Economia versus preservação PDF Imprimir E-mail
Danilo Pretti Di Giorgi*   
03/06/2009, 10:59

Exemplos não faltam, mas o mais chocante vem de Santa Catarina, onde, ironicamente, o desrespeito às leis ambientais foi um dos maiores responsáveis pela tragédia das enchentes no ano passado. A Assembléia Legislativa catarinense aprovou em março um código estadual do meio ambiente que, entre outras coisas, reduz de 30 para cinco metros a área de proteção obrigatória das matas ciliares (vegetação que protege as margens dos rios, com função similar à de sobrancelhas e cílios para os nossos olhos). O tal código estabelece também que toda terra já cultivada no estado seja considerada "área consolidada", o que garante a continuidade de produção mesmo onde ela ocorre ilegalmente em regiões de preservação.
 
Curto e grosso assim, um exemplo seco de total desprezo pelas mínimas necessidades da vida selvagem em nome de uma aparentemente incontrolável necessidade de expansão da área cultivada. Um detalhe: o código é francamente inconstitucional, pois a legislação estadual não pode ser mais permissiva que a federal equivalente.
 
Em Brasília, estão tentando reduzir as reservas legais, as áreas que devem ser preservadas nas propriedades rurais (sendo que as porcentagens variam de uma região para outra do país) e há iniciativas para revogar decretos de proteção de dez milhões de hectares em unidades de conservação federais (uma área que corresponde a mais de duas vezes o estado do Rio de Janeiro).
 
A ofensiva, liderada por políticos da bancada ruralista, tenta também anular os efeitos de recentes iniciativas governamentais para frear o desmatamento, como o Plano de Combate ao Desmatamento da Amazônia, que corta o crédito rural de fazendeiros que desmataram ilegalmente, e o decreto 6.514, que prevê sanções administrativas pelo descumprimento do Código Florestal.
 
Enquanto isso, nove reservas em diferentes pontos do país estão emperradas na Casa Civil esperando autorização, pois o Ministério das Minas e Energia tem interesse nas áreas. Já o Ministério do Meio Ambiente recebeu apenas mil dos três mil novos fiscais que pediu para lutar contra o desmatamento na Amazônia. E a intenção de criar a Guarda Florestal Nacional ficou só na intenção. A lista de ataques não pára por aí, e seria cansativo para o leitor se eu tentasse esgotá-la neste espaço.
 
Enquanto tudo isso acontece, assistimos, perplexos, ao ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, elogiar o exemplo catarinense e brincar de vidente ao "prever leis ambientais mais flexíveis no país". Stephanes também tem defendido crimes como a liberação da agricultura em topo de morros e encostas e quer que a compensação de áreas desmatadas ilegalmente possa ser realizada com reflorestamento em locais distantes, até mesmo em outros estados (algo tão absurdo quanto propor que você resolva o problema causado pelo buraco no telhado da sua casa consertando o telhado da casa do seu vizinho). O ministro podia perguntar aos catarinenses que tiveram parentes mortos e casas destruídas pelas enchentes o que acham das suas idéias.
 
Stephanes está na linha de frente da ofensiva, fazendo ameaças, como a previsão de que, caso não sofra modificações profundas, o Código Florestal inviabilizará "quatro milhões de hectares produtivos, quinze milhões de toneladas de produtos, além de provocar o desaparecimento de milhares de agricultores, propriedades e até de pequenos municípios".
 
Essa fala do nobre ministro esclarece, portanto, o que a maior parte dos ambientalistas prefere fingir que não vê: ao contrário do que ouvimos muito por aí, meio ambiente e crescimento econômico se chocam, sim, e não são naturalmente compatíveis. É preciso tirar de um para dar ao outro. E é preciso coragem para encarar um debate sobre esse fato, para que se possa questionar o paradigma da premência do crescimento econômico sem fim.
 
Quando a discussão acerca da questão ambiental se acentua, os defensores da teoria furada do crescimento eterno usam em sua defesa os argumentos da ameaça ao crescimento econômico, aos empregos, à saúde da economia. É neste ponto que os ambientalistas costumam recuar, afirmando ser possível aliar crescimento econômico e preservação, discurso sempre presente na mídia de massa e nos bolsos dos coletes do ministro Minc.
 
É claro que poderíamos adiar este embate se a elite brasileira não fosse tão pré-histórica em suas práticas nem tão cega para qualquer coisa que não signifique o lucro imediato, com o menor esforço possível e a qualquer preço. Se empresários e ruralistas aceitassem a possibilidade de uma margem de lucro um pouco menor, o choque entre preservação e crescimento da economia poderia ser empurrado para frente, para daqui a dez ou quinze anos, caso houvesse, por exemplo, real interesse na recuperação dos tais 60 milhões de hectares em áreas degradadas, ao invés de desmatar novas áreas. Ou se aplicássemos técnicas para melhor aproveitamento das áreas produtivas. Ou ainda se buscássemos seriamente alternativas para aproveitamento econômico da floresta com atividades verdadeiramente sustentáveis. Ou se pensássemos na agricultura em termos mais amplos, com olhos voltados para todos os tamanhos de propriedades e para a diversificação e não só nas grandes propriedades monocultoras. Ou talvez se enxergássemos a função social da propriedade, tal qual manda a Constituição.
 
