Sempre uma nova opinião.


É primavera no Brasil. Estamos na Bahia. Faz calor, muito calor. Estamos viajando há dois dias. Saímos de São Paulo com duas mochilas cada. Além de roupas e muita expectativa, trouxemos equipamentos para registrar aspectos sustentáveis durante nossa estadia. Também portamos um painel solar flexível acompanhado de uma bateria litium de 12 volts, no caso da falta de energia elétrica.

Tomamos um ferry-boat de Salvador a Bom Despacho. De lá, foram 170km de ônibus até Camamu. Entre estradas de terra e de asfalto, mais 50km. Desembarcamos em uma pequena vila chamada Caubi. Era noite e águardávamos nossa carona na praça da vila agrupados por moradores locais bem acolhedores. Nossos anfitriões chegaram e nos levaram ao nosso destino. Pouco depois, estávamos dormindo confortavelmente no que seria nossa casa pelos próximos dias: Ecovila Piracanga.

Acordamos com o nascer do sol e o canto afinado dos pássaros. Da porta de entrada avistávamos um pequeno rio seguido pelo imenso mar. Piracanga compõe um cenário paradisíaco entre o azul celeste do oceano e as bromélias verdes e amarelas da Mata Atlântica – um lugar onde os elementos da natureza convivem entre si em perfeita harmonia.



Comum Unidade

Piracanga integra culturas de mais de 20 nacionalidades e é um centro dedicado ao desenvolvimento humano e a conscientização da natureza. A prática do consenso, o respeito a individualidade e a celebração a diversidade auxiliam a vida em comunidade.

Para viver em comum unidade, os moradores de Piracanga criaram uma política social e ecológica. Eles se comprometeram em não ocupar mais de 10% dos 85 hectares para edificar suas casas e não construir cercas a fim de promover o lado social e a vida ao ar livre.



Outras medidas ecológicas também foram adotadas como o uso de materiais alternativos para construção habitacional, energias renováveis, tratamento de esgoto sanitário ecologicamente correto, reaproveitamento da água e reciclagem de matérias orgânicas e inorgânicas.

Clique aqui para saber mais!



Durante os dias que convivemos com a comunidade, desfrutamos e compartilhamos conhecimentos, plantamos e reflorestamos vegetais, plantas medicinais e árvores na Mata Atlântica. Nos saciamos de uma rica comida vegetariana, vimos diferentes tipos de técnicas utilizadas em eco-construção, observamos o tratamento das águas negra e cinza, fomos a escola e mais – nos integramos no estilo de vida da ecovila e participamos das suas atividades diárias enquanto documentávamos aspectos realmente sustentáveis. 

Antes de começarmos a contribuir com o projeto, fomos guiados em um tour por Ragi, jovem de 19 anos, que se tornaría nosso guia, tutor, mentor e amigo durante a maior parte do nosso tempo na ecovila. Não foi difícil nos inspirar – tamanha beleza que nos rodeava –, enquanto explorávamos cada metro quadrado. Todo coqueiro, planta e pássaro tinha a sua cor e seu próprio encanto, adicionados pela essência natural da visão humana de Piracanga.

Para aproveitar cada dia, acordávamos com o nascer do sol e dormíamos quando a lua e as estrelas davam o ar de suas graças. Não precisávamos de alarme pois a sinfonia da natureza se encarregava de nos despertar. Quando estávamos com calor, nos banhávamos no mar e tirávamos o sal dos nossos corpos no rio. Quando tínhamos sede, trepávamos num coqueiro e nos saciávamos da sua água fresca.

Uma conclusão então já podia ser tomada: tínhamos a certeza de estar mais pertos do paraíso.

Mãos a Obra



Eram seis da manhã do nosso segundo dia. Com nossa roupa de trabalho (bermuda, camiseta, chapéu e chinelo), nossa primeira missão foi edificar uma horta reciclando e reaproveitando os materiais disponíveis no local . Como o solo era arenoso e infértil, fizemos uma estrutura de madeira de dois palmos de altura e a recheamos com terra da Mata Atlântica misturada com matérias orgânicas (folhagem), composta de alimentos e cascas de coco. Aos poucos, nossa horta ganhava forma com a mesma calma e tranquilidade dos baianos.



Assim que começamos a colaborar com a construção da horta, fomos adicionados por Estevan, um venezuelano que viajava pelo Brasil com sua noiva, a argentina Catalina. Outro visitante também aparecia constantemente. Seu nome é Treck, um colorido papagaio, que voava diretamente sobre as nossas cabeças, ombros e chapéus sem pedir licença.

