Angústias da mata ciliar PDF Imprimir E-mail
Osvaldo Ferreira Valente*   
17/11/2009, 14:09
Em viagem recente, percorria uma estrada que se desenvolvia ao longo de um rio e pude logo notar que as suas margens tinham sido reflorestadas há pouco, num daqueles programas, muito comuns nos dias de hoje, de recomposição de matas ciliares. Parei e fiquei contemplando, por alguns minutos, aquelas espécies de plantas que estavam iniciando a formação de um novo ambiente diversificado. Rememorei alguns conhecimentos hidrológicos e passei a imaginar o que diriam aquelas plantas se pudessem dialogar comigo. E para minha surpresa, uma mais espevitada começou a falar:

- Meu caro viajante, aqui estamos nós em fase de crescimento. Eu mesma tenho esperança de ser um majestoso jatobá em futuro breve. Vamos criar um ambiente importante para animais silvestres e para uma variada fauna no solo. Vamos dar frutos e as nossas companheiras que estão mais próximas da lâmina d’água do rio irão fazer sombra e fornecer alimentos para peixes e outros animais aquáticos.

Argumentei que da mata ciliar são esperadas muito mais coisas e ela logo me interrompeu:

- Sim, nós sabemos, e estamos preparadas para ajudar na retenção de parte das enxurradas que chegarem por aqui, armazenando um pouco das partículas sólidas transportadas por elas e mesmo na retenção de outros resíduos gerados pelas atividades produtivas ao nosso redor, incluindo até os excessos de aplicações de agrotóxicos. Já as nossas companheiras lá da beirada poderão ajudar na estabilização do leito do rio. Por outro lado, meu caro viajante, o nosso papel ambiental fica um pouco prejudicado pela artificialidade daquela metragem em relação ao leito do rio. Para nós fica difícil entender que devemos ocupar uma faixa de 30 metros de cada lado de pequenos córregos, por exemplo, em qualquer dos variados biomas brasileiros. É impressionante a capacidade que homens e mulheres têm de artificializar tudo, até mesmo quando tentam defender ou reproduzir os comportamentos naturais.

A esta altura da conversa, resolvi pedir sua opinião a respeito da ação da mata ciliar naquilo que os ambientalistas chamam de “preservação da vazão dos cursos d’água”. A resposta foi bastante esclarecedora:

- Quanto a isso são grandes as nossas angústias, pois temos receio de provocar decepções futuras. Esperam, por exemplo, que nós sejamos capazes de promover infiltrações de água no solo e em quantidades suficientes para que os armazenamentos nos lençóis subterrâneos possam garantir as vazões de estiagens dos cursos d’água. Esquecem que nós ocupamos uma pequena percentagem da área da bacia hidrográfica e não poderemos assumir uma tarefa que compete a toda a sua superfície. Além do mais, nós também somos consumidoras de água, que retiramos do solo através de nossas raízes. Nas épocas de estiagens, enquanto nossas colegas lá do topo do morro têm de reduzir os seus consumos de água, perdendo folhas, por exemplo, as nossas raízes têm a felicidade de estar próximas dos lençóis subterrâneos, que estão menos profundos na margens dos cursos d’água, onde estamos. Com isso podemos fazer a festa da transpiração, transferindo boas quantidades de água dos lençóis para a atmosfera. Se os lençóis forem rebaixados pela atividade das raízes, há sempre a possibilidade de o próprio curso d’água, principalmente em regiões mais planas, colaborar para o seu reabastecimento. Se isso provocar quedas de vazões, paciência, pois estamos tendo apenas um comportamento natural no ecossistema e não temos nenhum compromisso com essa tal de “preservação de vazão” .

Voltei ao carro e continuei minha viagem. Passei a examinar, mentalmente, um jeito de usar aquele diálogo no curso sobre conservação de nascentes que estava indo ministrar para um grupo de produtores rurais. Olhei para o topo de um morro coberto por uma mata natural e decidi que irei procurar uma sua parenta para uma conversa semelhante à que acabei de narrar, pois, ao lado das matas ciliares, as matas de topos de morros são também consideradas “salvadoras da pátria” na conservação de vazões de nascentes, córregos e rios.

