Patrocínio
Apoio
Outras colunas
O alegado roubo de ovos de tartaruga na Costa Rica
Sem direitos, sem REDD; ou, sem REDD, menos direitos?
A importância do inventário de emissões
Enterrem minha consciência bem longe deste rio
Especial
Parceiros
| Lave com água leve |
|
|
|
| Carlos Secchin* | |
| 07/08/2007, 15:49 | |
O Distrito Federal está caminhando para se tornar um bom pólo de atração ao turismo internacional, o que ganha novo fôlego com a inauguração do vôo direto Lisboa – Brasília. Nossas autoridades, instituições e empresas ligadas ao turismo precisam estar atentas às novas perspectivas que se abrem e privilegiar, rapidamente, ações que seduzam o turista a permanecer por aqui mais tempo.
De minha parte, disponho de material fotográfico acumulado durante os dois últimos anos; todo ele sobre a transformação semanal da vegetação do Cerrado de nossa região, fruto de longas caminhadas pelo Parque Nacional de Brasília e arredores do marco histórico da Pedra Fundamental – um monumento edificado com o propósito de mostrar aos brasileiros o local escolhido para a construção da futura capital do Brasil. Aliás, pelo visto, ou erraram de lugar ou a vaidade de um presidente não concordou com a escolha: atualmente, a Praça dos Três Poderes fica a 40 km de distância do marco... Quem sabe podemos organizar uma exposição fotográfica ou, até mesmo, montar sobre a esteira de retirada da bagagem, nos dois setores do Aeroporto Internacional JK, belas imagens de Brasília e do Cerrado? Se há um espaço no mundo de onde ninguém tira os olhos, é o da passagem das bagagens. Enquanto esperasse, olhando a esteira vazia, o passageiro se distrairia com a seqüência das imagens. Uma boa idéia que vi na Embrapa de Planaltina foi um calendário da florada das árvores mais conhecidas do Cerrado, impresso num único cartaz. É possível fazer uma versão só com as diferentes árvores que enfeitam a cidade de Brasília; na chegada e na saída, os visitantes fixariam na memória afetiva uma lembrança colorida e ambiental da capital reconhecida como a mais arborizada e florida do país. Pode-se criar também um roteiro de banhos, ainda inexistente, mas que tem tudo para ser uma atração indiscutível. Com a escassez da água despoluída, outrora abundante no planeta, em breve as pessoas vão perceber o quanto pode ser valiosa a experiência de banhar-se no frescor cristalino das quedas d’água e cachoeiras do centro-oeste. Para o brasileiro médio, é um programa médio; mas para um camarada que vive nas regiões frias ou semi-áridas, tem muita graça e apelo. A baixa umidade relativa do ar, durante o inverno ameno do Planalto, produz rachaduras na pele, irritação nos olhos e a necessidade permanente de ingestão de líquidos. O ressecamento da pele pode ser tratado com os banhos naturais, cuja água já está classificada como uma das mais recomendadas para este fim. É, na sua maioria, água de baixo teor mineral, levemente ácida e proveniente das fontes espontâneas do Cerrado. Para se ter uma idéia, quando saímos do banho sentimos, literalmente na pele, seus efeitos: pele e pelos ficam lisos e macios, e o cabelo sedoso. As águas superficiais (as surgências) têm propriedades recomendadas ao consumo de todas as faixas etárias e estão bem distribuídas pelos diferentes tipos de ambientes do Cerrado. Prova disso é a grande quantidade de indústrias de engarrafamento de água que funcionam em Goiás e no Distrito Federal. É, seguramente, uma água de excelente qualidade, que não apresenta qualquer elemento prejudicial à saúde; e quando o consumo de água decresce no país, nos meses de outono e de inverno, no Planalto ele cresce. No inverno a umidade relativa do ar cai – é o período de longas estiagens. O subsolo, prodigiosamente, devolve à superfície dos campos a água que seus aqüíferos repletos não suportam mais reter. Eles transbordam. É uma particularidade