João Batista Santafé Aguiar *

John
Adrian Cowell faleceu esta semana em sua casa em Londres, enquanto dormia. Foi um nome muito presente e mal-falado pelos corredores palacianos de Brasília, pelos que fizeram a política indigenista brasileira e promoveram a atabalhoada ocupação da Amazônia. Como todo bom jornalista, raramente se permitia falar de si em entrevistas. O seu trabalho mostrou ao mundo, principalmente a partir da TV inglesa, as políticas de destruição em massa das culturas indígenas e caboclas e da floresta executadas com tenacidade rigorosa pelo Brasil nos últimos 50 anos. Influenciou mudanças de critérios de empréstimos ou de cessão de recursos a fundo perdido para grandes projetos para a região. Difundiu a vida dos seringueiros do Acre, tornando Chico Mendes uma figura pública e internacional. Sua obra é muito maior do que poucas linhas poderão descrever. Aliás, há outros brasileiros bem mais aptos do que eu para tanto.
| "As gerações atuais não têm muita idéia de como o processo se desenvolveu na Amazônia a partir das conclusões dos generais no poder de que o território seria garantido ao Brasil apenas pela sua ocupação pelo homem ´civilizado." |
Já nas décadas de 60 e 70 acompanhou as primeiras incursões dos irmãos Villas-Boas na busca de contatos com tribos isoladas. Com alguns intervalos, quando produziu documentários sobre a questão do ópio na Birmânia, continuou a acompanhar a questão amazônica e a produzir documentários até falecer. Conheci Cowell por meio de José Lutzenberger, a quem acompanhava na militância ambientalista e na década de 80.
O Lutz ficou grandemente impressionado com o trabalho de Cowell e se propôs a auxiliá-lo a relatar o processo de ocupação do oeste brasileiro efetivado em grande parte pelo migrante do Rio Grande do Sul. As gerações atuais não têm muita idéia de como o processo se desenvolveu a partir das conclusões dos generais no poder de que o território seria garantido ao Brasil apenas pela sua ocupação pelo homem ´civilizado´ (como se terras de ninguém fossem) e a destruição inevitável dos habitats dos caboclos e indígenas. A promoção da migração interna ainda resolvia por algum tempo os clamores pela reforma agrária.
Em um determinado momento, Cowell, assim como as lideranças dos seringais e os defensores dos índios, percebeu que a luta seria melhor entendida pela opinião pública mundial, e pelos mecanismos de financiamento dos grandes projetos de ´desenvolvimento da região´, se fosse agregada à questão ´humana´, a questão climática e a destruição em grande escala da floresta. Foi neste contexto produzida a série "Década da Destruição" já contando com a participação dos principais cientistas do clima e do ecologista Lutzenberger e depois transformada em livro. Dessa colaboração entre Lutzenberger e Cowell, nasceu o filme ´Nas Cinzas da Floresta`, que integra a série. A ´Década ..´ conta em imagens da ocupação desastrosa com consequências diretas às populações nativas e possui cenas antológicas como a que um coronel do Exército assume o recém-criado Estado de Rondônia.
 |
Cowell esteve em Porto Alegre diversas vezes. Detalhista, acompanhou pessoalmente uma versão brasileira do episódio Nas Cinzas da Floresta operacionalizada na PUC de Porto Alegre em que servi de ponte e produtor local. Anos depois, em 1995, eu e minha esposa estivemos no interior da Inglaterra aperfeiçoando, por algumas semanas, o domínio do inglês e Adrian nos recebeu maravilhosamente em sua residência em Londres. A casa tradicional inglesa com porão, térreo e mais dois andares e jardim. No porão, uma visão impressionante do que hoje deve estar em Goiânia - centenas de caixas de filmes, alguns pendurados no teto. O acervo de sete toneladas dos seus filmes realizados no Brasi foram trazidos para cá e colocados à disposição dos interessados pelos visionários companheiros de Adrian da Universidade Católica de Goiás, instituição que, entre outras, viabilizou localmente o trabalho do documentarista britânico.
Guardo excelentes recordações da última vez que esteve em Porto Alegre, em 2007, para a principal palestra do 2º Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, organizado pelo Núcleo de Ecojornalistas do RS, quando me coube acompanhá-lo aos principais compromissos. A sua aula magna foi digna de um grande diretor de cinema engajado - mostrou cenas escolhidas de seus filmes para passar a importância do aprofundamento dos jornalistas nas causas antrópicas das mudanças climáticas para melhor cobertura dos fatos que viriam a acontecer. Será que estamos fazendo a nossa parte ? Obrigado, Adrian Cowell.
*João Batista Santafé Aguiar é jornalista gaúcho. Mantém programa sobre questões ambientais na radio Ipanema Comunitaria de Porto Alegre - www.ipanemacomunitaria.com.br
Leia também
Uma história do homem da floresta