Uma ameaça ameaçada PDF Imprimir E-mail
Carlos Firkowski*   
19/01/2010, 15:04

Vista dos morros Tucum e Camapuã
 
BAIXE VERSÃO INTEGRAL DO ARTIGO (20 pag.)

A ameaça potencial de plantas ou animais exóticos e invasores é de escala planetária e com um impacto estimado que causa preocupação. O tema “invasão” ou “contaminação biológica” é assunto atual e tratado pelos diferentes meios de comunicação sob os mais variados enfoques. Porém, pouco se vê sobre resultados de controle destas invasoras no Brasil; são propostas de difícil implementação e, ainda, de questionável eficácia, quer pela prescrição de eliminar as florestas plantadas, ou quer por criação de barreiras com vegetação nativa para evitar a disseminação de sementes. Na prática, o alerta continua pouco ou nada considerado pela sociedade e Estado, o plantio de exóticas, com potencial invasor, continua ocorrendo sem qualquer controle, no geral não há avaliação de riscos e nem responsabilidade sobre os prejuízos.

Como nem o produtor das sementes (o poluidor) e nem o Estado tomam qualquer providência, sobra para pessoas e organizações fazerem o alarde do desastre que está por vir. Foi com esta convicção, de um desastre ambiental, que um aluno meu, Rodrigo Zeller, andarilho de montanhas e companheiro de caminhadas noturnas, começou a me atormentar sobre sua firme intenção de limpar as montanhas da serra do Mar no Paraná das árvores de pinus, que se instalam em ambientes de vegetação mais aberta e sem qualquer permissão.

Enfim, em novembro de 2007, o Rodrigo, eu e Gottfried, um aluno que precisava ser trazido mais para a vida acadêmica, demos início à missão subindo um morro com o nome de Camapuã (origem Tupi Guarani e significa “seios erguidos”), uma meia bola de pedra maciça, com dois vizinhos distintos, o Camacuã e o Tucum, o mais imponente de todos. Tais montanhas estão a uns 50 km de Curitiba no sentido São Paulo pela BR 116.

Já durante a subida minhas críticas se iniciaram e foram direcionadas para o traçado do caminho, especialmente quando se está subindo essa meia bola, a céu aberto, um vento que resseca até os ossos, e o fim, a uns 1.700 m de altitude, não “chega nunca”. Passamos a considerar a abertura de uma outra trilha para acessar a lateral do Camapuã, a parte com a maior quantidade de pinus, além da perspectiva e grande possibilidade de haver água pelas indicações de drenagem. Os desenhos e avaliações do novo acesso foram, além de enriquecidas graças ao conhecimento e experiência do Rodrigo, checados com imagens da espetacular ferramenta grátis da internet que é o Google Earth (Figura 1).


Figura 1 – Localização dos picos Camapuã e Tucum, do local de acampamento, da trilha de acesso e contorno das três áreas (ExEx1, 2 e 3) de onde foram eliminadas as árvores e plântulas de pinus e de área extra sem avaliação (contorno branco);

Com tudo planejado e organizado, Rodrigo e seu amigo Sidinei, agora nosso companheiro de aventura (que usou suas férias nessa empreitada de carregar carga pesada morro acima), sobem para levar em duas viagens quase 50 quilogramas de material e mantimentos para ser escondido por uma semana. Esses dois trabalharam duro para achar um caminho, abrir uma trilha e demarcá-la (ver tracejado na Figura 1). São aproximadamente 950 metros, com picada, passagens sobre pedras lisas, lugares muito úmidos e trilha sobre capim, mas com o bônus da oferta contínua de água fresca a menos de 50 metros da trilha e a 5 minutos do local definido para o acampamento.

A matança é deflagrada -  Primeira expedição de extermínio


Nosso acampamento na primeira investida
Com a base definida e abastecida, dia 12 de fevereiro de 2008 se deu início à tão almejada expedição extermínio, ou apenas “ExEx” como passamos a chamar. Antes do sol nascer, desmontamos a motosserra e a acomodamos na já pesada mochila do Murilo; este é um companheiro que merece uma condecoração. Cinco horas após deixarmos o carro, já estávamos com o acampamento montado, motosserra abastecida, facões e machado afiados e prontos para iniciar a batalha contra as alienígenas. Nesta tarde e em 4 horas cortamos 205 árvores, sendo 130 com motosserra.

Como mesmo o paraíso não é eterno, à noite caiu um temporal quando estávamos prontos para dormir. Enquanto o Murilo e o Rodrigo dormiam, eu e o Sidinei ficamos até as duas da madrugada “de plantão” até que não fosse mais necessário segurar a lona para bloquear a chuva. Graças a esse começo, dá para se dizer que o resto da madrugada foi excelente!

