O Boqueirão da Onça PDF Imprimir E-mail
Ronaldo Goncalves Morato *   
03 Mar 2010, 15:22
Ir de Sobradinho para Sento Sé, na Bahia, é uma tarefa difícil. A estrada, que um dia foi asfaltada, está em péssimas condições e uma viagem que duraria cerca de 1h pode levar um dia todo, dependendo das condições climáticas. Mas tudo tem suas compensações. No meio do caminho tem um povoado chamado Piçarrão, de gente muito acolhedora e amigável. Sem contar que no barzinho em frente ao posto de gasolina tem um pastelzinho que compensa todo o sofrimento da estrada. Sempre que aportamos por lá o pessoal já se 'achega' e pergunta: “- E as onças?”. Nossos trajes e o veículo identificado nos delatam, sem contar que a bióloga Cláudia Campos, coordenadora de campo do projeto, já é muito conhecida por lá e é quase uma “catingueira”.

O que fazemos aqui? Buscamos identificar o “habitat preferencial” da onça pintada nesta região, uma espécie apelidada também de “detetive da paisagem”. Estamos nas imediações do futuro Parque Nacional do Boqueirão da Onça, no coração do semi-árido do Brasil que é dominado por maciços e serras, no centro e norte e por planícies pluviais, ao sul. Desde o início deste século se estuda a criação de uma unidade de conservação na área, considerando-se a beleza cênica, importância de sítios arqueológicos e espeleológicos e, ainda, a exuberante biodiversidade.


Trata-se de uma área que deve ser a maior unidade de conservação fora do bioma Amazônico, com cerca de 800.000ha. Iniciamos nossos trabalhos visitando várias comunidades locais perguntando aos moradores sobre o tal “detetive”. As informações indicavam que a espécie foi muito caçada para o comércio de pele até meados da década de 70, além de ser ainda caçada por conta de conflitos com rebanhos domésticos.

“- Mas o bicho ainda anda aqui.” Diz seu Joaquim. Um senhor com mais de 60 anos que a vida dura da Caatinga e a lida de campo no dia a dia não foram capazes de quebrar seu bom humor e a vontade de nos mostrar o que sabe sobre este ambiente árido. Muitas vezes nos alojamos em sua propriedade, que está nos limites do futuro Parque Nacional do Boqueirão da Onça, é uma área pé de serra que ao cair da noite traz um ar fresco que contrasta com o forte calor do dia.

Foi aqui que fotografamos uma de nossas primeiras onças pintadas na região, por meio de armadilhas fotográficas. Tentamos capturá-la, no início de 2008, mas parece que ela não está muito interessada nos colares que temos para colocar. Nada que nos faça desistir, apenas adiar. Retornando a estrada, rumo a Sento Sé, dirigimos sempre com uma serra escarpada a nossa esquerda, uma visão que poucos tiveram o privilégio de desfrutar e, que nos faz acreditar que muitos gostariam de um dia visitar esse lugar. Para muitos, viajar pelo semi-árido do Brasil, num passeio turístico, pode parecer estranho, pois a idéia que se tem da região é de pobreza, em todos os sentidos, incluindo de diversidade biológica. Não se pode negar que as dificuldades encontradas pelos moradores locais, principalmente pela escassez de água, sejam muitas, mas estamos diante de um povo forte e solidário, que não foge a luta e que nos recebe de braços abertos, uma lição de vida.

Voltando a nossa viagem, há um enorme engano quando nos referimos à Caatinga como um local pobre em biodiversidade. Uma simples caminhada pela manhã é regada de diferentes cantos de pássaros, são centenas de espécies. Isso sem contar a diversidade de répteis e anfíbios que podem ser encontrados. De mamíferos de médio e grande porte, nossa equipe identificou mais de 30 espécies, por meio das armadilhas fotográficas. Existem cerca de 12 fitofisionomias na Caatinga, ou seja, podemos nos deparar com diferentes paisagens num bioma que muitos acreditam não ter nada. E as pinturas rupestres então, estão em todo lugar. Desde o Parque Nacional da Serra da Capivara-PI, passando pelo Parque Nacional da Serra das Confusões-PI e chegando por aqui no futuro Parque Nacional do Boqueirão da Onça, um roteiro completo.

