram a aparência pobre e inacabada de construções informais.

Assisti tudo de perto, não por interesse, mas porque freqüentava as corridas de kart na pista secundária que ficava dentro do autódromo. Essa fase durou pouco e perdi de vista as transformações posteriores do local. Acompanhei o caso pelos jornais, quando o município ameaçou remover a favela. Depois, morei fora do Brasil. Olhando o Google Maps para escrever essa coluna, vejo que a favela está marcada no mesmo local em que a vi crescendo. Na foto de satélite aparecem várias casas com piscina. Segundo a mesma fonte, já existe até uma Associação de Moradores, Pescadores e Amigos de Vila Autódromo, com endereço e telefone marcada no mapa.

Moral da história, ou melhor, minha conclusão: se as regras públicas proíbem a construção em áreas de proteção ambiental (como beiras de lagoa) e ao mesmo tempo impedem a remoção sumária de transgressores, o resultado é que a proteção ambiental não passa de uma senha para a invasão. Bem frisado por Bessa, em situações como essa, muros de nada adiantam. Não passam de uma parede gratuita para as construções informais, nem sempre de pobres, fornecida como cortesia pelo Estado brasileiro.
Comentários
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absurdo
daniel perez 05/10/2009 20:07:18

quem anda de kart, não sabe o que é morar em uma favela. como você descreve
em sua materia.isso é uma total falta de conhecimento da realidade eu te falo
pois sei oque é ser pobre e morar em uma favela nâo por luxo e sim por
nessecidade eu moro na vila autodromo nâo tenho piscina e tambem nao uso o muro
como minha parede.talvez se voce ao invez de olhar mapas pelo google venha
conhecer a realidade de perto e voce vera que aqui nâo existe só oportunistas
querendo se dar bem em cima dos outros e sim um lugar de pessoas humildes que
trabalham para se manter a final nâo tiverâo a chance de estudar e muito menos
nascer em berço de ouro. procure se aprofundar mais sobre os problemas sociais
de seu pais antes de escrever materias absurdas baseadas em sonhos dourados isso
aqui é a realidade
DIGNIDADE E RESPEITO
Daniel de Aguiar Resende 06/10/2009 22:16:11

A comunidade existe a mais de 20 anos.
O governo deu título de posse aos
moradores. Os cidadãos merecem respeito,pois são trabalhadores honestos que
pagam impostos.
Por que remover? Esta área é muito grande, tem espaço de
sobra para construir as instalações dos jogos olímpicos de 2016. A comunidade
precisa de urbanização e óbviamente organização e não ser
discriminada.
As comunidades da zona sul,estão começando a receber um
tratamento digno, e por que não fazer o mesmo com a Vila Autodromo?
A lagoa
Rodrigo de Freitas no coração da zona sul, é toda circulada por prédios com
milhares de moradores, que até pouco tempo jogavam esgoto sem tratamento. Se a
questão é hambiental, por que não foram removidos? Será que diante da
justiça eles tem mais direito a ter uma vida digna num lugar onde escolheram
para morar, do que os moradores de Vila Autodromo?
O nosso País é uma
bênção de DEUS e tem muitos recursos, porém, infelizmente,temos um índice
muito elevado de corrupção.
QUERO DEIXAR UM AVISO AOS CORRUPTOS: DEUS ESTÁ
VENDO CADA PASSO DE VOCÊS,NÃO ESCAPARÃO DA JUSTIÇA DIVINA!!!!!! O INFERNO
EXISTE! O MEU IRMÃO ASSISTIU A MORTE DE UMA PESSOA,QUE DISSE ESTAR SENTINDO O
FOGO DO INFERNO.
RESPEITEM OS MENOS FAVORECIDOS, DANDO DIGNIDADE E RESPEITO!
Preste mais atenção nos seus comentários!
Isabel Miranda 08/11/2009 12:43:49

Gostaria de postar aqui a minha indignação, antes de escrever qualquer
assunto, procure se informar melhor, viver a realidade mesmo,não ficar dando
uma de EXPERT e, vá visitar o local, fazer um laboratório. Quem sabe assim, vc
entenderá melhor a situação do seu próximo.
Oportunistas
Daniel 09/11/2009 12:42:38

Vocês que defendem a ilegalidade estão errados. Venho de família humilde meus
pais nunca tiveram luxo e jamais invadiram terreno algum de forma oportunista
esperando título de posse. Moraram em conjugado! Há aluguel para todos os
bolsos seja R$ 2000 em ipanema, R$ 1000,00 no catete, R$ 300,00 em quintino...

