Renata Freitas*

Antes de embarcarmos em uma aventura convivendo com comunidades sustentáveis espalhadas pelo Brasil e outros países da América do Sul, paramos, olhamos ao nosso redor e a realidade podia ser vista ali mesmo, nas ruas e esquinas da cidade de São Paulo.
A maior metrópole das Américas ultrapassou a marca dos 11 milhões de habitantes e, com tantos consumidores, o resultado não poderia ser diferente: a cidade produz cerca de 9.500 toneladas de lixo doméstico por dia. Quanto desse total é reciclado? Meros 1,2%.
De acordo com o departamento de limpeza urbana da capital paulista, Limpurb, somente 7% de todo o material reciclável é coletado. Uma vergonha! Em numeros, pouco mais de 40 mil toneladas ao ano.
Mas, nem tudo parece perdido. A comunidade Parque do Gato, localizada no centro da capital paulista, é tida como ponto de referência em reciclagem na cidade.
Juntamente com autoridades locais, o material reciclável é coletado por carroceiros nas ruas do centro expandido de São Paulo. Plástico, papelão, ferro e papel são alguns dos resíduos encontrados.
De acordo com o diretor da ARPAGA, Associação dos Recicladores do Parque do Gato, Jurandir Inácio, a quantidade de material reciclado coletado pelos carroceiros gira em torno de 300 toneladas por mês, tendo o papelão como o item mais comum. “Além do papelão”, ele diz, “os materiais mais coletados são: plástico, ferro, papel fichário e papel higiênico”.
Com relação ao preço pago por material, Jurandir diz que “isso varia dependendo do peso e valor do produto”.?Conhecido como ‘Robô’, Adalberto, que já puxou carroça e hoje trabalha internamente na associação, dá mais detalhes: “Se o catador trabalha sozinho, ele ou ela recebe cerca de R$ 800,00 por mês. O carroceiro que trabalha com a família toda chega a receber R$ 3.000,00 por mês”.
Parece um bom salário? Para entender melhor a rotina de um carroceiro e os desafios dessa profissão, nos decidimos vivenciar uma experiência mais real da situação. Para isso, nos propusemos a passar um dia todo trabalhando ao lado de um dos catadores da comunidade.?
Cantando na Chuva
Durante nossas visitas a ARPAGA, conhecemos Luis de Lima e Silva, carroceiro de 51 anos de idade, vindo de Limoeiro, Pernambuco.
Luis prontamente aceitou nossa proposta de passar um dia todo trabalhando ao seu lado para acompanhar o processo de coletar, separar e pesar o lixo que, naquele estado, já não era mais lixo. Tudo combinado, desbravaríamos as ruas de São Paulo no dia seguinte.
Chegamos cedo. Sete em ponto. Luis veio logo atrás com sua carroça vazia. Prontos para partir, ele fez o sinal da cruz sobre seu peito e saímos da associação dos recicladores com destino ao posto de gasolina. Depois de calibrar os pneus estávamos prontos para encarar um dia de tráfego pesado em meio a uma poluição exagerada causada pela fumaça dos veículos motorizados e, ao mesmo tempo, coletar todo o material reciclável que podiamos encontrar pela frente.
Era uma manhã nublada. Chuviscos inconstantes caíam regularmente sobre nos. Mesmo assim, Luis se mostrava motivado para o trabalho. “Eu faço meu horário. Se eu não trabalho, não ganho dinheiro. Essa é uma questão de sobrevivência”, disse.
Nos levou 5 horas para encher a primeira carroça. Voltamos ao centro de reciclagem, pesamos os diferentes tipos de materiais que coletamos, esperamos em fila para que Luis fosse pago e saímos novamente para as ruas. Não estávamos preparados tampouco imaginávamos o esforço físico que precisaríamos para puxar uma carroça e, quando chegou o segundo round tivemos que vencer a barreira da dor que o nosso corpo havia criado.
Antes de sairmos pela tarde, conhecemos outro carroceiro – o senhor José Paulinho Medeiro Filho, possivelmente o mais velho catador da associação. Com 77 anos de idade, José continua trabalhando duro. “Ainda não me aposentei. Eu gosto de trabalhar e vou continuar até completar 80. Depois arrumo outras coisinhas para fazer. Deus é quem sabe!”, nos contou.
De volta as ruas com Luis, entre uma palavra e outra, nos descobrimos que nosso carroceiro falador estava ficando mais velho naquela mesma tarde chuvosa. Comemoramos seu aniversário de 52 anos na hora do almoço, cantando ‘parabéns a você’ e compartilhando uma comida simples, porém nutritiva, no seu restaurante predileto.
Ao final do segundo round, havíamos atraído olhares curiosos de transeuntes que cruzavam nossa maratona, percorrida em 20km. Com tempo recorde de oito horas, coletamos exatamente 274kg de papelão e 27kg de plástico nas ruas de São Paulo – um total de R$ 54,40 e pouco mais de 300kg de lixo a menos na cidade.
Nosso turno de trabalho estava chegando ao fim. Com pernas bambas e meias ainda molhadas pela chuva, voltamos para casa. Mas Luis decidiu sair para uma ultima volta antes de terminar sua jornada diária de trabalho.
Um entre os mais de 20 mil carroceiros da cidade de São Paulo, Luis é exemplo clássico de alguém que se levanta todos os dias para, mesmo que por meio de sobrevivência, contribuir para deixar o seu legado sustentável na Terra.
Quick Quiz
E você? Está fazendo o quê? Qual o destino do seu lixo inorgânico?
1.Separo material reciclado para carroceiros
2.Levo material reciclado a centros de reciclagem
3.Caminhões de lixo reciclável coletam meu lixo
4.Não separo o meu lixo reciclável
Material |
Comprado pela ARPAGA dos carroceiros $$$/kg |
Vendido a empresas de reciclagem $$$/kg |
| Plastico |
R$ 1,00 |
R$ 1,20 |
| Papel A4 |
R$ 0,30 |
R$ 0,35 |
| Ferro misto |
R$ 0,15 |
R$ 0,19 |
| Papelão |
R$ 0,10 |
R$ 0,12 |
| Papel Higiênico |
R$ 0,10 |
R$ 0,12 |
| Jornais & Revistas |
R$ 0,02 |
R$ 0,04 |
Vídeo
* Renata Freitas é parte do time Earth Code
Fotos: EarthCode.org