Quanto à beleza cênica, hum, essa é uma história a parte. Infelizmente não tenho a menor condição de descrever, para isso recomendo que cada um de vocês venha até esse lugar e depois tentem expressar em palavras o que viram.

No começo de nossas andanças por esta região, em 2005, quando iniciamos o projeto Onças da Caatinga, os moradores faziam “vista grossa” e logo perguntavam sobre o Parque do Boqueirão. O maior problema é que todos achavam que suas propriedades estavam inseridas na área do futuro parque. Muitas conversas regadas a café e bolo foram necessárias para mostrar em detalhes como era o formato do parque. Além disso, mostrar vantagens e debater possíveis desvantagens de se ter uma unidade de conservação na região.

Adicionalmente, alertávamos os moradores que nada seria feito sem que os mesmos fossem consultados, ou seja, todos os trâmites legais seriam seguidos e, somente após estas etapas é que poderia ser definido o formato do futuro Parque Nacional. Após as audiências públicas, uma equipe formada por técnicos do Ministério do Meio Ambiente e Instituto Chico Mendes voltou à região para estudar novamente o formato do Parque, buscando atender as demandas das comunidades locais, sejam elas culturais, sociais, econômicas ou combinações delas. Isso certamente irá preservar a integridade de todos os povoados da região. Obviamente, esses fatores serão analisados em conjunto com as áreas de importância biológica assim como de áreas relevantes para a preservação de nosso patrimônio arqueológico e espeleológico (cavernas).

Este formato não foi definido ainda, mas deve reduzir o tamanho da área inicialmente proposta ou até mesmo modificar o sistema de unidades de conservação a serem implantadas na região. Ruim!?! Acreditamos que não, afinal um dos princípios que devemos prezar é o da melhor convivência da população local com a Unidade de Conservação e, abrir mão de um pouco de área pode refletir bem futuramente. Adicionalmente, nossos estudos com a onça pintada podem indicar as melhores áreas para conservação na região, lembrando que a espécie está sendo utilizada como um “detetive da paisagem”.

Constituir uma unidade de conservação não é tarefa fácil e tampouco deve ser. Aspectos sociais e econômicos devem ser sempre levados em consideração. Aspectos biológicos, históricos e de beleza cênica são instrumentos de motivação para a criação de uma UC, mas o conhecimento adquirido sobre estes devem compor as bases técnicas que auxiliem no processo de criação.

* Ronaldo Gonçalves Moura é chefe do Centro Nacional de Pesquisas e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. 
Comentários
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belo artigo!
Priscila Cavalcanti 03/03/2010 16:19:29

Parabéns, Ronaldo, gostei muito.
palmas para o texto e suas idéias
Pedro Cunha e Menezes 04/03/2010 02:34:39

clap, clap, clap!
Pura Verdade!
Carlos Henrique Sampaio 04/03/2010 04:10:17

Os caatingueiros reconhece que a luta só começou mas ainda precisa
conscientizar as comunidades de que preservar é preciso afinal dentro desse
parque tem uma população de mais de 30 mil habitantes o que é ruim para as
especies caçar onça pintada aqui é cultural e Claudia. Jader e Ronaldo é
testemunha disso cada animal desse morto é uma prova de cabra maxo na cultura
dos caatingueiros que ocupam a área.
Também nas Dunas
Fábio Olmos 04/03/2010 06:13:33

Na área proposta para uma nova UC na região das Dunas do S. Francisco ouvi
relato de uma onças preta abatida algum tempo atrás. Ou seja, há gatos por
ali também.
Uma das experiências mais incríveis que tive no parque nacional
Serra da Capivara foi estar acampado em um boqueirão e à noite ouvir uma
pintada esturrando no alto do paredão, sua voz ecoando por todo o vale.
Que o
Boqueirão da Onça vire realidade e outros possam ter esta experiência
Feliz....
Aline Izepão 04/03/2010 07:57:36