Mas nada disso é mais rentável que simplesmente derrubar mata virgem e tocar fogo, e esse fato singelo faz a conversa terminar por aí quando falamos de capitalismo brasileiro. Mesmo na hipótese da aplicação de opções como as descritas acima, depois de certo tempo o embate entre crescimento econômico e preservação voltará à tona. Não há como fugir disso. Enquanto não tivermos coragem de enfrentar seriamente essa verdade continuaremos a ser presas fáceis daqueles que se aproveitam das brechas nas nossas argumentações para enriquecerem às custas da natureza.
 
Não é possível que toda vez que alguém fale em "ameaça ao crescimento econômico" os ambientalistas corram para apagar o fogo e tentar apaziguar, apegando-se ao discurso oficial, amparado em grande parte pela sede das grandes ONGs ambientalistas por patrocínios polpudos. É preciso, ao invés disso, que cada um mostre realmente de que lado está, comprando a briga e aprofundando este debate, sem medo de suas conseqüências.
 
* Colunista convidado, Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista formado pela PUC/SP, trabalha na Secretaria de Imprensa do Sindicato dos Bancários de São Paulo, como repórter da Folha Bancária e participa como voluntário de projetos socioambientais.
Comentários
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Ação Popular
Luiz 04/06/2009 09:38:58

Segundo a Constituição do Brasil de 1988, no inciso LXXIII do
art.5º:

"Qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular
que vise anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o
Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao
patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé,
isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência."

Proponho a cada
leitor iniciar ação popular contra os senadores Kátia Abreu e Tasso
Jereissati por ameaça de morte ao Ministro de Meio Ambiente, senhor Carlos
Minc, nos pronunciamentos que ambos fizeram no plenário do Senado Federal em
02/06/2009, ferindo toda a liturgia do cargo e incorrendo em crime contra a
moralidade administrativa (http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=11669).


Modelos de ações populares podem ser obtidos nos sites:
http://www.boletimjuridico.com.br/peticao/modelo.a sp?id=103,
http://www.jurisway.org.br/v2/modelos1.asp?idmodel o=5250 e
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/12/3 69251.shtml - entre muitos
outros.
sem desenvolvimento, sem justiça social
Domitila Madureira 04/06/2009 15:09:48

Seu simplismo reducionista mostra uma pessoa pouco afeita aos estudos
socio-ambientais. Sem desenvolvimento não há justiça social. Equilibrar os
termos dessa delicada equação é um problema que prescinde da ação de
militantes políticos com visões pré-determinadas a favor de todo
empreendedor.
"sem esenvolvimento" onde????
Helio Neto 04/06/2009 19:33:27

Estou estupefato com o comentário anterior! Por favor, onde é que aparece
citação a "desenvolvimento" no texto?! Nenhuma! Ninguém está
criticando o desenvolvimento! O que o texto trata é de "crescimento", e
mais especificamente da falácia do "crescimento" eterno e
infinito.

Confundir "desenvolvimento" com "crescimento"
chegaria a ser cômico, se não fosse algo absolutamente imperdoável.
Nosso buraco social é muito maior do que o do ozon
Rakel 05/06/2009 07:10:35

Pois, sim, no nosso caso, Brasil, é impossivel falar de preservaçao sem falar
de desigualdade social. A gente recicla muito nao pq é ecologicamente correto,
mas pq é fonte de renda para muitas familias. Muita gente vive em casa de terra
nao pq é sustentavel, mas pq nao tem outra opçao para viver. Quando essas
questao de sustentabilidade pasa de ser só consciencia para ser forma de
sobrevivencia, nao por opçao mas por exclusao de um sistema, a realidade se
mostra muito dura. A nossa desigualdade social é muito grande, e continua
apoiada por politicas da era do colonialismo - os grandes señores de engeño.
Enqto esse pensamento nao mudar, nao adianta melhorar a aparencia da ponta o
iceberg, qq. proposta de boa intençao acaba por transformar nossa realidade
ainda mais em catrastofe. Cabe a gente fazer pressao social nas politicas
publicas sim, e incentivar a populaçao um desenvolvimento de uma maior
conciencia critica, anulada por todos estes anos, e verdadeira atuaçao
democratica, no pais do salve se quem puder...
Incoerência?
Cristiane Barreto 05/06/2009 08:33:45

Acho que o texto e a maioria dos comentários estão na contra-mão de tudo o
que se propõe hoje em dia. Óbvio que são necessárias mudanças no paradigma
do crescimento econômico. Devemos até nos questionar até onde o crescimento
é necessário, em quais contextos (vejam Georgescu-Roegen e Serge Latouche).
Porém, não nos resta alternativa de confrontar o elemento do crescimento com a
proteção à natureza... sem dualismos, simplismos... Problemas sistêmicos,
soluções complexas... Ninguém disse que é fácil, ninguém está fugindo do
debate, aliás, "nunca antes na história deste país" tanto se
confronta esses temas no cenário político.
Estranho é que os fatos
argumentados e discorridos ao longo do artigo não corroboram com a tese
apresentada no título... pelo contrário... o autor diz que poderíamos buscar
as alternativas, porém seria mais rentável e parcimonioso simplificar as
coisas...
Ora... mas admitir uma incompatibilidade entre crescimento e
conservação não seria uma simplificação ao extremo? Porque não
continuarmos nossos debates na política e na academia, em busca de soluções,
alternativas, e até mesmo, questionamentos sobre o quanto realmente precisamos
ou devemos "crescer"?
Ainda hoje foi publicado no Globo:
http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2009/06/05/pre
cisamos-quebrar-paradigmas-na-questao-do-meio-ambi ente-756210116.asp
Vejam
quem está na contramão...
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