Carlos Secchin*
07 de Dezembro de 2005
No mar, em dezembro, um nadador atento pode observar diferentes organismos marinhos no litoral da zona sul do Rio de Janeiro. A monotonia imposta pela brancura dos azulejos de uma piscina, no vaivém de cada 50 metros, pode ser quebrada pela ausência de raias e bordas, pela profundidade variada e pela escolha de se nadar contra ou a favor da corrente. Que tipo de óculos usar: o de natação ou máscara de mergulho? A diferença entre eles pode definir uma travessia cheia de novidades ou uma incômoda, embaçada e apertada visão do fundo do mar.
Ao contrário dos óculos de natação, as máscaras de mergulho evoluíram muito e tornaram-se pequenas. Vestem e moldam-se perfeitamente a diferentes tamanhos e formatos de rosto. Diminuíram, acentuadamente, o volume de ar da câmera ocular. Com menos ar, a pressão interna da máscara, no rosto, ficou menor, como também ficou a possibilidade de desencaixe que resultava em inundação. Com os movimentos ritmados, o nadador que vira a cabeça de um lado para o outro, para a pegada do ar, vai continuar com ela firme, presa ao rosto e com a vantagem de ter uma visão tão nítida como a de um mergulhador de caça.
Um nadador de longas distâncias pode diminuir o fastio observando, com atenção, os eventuais animais que planam ou caminham abaixo, sobre o fundo de areia. Pode também se antecipar, desviando-se dos perigosos e compridos filamentos das medusas. Quem já levou uma “queimada” de uma caravela, jamais esquece. Eu mesmo já levei, e posso dizer que a sensação é parecida com a de um fósforo sendo riscado sobre a pele. As medusas, graciosas e delicadas criaturas, podem ou não ter mecanismos que reagem ao toque de nossas extremidades. É aconselhável se afastar delas e, dependendo da quantidade dessa estrutura gelatinosa flutuante, até sair da água.
A maioria dos seres marinhos que percebemos ou os que eventualmente nos seguem, é indefesa e inofensiva. Mesmo as grandes arraias borboletas e violas, que nessa época do ano chegam para desovar no raso, se assustam com o som de nossas braçadas. Algumas espécies menos, porque permanecem semi-enterradas, como é o caso dos linguados, peixes - lagarto e siris. São mais perceptíveis aos olhos do nadador atento quando elas se mexem e trocam de posição, saindo daqui e indo se enterrar, adiante.
No entanto, peixes como o papa-terra, o canguá, o filhote de marimbá e o galhudo, só para citar alguns comuns do bairro de Ipanema, preferem nadar embolados com as areias suspensas pelas ondas quebradas. São visíveis também na faixa rasa onde as ondas levantam, e por onde, também, muitos nadadores preferem passar.

Grandes cardumes de tainha (foto), sardinhas e filhotes de carangídeos - xaréus e mulatinhas - nadam à meia água, próximos da superfície. Gaivotas, como o atobá ou mergulhão, patrulham e se atiram do alto para apanhar os peixes que estão quase ao alcance de nossas braçadas. Vale um intervalo para assistir o ataque no plano abaixo da superfície: o som do impacto e o rastro de bolhas de ar na água com a emersão da ave com a presa no bico.
Algumas espécies de peixes são naturalmente velozes, principalmente quando em fuga do ataque de predadores. Executam manobras conjuntas que criam um efeito luminoso, semelhante ao disparo de flash um fotográfico, que é o rebatimento momentâneo da luz do sol sobre as escamas cor de prata.
Como, invariavelmente nos deslocamos, olhando mais em direção à areia do fundo, não raro achamos objetos e dinheiro: cédulas de vários valores, relógios de grife, colares de bijuteria fajuta, pulseiras ordinárias, moedas e cordões de ouro, muito recorrentes sobre o leito do trecho entre a Rua Garcia D’ávila e o Country Club.
Nadar é bom. No mar, menos monótono e mais instrutivo. Com sorte, a alegria de voltar para casa com o bolso cheio de lembranças e uma boa história para contar. Nada mal, no último mês do ano, um banho salgado de descarrego e agrados de Iemanjá.
*Carlos Secchin é fotógrafo e mergulhador, nada atrás das belezas de uma outrora maravilhosa cidade que submergiu na desesperança e no medo.