O que falta num aeroporto, sobra num porto. Se for um de pesca, então, as horas arrastadas da espera podem se transformar na parte mais divertida das pescarias.
É o lugar ideal para um pescador sem barco se abastecer de lastros de luz e litros de letras. Ou seja, de frases soltas ao vento que batem na linha dos blocos de anotação dos que tentam a sorte nas muradas de um cais.
Numa ilha, nem tudo acontece do jeito que a gente planeja. Quem sai para o mar num barco fretado, sabe que é grande a chance de ficar ancorado no cais. Especialmente, quando o mestre da embarcação é patrão, dono e chegado a uma pinga.
Geralmente, o horário de saída é descumprido e as justificativas apresentadas são mais esfarrapadas do que camisa de jangadeiro. Um dia, ocorreu-me perguntar a um local se era comum essa falta de senso de compromisso. Ele me respondeu: - aqui na ilha, os camaradas marcam com certeza e faltam aos compromissos com segurança. Diante da revelação, só havia um jeito - me deixar levar pelo ritmo das marés ou “vazar” dali, em busca de outra embarcação, e considerar o risco de cair na mesma rede duas vezes, transformando a espera, sob o sol, num angustiante e desesperador suplício.
Melhor é ficar no cais, atento às frases das conversas dos que passam longas horas em grandes silêncios no mar. Frases decorrentes de diálogos imaginários, que, aqui em terra, enriquecem o encontro dos que matam a sede num bar.Juntei um monte delas, uma “fieira”, nessa minha volta sem partida.
O homi tava tão brabo com a mulher, que parecia um siri na lata.
Esse negócio é tão bom, tão bom, qui é melhó que remédio de rato. (alusão à eficiência do veneno).
Pescador de caniço em cima de pedra lisa coberta de limo sabe que o mar não tem cabelo de ordem da gente pudê se segurar.
Quando um camarada chega da pesca com fome, diz: vou encher o meu porão ali.
Quando um camarada no cais quer desembarcar, diz: vou arribar.
Quando um camarada é agourento, se diz que ele é um leste, (referência ao pior vento fresco que bate na ilha).
Quando um camarada está certo de entrar num bar e poder encontrar boa companhia e bebida, diz: vou apoitar aqui.
Quando um camarada quer conquistar uma mulher bonita, diz: vou passar o meu bicheiro aqui (referência ao instrumento de pesca que ajuda a embarcar um peixe ou a fisgar um polvo debaixo d’água).
Quando um camarada vê uma mulher bonita, diz: ela é uma albacora de laje, (referência a um peixe da família do atum, bem roliço).
Quando um camarada quer cercar uma mulher de seu interesse diz: vou passar a volta (referência à laçada na bóia de amarração).
Fulano já apareceu? Boiou ainda não. Ou seja: ainda não apareceu.
Um camarada quando quer conquistar uma mulher difícil e arredia, diz: tenho que jogar nela a minha garatéia reforçada.(três anzóis grandes e pesados, atados em triangulação).
Quando está atento a uma situação tensa, diz: estou tratando o peixe de olho no gato.
Quando estiver só no mar, se agarra ao que você puder. Se pega a um grande amor e nade em direção dele.
Casco de tartaruga boiada, sargaço e passarinho voando sobre, pode jogar a linha na água – é marca de cabeço, laje, empedrado, arrecife, navio afundado ou mero gordo, torador de linha.
Já vi muito marinheiro bom derrubado de enjôo. Quem diz que nunca mariou no mar foi porque vomitou os miolos.
Homi, seu menino! O peixe era tão grande que não coube na fotografia!
Em um porto aberto não tem guichê, apresentação de documento, pesagem de bagagem e nem despacho. Não tem revista do segurança de terno apertado, máquina apitando e nem porta de personal only.
Da mureta do cais, você grita e fala com o responsável pela demora; no aeroporto, até a escada de embarque, há um longo pátio que lembra o de um presídio, numa fila de passageiros com expressões de condenações por penas variadas.
A brisa do mar com cheiro de peixe, de sal e óleo do cais é tudo, menos um ambiente fechado, insuflado por ar condicionado, com cheiro de produto de limpeza, café, cigarro e querosene de aviação.
Um porto é tudo o que foi, um dia, um aeroporto. Há conversa com mecânicos, marceneiros, eletricistas, bombeiros, estivadores, pescadores, fiscais, companheiros de infortúnio, mestres, proprietários e frases no ar.
Mil barcos quebrados a um único avião atrasado.
*Carlos Secchin é fotógrafo, mergulhador, autor de livros sobre parques e reservas marinhas do Brasil. Com 40 anos de mar, apesar de tudo, ainda navega em embarcação fretada.
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