Colapso econômico ou ambiental? PDF Imprimir E-mail
Carlos Gabaglia Penna   
27/11/2008, 10:00
A profunda crise financeira que atormenta o mundo e que começa a atingir o sistema produtivo, chamado de economia real, é vista como uma tragédia. Sem dúvida, os efeitos dela poderão ser devastadores. Qualquer recessão é visto como um caos, afinal, o sistema econômico global é baseado no crescimento permanente. Quanto maior, melhor. Essa é mentalidade (ainda) reinante no mundo.

As manchetes são assustadoras: “Crise reduz compras no exterior em até US$ 9 bi”; “Recessão se espalha e atinge a Europa inteira” (ambas de O Globo). Nesta segunda manchete, o jornal informa que “a Economia dos países da zona do Euro encolheu 0,2% no trimestre”. No mundo inteiro, as declarações de economistas, empresários e políticos tem sempre esse mesmo teor soturno.

Sem dúvida, a situação é bastante grave. Mas, vou fazer uma pequena análise sobre a recessão européia. Em 2006, o europeu médio teve, segundo o Banco Mundial, uma renda per capita de R$ 51.372 no ano, ou R$ 4.281 por mês (em moeda corrente, com o dólar a R$ 2,276). A recessão significa que cada cidadão deixará de receber, em média, R$ 103 por ano, ou 8,6 reais por mês. Se esse queda atingir, digamos, 5%, cada europeu receberá apenas 4.067 reais por mês. Uma família típica de quatro pessoas terá uma renda mensal de 16.268 reais. Será isso um catástrofe?

Sei bem que o problema não se resume a essa queda de renda pessoal. Afinal, segundo todos os especialistas, somente a expansão da economia pode assegurar aumento na oferta de empregos. Parece claro que recessão gera desemprego. No entanto, muito mais que retração econômica, o que realmente está acabando com os empregos são a mecanização, a informatização, a reengenharia e outras iniciativas destinadas a aumentar o lucro e a competitividade das empresas.

Quem realmente está preocupado com emprego? Esta palavra, das mais prostituídas em todas as línguas, é repetida nauseabundamente por políticos em campanha e por empresários, sempre que seus projetos danosos encontram resistência. Nesses momentos, os homens de negócios e os governantes assumem um ar messiânico de quem só age em função de garantir o emprego das massas...

Em 2007, de acordo com a CIA (The World Factbook), a taxa de desemprego no mundo era de 30%. Entre 2000 e 2006, a economia mundial cresceu 52%, em dólares corrigidos (Banco Mundial). Está cada vez mais óbvia a dissociação entre crescimento da economia e oferta de empregos. A Economia virou uma abstração, um fim em si mesmo. Persegue-se indicadores econômicos que não retratam a realidade de justiça social e de bem-estar das populações. Para economistas e industriais, o consumo de bens materiais é o único aspecto realmente importante.

Um dos caminhos arduamente defendidos, no Brasil e no mundo, para se evitar o agravamento da crise é o estímulo ao consumo de qualquer coisa, inclusive – e, talvez, principalmente – de automóveis. Essa é sem dúvida uma visão obtusa da realidade do mundo. O automóvel atravanca as ruas das grandes cidades – onde, em boa parte do dia, a velocidade média do tráfego é inferior à de uma bicicleta - e desperdiça petróleo, poluindo o ar, aumentando os casos de doenças respiratórias e contribuindo para o sério problema de mudanças climáticas.

Uma expressiva parcela do uso de carros é fútil e desnecessária. O automóvel é muito usado como exibição de (pseudo) riqueza, como um tolo símbolo de status. O que é realmente necessário é investir-se maciçamente em transporte de massa, intra e intermunicipais, de preferência em metrô e trens, além de se dificultar a utilização de veículos privados.

A Economia é uma invenção humana, não um sistema natural. Ela é um sub-sistema do sistema Terra. Se este – com seus recursos naturais e sua capacidade de processar rejeitos – não cresce, como um de seus sub-sistemas pode crescer indefinidamente?

Dados científicos e factuais comprovam que a crise realmente séria, pela qual passa a civilização humana, é a do meio ambiente. Apesar do extraordinário aumento da participação social, de diversos segmentos, nas questões ambientais e dos progressos tecnológicos e avanços nas legislações pertinentes, a realidade mostra uma lamentável aceleração na erosão de variados componentes do ambiente natural.