Estas pessoas que moram em favelas não pagam luz, água, iptu. Mas as pessoas
que não moram em favelas pagam isso e muitos ainda pagam aluguel além de ouvir
os discurso de que devemos pagar essa conta. Porquê devemos pagar a conta
enquanto estas pessoas fazem filhos sem responsabilidade?
Pergunta para os
moradores destas comunidades... vocês têm celular? Têm gato net? Ar
condicionado? DVD? Se tem isso pq ao invês de comprar estas coisas não vão em
busca de uma moradia honesta e digna? Direitos vêm a partir de deveres. No auge
do governo lula foi feito um paralelo entre uma aposentada que morava em um
conjugado em Copacabana (pagando impostos) que possuía apenas o básico (tv,
geladeira e fogão) e uma doméstica que vivia no Pavão possuia tv, dvd, ar
condicionado (ligado o tempo todo pois tinha gato)...
Tem que ter ordem mesmo,
chega de sustentar além destes políticos um bando de oportunistas!
RELIDADE SEM DINHEIRO NA CUECA
fernando 06/01/2010 14:51:28

Estamos a 40 anos sobrevivendo E NAO TEMOS CONDIÇOES DE PARGAR UMA MORADIA
HONESTA E DIGNA vivemos la sem saneamento sem LUXO posso afirmar para voces que
a maioria que mora la 99% sao todos trabalhadores e gastam o pouco que ganham
para melhorar a suas casas e outa nao matamos e roubamos ninguem.Ao contrario de
muitos que sao ESCOLHIDOS PELO POVO E SAO GRAVADOS COLOCANDO DINHEIRO NA
CUECAS,NAS MEIAS E FALANDO
QUE QUE SAO VITIMAS.
Jornalistas deverias escrever
sobre essa realidade de politicos que realmente prejudica a todos os brasileiros
e nao sobre pobres que nao tiveram a oportunidade de ter um lugar digno e uma
familia que paga-se a faculdade e desse mesada so para estudar e sair.
Cobrem seus direitos a quem lhes devem deveres!!!
Lu 24/02/2010 13:55:11

Para começar ref ao comentario do Daniel q teve pais pobres e viveu de aluguel,
acredite que quem mora na favela não é pq quer, se seus pais viveram de
aluguel vc deve saber bem q para conseguir alugar algo em lugar legalizado como
vc morou deve-se ter fiador ou dinheiro para deposito de no minimo 2x...sem
falar nas exigencias contratuais, de quando sair deixar tudo limpo conforme
pegou cumprir prazo contratual e etc....
Agora me fala, como uma pessoa que
não tem trabalho fixo, não tem amigos com dinheiro e o que ganha é para
comprar comida vai conseguir alugar algo sem ser em favela tb?
è só logica
amigo, quem vive as situações sabe o q passa, queria eu poder comprar uma
casinha na pista, um apartamentozinho bonitinho direitinho..sem pagar condominio
e taxas de impostos eextras e mais...queria eu não precisar esconder q moro em
uma favela, queria eu, poder sair com meus sapatos e sandalias limpas quando
chove e quando ta calor sem pegar pueira na kra..por ser rua de Barro.... sorte
sua ter as condições de ficar nos vendo pelo mapa google de fora do
pais...pois se temos mais coisas do q quem mora no asfalto é pq queremos
compensar o q nos falta na favela e pq temos cas Bahia Ricardo Eletro entre
outras q parcelas em milx possiveis e pode ter certeza q pagamos mais kros q
vcs...pq pagamos com juros e correção tudo q temos e não temos q ter vergonha
por isso..
Agora o mais engraçado é q vc fala das pessoas q mora, por
necessidades, agora esquecem d efalar no Clube de ultraleve, Juiz e Empresarios
q mora no local...ninguem vee esse lado só querem tirar os q encomodam, é ruim
ne ver o feio..mas ninguem chega junto para da uma força ou cobrar do governo
para da condiçõe das pessoas terminarem suas obras deixarem suas casas
bonitas..vcs acham q agente gosta de morar no q é veio? ao invez de colcoar
culpa nas pessoas q mora la cobrem do governo, pois pagam para eles não p quem
mora em favela..procurem seus direitos a quem tem deveres com vcs..não a
pessoas q nem conhecem e ficam excluindo como se fosse lepras no mundo....