* Engenheiro florestal, professor titular aposentado da Universidade Federal de Viçosa e especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas.
Comentários
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vc tá certo, só q tem q explicar pro Minc
Raul 17/11/2009 14:50:03

A conversa é boa, os princípios corretos, só que no mundo da política eles
são pouco conhecidos. A CNA e ruralistas dizem que amam de paixão a mata
ciliar, e, monogâmicos que são, só ela. Mesmo assim estão arrumando um meio
para diminui-la. Já as matas dos topos de morro, encostas ou as que estão
perdidas no meio da paisagem (as reservas legais), que segundo o papo são tão
ou mais importantes para a tal da vazão, estão a perigo. Agora com o acordo do
Minc com o Stephanes, quem ocupou topo de morro tá liberado, e reserva legal
desmatada pode ser compensada a 3 mil quilômetros de distância... melhor não
contar isso pro Jatobá, senão ele desiste de crescer..
Um conserva para pouco
Victor F. Pontes 17/11/2009 17:11:54

Que bom papo foi esse em ! Pena que poucos tem o prazer em te-lo. Seria uma
ótima idéia chamar esse individuo (jovem jequitiba) para ser um convidado a
falar no senado, e explicar aos homos debeis que lá habitam a importancia de se
comprui as minimas exigencias do codigo florestal...
Muito bom!
Zé Brasil 18/11/2009 13:12:03

Excelente aula de educação ambiental! Aguardamos ansiosos a próxima conversa
com as primas tão importantes do Jatobazinho Beira Rio da Silva, moradoras do
Alto do Morro.
Vamos escrever melhor a nossa historia
Jos´e Oliveira Ribas 04/12/2009 05:53:37

Vamos Coletar o Óleo Residual de Fritura


Por que Coleta de Óleo Residual de Fritura?
O Projeto é uma iniciativa
para coletar o óleo residual de fritura em domicílios, restaurantes, bares,
comércio e indústrias para transformá-lo em biodiesel.
Para isso é
necessário que a sua coleta e armazenamento sejam em locais como;
Associações, Igrejas, Conjuntos residenciais. Com esta iniciativa, Grupo
Metropolitano Paulista do Programa Agenda 21 e o Instituto PNBE e seus parceiros
se propõem a realizar um amplo programa de educação popular sobre o assunto e
a organizar uma rede de coleta com abrangência suficiente para uma captação
ambientalmente significante e socioambientalmente correto.
Esta iniciativa
inclui a instalação e manutenção de recipientes em postos de recepção na
região ou nas subprefeituras de São Paulo e nas cidades que se proponha em
aderir o projeto, com realização de palestras explicativas para a
comunidade.
Quem são os responsáveis pela coleta?
O Instituto PNBE –
Pensamento Nacional das Bases Empresariais de Desenvolvimento Social e a
instituição Educa, Heróis da Natureza responsável pela organização e
administração da Mini Usina. Para isso ela contará com a colaboração de
outras instituições parceiras responsável pela organização da rede de
postos de recepção local.
Quais são os objetivos da coleta de Óleo Residual
de Fritura?
O Projeto tem o objetivo de coletar de óleo residual de fritura
que seria descartado no esgoto. Com isso o Projeto contribui também com outros
objetivos gerais que são: evitar os transtornos potenciais que seriam
provocados pelo descarte desse óleo na natureza e colaborar na educação
ambiental do cidadão e oportunidades de gerar renda.
O que é necessário para
participar do projeto?
Dispor de um espaço suficiente para acondicionar com
segurança um recipiente de acordo com a capacidade de coleta (20, 50 ou 100
litros).
Divulgar o Projeto para o seu público e convidá-lo para participar
das palestras de orientação sobre o mesmo e, acima de tudo, querer melhorar a
qualidade da vida na cidade e no campo.
Como será feita a coleta?
A coleta
será organizada das seguintes formas: coleta condominial; coleta em postos de
recepção pessoal e coleta em casas de refeições.
Como separar o óleo
residual em casa?
– O recipiente ideal para fazer o armazenamento do óleo em
casa deve ser em uma garrafa PET com tampa de rosca ou recipiente similar.