Os problemas ambientais são todos interligados, da mesma forma que os econômicos e sociais. A sinergia do aumento populacional com o do consumo de bens e serviços gera uma série de impactos no meio ambiente, desde poluição em centros urbanos e industriais, com crescentes reflexos na saúde pública, degradação de áreas de mineração, redução das reservas de recursos não renováveis, erosão acelerada do solo, poluição e diminuição na oferta de água de qualidade, pesca predatória, desmatamento, aumento de doenças infecto-contagiosas em virtude da destruição de ecossistemas nativos e muitos outros.

A erosão biológica é assustadora. A extinção de espécies, de todos os filos e reinos, continua em um ritmo de 100 a 1.000 vezes maior do que a taxa natural. Pelo menos um quarto (talvez 36%, segundo a Conservation International) dos quase 5.500 mamíferos do planeta está ameaçado de ser varrido da face da Terra, de acordo com a IUCN (International Union for Conservation of Nature). Um terço das barreiras de corais do mundo encontra-se ameaçado de extinção.

Entre 1996/1998 e 2008, a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN mostra um aumento - no somatório de 3 categorias - de 10% no número de espécies ameaçadas de aves, de 59% no de plantas e de 1.436% no de anfíbios! É verdade que uma parcela das espécies não tinha sido avaliada há 10 anos, mas, seja como for, esses números indicam uma insofismável elevação dos danos à biodiversidade. A Avaliação Ecossistêmica do Milênio, desenvolvida pela ONU no início deste século, afirma que “quase dois terços dos serviços oferecidos pela natureza à humanidade estão em rápido declínio em todo o mundo. Na realidade, os benefícios colhidos de nossa engenharia do planeta exauriram o capital natural da Terra”.

É indiscutível que a Economia é totalmente submissa aos recursos do planeta, embora tal obviedade pareça não ser enxergada por uma expressiva parcela da sociedade (por vezes, essa constatação parece-me mais verdadeira entre as classes mais altas. Como não se trata apenas de ignorância, cabe perguntar se isso não é simplesmente decorrência da defesa mesquinha de seus interesses). Ora, se as atividades econômicas desejam sobreviver, elas precisam mudar o foco de seus investimentos.

Projetos ambientais possuem alta demanda de mão-de-obra, preservam o ambiente natural, geram riqueza e garantem a qualidade de vida das populações. Melhor do que estimular o consumo frenético de bens supérfluos e ícones tolos de sucesso, a economia mundial será duradoura na medida em que investir em negócios de baixo impacto e de proteção ambiental.

Atividades como controle de poluição, nas suas variadas formas, reflorestamento e recuperação de áreas degradadas, preferencialmente com restauração dos ecossistemas nativos, gestão de resíduos sólidos (compostagem, reciclagem e aterros sanitários com recuperação de gases do efeito estufa), agricultura orgânica e exploração de fontes renováveis de energia são alguns exemplos de atividades que produzem renda e empregos de forma perene.

A produção de energia por gás natural e carvão, por exemplo, cria cerca de 100 empregos por megawatts/ano, enquanto que a eólica pode atingir até 1.200 empregos por megawatts/ano e, a solar, cerca de 2.000 empregos pela mesma unidade de energia produzida.

Os caminhos de mudanças para uma economia sustentável estão ao nosso alcance, protegendo o meio ambiente e oferecendo um número elevado de empregos. Tais mudanças demandarão sacrifícios e adaptações penosas, mas vale a pena. Não há alternativa. Resta saber se a humanidade assim o deseja...
Comentários
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Como ser otimista???
Ocelote 30/11/2008 07:05:32