Fiquei muito feliz em saber que mais uma Unidade de conservação vai ser
implantada neste bioma tão exuberante e biodiverso, e ainda que visa proteger
este felino tão ameaçado.
Parabens....
O boqueirão da onça.
André Luiz Monteiro 04/03/2010 13:25:43

Nassa casa Terra precisa urgente de pessoas com condutas educacionais que façam
seu trabalho repercurtir de forma inteligente mostrando que cada ser que é
maltratado tem um significado em nosso sobrevivência e que ele também precisa
ser respeitado e amado, amodo sim porque o amor não tem divisas. Que os
caminhos daqueles que trilham em prol das melhorias dos seres sobreviventes
ainda aqui na Terra, possam ser iluminados e protegidos. Parabéns a toda equipe
e seus autores. Preservar e viver em harmonia com as diretrizes das energias
boas.
Onceiros
Reuber Brandão 04/03/2010 14:26:59

Caro Ronaldo, Parabéns pelo texto. Espero que as onças ajudem a tornar este
fantástico pedaço da Caatinga em um belíssimo Parque Nacional. Tive o
privilégio de sobrevoar essa região quando trabalhava com criação de
unidades de conservação no IBAMA, na antiga DIREC. Uma informação que pode
ser interessante para vocês está no livro Guerreiro do Sol: Violência e
Banditismo no Nordeste do Brasil, de Frederico Pernambucano de Mello, que traz
interessantes relatos da atividade de onceiros no nordeste em fins do século 19
e início do século 20. Ainda bem que os onceiros de hoje são mais amigos das
onças. Forte abraço.
oi
oi 08/03/2010 15:31:22

legal
políticas públicas
Ana Patrícia Dias Marques 10/03/2010 13:23:25

Uma mentira repetida várias vezes vira... verdade. Escassez de recursos
hídricos não é bem a expressão para nosso semi-árido, pois ele, é um dos
mais "chuvosos" do mundo. Mais o que falta para o catingueiro é
política pública de verdade para seus problemas sócio-econômicos. Conjugando
isso com a sua beleza natural ímpar, etmos sim, um paraíso na terra.
Urgência!
Claudia 10/03/2010 16:45:30

Caros Carlos, Fábio, Reuber e Patrícia (que conhecem a área) e outros que se
impressionaram com as palavras do Ronaldo. O Boqueirão é maravilhoso sim, mas
merece ser visto com olhos mais cuidadosos para que a conservação da região
realmente aconteça. Espalhem aos quatro ventos sobre essa região para que
outras pessoas se interessem pelas suas riquezas e ajude a preserva-las.
A onça vem ai
IRANGÁ IGLESIAS 14/03/2010 17:09:40

Como poderemos viver sem as onças? As oNças trazem a força para nosso corpo,
e peço que nós brasileiros, nos organizemos por inteiro e ligeiro para a
onça voltar.ADMIRO TODOS VOCES QUE TRABALHAM COM SERIEDADE.
ABRAÇO FORTE EM
TODOS.
Irangá Iglesias
Lutando pela vida da Caatinga e sua biodiversidade
Luís Quirino Gonçalves 16/03/2010 12:18:10

Olá eu sou Luis Quirino, Diretor de meio ambiente do municipios de
Umburanas/BA, sou a favor da criação UC, parque B.da onça, mais estou muito
preocupado pois como o futuro parque faz limites também com o municipio de
Umburas, em fim preciso de vcs, para nos ajudar para combater a caça predatorio
que a cada dia aumenta e causando drastico impacto na instição de animais com
o caititu, veado, passaros e outras especies, já estou realizando um trabalho
de concientização mais a presença de alguém de outras intidades com maior
poder faz a diferença, nos ajude, na pessoa do Sr. Ronaldo
Gonçalves.

Atenciosamente,

Luís Quirino Gonçalves
interes te ter e-mail de vossas senhorias para int
Alain Sánchez Martin 17/03/2010 16:57:36

Boa noite:

Seria grato ter e-mail de vossa senhorias
para intercambiar ideias
e demais opiniões sobre UC Boqueirão da Onça.

Agradeço a gentileza de
vocês.