O segundo dia começa meio devagar, precisamos secar a roupa e esperar o sol atrasado aparecer por trás do Camapuã. Pela manhã, o Murilo e Rodrigo derrubaram (anelam algumas) cerca de 35 árvores, enquanto eu e o Sidinei seguimos por outra face ampliando a faixa livre de pinus, até onde a vegetação se torna mais arbustiva e densa (cota de transição). Terminamos lá pelas 13:00 com 59 árvores agonizando no chão. À tarde, cortamos 72 árvores e o Rodrigo e Sidinei foram para a parte maior do Camapuã, fora do polígono definido para essa empreitada (área delimitada em branco na Figura 1). Queriam ter uma idéia mais precisa de qual era o nível de infestação e aproveitaram para cortar e arrancar 135 pinus no total, pouco menos de 1/3 foi arrancado com as mãos e o resto com facão ou machado.

Eles voltaram tarde da noite, lá pelas 20:00, quando eu e o Murilo já estávamos com os garrafões de água abastecidos e a caipirinha pronta. Nesta noite decidimos que só agüentaríamos mais um dia, enquanto ouvíamos as lamentações do Sidinei sobre o fim das suas férias. Jovens de cidade e um professor de 52 anos não servem para serviço pesado! Antes do descanso, porém, foram 75 árvores com motosserra e mais 44 de facão ou machado.

A segunda investida

A segunda expedição e o período de 3 dias que se seguiram foram sob chuva constante, frio e ventos que mantinham as gotas em movimento horizontal, além de arrebentar cordéis, estais, ilhoses, arrastar tocos e deixar todos meio surdos pelo barulho das lonas sacudindo noite e dia.

Mesmo sob essas condições e outras, conseguimos em cinco pessoas (o Sidinei foi substituído pelo David e Charles) derrubar em poucas horas trabalháveis dos dois últimos dias mais 115 árvores com motosserra e outras 24 com facão ou machado (área delimitada em amarelo). Além destas, também foram retiradas aproximadamente 50 árvores de todos os tamanhos de área fora do polígono (área delimitada em branco), inclusive várias árvores com mais de 20 anos, junto à nova trilha.

Batalha final

Graças às péssimas condições do tempo durante a segunda investida, tivemos que subir mais uma vez a “morraria”. O Rodrigo pela “fissura”, eu pela promessa e o Murilo pelo companheirismo (graças aos céus) já subíamos o morro uma semana depois com a missão de dar cabo do que sobrou (área delimitada em azul). Com o tempo ajudando, pudemos cortar em dois dias bem trabalhados mais 265 árvores, sendo a maioria com motosserra. Fora do polígono, o Rodrigo também eliminou mais 75 árvores na face norte.

Avaliações e necessidades

As fotografias (ver Figura 2 e 3) dão uma idéia da paisagem original (até bonitinha para a Europa) e como ficou a lateral do Camapuã após esse trabalho voluntário de alguns que gostam de pôr a mão na massa. Pôr em prática o discurso significou eliminar (uma avaliação posterior revelou que parte das árvores ainda se mantém verdes e vivas, graças a uma tira de casca não cortada; um procedimento de corte pouco técnico), num polígono de aproximadamente 35 hectares, 894 árvores e plântulas (além de mais de 350 fora do polígono). A paisagem mudou tanto que agora apareceram grandes blocos de pedras decorando os “seios erguidos” de textura mais sedosa.

 Figura 2 – Vista parcial à meia encosta da área trabalhada na lateral do morro Camapuã

Figura 3 – Vista parcial à meia encosta da área trabalhada na lateral do morro Camapuã, após corte de mais de 80 árvores de pinus

O custo sem mão de obra de toda a empreitada foi de R$ 0,50 por árvore. Naturalmente esse valor não expressa a realidade completa, já que não foram contabilizados o tempo de subida e preparação (o Rodrigo subiu 10 vezes o Camapuã), o veículo, o material e equipamentos emprestados, o risco envolvido, o esforço extremo de todos e os faraônicos custos dos vários impostos e taxas que o Estado nos impõe. Mas, se as outras 350 árvores cortadas fora do polígono fossem incluídas, o custo baixaria para R$ 0,37/árvore. Esses valores e nossas declarações mostram que é possível fazer algo em favor da natureza sem envolver recursos expressivos, quer monetários, de pessoal ou de tempo.