Para evitar acidentes, o óleo somente deve ser colocado no recipiente coletor
depois que estiver frio.
Como fazer a coleta condominial?
– A coleta
condominial é aquela realizada em prédios de apartamentos ou conjuntos
residenciais com administração centralizada.
– O recipiente deve ficar em
lugar seguro e coberto e cada morador poderá levar seu óleo residual até o
contentor.
– O Instituto PNBE e as Instituições parceiras darão o apoio e
as orientações necessárias aos condôminos e à administração do
condomínio.
Como fazer a coleta nas casas de refeições fora do lar?

Restaurantes, bares, pastelarias e lanchonetes são estabelecimentos que
utilizam grande quantidade de óleo, por isso podem se tornar postos de
recepção de seu próprio óleo residual.
– O recipiente deve ficar em lugar
seguro, coberto e fora da cozinha.
Como fazer a coleta em postos de recepção
pessoal?
– Os postos de recepção pessoal serão organizados em locais de
grande movimentação pública como supermercados.
– Nos postos de recepção
pessoal as próprias pessoas acondicionarão seus recipientes com óleo nos
contêineres de coleta.
– Os recipientes de coleta devem ficar em lugar
seguro, coberto e de fácil acesso. Se necessário, sua localização deve ser
sinalizada.
Para onde vai o óleo coletado?
– Os recipientes recolhidos nos
Postos de Recepção serão temporariamente armazenados por meio de parcerias
com outros estabelecimentos e Organizações Não-Governamentais.
– No Centro
de Armazenamento de óleo, onde será lavado para ser submetido a um processo
chamado “trans-esterificação”, e depois será misturado com catalisadores
apropriados para provocar a reação que separa a glicerina e depura o
biodiesel. A glicerina será utilizada como insumo para a fabricação de
diversos tipos de produtos.
– Projeto Coleta de Óleo Residual de Fritura
obedece às normas da Agência Nacional do Petróleo – ANP.
O que se ganha ao
participar do projeto?
Se ganha um país Ambientalmente Sustentável e
Socialmente Justo, gerando emprego, renda e conscientização para as
comunidades envolvidas no Projeto.

Passos do Projeto:

1 – Implantação
de uma micro usina para produção de biodiesel, usando como matéria prima o
óleo de fritura usado. População estimada em – 250.000 habitantes, ou seja,
60.000 famílias, com uma produção aproximada de 60.000 litros de óleo por
mês.

2 – Programa intitulado Heróis da Natureza, que é a parte
fundamental do item 1, trata-se de educação ambiental, realizado em 500 salas
de aula, para 15.000 alunos e que atingirão mais 75.000 familiares dos
estudantes.

3 – Área necessária para implantação da micro usina – 100
m2;

4 – elaborar o Plano de Manejo. Identificar a área contaminada e
oferecer alternativas para aproveitamento da área.

5 – Projeto Muro
Ecológico. Realizar visitas para identificação de parâmetros para
elaboração de projeto. Primeiros indicadores: comprimento – 40 metros,
largura – 4 metros, altura – 2 metros. Cobertura com espécies
ornamentais.

6 – Manutenção e manejo das praças públicas. Recuperação
das arvores com parasitas e
Recuperação ou substituição de alguns gramados
e outras atividades de paisagismos e arborização.

7 – Realizar
inventário da arborização urbana e quantificar novos plantios em
substituição das espécies contaminadas.

8 – Elaborar projeto de
arborização, plantio em áreas ociosas.

9 – Desenvolver projeto de
educação ambiental para toda a prefeitura.


Grupo de Trabalho –
Desenvolvimento Sustentável – GTDS.