Atentamente:

Alain Sánchez Martin..
Danielle Morais 19/03/2010 19:46:20

Sou estudante universitária do curso de Engenharia Agrícola e Ambiental da
UNIVASF e fiz, durante o segundo período na disciplina de Botânica, uma visita
técnica ao local onde foi constatada a biodiversidade do local. Para mim é
gratificante saber que uma área no meio do semi-árido nordestino será uma
unidade de conservação.
Parabéns pelo artigo!
Sr. Alain S. Martin
Claudia 25/03/2010 16:31:32

Boa noite à todos. Sr. Alain, se está interessado em contactar os
pesquisadores que trabalham no Boqueirão, por favor entre em contato com o
CENAP (contatos no site http://www.icmbio.gov.br/cenap/).
Antonio R Lima /Sento - Sé B 27/04/2010 17:32:33

Tenho conversado com alguns moradores da região onde será implantado o Parque
Boqueirão da Onça e percebo uma grande preocupação dos seus nativos. Penso
que a implantação deste parque trará benefícios para nossa sofrida
região.Um escritor sentosseense, já disse que " Sento-Sé, é rico e
ignoto " ( rico e ignorado). Acreditamos que as nossas riquezas começam a
serem descobertas. Estas explorações sinalizam para a properidade do nosso
municipio; entendemos que as pessoas que nasceram e conviveram até hoje no mais
longincuo rincão do nosso municipio, é normal que se assustem com as noticias,
muitas delas distrcidas. Esperamos que os órgãs do governo prestem as
informações legítimas para a melhor concietização do da nossa gente que
bravamente enfrentam os intempéries das terras semi-áridas do nordeste
brasileiro, onde passa até oito a nove meses sem chover.A região da Serra do
Mimoso, jé está sendo sinalizada com a chegada do progresso a exemplo da
energia elétrica.O prefeito Ednaldo, assegura que em breves dias todas as
escolas serão conectadas a INTRNET e aí todos ficarão informados da noticias
do mundo.
" Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se
transforma"
Lvouzer.
sou piçarrãoziensse....kkk
beto david 09/05/2010 16:23:03

Estou com saudade da minha terra...
cuidado com a onça
galo de Sento-Sé 14/05/2010 17:54:05

É preciso sabermos que outras onças existem no semi árido, uma das espécies
mais perigosas é o casador esportivo, que mata por prazer e exibe a a rrogancia
da destruição. São fazendeiros, procuradores da justiça, desembargadores,
juizes, policiais, empresários, e tantos outros que acampam dias e mais dias no
meio do parque só para degradam a nossa escaça fauna. Quem mata mais é o
campeão da caçada, e isso acontece sempre.
responsabilidade de todos
armando fagundes silva 22/05/2010 19:46:10

Nasci fui criado nesta região é com alegria que vejo comentarios de pessoas
sobre esforço e vontade de quem se dedica uma causa que sostenta vida dando
vidas. desde os 8 anos de idade acompanho as depredações, com historias e
fotos dos garimpos e matas
a conservação do resta da fauna e da flora,
criando uma UC é para ontem.
contem comigo,as fotos trazem boas lembranças.
parabens.
Armando fagundes silva, da gameleira do dida).




são paulo
capital
A onça é nossa irmã
Juvaldino 31/05/2010 17:42:49

Tenho acompanhado a discussão da criação da UC/PNBO e fico feliz de ver
pessoas interessadas pela preservação da vida, sobretudo da nossa caatinga.
Nossa porque é exclusividade do brasil e principalmente do sertão nordestino.
Eu, Armando e outros seres humanos (HUMANOS) temos visitado e fotografado a
beleza cenica do tabuleiro e nos colocamos a disposição do ICMBio para
discernir a questão do referido parque.
Juvaldino 74*8824-0204
estrada entre umburanas e sento-sé
Jean-Marie Baltimore 04/06/2010 06:07:13

oi, me falaram que a estrada enmtre sento-sé e umburanas foi refeita... alguém
pode confirmar que pode passar atravès da serra até um carro baixo como um
Renault Clio.Senão alguém poderia me informar como fazer esse passeio de
maneira segura de dia (quero tirar fotos). Ir num dia para Sento Sé e voltar o
dia seguinte pelo mesmo caminho. Obrigado
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