Sempre uma nova opinião.
Finalmente conheci, depois de 28 anos de viagens, algo útil feito em benefício do sofrido solo e da reduzida avifauna terrestre do Arquipélago de Fernando de Noronha. Há dez anos, um padre deixou o local onde morava: a mais distante habitação erguida na parte barlavento da grande ilha. Isolado, viveu com uma pequena criação e pomar. 

Na topografia insular, predominantemente ondulada e escarpada, a característica mais valiosa é a área ser plana. Pouco antes da Segunda Grande Guerra, ela fez parte de um campo de pouso para aviões pequenos. Durante o conflito, foi erguida no local, pelos norte-americanos, uma sólida construção militar capaz de resistir ao tempo e ao impacto de balas e explosivos. O prédio funcionou como uma estação de escuta e de transmissão para as Forças Aliadas que cruzaram o sul do Atlântico Ocidental.

Recentemente, com a troca do forro do teto e das esquadrias das janelas, tornou-se habitável. Uma construção militar de época que, sem perder o estilo arquitetônico, foi parcialmente restaurada e transformada em alojamento para pesquisadores e residência permanente do zeloso funcionário do TAMAR – IBAMA, o faz - tudo Didi. O padre foi embora da ilha e passou a posse do imóvel e do terreno para o Projeto TAMAR.

A utilidade do prédio estruturado e a vantagem de sua localização melhoraram o apoio para a maior área de desova de tartarugas marinhas do arquipélago (Chelonia mydas) e, conseqüentemente, sua observação e seu estudo na Praia do Leão.

Do prédio até a praia percorre-se uma trilha de 400 metros. De um mirante sobre um penhasco tem-se a panorâmica vista da praia dos quelônios, poças de maré e as ilhas do Leão e da Viuvinha. Esse magnífico anfiteatro fica no extremo Oeste da ilha, voltado para o lado do vento, onde catraias (Fregata magnificiens) planam e param no ar, sobre nossas cabeças.

O sítio onde o padre viveu permanece abençoado por seculares figueiras e gameleiras, dando-nos a medida da força com que a terra da ilha trata suas plantas. Tudo parece estar fora de escala. A presença do guano acumulado na terra, eficiente adubo natural, confirma o habitat das variadas espécies de aves marinhas do arquipélago. Muitos mamoeiros e cajueiros crescidos, carregados de frutos, são testemunho da resposta surpreendente da planta à fertilidade do solo. Do lado da cerca que separa o terreno, uma linha de árvores plantadas de tronco liso está florida: o mulungu-de-noronha. No mês de novembro, quando as flores alaranjadas abrem sobre a ponta dos ramos, sementes vermelho - laca caem, ajudadas pelos sebitos (passeriformes endêmicos da ilha), para que as arribaçãs ou pombas-avoantes se aproveitem, ciscando-as à sombra.

É o tempo da florada das quatro mais belas árvores locais: o ipê, o mulungu, a castanhola e o pau - d’arco. Todas, no auge da seca, deixam a ilha com o aspecto menos árido.Morador, zelador, marceneiro, jardineiro e funcionário do TAMAR, Seu Didi é responsável pelo viveiro do local. Até onde eu sei, o único viveiro da ilha que cuida das mudas nativas que estão sendo preparadas para restabelecer o sombreamento e minimizar a perda de umidade do solo.

O viveiro, bem completo, foi doado ao Projeto TAMAR por uma grife de surf wear. Vi sobre as bandejas suspensas, mudas encaixadas nos tubetes de PVC, várias espécies de plantas viçosas, embora com poucas semanas de vida. A terra local e a mão cuidadosa, apesar do clima árido, com certeza vão ajudar a restabelecer a cobertura vegetal natural de Fernando de Noronha.

Próximo a maior figueira, Didi mantém sua oficina. Foi dali que ele me ajudou a montar a exposição fotográfica comemorativa aos dez anos da construção do auditório do Centro de Visitantes da ilha, no último dia 19/11.

Novembro, aliás, é o mês em que a maioria das árvores de Noronha produz sementes. Didi, ajudado pelo cunhado, sai à cata das mais imponentes fornecedoras. Algumas são conhecidas na ilha por sua beleza e localização. Destacam-se na paisagem, como o do pé de castanhola, que fica ao lado da entrada do Bar do Cachorro, sobre o penhasco da praia do mesmo nome. 

Não resisti às mudas de ipê. Mas Didi me convenceu do transtorno de se transportar mudas para o continente. Ele me presenteou com um saco de variadas sementes que serão plantadas no meu canto de terra destinado às espécies raras e de grande valor sentimental. Levo, na bagagem comigo, um bosque inteiro de Fernando de Noronha.

* Carlos Secchin é colaborador do TAMAR e doou para o Projeto 36 ampliações de suas fotografias, para que o resultado das vendas seja revertido em benefício das tartarugas marinhas do Atol das Rocas e de Fernando de Noronha.
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