Com todos os graves problemas que a
superpopulação dos grandes centros acarreta, ela continua aumentando. As
conseqüências já eram sentidas a conferencia de Estocolmo em 1972, há mais
de 28 anos, quando a conferencia das nações unidas para o meio ambiente,
reunida em 1992 no Rio de Janeiro, popularmente conhecida como ECO 92, definiram
o programa agenda 21, com uma pauta de decisões a serem tomadas para as
mudanças necessárias em busca do equilíbrio ambiental com justiça social e
melhoria econômica. O desenvolvimento do planeta no século 21 deve ter como
base as mudanças propostas com o compromisso assumido pelas nações em busca
de um mundo melhor para todos.

Essa mudança de postura sempre foi
considerada uma necessidade praticamente desde o inicio do século passado, mas
nunca foi obedecida e agora começa a ser vista como uma questão vital para a
sustentabilidade social e ambiental, muitos países, principalmente em
desenvolvimento.
O Brasil é o um exemplo da situação caótica, onde grande
parte da sua gente vive nas periferias das cidades que já abrigam cerca de
80,75% da população do país. O êxodo rural continua preocupando pelo
agravamento dos problemas resultantes dessa movimentação, piorando a qualidade
de vida e causando danos sociais e ambientais cada vez mais acentuados e
irreparáveis, exigindo medidas urgentes para reverter à situação de
degradação de todo sistema de vida principalmente do ser humano.


Definições com relação aos tipos de resíduos sólidos e agregar em um
grupo só, uma vez que já estão definidos por lei também. Trabalhamos o
programa Agenda 21 especificamente os capítulos: 16; 17; 18; 19; 20; 21; e 22
com relação de melhorias e adequação aos capítulos: 02; 03; 04; 05; 06; 07;
08; 11; e os 27; 28; 30; 32; 33; 36.

1 – Baterias e Pilhas.
2 –
Pneus.
3 – Lixo automobilístico. Está incluído também: bateria, pneus,
plásticos, óleo, vidros.
4 – Entulho e todos os seus componentes, incluindo
restos de madeira, restos de podas de árvores.
5 – Resíduos eletrônicos
– com****dores e seus componentes, televisores, celulares sem baterias.
6 –
Embalagens Tetra.
7 – Garrafas PET.
8 – Latas de aço e alumínio,
também as de bebidas.
9 – Vasilhame e embalagens de defensivos
agrícolas.
10 – Papel e papelão.
11 – Plásticos.
12 – Lixo
hospitalar
13 – Vidros.
14 – Alumínio.
15 – Eletrodomésticos –
fogão, máquina de lavar roupa ou pratos, liquidificador.
16 –
Geladeiras.
17 – E outros.

Não estamos fazendo nada de novo.
Mas
ajudando a escrever a história da transformação social, ambiental e
econômica das comunidades em termos de melhoria participativa dentro dos
conceitos de responsabilidades solidária; individual e coletiva.
Usando
também: Como parâmetros os princípios da futura norma de responsabilidade
social ISO 26000.

Impactos poluidores causados pelo óleo residual de fritura
descartado na natureza.

Palestras orientadoras.

Estamos aguardando as
indicações, principalmente de coordenadores.

Coordenador de
Sustentabilidade do IPNBE
Prof. Ubaldino Dantas: 9205-0772

José Oliveira
Ribas Fone: 11- 71927845
Grupo Metropolitano Paulista do Programa Agenda
21
http://grupometropolitanoagenda21.blogspot.com

http://omundoorganico.blogspot.com
Outras angústias da mata ciliar
Darci Bergmann 08/12/2009 20:06:50