geológica regional, integrada ao amplo ciclo hidrológico do planeta. Os depósitos ficam tão carregados e saturados que as chuvas meteóricas não têm tempo nem espaço para penetrar nas camadas profundas do solo; são impelidas a voltar para a superfície. Isso explica, em parte, as razões da pureza e da qualidade de suas características físicas, químicas e biológicas, como também a quase total ausência de elementos minerais. Já as águas que atingem profundidades maiores encontram, dentro das fissuras das rochas, redução de velocidade e lá ficam confinadas por bastante tempo, até que suas moléculas emerjam lentamente de volta à superfície, devido à capilaridade do solo permeável. Ou são retiradas artificialmente, através de bombas hidráulicas instaladas dentro de poços perfurados sobre diferentes camadas de solos, em variadas profundidades. Mesmo que estejam em contato com tipos de rochas de avançadíssima idade geológica, pertencentes ao Período Terciário, permanecem puras durante todo o tempo e trajeto para baixo e depois aflorando acima. Algumas voltam aquecidas (termais), como as águas de Caldas Novas, em Goiás; outras frias, pouco radioativas; ou carbogasosas, bicarbonadas ou fluoretadas; outras ainda ferruginosas, brometadas ou litinadas. A maioria potável e palatável; todas com ótimo conceito numa mesa de exigentes sommeliers.
Dependendo da composição mineral e idade da rocha para onde as águas se infiltram, do espaço que ocupam, da pressão e da densidade do solo, da profundidade e da temperatura, elas podem também se tornar leves, inodoras, puras e palatáveis ou, ainda, duras, alcalinas, pesadas e com odor – o oposto àquele antigo jargão: água mole em pedra dura, tanto bate...até que fica dura e mole a pedra... – uma gestação que pode levar eras dissolvendo e separando elementos das rochas e tornando as águas ricas em minerais. Mas nem sempre as que passam por este processo natural tornam-se ideais para o consumo humano. Pode haver lixo, matéria orgânica, resíduos tóxicos e alta concentração de metais prejudiciais à saúde em seu caminho de descida. Posso apenas garantir o seguinte: depois de uma caminhada de alguns quilômetros através de terreno geralmente sem maiores obstáculos, plano e firme, beirando o sombreado da vegetação mais densa que acompanha os riachos; após observar os afloramentos rochosos, a gramínea baixa e nativa com os pepalantos, com a variada avifauna e a espetacular profusão de cores das flores que eclodem no final do inverno, exalando perfume doce como o do assa-peixe e da pimenta de macaco, o melhor ainda está por vir – a sensação de soltar a mochila do ombro, sentar sobre uma pedra, tirar a bota, libertar os pés da meia grossa e deixar que a pressão da água fria e corrente alivie o calor e o peso das costas. Neste exato momento, tudo isso acima fica ainda mais intenso, colorido e lava a alma! Ao longo de uma vereda, onde muitos animais transitam para diferentes tipos de ambientes do Cerrado, sinto um prazer musical ao ouvir o som das palhas das palmeiras de invejável altura e de carregados cachos de rígidos cocos – os buritis. Como geralmente há oferta de água e de alimento proveniente de diferentes árvores, pode ser interessante, para quem gosta de quietude e silêncio, esperar pela chegada das garças, papagaios, araras e curicacas. No regresso da caminhada, fogão à lenha, sombra e balanço de rede, com direito à edição das imagens registradas pela máquina digital. Longe das luzes da capital, um banho quente à noite, com a cobertura de um céu estrelado e a temperatura do ar beirando os 16°C, nos limpa a alma e faz com que, ali perto, um mar de lama nos pareça pequeno e sem importância. Carlos Secchin é fotógrafo e mergulhador. Suas imagens publicadas lá fora, em revistas estrangeiras, ajudam a limpar a imagem do Brasil. Visite: www.carlossecchin.com.br.
|