Parabéns Gabaglia por esta análise! Voce abordou muito bem aspectos-chave dos
problemas e dilemas pelos quais o planeta passa hoje: economia como um sistema
artificial, níveis de consumo em países ricos, população humana muito
grande, degradação da natureza nunca vista, e as ligações entre estes
fatores.
Talvez, o maior problema hoje, além da população humana muito acima
do que seria o "sustentável" no planeta (fala-sem em 2 a 3 bilhões de
pessoas, e já passamos dos 6 bilhões!), está a artificial dimensão
econmômica que, mesmo estando totalmente atrelada à natureza (biológica,
mineral, energética e hidrologicamente, não tem para onde correr!)ela domina
praticamente todas as situações de cisões em todos os países. Mas o aspecto
pior disso é que os economistas não entendem absolutamente que seu sistema
não funciona sem recursos naturais e não admitem que, como numa conta
bancária, recursos naturais devem ser bem administrados. Fala-se muito, mas na
prática a única meta é lucro otimizado. Reina ainda esta loucura de
crescimento econômico centrado no aspecto quantitativo. No Brasil, esta
falácia é utilizada até como filosofia de gestão. Aqui, de forma nenhuma se
aventa a possibilidade de não se fazer algo, que possa dar lucro a alguém,
apenas por questões ambientais e até sociais. Aqui defende-se o tal
"desenvolvimento", sem se levar em conta consequências em escalas
temporais mais longas. Estradas cortam aldeias indígenas sem neum pudor;
fazendeiros são defendidos em sua sanha de desmatar até o último arbusto em
vastíssimas áreas do país, incluindo nascentes e margens de mananciais (viva
nosso ministro performático e seus aliados que querem "amaciar" o
Código Florestal para alguns setores da economia!!); indústrias são
incentivadas no Pantanal, mesmo que seja evidente seu potencial destruidor e
poluidor; cana é preconizada para vastas áreas do país, mesmo quando ameaça
ecossistemas já em degradação evidente; cavernas são postas à venda na
esquina para que mineradoras e outras empresas possam legalmente destruí-las
(viva nosso ministro performático!!!); assentamentos humanos são distribuídos
a esmo, sem respeitar aspectos da paisagem e da hidrologia; hidroelétricas são
construídas apenas levando-se em conta seu potencial energético, fazendo-se
vistas grossas quanto aos seus impactos ambientais (viva nosso ministro
peformático!!!); tribunais ainda levam em conta apenas o papel e não o impacto
da produção de carvão no Pantanal (viva o tribunal que acaba de liberar a
produção de carvão na região!!!); fazendeiros ameaçam pegar em armas no MS
para defender terras e seu padrão de vida, e ainda dormem sem nem sequer pensar
na miséria coletiva, suicídios e degradação humama em todos os sentidos
observados entre os índios Guarani no MS (viva nossos Gersons e líderes da
idade da pedra!); terras agrícolas no Cerrados ainda são usadas até a
degradação, ao mesmo tempo que continuamos abrindo novas fronteiras, sem nos
conscientizar-mos que estamos lesando a segurança nacional nós
mesmos.......Cansei....

Enfim, argumento que sustentabilidade, tão
questionada pelo Fernando Fernandez, em artigo brilhante sob aspectos
ecológicos de cunho acadêmico, mas pouco práticos (nossas universidades ainda
não conseguiram sair da ecologia teórica para aplicada, que exige o componente
humano necessariamente, já que pessoas é que fazem tanto a conservação
quanto a destruição), esta sustentabilidade não é tão utópica assim.
Chegaremos lá, pelo bem ou pelo mal.
Acho que as pessoas vão aprender muito
sobre sustentabilidade, quando toda a crise ambiental, social, e sim, porque
não, econômica, se abater sobre o humanidade. A humanidade, infelizmente só
aprende através de traumas coletivos, quando aprende completamente. E, no caso
da sustentabilidade, ela só poderá realmente ser uma filosofia coletiva de
viver quando as pessoas estiverem profundamente conscientes, no seu dia a dia,
de sua total dependência dos recursos naturais e da natureza propiamente dita,
assim como se é consciente o tempo todo da dependência do dinheiro. É a
única possibilidade, e vai ser por trauma porque a conscientização, crescente
atualmente, é preciso admitir, é lenta e localizada em alguns bolsões. Não
haverá tempo para que se atinja o grosso da coletividade humana. Então o
trauma, a catástrofe, a catarse coletiva é que vai ensinar, seja via mudança
climática global, seja por crise de água e de alimentos, seja por
empobreimento biológico do planeta, seja por tudo isso junto. Podem me chamr de
pessimista, mas me enquadro como realista (que é outra onda, diria o Caetano),
basta olhar para a história da humanidade......
Depois disso, não haverá
governante capaz de decidir imbecilidades por aí afora impunemente (haverá
governantes?). Não haverá um sistema econômico dissociado do resto do mundo
real (haverá economia?), e o tal "setor produtivo" terá que incorporar
a natureza como parceira chave, sócia majoritária que é da mega-empresa que
produz a vida.
O Brasil, por enquanto, vai na contramão, porque ainda é um
país de mentalidades limitadas, politicamente desestuturado, provinciano, e
dominado por elites Gersonianas e governantes comprometidos com o "setor
produtivo" ilusório.
Este país ainda não entende nada de
sustentabilidade....
Muitos outros também não....

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