Osvaldo,
Criativa a matéria "angústia da mata ciliar". Moro em São
Borja, Fronteira Oeste do RS, região produtora de arroz irrigado e agora com
zoneamento para o plantio da cana-de-açúcar. As duas culturas utilizam grande
quantidade de agrotóxicos no cultivo convencional. Há um herbicida comum às
duas culturas que está devastando a mata ciliar da região: trata-se do
Clomazone, aqui vendido com a formulação comercial GAMIT e GAMIT 360. O
produto é extremamente volátil e a sua dispersão no ambiente se dá por
dezenas de quilômetros a partir do ponto de aplicação. Árvores nativas como
a canafìstula (Pelthophorum dubium), angico (Parapiptadenia rigida), timbaúva
(Enterolobium contortisiiliquun)), entre outras, morrem às milhares.Através da
ong ASPAN_Associação São Borjense de Proteção ao Ambiente Natural foi
encaminhado expediente ao Ministério Público Federal, em Uruguaiana-RS,
solicitando providências sobre essem crime ambiental, agravado pela
irresponsabilidade no uso da aviação agrícola. Queremos a suspensão do
registro dos herbicidas à base de Clomazone. O MPF abriu procedimento sob
nº1.29.011.000007/2009-75 e é importante que mais pessoas e organizações se
manifestem sobre o tema. Atualmente o Rio Grande do Sul cultiva algo em torno de
1 milhão de hectares de arroz e está apto a implantar mais de 800 mil hectares
de cana-de-açúcar. A utilização de Clomazone será ampliada se nada for
feito e estaremos diante de um dos maiores impactos sobre o bioma pampa. Nem a
diversificação de culturas será possível. A seguir alguns fatos sobre o
citado herbicida:
GAMIT E 2,4-D SÃO OS MAIORES VILÕES
O Gamit é marca
comercial da FMC – Química do Brasil Ltda. e tem como princípio ativo o
Clomazone. Tem registro no MAPA - Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento, mas só pode ser usado com severas limitações de uso. Por
exemplo: é proibido o uso de Gamit a menos de OITOCENTOS metros de vegetação
ribeirinha, hortas, pomares e mananciais de água destinados ao consumo humano.
Alguns agrônomos negligenciam essa parte na expedição da receita e podem ser
enquadrados em crime ambiental, assim como as empresas e usuários. No site
AGROSIA, os produtos são apresentados pelo nome comercial ou técnico e ali
constam as limitações de uso. Três ministérios dão parecer sobre o produto:
MAPA sobre as culturas e limitações de uso, Ministério da Saúde e MMA-
Ministério do Meio Ambiente.

AS DERIVAS DE HERBICIDAS AMEAÇAM A
DIVERSIFICAÇÃO DE CULTURAS
O agrônomo Sérgio Malgarim investiu no cultivo
de viníferas finas e está preocupado com as derivas dos herbicidas e teme
prejuízos. Silberto L. Grützmacher já foi vítima das derivas aéreas e faz
campanhas para que haja o bom senso e apóia a proibição de alguns produtos. O
advogado Modesto Guimarães também já teve prejuízos com as derivas aéreas e
quer mais controle da aviação agrícola por parte das autoridades. Arlindo dos
Santos, no Rincão da Cria cuidou de um bosque por mais de trinta anos e agora
vê só os esqueletos das canafístulas, timbáuvas e outras árvores. Da mesma
forma Clemente Souza, do Rincão de São Bento, próximo à FEPAGRO, amarga a
perda das suas árvores – um mato inteiro está definhando. A ASPAN e a PATRAM
documentam dezenas de casos de impactos ambientais por deriva de herbicidas. A
ASPAN está encaminhando denúncia ao MP estadual e federal sobre a questão
para o cancelamento do registro do GAMIT no MAPA e para providências quanto à
venda e receituário irregular desse produto. Também quer a retirada de
painéis de publicidade de agrotóxicos. Um desses painéis refere-se ao
herbicida que está literalmente assassinando as nossas árvores – o GAMIT.
Consta no documento da ASPAN ao MP:
1- Determinem Vs. Excelências à
Prefeitura Municipal de São Borja a retirada do painel de propaganda de GAMIT,
às margens da Av. Presidente João Belchior Marques Goulart. Igualmente a
retirada de todos os painéis de publicidade naquela via, por crime ambiental
– poluição visual. É uma desfaçatez que uma via pública que homenageia um
ex-presidente da república, filho ilustre desta Terra, seja alvo de poluição
visual consentida pelo Município. É um desrespeito à história de um povo e
à memória de um ex-presidente que tinha consciência ambiental e ajudou a
preservar os campos e as formações vegetais nativas nas suas propriedades.
Agora em sua terra, uma avenida que lhe dá o nome ostenta descaradamente
publicidade de um dos agrotóxicos que destrói as nossas matas nativas e é
causa de fome de muitos dos seus filhos que vêem destruídos os seus cultivos
de subsistência.
GAMIT E 2,4-D SÃO OS MAIORES VILÕES
O Gamit é marca
comercial da FMC – Química do Brasil Ltda. e tem como princípio ativo o
Clomazone. Tem registro no MAPA - Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento, mas só pode ser usado com severas limitações de uso. Por
exemplo: é proibido o uso de Gamit a menos de OITOCENTOS metros de vegetação
ribeirinha, hortas, pomares e mananciais de água destinados ao consumo humano.
Alguns agrônomos negligenciam essa parte na expedição da receita e podem ser
enquadrados em crime ambiental, assim como as empresas e usuários. No site
AGROSIA, os produtos são apresentados pelo nome comercial ou técnico e ali
constam as limitações de uso. Três ministérios dão parecer sobre o produto:
MAPA sobre as culturas e limitações de uso, Ministério da Saúde e MMA-
Ministério do Meio Ambiente. A FMC-Química do Brasil Ltda. não tinha registro
dos herbicidas na FEPAM/RS. Um lote de Gamit foi apreendido pela PATRAM de São
Borja e a ASPAN se manifestou sobre o assunto, como exposto a seguir:

Ao
Pelotão Ambiental
Nesta Cidade

Prezados Senhores,

ASPAN - Associação
São Borjense de Proteção ao Ambiente Natural comunica a Vs.Ss. que recebeu
ofício da FMC Química do Brasil Ltda., datado de 22/07/2009, informando que
encaminhou solicitação de registro dos produtos Gamit e Gamit 360 CS, junto
à FEPAM.
A origem da questão é o fato de que a ASPAN encaminhou
representação ao Ministério Público Federal, em Uruguaiana, solicitando
providências com relação aos problemas ambientais causados pelos herbicidas
de princípio ativo Clomazone, aqui comercializados com o nome de Gamit e Gamit
360CS, da FMC. O MPF instaurou o procedimento 1.29.011.000007/2009-75.
Os
fatos apresentados pela ASPAN repercutiram em outros órgãos ligados à
questão, caso da SEMA/RS e da FEPAM. Esta última informou à ASPAN que os
herbicidas Gamit e Gamit 360 CS não tinham registro para comercialização e
uso no Estado. No entanto as distribuidoras e revendedoras da FMC Química do
Brasil vendiam e aplicavam livremente tais herbicidas, configurando crime
ambiental. Os prejuízos à biota são evidentes e a saúde pública pode ter
sido afetada, eis que vários aspectos da ação do Clomazone não são ainda
bem conhecidos.
No ofício da FMC, consta que houve uma primeira solicitação
de registro junto à FEPAM em 31/05/1999. Novas solicitações de cadastro
teriam sido feitas em 14 e 17 de Julho de 2009, portanto posterior à
fiscalização da PATRAM, na empresa CIAGRO Comércio e Representações de
Insumos Agrícolas Ltda., quando foram apreendidas 3.200 litros de
Gamit.
Cumpre esclarecer que a solicitação de cadastro não significa
liberação do produto por parte do órgão ambiental. O produto Gamit foi
apreendido em momento que não tinha autorização para comércio e uso no
Estado, conforme informação da própria FEPAM. Daí entender a ASPAN que a
mercadoria apreendida não pode ser liberada.
No que se refere aos aspectos
ambientais e de saúde pública, a ASPAN, em data de 27 de Julho de 2009,
recebeu visita de representantes da FMC Química do Brasil, sendo dois
funcionários da empresa aqui no Estado e duas senhoras da cidade de
Campinas-SP. A empresa argumenta que os problemas decorrentes do uso de Gamit
devem-se ao manuseio incorreto do produto e que não havia restrição de uso em
outros países, nem tampouco registro de ocorrência de efeitos maléficos à
saúde pública. Também argumentaram que não se constatou mortandade de
árvores e que os sintomas de branqueamento em vegetais seriam temporários.
Alegam também que outros produtos podem estar afetando a biota.
Muitas
alegações da empresa são insustentáveis, eis que a realidade fática é
outra. A ASPAN visitou dezenas de propriedades rurais, em vários municípios.
Os cinamomos são amostragem dos fatos. São sensíveis ao Clomazone, assim como
a canafístula, o angico, a timbaúva, o açoita-cavalo e outras espécies
arbóreas. Mudas de jaboticaba e grumixama em viveiro, atingidas por Gamit, dois
anos após ainda apresentam sintomas. Os brotos surgem com branqueamento,
tornam-se amarelados e as folhas depois morrem. As mudas, sem fotossíntese,
porque foi destruído o pigmento clorofila, são condenadas à morte, mesmo
tardiamente. O Clomazone uma vez dentro da planta, desloca-se para os tecidos
meristemáticos, aqueles das brotações. Uma árvore adulta submetida a
sub-doses de Clomazone, como aquelas oriundas das derivas de aplicações em
lavouras, pode morrer em alguns anos, pois o produto fica ativo por muito tempo
dentro da planta. Há suspeitas de que o metabólito do Clomazone, que tem um
radical fenila ligado a cloro, mantenha o poder de destruição da clorofila.