Ambientes íntegros e Natureza cruel são alguns prazeres gratuitos que todos os que sobem montanhas gostam de experimentar. Como são poucos que conseguem subir a infernal “morraria”, penso que muito desta tarefa de manutenção poderia ficar a cargo destes que se deleitam com a visão de cima, mesmo porque o Estado jamais deve ter expressado qualquer política eficaz que denotasse sua existência naquelas alturas.

*Carlos Firkowski é PhD em engenharia florestal pela Michigan State University, EUA, e professor adjunto da UFPr
Comentários
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Parabéns
Margi Moss 19/01/2010 14:30:00

Quero parabenizar vcs pelo trabalho árduo que fizeram. Quando estive na região
em 2006, fiquei chocada com a proliferação dessas árvores e, pior, com a
proliferação de desmates de Mata Atlântica para plantio de mais pinus. Como
é que alguém autoriza desmatar para plantar pinus quando poderia colocar em
terras degradadas?
Iniciativas...
Fernando C.Straube 19/01/2010 14:44:29

Grande parte do Paraná virou uma mata europeia... Quem viaja pelos quatro
cantos do estado vê isso com muita facilidade, desde que tenha um mínimo de
preocupação. Esse problema se repete geograficamente em muitos lugares, alguns
deles já devidamente "saneados" (p.ex. Vila Velha). Parabéns ao Firko
e sua voluntariosa equipe pela iniciativa. Certamente haverão críticas, mas
algo é mais do que certo: é preciso fazer alguma coisa! E o texto mostrado
revela claramente que tem gente que não senta "no trono de um apartamento
com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar...". Mãos
à obra. Se dependermos do Estado e sua estrutura enferrujada, ansiosa por
enferrujar todos os demais sistemas, nos restará uma mata atlântica cheia de
pinus e outras porcarias. Próximo passo: Campos Gerais - alguém aceita o
desafio? Um abraço, Fernando C.Straube
Ótima iniciativa
Ronaldo Franzen NativO! 19/01/2010 18:24:04

Ótimo trabalho! Precisando de voluntários podem ser acionados via
www.fepam.org.br
O desafio antes de ir pros campos gerais, além dos pinus é a
paina...se tiverem alguma solução nos avise.
Saudações montanhísticas
Excelente exemplo
Clodoaldo Adriano Pasquini 19/01/2010 20:47:20

Parabéns à toda equipe pelo excelente trabalho, pelo resultado e pelo ótimo
exemplo. Mais uma amostra de gente que vai lá , faz e não fica atrás do
teclado criticando o trabalho dos outros. Muito bom.
Abraços
Grande exemplo
Rogério Oliveira 20/01/2010 03:33:25

Parabéns a vocês!
Gostaria de saber como o pinus foi parar lá e quais são
as chances de re-infestação.
E que este exemplo sirva de modelo para outras
atividades!
Grande!
Fernando Formagini 20/01/2010 06:17:15

Dá-lhe professor!!!
muito bom!
Parabéns!
Gadelha Neto 20/01/2010 06:55:28

O excelente trabalho conduzido por vocês mostra a força que tem a população
determinada a realizar. Não é possível esperar eternamente a iniciativa
governamental. Entretanto, ao mesmo tempo em que a sociedade põe a mão na
massa deve cobrar energicamente a ação dos governos.
Um grande abraço
Gadelha
Neto
Ass. Com/WWF-Brasil
Excelente!
Diacuy Crema 20/01/2010 07:10:10

Ola Firkowski! Adorei, quando ando pelas estradas tenho vontade de ir fazendo
extamente isso! Essa praga tem que ser exterminada de areas de preservaçao!
Parabéns aos alunos tbem!
Sds florestais
pedro vicente 20/01/2010 07:19:55

Muito bem! Na peninsula iberica temos problema semelhante com as acácias que
invadem os carvalhais, asfixiando toda a vegetaçao nativa.Tomara que os
Governos do mundo tivessem maior sensibilidade para este problema: as invasoras.
abraço
Mão na massa
Fábio Olmos 20/01/2010 08:44:39

Parabéns Firko !!! É com conhecimento e pondo a mão na massa que se faz
manejo para resolver os problemas de nossas áreas naturais, e não com um
workshop atrás do outro onde se decidem as mesmas coisas vez após outra.
Eduardo de Castro 20/01/2010 13:12:27

Seria ótimo se essa iniciativa servisse de expemplo para ações desse tipo em
outras áreas de mata atlântica. Muito boa iniciativa.
Prêmio
Ricardo N. 20/01/2010 13:47:07

Vamos fazer uma vaquinha e dar um prêmio para esse pessoal. Parabéns!!!
Exemplo a ser seguido!
Paulo Segalla 20/01/2010 15:38:53

