Atualmente os animais marinhos sofrem de distúrbios alimentares em parte análogos aos vividos por seres humanos. Da mesma forma em que as pessoas cada vez mais se alimentam de fastfood, os animais marinhos cada vez mais se alimentam de plásticos. Existem de fato semelhanças entre esses fenômenos: assim como há uma lanchonete em cada esquina de nossas cidades, há plásticos sobre a crista de cada onda do mar. Parece que tanto os plásticos quanto o fastfood se tornaram tão acessíveis que fica difícil recusar! Embora isso pareça apenas uma curiosidade em um país que ainda cuida pouco do seu mar, as implicações da poluição marinha por plásticos são cada vez mais preocupantes.
O lixo marinho flutuante pode ser visto em todos os oceanos, inclusive em áreas sem presença humana, como no mar que circunda a Antártica. Pesquisadores da Fundação Algalita (ONG norte-americana) provaram que a massa de plástico é superior à massa de organismos marinhos em determinadas áreas. E não estamos falando na Baia de Guanabara, para onde não existem dados disponíveis, mas sim do centro do Oceano Pacifico, o maior oceano do Planeta! Grande parte desse plástico vem dos rios que drenam cidades costeiras. Uma vez nos oceanos, os ventos e as correntes marinhas se encarregam de acumular o lixo em áreas específicas.
Os plásticos podem matar os animais marinhos através de dois mecanismos principais: ingestão e aprisionamento. Tartarugas e aves são os animais que mais tentam se alimentar de plásticos, embora golfinhos, peixes, e até crustáceos microscópicos já tenham sido observados com plásticos em seus estômagos. Tartarugas parecem preferir sacolas plásticas que são confundidas com águas-vivas, um de seus principais alimentos. Já as aves são mais atraídas por esférulas plásticas, pequenos grânulos ovais usados como matéria-prima para a fabricação de utensílios plásticos. Depois de submetidas a processos industriais, as esférulas plásticas são transformadas em copos, garrafas, sacolas e toda uma gama de produtos dos quais temos uma estreita relação de dependência. Estas esférulas são tão parecidas com certos tecidos biológicos que, na década de 70, os cientistas que descreveram sua presença nos oceanos pensaram inicialmente se tratar de ovos de peixe.
O lixo é hoje tão comum nos oceanos que quase 100% dos indivíduos de certas espécies de albatrozes (grandes aves que vivem a maior parte do tempo no mar aberto) possuem plásticos em seus estômagos. As quantidades podem ser pequenas ou chegar a centenas de fragmentos ou esférulas plásticas. Mesmo em baixas quantidades os plásticos ingeridos são perigosos porque obstruem o aparelho digestivo, causam lesões no estômago e liberam compostos tóxicos. Pesticidas e muitos outros contaminantes químicos são apolares, por isso eles tendem a se associar a fragmentos plásticos. Recentemente, pesquisadores japoneses demonstraram que as concentrações de determinados pesticidas são cerca de 1 milhão de vezes maiores nas esférulas do que na água do mar, o que pode trazer sérias implicações para aves marinhas que ingerem esférulas plásticas. Portanto, quando os animais ingerem esses plásticos, eles não estão apenas comendo algo sem valor nutritivo, mas também quantidades significativas de contaminantes químicos.
Mas o efeito mais dramático da ingestão de plásticos é muito difícil de ser observado por cientistas. Aparelhos digestivos recheados de plásticos têm menor capacidade de assimilação de nutrientes oriundos dos alimentos verdadeiros. Consequentemente, as taxas de crescimento, as reservas energéticas, a chance de evitar predadores, e a capacidade de buscar alimento diminuem. Isso tudo diminui a probabilidade dos animais sobreviverem e pode, em longo prazo, causar o colapso de determinadas populações. Além disso existe um efeito cíclico e perverso: em um oceano com grande disponibilidade de plásticos, a atitude lógica de uma ave faminta e debilitada é exatamente ingerir o próximo plástico que cruzar seu caminho. O principal estudo brasileiro, liderado pelo biólogo Leandro Bugoni do Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental (Rio Grande, RS) e atualmente na Universidade de Glasgow (Escócia), avaliando a ingestão de plásticos por tartarugas apresentou resultados alarmantes: plásticos foram encontrados em 60% das carcaças de tartarugas recolhidas nas praias do Rio Grande do Sul. Isso foi considerado a maior taxa de incidência já registrada no mundo. Sacolas e cordas de plástico foram os tipos de materiais mais freqüentes. Pelo menos 13% das tartarugas morreram por ingerirem plásticos. Quantidades baixas (3 gramas) são suficientes para obstruirem completamente o trato digestivo de um animal juvenil.
A ingestão de plásticos está relacionada aos hábitos alimentares das tartarugas. As espécies que não perseguem suas presas, como a Tartaruga-Verde, estão mais sujeitas a ingestão. A Tartaruga-de-Couro, que se alimenta principalmente de águas-vivas, também é bastante ameaçada. Na França, por exemplo, foi comprovado que o principal fator de mortalidade de Tartarugas-de-Couro é a ingestão de plástico. A captura acidental pelas redes de pesca foi considerada um fator secundário. O maior problema talvez esteja relacionado ao fato de que, por motivo desconhecido, as tartarugas fêmeas são mais propensas a ingerir plásticos.
Avaliações sistemáticas da presença de plásticos no litoral brasileiro ainda são muito escassas e por isso ainda não temos como saber a extensão real desse impacto. Apesar disso, as grandes taxas de mortalidade de animais marinhos causada por plásticos demonstram que as ações conservacionistas devem focar a redução dos níveis de poluição. É espantoso observar que o aumento da produção mundial de plásticos nos últimos 40 anos seja uma ameaça a animais como as tartarugas marinhas. Elas habitam o planeta há mais de 100 milhões de anos e sobreviveram aos períodos geológicos dominados pelos dinossauros, quando predadores aquáticos gigantes eram abundantes. Apesar de sua longa história evolutiva e ocorrência em todos os mares tropicais e subtropicais, as tartarugas marinhas estão hoje em perigo de extinção.
Embora plásticos hoje sejam tão comuns no cotidiano de animais marinhos quanto o fastfood é parte da vida urbana, existe uma diferença singular entre eles: as pessoas se tornam obesas; os animais marinhos perdem suas reservas de energia. A alimentação humana é uma decisão consciente, com implicações geralmente individuais. Por outro lado, os animais não sabem diferenciar o joio do trigo. Enquanto plásticos estiverem à disposição dos animais marinhos, eles seguirão sofrendo as conseqüências dessa forma de poluição.
A solução passa primeiramente por um maior reconhecimento do problema e aplicação rígida das leis ambientais. Mas o mais importante é com certeza excluir o fastfood do cardápio da fauna marinha através de educação ambiental da população. As pessoas devem ser informadas que pequenas ações individuais podem trazer consequências letais. Usar menos plásticos, reaproveitá-los e colocá-los no local adequado são conceitos que podem ser melhor difundidos. Ou seria mais fácil ensinar aves e tartarugas a não comerem plásticos?
* Isaac Rodrigues Santos é pesquisador e doutorando do Departamento de Oceanografia da Universidade do Estado da Flórida, Estados Unidos. Há seis anos trabalha com poluição marinha.