Vários questionamentos da ASPAN não foram respondidos pelos representantes
da FMC, que preferiram sempre argumentar que os problemas decorrentes do Gamit
estavam associados a mau uso.
No entanto se uma embalagem do Gamit for aberta e
imediatamente fechada é possível que em alguns dias as plantas do entorno já
apresentem sintomas de clorose esbranquiçada. Aí vão dizer que há
deficiência nutricional.
Quanto às limitações de uso do Gamit, a empresa
alega que o problema é dos distribuidores e revendedores que tem técnicos para
sua recomendação. O Gamit não pode ser aplicado, via aérea, a menos de 800 m
de mananciais de água destinados ao abastecimento público. Assim, qualquer
riacho afluente de rios como o Icamaquã, Butuí, Ibicuí, entre outros e que
são tributários do Rio Uruguai que abastece a população de várias cidades
deve ficar livre de aplicações aéreas com Gamit. Quem respeita isso na
prática?
Outra limitação de uso, esta para via terrestre ou aérea, é com
relação a hortas, pomares, arvoredos e vegetação ciliar de rios e
reservatórios de água. Não pode ser aplicado o Gamit a menos de 800 m dessas
formações vegetais. É só verificar nos arquivos dos receituários
agronômicos que tais restrições de uso não são mencionados. Nem as empresas
de prestação de serviços aero-agrícolas respeitam tais restrições de uso.
Portanto um produto com tais características não poderia receber registro nem
da ANVISA, do MAPA ou da FEPAM. No Município de São Borja, a ASPAN não
encontrou uma única lavoura em que o GAMIT poderia ser aplicado. Talvez esta
seja a realidade de todo o Estado.
Os representantes da FMC argumentaram que o
Clomazone é um produto seguro em termos de saúde pública. Mas informados de
que já haviam estudos que mostravam uma tendência de o produto se acumular no
fígado e outras vísceras, alegaram desconhecer tais fatos. Também não
explicaram o que ocorre com o metabólito do Clomazone, suspeito de agir como um
pesticida do tipo organo-clorado, já banido por sua grande persistência no
ambiente.
Do exposto, espera a ASPAN que as autoridades não liberem os
produtos Gamit e Gamit 360CS apreendidos por não terem registro junto à FEPAM.

Igualmente que continuem as gestões do MPF e MP para que todos os produtos de
princípio ativo Clomazone tenham seus registros suspensos a nível de Brasil e
do Estado do Rio Grande do Sul, pois há muita informação desencontrada por
parte das empresas formuladoras e talvez omissão de dados sobre a real
característica desse produto químico. O interesse do meio ambiente e da saúde
pública deve estar acima dos interesses pecuniários de quem quer que seja.

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