Estrutura terminada, chegara a hora de colocar os postes usados como suporte para o telhado. Feito com folhas de coqueiros, o próprio telhado também se transformaria em matéria orgânica depois de alguns meses – mas não antes de proteger as sementes e vegetais que transplantamos na nossa horta.



Algumas horas mais tarde, já acostumados aos métodos de pouso do estabanado Treck, havíamos cumprido nossa missão e estávamos prontos para um mergulho no mar. O que eu não esperava era também ter conseguido alcançar um outro feito: obter uma gigantesca bolha no meu dedão direito – típico de garota da cidade manejando ferramentas de jardinagem pela primeira vez.

No dia seguinte…

Foi a vez de aprender sobre um outro tipo de material natural usado localmente na construção de telhados: a piaçava. A piaçava é uma fibra resistente extraída da Palmeira Piaçava (Attalea funifera) – encontrada em abundância na região. Além de tetos, o material também é comumente utilizado na fabricação de vassouras.



Conhecemos Pedro. O colar de conchas brancas contrastava a pele negra de seu peito nu. Enquanto trançava a piaçava na estrutura de madeira, nos contava sobre a qualidade do material. Dependendo da estrutura, o teto de piaçava pode durar 20 anos. Para não ser castigado pelo sol ou correr risco de incêndio e aumentar o fator prova d’água, a piaçava leva uma camada de resina em suas fibras.

Não há questionamento sobre a qualidade e resistência da piaçava. Mas, devido a extração exacerbada do material anos atrás na região, reflorestar a Mata Atlântica se tornou medida de primeira instância em Piracanga. Liderados por Ragi, nós fomos até a área atingida pelo desmatamento. A idéia era de reflorestar a região com árvores frutíferas, plantas nativas e outras provindas da floresta local.



Começamos por plantar variedades de alimentos pequenos como a mandioca, abacaxi e banana. Depois de algum tempo essas raízes e árvores frutíferas começarão a produzir sombra suficientes para serem plantadas árvores maiores que necessitam mais água e são menos resistentes ao sol.

Durante nossa convivência com a comunidade, nós percebemos que não são apenas as pequenas árvores que necessitam atenção especial. Piracanga está cheia de outros pequenos que recebem o respeito que merecem.

ABC Experimental

Ao entrar na escola comunitária, imediatamente notamos sobre as mesas alguns jogos sensoriais, blocos para construir e tintas para pintar. Até então, parecia tratar-se de uma escola convencional. Mas ao observar um pouco mais de perto, percebemos as diferenças. A distinção não estava nos objetos, mas na maneira de ensinar.

Passamos a tarde com Margarita, a professora equatoriana convidada por Piracanga a implementar um sistema de educação familiar em seu país: a escola livre experimental, baseada na Fundação Educacional Pestalozzi. O que parece ser algo inovador, na verdade começa a voltar as suas origens. O pedagogo suíço, Joham Heinrich Pestalozzi (1746-1827), costumava dizer que “o papel do educador é o de ensinar crianças, e não matérias”. Pestalozzi enfatizava que todo aspecto da vida da criança contribui para a formação da sua personalidade, carater e razão.



E é esse o propósito da Escola Livre . Segundo Margarita, o conceito da escola é baseado na decisão da criança. É ela quem decide o que quer aprender. Os professores são os facilitadores e estão a volta para preparar o ambiente de acordo com as necessidades da criança, respeitando a sua individualidade. “A melhor maneira de respeitar a criança é não direcioná-la. Ela decide o que fazer e nós encorajamos a sua decisão”, diz Margarita. E aconselha: “Nós, adultos, devemos mudar nossas maneiras a começar pelo respeito a criança. Dessa maneira, respeitaremos também a criança que existe dentro de nós”.

Nós seguimos o conselho de Margarita a risca, e pelo resto do nosso tempo em Piracanga libertamos a criança que existe dentro de nós.

* Renata Freitas é parte do projeto EarthCode que viaja ao redor do mundo em busca de comunidades que vivam com sustentabilidade
O Eco
Copyright © 2004-2012
Todos os direitos reservados

Quem Somos
((o))eco e ((o)) eco Amazonia são feitos pela Associação O Eco, uma organização brasileira que se preza por não ter fins lucrativos nem vinculação com partidos políticos, empresas ou qualquer tipo de grupo de interesse. Leia mais.