Fiquei impressionado com o relato. Espero ter forças e conhecimento para seguir
este maravilhoso exemplo.
Parabéns e obrigada
Soraia Giordani 21/01/2010 06:23:13

Parabéns e obrigada pela limpeza da serra, adoro estas montanhas e estes pinus
sempre me incomodaram, minha vontade era de sair com uma motossera derrubando
tudo e vcs fizeram isso, obrigada mesmo.
informação e dados
Carlos Firkowski 21/01/2010 07:50:30

Caros e caras, agradeço as palavras de parabenização e reconhecimento, mas
elas devem ser direcionadas ao meus alunos e colegas destes que ajudaram e
muito. Quanto a algumas dúvidas, elas poderiam ser sanadas (Rogério e outros)
se O Eco pudesse incluir um "link" para o texto integral que soma 16
páginas (bem mais cheio de informação e com uma avaliação de idade).
Fica a
proposta para a equipe.
"A PRAGA QUE ATINGE AREAS DEGRADADAS, LIVRES, ETC
Eduino de Mattos 21/01/2010 09:00:03

AQUI EM PORTO ALEGRE NÓS TEMOS UM PARQUE "PARQUE SAINT HILAIRE" COM
1250 HC, E ESTA PRAGA NASCE EM TODOS OS CANTOS, ESTAMOS "MANEJANDO" COM
NATIVAS, URGENTE TEM QUE HAVER UM REGRAMENTO POIS AS ÁREAS "PROTEGIDAS"
DA SERRA GERAL ITAIBÉZINHO, ...ENTRE OUTROS LOCAIS DA REGIÃO SERRANA.
*EU ACHO
QUE TEM QUE HAVER UMA CAMPANHA NACIONAL DE CONTRÔLE, E AS PLANTAÇÕES
COMERCIAIS TEM QUE TER REGRAS RÍGIDAS PARA NÃO DISEMINAR ESTA PRAGA !

*
PARABÉNS PELO ÁRDUO TRABALHO PARA TENTAR SALVAR NOSSAS ÁREAS DE
PRESERVAÇÃO, É UMA VISÃO ECOLÓGICA.

Eduino de Mattos
conselheiro do
COMAM
porto alegre RS
Belo trabalho
Talita 21/01/2010 16:08:39

oi Carlos!
Muito legal a sua iniciativa de dar um fim nos Pinus de uma região
toda...
Nas minhas andanças por aí, vejo o Pinus europeu invandindo não só
a Floresta Ombrófila densa atlântica, mas tb o Cerrado.
Felizmente, está
aumentando o número de pesquisadores interessados em trabalhar com o tema
invasão biológica.
Continue tendo atitudes como essa!
Morte ao Pinus e outras espécies exóticas!
Márcio Motta 22/01/2010 06:50:17

Parabéns pelo corajoso trabalho...meu amigo Super (Eduardo de Castro) deve ter
adorado ler o relato...precisamos unir forças para realmente trabalhar, e parar
de ficar discutindo em reuniões vazias e grupos de internet...mãos à obra!
Fernando da Silva 24/01/2010 11:15:30

Realmente devo parabenizar o grande feito descrito com tamanho orgulho pelo
professor, acho que deveria escrever mais sobre esse feito. Parabens aos
heróis.
Parabens
Lucineide Paz 02/02/2010 23:50:56

Parabens pela empreitada, coragem e dedicacao...as vezes na luta pela
conservacao acabamos nos deparando com episodios adversos e
desanimadores...ainda bem q sempre nesta luta atitudes como a de voces voltam a
nos encorajar e retomar a batalha..PARABENS
REFLEXAO
GIULIANO DAMASCO 08/02/2010 08:32:19

E SEMPRE A MESMA COISA ,NUNCA TEMOS SUCESSO DO LADO DA LEI ENTAO MEUS CAROS
AMIGOS AMBIENTALISTAS ..O NEGOCIO E FORMAR O PRIMEIRO EXCERCITO POPULAR
AMBIENTAL NA LUTA E PRESERVAÇÃO DO QUE E NOSSO ...E MUITO BONITO PARTICIPAR DE
REUNIOES PALESTRAS E TUDO QUE ESTA EM VOLTA MAS DO QUE ADIANTA TUDO ISSO SE ELES
QUE DECIDEM O QUE VAI OU NAO VAI FAZER ....CHEGA DESSA PASSIVIDADE .
TEMOS QUE
MONTAR UM SUPER EXCERCITO AMBIENTAL PARA DETER ESSES CENOBIOSES QUE ACHAM E
SUBSTIMAM O NOSSO CONHECIMENTO ...

LEGIAO AMBIENTAL VEIO PARA FICAR
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