Olhem para vcs mesmas e vejam se fazem alguma coisa para mudar a situação, pq
se acontecem isso é pq o governo não da condição de moradia educação e
saude para ninguem e agradeçam muito a Deus por terem vindo ao mundo sem
precisar passarem por isso pois não desejo a ninguem essa
situação...principalmente de estar prestes a perder tudo q construiu c
sacrificio...ralando 24hrs... vcs trabalham 44hr semanal...pode ter certeza q
tem pessoas q trabalham todas as hrs necessarias para ganharam nem metade do q
vcs ganham....
todos q acham isso injusto etriam q passar por isso, só assim
iriam saber o q é isso....
Uma tentativa de explicar meu ponto de vista
Eduardo Pegurier 24/02/2010 21:27:50

Aos comentaristas acima, Daniel Perez, Daniel Resende, Isabel Miranda, Daniel,
Fernando e Lu.

Seria a última pessoa do mundo a desrespeitar quem mora em
favela. É uma situação que ocorre no país todo, justamente porque é tão
difícil ganhar um bom salário ou construir barato no Brasil. Respeito e admiro
os que constroem as próprias casas e levam uma vida dura tentando sempre
melhorar.

Dito isso, descrevo no artigo o que presenciei, quando provavelmente
muitos dos moradores atuais ainda não estavam lá.

Concordo que se existem
invasores ricos, a lei deveria ser a mesma para eles.

A intenção do artigo
não foi atacar quem está em dificuldades ou tentando melhorar de vida, mas sim
denunciar a omissão do governo, que faz regras para não serem cumpridas e,
assim, induz comportamentos que não levarão a melhoria de bem estar das
pessoas. A favela é uma situação como essa. Uma vez criada é muito difícil
e cara a sua urbanização. O que gostaria é que se facilitasse a construção
em lugares mais próprios e que fosse construída uma rede de transporte que
facilite a dia a dia das pessoas. Sairia mais barato do que deixar surgir a
favela e, em seguida, os políticos chegarem prometendo mundos e fundos aos
moradores para entregar apenas band-aids.

Para ilustrar meu ponto de vista,
pergunto: será que os próprios moradores de Vila Autódromo não querem que em
algum momento a favela pare de crescer? Se o crescimento for incessante, a
qualidade de vida decairá também. Em algum momento, a comunidade tentará
evitar o crescimento.

Concluindo, respeito, admiro e torço pelas pessoas que
moram em favelas. Me emociono com a capacidade de trabalho e a criatividade de
suplantar dificuldades quando visito uma.

Ao mesmo tempo, gostaria que, no
futuro próximo, eles deixem de proliferar e sejam substituídas por uma
solução digna, a altura dos brasileiros.

Agradeço a vocês pelos
comentários que me fizeram refletir. Lamento se cometi algum excesso no texto e
convido a ler um outro mais recente sobre a Rocinha
http://www.oeco.com.br/blog-ecocidades/106-blog-ec
ocidades/23308-uma-visita-a-rocinha

Abraços,Edua rdo
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